Visão geral
Vladimir Vladimirovich Putin é o atual presidente da Rússia. Sua trajetória política é marcada por um longo período no poder, inicialmente como presidente, depois como primeiro-ministro e novamente como presidente. Ele é uma figura central na política russa e global, com suas ações e decisões tendo um impacto significativo nos assuntos internacionais. Sua gestão é caracterizada por uma postura inflexível, especialmente no conflito em curso na Ucrânia, onde mantém objetivos territoriais e políticos estratégicos apesar do elevado custo humano e econômico, contrastando com a abordagem mais variável de outros líderes globais na busca por saídas diplomáticas para conflitos prolongados.
Contexto e histórico
Putin assumiu a presidência da Rússia pela primeira vez em 2000, após ter atuado como primeiro-ministro. Sua liderança tem sido caracterizada por uma centralização do poder, reformas econômicas e uma postura assertiva na política externa. Ele é frequentemente visto como uma figura que restaurou a estabilidade e o prestígio da Rússia após o período pós-soviético. O conflito na Ucrânia, iniciado em fevereiro de 2022 com a invasão das tropas russas, tem sido um ponto central de sua política externa, gerando esforços diplomáticos internacionais. Putin mantém uma postura inflexível no conflito, insistindo na manutenção da pressão militar para alcançar objetivos territoriais e políticos, como impedir a expansão da OTAN, apesar do alto custo humano — estimado entre 350.000 e 450.000 baixas russas — e econômico. Essa obstinação contrasta com a abordagem de outros líderes globais, como Donald Trump, que demonstrou maior flexibilidade ao buscar diplomacia após campanhas militares. Para sustentar o esforço bélico, o governo russo tem sido acusado de coordenar redes de inteligência, como a 20ª Diretoria do GRU, para contornar sanções internacionais e adquirir componentes de alta tecnologia, incluindo semicondutores e microchips, em países como o Japão. Em 2024, como parte de seus esforços para promover a Rússia como um bastião de valores tradicionais em oposição ao que classifica como declínio moral do Ocidente, Putin lançou o visto de "Valores Compartilhados". O programa permite que cidadãos de países considerados "hostis" obtenham residência temporária ao declararem alinhamento com os valores espirituais e morais russos, embora a iniciativa tenha enfrentado críticas e relatos de dificuldades de adaptação por parte de imigrantes que se sentiram atraídos por uma narrativa idealizada do país.
Linha do tempo
- 19 de dezembro de 2025: Realiza sua conferência de imprensa anual, abordando temas que vão desde a guerra na Ucrânia até perguntas inusitadas sobre alienígenas e a vida cotidiana dos russos. Durante o evento, mensagens críticas e sarcásticas sobre a situação econômica e política do país foram exibidas em um telão.
- 29 de dezembro de 2025: Volodimir Zelensky e Donald Trump se reúnem na Flórida para discutir garantias de segurança para a Ucrânia e um possível acordo de paz.
- 28 de junho de 2026: Em entrevista à imprensa estatal, Putin reafirma sua determinação em continuar o conflito na Ucrânia, descartando planos de salvar o regime de Kiev e mantendo a exigência de concessões territoriais e políticas, apesar do crescente desgaste econômico e do alto número de baixas militares russas.
- 13 de agosto de 2026: Visita a ilha de Iturup, no arquipélago das Curilas, na primeira viagem de um líder russo às ilhas reivindicadas pelo Japão. Tóquio convoca o embaixador russo para protestar.
- 18 a 20 de setembro de 2026: A Rússia realiza a primeira eleição parlamentar desde a invasão em larga escala da Ucrânia. O Rússia Unida conquista 355 das 450 cadeiras da Duma, e a votação é estendida pela primeira vez aos territórios ucranianos ocupados.
- 18 de setembro de 2026: O Kremlin anuncia que os ativos da Nestlé, da Auchan e da Lemana Pro foram transferidos para a gestão da empresa russa LEV Management, por decreto assinado por Putin no dia anterior.
- 19 de setembro de 2026: Kirill Dmitriev, responsável pela área de investimentos do governo russo, publica mensagem sugerindo cooperação com o partido alemão AfD e o retorno do gás do Nord Stream.
