Visão geral
A Guerra Comercial EUA-China refere-se a um conflito econômico e político em curso entre as duas maiores economias do mundo, caracterizado pela imposição mútua de tarifas e outras barreiras comerciais. O objetivo dos Estados Unidos tem sido, em grande parte, abordar o déficit comercial, a proteção da propriedade intelectual e as práticas comerciais que consideram injustas por parte da China. A China, por sua vez, tem defendido suas políticas e retaliado contra as medidas americanas, acusando os EUA de protecionismo e de afetar a cadeia de suprimentos global. Em 2026, o presidente dos EUA, Donald Trump, utilizou seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos para reiterar que os Estados Unidos não mais ofereceriam seus mercados e proteção militar a aliados europeus, prometendo avançar em sua guerra comercial e caracterizando as tarifas como o preço de admissão ao mercado americano. Ele afirmou que "Os Estados Unidos estão mantendo o mundo inteiro à tona" e que "Todos se aproveitaram dos Estados Unidos".
Contexto e histórico
As tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China vêm se desenvolvendo há anos, com os EUA frequentemente expressando preocupações sobre o acesso ao mercado chinês, a transferência forçada de tecnologia e os subsídios estatais às empresas chinesas. A escalada significativa ocorreu a partir de 2018, quando o governo dos EUA começou a impor tarifas sobre produtos chineses, alegando práticas comerciais desleais e roubo de propriedade intelectual. A China respondeu com tarifas sobre produtos americanos, iniciando um ciclo de retaliação que impactou o comércio global e as cadeias de suprimentos. Uma investigação de um ano, lançada pelo governo de Joe Biden, apurou eventuais práticas comerciais desleais da China, especialmente em relação às exportações chinesas de chips de tecnologia legada ou mais antiga para os EUA. O Escritório do Representante Comercial dos EUA declarou que a busca da China por dominação no setor de semicondutores é "não razoável" e "sobrecarrega ou restringe o comércio dos EUA", tornando-a passível de ação. Em 9 de abril de 2025, a China elevou as tarifas de importação sobre produtos dos EUA de 34% para 84%, em resposta ao aumento das tarifas americanas para 104% sobre produtos chineses. O Ministério das Finanças chinês classificou a decisão dos EUA como "um erro atrás do outro", que infringe os direitos da China, prejudica o sistema de comércio multilateral e tem um impacto severo na estabilidade econômica global, sendo um exemplo de unilateralismo e protecionismo. Pequim pediu que os EUA corrigissem suas práticas e cancelassem as medidas tarifárias unilaterais. Em 12 de maio de 2025, os EUA e a China anunciaram um acordo para reduzir temporariamente as tarifas recíprocas. Como parte do acordo firmado em Genebra, os Estados Unidos reduziriam as tarifas adicionais sobre produtos chineses de 145% para 30% (10% de taxa básica, mais 20% relacionados ao tráfico de fentanil), enquanto a China diminuiria as taxas sobre importações americanas para 10% (eram 125%). A China também se comprometeu a suspender ou cancelar medidas não tarifárias contra os EUA. Em 12 de junho de 2025, a China confirmou um acordo comercial com os EUA, alcançado após uma conversa telefônica entre Trump e Xi Jinping, que trouxe uma trégua na guerra comercial. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, afirmou que a China sempre manteve sua palavra e que ambos os lados deveriam cumprir o consenso. Este acordo seguiu conversas em Londres que deram peso a um acordo preliminar de Genebra para aliviar tarifas retaliatórias bilaterais, que havia falhado anteriormente devido a restrições chinesas às exportações de minerais. Trump expressou satisfação com o acordo, mencionando o fornecimento de terras raras pela China e a permissão para estudantes chineses em universidades americanas, além de tarifas de 55% para os EUA e 10% para a China. Em 23 de dezembro de 2025, o governo Trump anunciou que aplicaria tarifas sobre importações chinesas de semicondutores, mas adiaria a medida até junho de 2027. A Embaixada da China em Washington expressou oposição, afirmando que politizar questões comerciais e tecnológicas não beneficiaria ninguém e que a China tomaria as medidas necessárias para salvaguardar seus direitos. Em 22 de janeiro de 2026, Trump mudou de ideia sobre a Groenlândia, afirmando que não usaria mais tarifas para tentar obter controle do território dinamarquês, pelo menos enquanto as discussões entre seus assessores e os europeus continuassem. Em 21 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA infligiu uma derrota a Trump ao derrubar muitas das tarifas que ele impôs, incluindo algumas contra a China, sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), decidindo que ele havia excedido sua autoridade. Essas tarifas, de 20% sobre as exportações chinesas para os EUA, estavam ligadas a emergências nacionais relacionadas à distribuição de fentanil e desequilíbrios comerciais. Outras tarifas sobre produtos chineses, implementadas sob as Seções 301 e 232, permanecem em vigor. Em resposta, Trump indicou que imporia uma nova tarifa global de 10% por 150 dias. A visita de Trump à China, inicialmente prevista para o fim de março de 2026, acabou ocorrendo em maio (ver seção abaixo).