- 20 de setembro de 2026: No último dia de votação, a Ucrânia lança mais de mil drones contra a Rússia, centenas deles na região de Moscou; três pessoas morrem no que o prefeito Sergei Sobyanin descreve como o maior ataque de drones já sofrido pela capital.
- 21 de setembro de 2026: O Rússia Unida informa a eleição de 49 participantes da guerra contra a Ucrânia para a Duma, cerca de 11% das cadeiras da Casa.
- Setembro de 2026: Segundo o presidente ucraniano Volodimir Zelensky, Putin ordena a seus comandantes militares que abandonem as restrições aos ataques aéreos contra a Ucrânia, com base em comunicações interceptadas pela inteligência de Kiev.
- 1º de outubro de 2026: No Fórum Valdai, em Moscou, Putin afirma que a Rússia usará "todas as armas" de seu arsenal se Kaliningrado ou outro território russo sofrer ataque direto, endossa o documento enviado à Otan dias antes ameaçando o uso de armas nucleares e acusa o Ocidente de erguer uma "nova Cortina de Ferro".
- 2 de outubro de 2026: O Financial Times publica entrevista em que Zelensky afirma que Putin disse a seus generais que "agora não há regras".
Principais atores
- Vladimir Putin: Presidente da Rússia, mantendo uma postura inflexível na guerra contra a Ucrânia, priorizando objetivos territoriais e políticos apesar do alto custo humano e econômico.
- Kristina: Cidadã que fez uma pergunta sobre alienígenas na conferência de imprensa.
- Kirill Bazhanov: Estudante de 23 anos que pediu a namorada em casamento durante a conferência.
- Roskomnadzor: Órgão regulador de comunicações da Rússia, criticado por bloqueios de plataformas.
- Rússia Unida: Partido governista russo, também alvo de críticas durante a conferência.
- Volodimir Zelensky: Presidente da Ucrânia, envolvido em negociações de paz e segurança.
- Donald Trump: Presidente dos EUA, que tem demonstrado maior flexibilidade diplomática em seus conflitos, contrastando com a obstinação de Putin.
- Maksim Vladimirovich Filchenkov: Oficial da inteligência militar russa (GRU) que, segundo agências de inteligência ocidentais, lidera a 20ª Diretoria em Tóquio para a aquisição de tecnologia sensível para a indústria bélica russa.
- Ella Pamfilova: Presidente da Comissão Eleitoral Central da Rússia, responsável por anunciar os resultados da eleição parlamentar de setembro de 2026.
- Yabloko: Partido liberal, única legenda registrada que criticava publicamente a guerra, retirada das listas partidárias pelo Supremo Tribunal russo em agosto de 2026.
- Sanae Takaichi: Primeira-ministra do Japão, que classificou como “absolutamente inaceitável” a visita de Putin às Curilas em agosto de 2026.
- Vladimir Yakushev: Secretário-geral do Rússia Unida, responsável por anunciar a eleição de 49 participantes da guerra contra a Ucrânia para a Duma em setembro de 2026.
- Dmitri Peskov: Porta-voz do Kremlin, que justificou a transferência de ativos de empresas ocidentais e afirmou que o resultado eleitoral mostrava a coesão da sociedade russa em torno de Putin.
- Kirill Dmitriev: Encarregado da área de investimentos do governo russo e ponto de contato do Kremlin com negociadores americanos sobre a Ucrânia; sugeriu cooperação com a AfD em setembro de 2026.
- Kaja Kallas: Alta representante da União Europeia para a política externa, que chamou a eleição parlamentar russa de mais um grande retrocesso para a democracia do país.
- Ramzan Kadyrov: Líder da Chechênia e aliado de Putin, reeleito em setembro de 2026 com mais de 99% dos votos.
- Sergei Sobyanin: Prefeito de Moscou, que descreveu o ataque ucraniano de 20 de setembro de 2026 como o maior já registrado contra a cidade.
- Mark Rutte: Secretário-geral da Otan, que respondeu à ameaça nuclear russa sobre Kaliningrado afirmando que a aliança é defensiva e que a mensagem do Kremlin "não é necessária nem útil".
- Garry Kasparov: Ex-campeão mundial de xadrez e opositor de Putin exilado nos Estados Unidos, que afirmou em outubro de 2026 ter sido alertado por serviços de segurança americanos e lituanos de que sua vida corria perigo.