Trégua de Busan e cúpulas de 2026
Em outubro de 2025, Trump e Xi Jinping fecharam um acordo em Busan, na Coreia do Sul, que reduziu ainda mais as medidas de retaliação: a China concordou em suspender os controles de exportação de terras raras e comprar produtos agrícolas americanos, e Washington reduziu algumas tarifas e suspendeu outras medidas. O acordo foi fechado por um ano, com vencimento em 10 de novembro de 2026, uma semana depois da eleição nos EUA; em 23 de setembro de 2026, a trégua foi prorrogada por dois meses, até 10 de janeiro de 2027 (ver abaixo). Mesmo com a trégua, as tarifas seguem altas: em julho de 2026, a tarifa efetiva americana sobre produtos chineses era de 22,8%, segundo o Penn Wharton Budget Model, e o Congressional Research Service calculava a média em cerca de 36,5%, ante 31% aplicados por Pequim a produtos dos EUA. O comércio de bens entre os dois países caiu quase 30% em 2025.
De 13 a 15 de maio de 2026, Trump visitou Pequim, a primeira viagem de um presidente americano à China desde a do próprio Trump em 2017, acompanhado de executivos como Elon Musk e Jensen Huang. Trump afirmou que a China encomendaria 200 jatos da Boeing, número abaixo dos cerca de 500 esperados pelo mercado, e a Casa Branca disse que os líderes concordaram em criar uma junta comercial para gerir a relação, com a meta de identificar US$ 30 bilhões em produtos não sensíveis. Não houve solução oficial para o fornecimento de terras raras nem decisão sobre a prorrogação da trégua. Xi chamou a visita de "histórica", e Trump o convidou para ir à Casa Branca em setembro.
Em 20 de setembro, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng conversaram por cerca de oito horas em Nova York, sem fechar a extensão da trégua. Bessent disse que houve compromissos do acordo de Busan que a China não cumpriu totalmente, e os EUA propuseram um "mecanismo de notificação" para incidentes de inteligência artificial que afetem a segurança nacional. Segundo o Financial Times, Washington ameaça prorrogar a trégua por apenas seis meses, enquanto Pequim quer estendê-la até o fim do mandato de Trump. Em 23 de setembro, em entrevista à Fox News, Bessent anunciou que a trégua de Busan, que venceria em 10 de novembro, seria estendida por dois meses, até 10 de janeiro de 2027. "Não sei se será possível fechar um acordo mais amplo. Não sei se simplesmente renovaremos o acordo atual", disse. A mídia estatal chinesa não repercutiu de imediato o anúncio. No dia seguinte, o porta-voz do Ministério do Comércio da China, He Yadong, confirmou que os principais negociadores dos dois países haviam feito as primeiras conversas sobre inteligência artificial e que "os dois lados também discutiram planos para reduzir tarifas e estender os acordos comerciais firmados em Kuala Lumpur em outubro do ano passado". No mesmo dia, Xi chegou a Washington, em sua primeira visita à capital americana em 11 anos, e foi recebido por Trump e pela primeira-dama Melania Trump ao pé do avião na Joint Base Andrews, gesto raro para um presidente americano; a reunião na Casa Branca ocorreu no dia 24, e a visita terminou na manhã do dia 25. Além da trégua, a pauta inclui IA, controle de exportação de chips, a guerra no Irã e Taiwan: segundo a Reuters, Xi deve pressionar pelo fim das vendas de armas americanas à ilha, com base em uma declaração conjunta de 1982.