Termos importantes
- Conferência de imprensa anual: Evento tradicional em que o presidente russo responde a perguntas da população e da mídia, frequentemente utilizado para demonstrar abertura e diálogo com os cidadãos.
- Linha Direta: Parte da conferência anual onde mensagens de texto enviadas pela população são exibidas, por vezes contendo críticas e comentários sarcásticos.
- Duma Estatal: Câmara baixa do parlamento russo, com 450 cadeiras — metade eleita por listas partidárias e metade em distritos de candidato único.
- Territórios do Norte / Curilas do Sul: Nomes dados no Japão e na Rússia ao mesmo grupo de quatro ilhas disputadas — Iturup (Etorofu), Kunashir (Kunashiri), Shikotan e Habomai.
- Operação militar especial: Designação oficial usada pelo governo russo para a guerra contra a Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.
- Kaliningrado: Exclave russo no Mar Báltico, entre a Polônia e a Lituânia, sede da principal base naval russa no Báltico e onde estão posicionados mísseis Iskander com capacidade nuclear.
- Clube Valdai: Centro de estudos próximo do Kremlin cujo fórum anual reúne especialistas estrangeiros em política externa e serve de palco para longos pronunciamentos de Putin.
- Gestão externa: Mecanismo pelo qual o Estado russo transfere ativos de empresas estrangeiras para administradores locais, aplicado por decreto presidencial a companhias de países classificados como não amigos.
Política de imigração e o visto de Valores Compartilhados
Em 2024, o governo de Vladimir Putin instituiu o chamado visto de Valores Compartilhados, uma iniciativa voltada a atrair cidadãos de 47 países classificados pela Rússia como "hostis". O programa concede residência temporária por até três anos a estrangeiros que declarem rejeição à "ideologia neoliberal destrutiva" de seus países de origem e alinhamento com os valores espirituais e morais tradicionais defendidos pelo Estado russo. Diferente de outros processos migratórios, o visto dispensa os solicitantes da comprovação de proficiência na língua russa ou conhecimentos de história e legislação nacional no momento da aplicação.
A estratégia integra um esforço mais amplo do governo para posicionar a Rússia como um bastião de conservadorismo e valores familiares frente ao que Putin descreve como o declínio moral do Ocidente. Apesar da promoção do país como um refúgio seguro, o programa não oferece suporte financeiro ou habitacional aos imigrantes, que devem arcar com taxas administrativas e passar por verificações de antecedentes. Até o outono de 2026, o governo reportou cerca de 3,4 mil solicitações, embora a verificação independente desses números seja limitada.
A experiência de estrangeiros que migraram sob essa premissa tem sido heterogênea. Enquanto alguns buscam o país por afinidade cultural ou religiosa, relatos de imigrantes apontam para um descompasso entre a narrativa idealizada pela propaganda estatal e a realidade cotidiana, marcada por dificuldades de adaptação, riscos de golpes financeiros e preocupações com as restrições ao acesso à informação. Muitos dos que se estabeleceram no país, inclusive figuras públicas que inicialmente apoiaram a política, passaram a reconhecer que a Rússia não corresponde a uma utopia conservadora, citando indicadores sociais internos que divergem da imagem de estabilidade tradicional frequentemente projetada pelo Kremlin.
Eleições legislativas de 2026
Entre 18 e 20 de setembro de 2026, a Rússia realizou a primeira eleição para a Duma Estatal desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Segundo os resultados preliminares anunciados pela presidente da Comissão Eleitoral Central, Ella Pamfilova, o Rússia Unida obteve 355 das 450 cadeiras — uma supermaioria que supera o recorde anterior do partido, os 343 assentos alcançados em 2016. A legenda ficou com 57,83% dos votos na parcela distribuída por listas partidárias, com 95% das urnas apuradas, ante 49,8% na eleição parlamentar de 2021, e liderou em 208 dos 225 distritos de candidato único. O comparecimento informado foi de pouco mais de 59%. O Partido Comunista ficou em segundo, com 40 cadeiras, seguido pelo LDPR, de perfil ultranacionalista, com 25, e pelo Novos Povos, com 20 — todos apoiadores da campanha militar na Ucrânia. Na Chechênia, o aliado de Putin Ramzan Kadyrov foi reeleito com mais de 99% dos votos.
A disputa ocorreu sem oposição efetiva. O Yabloko, partido liberal e única legenda registrada que criticava publicamente a guerra, foi retirado das listas partidárias por decisão do Supremo Tribunal russo em agosto de 2026, restando-lhe apenas algumas dezenas de candidatos em distritos individuais. As demais legendas no pleito acompanham de forma recorrente as iniciativas do Kremlin. Observadores da OSCE não foram convidados, e tanto o Yabloko quanto o Partido Comunista relataram que seus fiscais foram impedidos de entrar em seções eleitorais.
Pela primeira vez, a votação foi estendida às quatro regiões ucranianas ocupadas — Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia —, além da Crimeia, anexada em 2014. Moscou afirma haver mais de 3,5 milhões de eleitores aptos nas áreas que controla; por razões de segurança, a votação nessas regiões começou ainda no fim de agosto. A Ucrânia classificou o pleito como ilegal e pediu que governos e organizações internacionais não reconheçam seus resultados, e a União Europeia declarou que não reconhece a votação, chamando-a de mais uma violação flagrante do direito internacional. Em uma seção eleitoral de Donetsk, eleitores depositaram os votos sob a vigilância de um soldado russo armado; organizações ucranianas de direitos humanos relataram ameaças de demissão a funcionários públicos e pressão sobre aposentados e beneficiários de pagamentos estatais para que comparecessem.
O último dia de votação, 20 de setembro de 2026, coincidiu com o maior ataque de drones já registrado contra a região de Moscou. A Ucrânia lançou mais de mil aparelhos contra o território russo, centenas deles dirigidos à capital e aos arredores; três pessoas morreram no que o prefeito Sergei Sobyanin descreveu como o maior ataque de drones inimigos já sofrido pela cidade, e uma instalação de refinaria de petróleo foi danificada. Autoridades russas acusaram a Ucrânia de tentar interromper o processo eleitoral.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que os números apontavam “o mais alto nível de coesão da sociedade russa em torno do chefe de Estado”. A alta representante da União Europeia para a política externa, Kaja Kallas, classificou o pleito como “mais um grande retrocesso para a democracia russa”, dizendo que o Kremlin silenciou a dissidência, impediu a participação do único partido registrado que se opunha à guerra e excluiu observadores internacionais: “o verniz de democracia é tudo o que resta na Rússia”.
Veteranos de guerra no parlamento
Em 21 de setembro de 2026, o Rússia Unida informou que 49 participantes da guerra contra a Ucrânia haviam sido eleitos para a Duma pela legenda, cerca de 11% das 450 cadeiras da Casa. O secretário-geral do partido, Vladimir Yakushev, anunciou inicialmente que 86 participantes da chamada operação militar especial teriam sido eleitos e depois corrigiu o número para 49. Segundo dados da comissão eleitoral, 186 combatentes ou veteranos da guerra haviam se registrado como candidatos à Duma: 110 em listas partidárias e 76 em distritos de candidato único.
A chegada dos ex-combatentes ao Legislativo integra o esforço do governo para incorporar à vida política institucional quem serviu na Ucrânia, e é lida como forma de sustentar a narrativa oficial sobre o conflito. O movimento ocorre em meio a especulações sobre uma nova campanha de mobilização militar no outono russo — o presidente ucraniano Volodimir Zelensky afirmou que o Kremlin pretende recrutar outros 300 mil soldados.
Confisco de ativos de empresas ocidentais
Em 18 de setembro de 2026, o Kremlin anunciou que os ativos da suíça Nestlé, da varejista francesa Auchan e da rede de material de construção Lemana Pro haviam sido transferidos para a gestão da empresa russa LEV Management, por decreto assinado por Vladimir Putin no dia anterior. O porta-voz Dmitri Peskov justificou a chamada gestão externa afirmando tratar-se de “nações não amigas”, cujos governos estariam “ativamente envolvidos em ações militares” contra a Rússia ou teriam participado de ataques “do regime de Kiev” à infraestrutura civil e econômica russa.