Em 24 de setembro, Xi foi recebido na Casa Branca com cerimônia oficial, revista de tropas e sobrevoo de um bombardeiro B-2, seguidos de reunião com Trump e de jantar de Estado com executivos de empresas de tecnologia. Trump disse manter com Xi "uma verdadeira amizade" e que os dois países trabalham por uma relação comercial mais equilibrada. Xi afirmou que "a China e os Estados Unidos devem manter a linha de não conflito e não confronto", defendeu que as Forças Armadas dos dois países mantenham "diálogo regular" e mecanismos de prevenção de crises, pediu "prudência" aos EUA em relação à independência de Taiwan, reiterou que a venda de armas americanas à ilha é uma linha vermelha para Pequim e pediu que Washington e Teerã resolvam suas divergências por negociação. Sobre IA, Xi disse que os dois países têm "a capacidade e a responsabilidade" de desenvolver a tecnologia sob "controle humano"; Trump, que horas antes escrevera que queria deixar as regras do setor "exatamente onde estão", não anunciou salvaguardas conjuntas. No jantar, Xi disse que os dois países "alcançaram entendimento comum em muitas questões". A cúpula não trouxe acordo comercial mais amplo: Pequim queria prorrogar a trégua por ao menos um ano, e disputas sobre tarifas, terras raras e acesso a chips avançados ficaram para uma nova rodada de negociação antes de 10 de janeiro de 2027.
Nas semanas anteriores à cúpula, a demanda americana por produtos chineses subiu: na pesquisa do China Beige Book com 1.295 empresas chinesas, feita de 1º a 22 de setembro de 2026, o indicador de encomendas vindas dos EUA marcou 13, ante 3 em agosto e -12 um ano antes, o que a consultoria atribuiu à melhora da posição relativa da China diante das tarifas. Em 25 de setembro, último dia da visita, Trump e Xi visitaram o Museu dos Arquivos Nacionais, em Washington. Depois de um chá na Casa Branca, os dois líderes anunciaram que vão construir uma "relação construtiva de estabilidade estratégica baseada em respeito, justiça e reciprocidade"; Trump chamou a visita de "construtiva e muito bem-sucedida", e Xi disse que "o futuro das relações China-EUA é brilhante". As delegações confirmaram a extensão da trégua por dois meses. Segundo ficha divulgada pela Casa Branca, os dois lados chegaram a consenso sobre recomendações de tratamento tarifário mais favorável para US$ 30 bilhões em produtos não sensíveis em cada direção; a Junta de Comércio EUA-China entrou em operação, com um grupo de trabalho agrícola, e foram criados a Junta de Investimento EUA-China e um diálogo bilateral sobre superinteligência, com próxima rodada prevista até novembro de 2026. A China também se comprometeu a importar ao menos 10 milhões de toneladas de carvão americano em 2027 e outras 10 milhões em 2028. A ficha não trouxe números sobre compras de aviões da Boeing nem prazos para o fornecimento de terras raras, tratado apenas como compromisso de resolver a escassez de terras raras e outros minerais críticos. Trump anunciou que pretende ir à cúpula da APEC em Shenzhen, em novembro e que Xi deve participar da cúpula de líderes do G20 em Miami, em dezembro. Em entrevista à CNBC, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, disse que o déficit comercial americano com a China "vem caindo" e que Washington quer concentrar as próximas negociações em minerais críticos e tecnologia.
Notícias relacionadas
EUA e China fecham acordo para reduzir tarifas em US$ 60 bilhões
29 de set, 2026
Tarifas dos EUA têm impacto limitado sobre exportações brasileiras
28 de set, 2026
Mercados recuam com tensões EUA-Irã e acordo tarifário com China
28 de set, 2026
Sudeste Asiático reage com alívio e cautela à cúpula entre EUA e China
27 de set, 2026
Trump encontrará um Xi Jinping mais confiante no fórum da APEC
26 de set, 2026