A medida ampliou a insegurança jurídica para as mais de 200 empresas japonesas — cerca de 230, segundo levantamento do South China Morning Post — que ainda operam na Rússia, num momento de deterioração das relações entre Moscou e Tóquio. Na França, Marine Le Pen e Jordan Bardella, do Reunião Nacional, criticaram o confisco dos ativos da Nestlé e prometeram defender o país de “intimidações estrangeiras”; Peskov respondeu que a crítica é injusta e que a Rússia “não é ameaça” aos franceses.
Em 1º de outubro de 2026, no Fórum Valdai, Putin afirmou que a tomada dos ativos de empresas ocidentais é temporária e pode ser revertida caso o mesmo ocorra com empresas russas no exterior.
Kremlin e a política europeia
Em 19 de setembro de 2026, Kirill Dmitriev, encarregado da área de investimentos do governo russo e ponto de contato do Kremlin com negociadores americanos sobre a guerra na Ucrânia, publicou uma mensagem sugerindo cooperação com a Alternativa para a Alemanha (AfD): escreveu que o estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental “irá prosperar de novo quando o gás confiável e acessível do Nord Stream voltar por meio do trabalho conjunto com a AfD”. No dia seguinte, a AfD foi a legenda mais votada na eleição estadual daquele estado, sem obter maioria para formar governo. É ali que fica o terminal alemão do Nord Stream, sistema de gasodutos parcialmente destruído por sabotagem submarina em 2022 e símbolo da antiga parceria energética entre Berlim e Moscou. A AfD critica o apoio ocidental a Kiev e já defendeu a retomada das relações com a Rússia.
Na mesma semana, o Serviço Federal de Segurança (FSB) determinou toque de recolher por dez dias em uma faixa de cinco quilômetros na fronteira com a Estônia, com restrição à circulação noturna de pessoas e veículos e navegação monitorada no rio Narva. O FSB alegou necessidade de controlar a imigração ilegal; do lado estoniano, o serviço de fronteira classificou a situação como calma, mas sob vigilância. A região fica ao lado de Narva, cidade estoniana cuja população é majoritariamente de origem étnica russa.
Kaliningrado, ameaça nuclear e o discurso no Valdai
Na última semana de setembro de 2026, a Rússia enviou à Otan um documento informal, classificado como "non-paper", acusando a aliança de preparar um bloqueio aéreo e naval de Kaliningrado. No texto, visto pela agência Reuters, Moscou afirmou que estaria pronta para "utilizar todo o arsenal de forças e recursos à sua disposição, incluindo armas nucleares", caso países da Otan tentassem isolar a região do restante do território russo, e descreveu um cenário de ataques a "centros de tomada de decisão" nos países-membros logo no início de um conflito. Embaixadas russas na Europa divulgaram comunicados com a mesma advertência. A porta-voz da Otan, Allison Hart, confirmou o recebimento da mensagem e condenou a "retórica nuclear irresponsável"; o secretário-geral Mark Rutte disse que a resposta da aliança foi curta: a Otan é defensiva, nenhum de seus exercícios ameaça a Rússia, e a ameaça nuclear "não é necessária nem útil". A Otan realizou exercícios no Báltico nos meses anteriores e tem outros previstos para outubro.
Em 1º de outubro de 2026, no fórum anual do Clube Valdai, em Moscou, Putin disse que "tudo está escrito corretamente" no documento enviado à aliança. "Se se tratar de um ataque direto à Federação Russa — neste caso falamos de Kaliningrado, ou talvez de outros territórios —, inevitável e imediatamente estará na pauta a questão do uso, pela Federação Russa, de todas as armas à disposição de nosso país", afirmou. Sem dizer se isso incluiria armas nucleares, declarou que a Rússia dispõe de armamentos que "ninguém mais tem" e que não pretende atacar ninguém "em 2029, em 2030, em 2050", em resposta a líderes ocidentais que falam em preparação para uma guerra com Moscou nesse prazo. Perguntado se Rússia e Otan estavam à beira da guerra, respondeu: "Não é intimidação, é uma resposta a uma tentativa de nos intimidar".
No mesmo discurso, de 46 minutos, seguido de horas de perguntas de especialistas de 40 países, Putin acusou o Ocidente de erguer uma "nova Cortina de Ferro" entre a Europa e a Rússia, expressão de Winston Churchill em 1946, e convidou os rivais a "viver em harmonia conosco". Sobre armas de destruição em massa, disse: "Podemos ter certeza de que elas nunca serão usadas? Claro que não. Temos de ter isso em mente e evitar tal desfecho". Voltou a atribuir ao Ocidente a responsabilidade pela invasão da Ucrânia e reconheceu que os ataques ucranianos a refinarias tiveram resultado, custando à Rússia cerca de 1% do PIB; afirmou que o veto à exportação de derivados de petróleo seguirá enquanto houver sanções contra o país. Disse ainda ser mais próximo de Xi Jinping do que de Donald Trump, embora avalie que os Estados Unidos sob Trump estão menos agressivos em relação à Rússia do que a Europa.
Ordem para abandonar as regras de guerra
Em entrevista ao Financial Times publicada em 2 de outubro de 2026, o presidente ucraniano Volodimir Zelensky afirmou que Putin ordenou a seus comandantes militares, em setembro, que abandonassem as restrições que vinham pautando os ataques aéreos russos. "Ele disse que agora não há regras", declarou Zelensky, citando informações da inteligência ucraniana, incluindo comunicações interceptadas entre autoridades do Kremlin. Segundo ele, a ordem coincidiu com a intensificação dos ataques a Kiev, com drones a jato atingindo escolas, hospitais, instalações de telecomunicações e data centers. Kiev não divulgou as interceptações, e seu conteúdo não pôde ser verificado de forma independente. Na mesma entrevista, Zelensky disse estar convicto de que Putin não quer encerrar a guerra e que só uma pressão muito maior dos aliados ocidentais o levaria à mesa de negociação.
Perseguição a opositores no exterior
Em setembro de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou pública uma acusação contra cinco pessoas apontadas como integrantes de uma rede ligada aos serviços de inteligência russos que, desde pelo menos 2024, planejaria ataques e assassinatos de dissidentes e desertores russos em vários países, inclusive nos Estados Unidos. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que não comentaria as acusações sem "provas críveis". Em 1º de outubro de 2026, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, exilado nos Estados Unidos desde 2013 e classificado pela Rússia como agente estrangeiro e, desde 2024, como terrorista e extremista, afirmou ter sido alertado por serviços de segurança americanos e lituanos de que sua vida corria perigo. "Minha família e eu não estaremos realmente seguros enquanto Putin estiver no poder na Rússia", escreveu.
Disputa territorial com o Japão
Em 13 de agosto de 2026, Putin visitou Iturup — Etorofu, no Japão —, a maior das quatro ilhas disputadas do sul do arquipélago das Curilas, onde percorreu uma escola, um hospital e uma unidade de processamento de pescado. Foi a primeira viagem de um líder russo ao arquipélago reivindicado por Tóquio. O Ministério das Relações Exteriores japonês convocou o embaixador russo para protestar, e a primeira-ministra Sanae Takaichi chamou a visita de "absolutamente inaceitável", afirmando que ela ofende o sentimento do povo japonês. O chanceler Toshimitsu Motegi declarou que as ilhas são parte inerente do território japonês, histórica e juridicamente.
As quatro ilhas — Iturup, Kunashir, Shikotan e o grupo Habomai — foram tomadas pela União Soviética em 1945, ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando cerca de 17 mil residentes japoneses foram deportados. O impasse é a principal razão pela qual Rússia e Japão nunca assinaram um tratado de paz do pós-guerra. Muitos dos antigos moradores das ilhas se estabeleceram em Nemuro, cidade de cerca de 24 mil habitantes no extremo leste de Hokkaido, de onde parte a campanha japonesa pela devolução dos territórios. A economia local é ao mesmo tempo dependente de Moscou: as cotas de pesca de salmão, truta, alga e saúra são negociadas anualmente com o governo russo, e embarcações russas descarregam no porto de Hanasaki, o que deixa a cidade presa entre a reivindicação territorial e o comércio que a sustenta.
Notícias relacionadas
Ucrânia intensificará ataques a refinarias russas após nova doutrina de Moscou
3 de out, 2026
Putin acompanha exercícios militares da Organização do Tratado de Segurança Coletiva
2 de out, 2026
Putin ameaça usar armas nucleares caso Kaliningrado seja isolada
1 de out, 2026
Zelenskyy afirma que Putin ordenou abandono das regras de guerra
2 de out, 2026
Putin ameaça usar todo o arsenal russo contra ataques ao território
1 de out, 2026
