O que é o Brics
O Brics é um agrupamento intergovernamental de economias emergentes que reúne, atualmente, dez países membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia. Não é um bloco econômico no sentido técnico do termo — não há união aduaneira, tarifa externa comum, moeda única nem tratado constitutivo. É um foro de coordenação política e econômica, que funciona por consenso e produz declarações conjuntas, além de ter criado instituições próprias, como o Novo Banco de Desenvolvimento.
O agrupamento se apresenta como espaço de articulação de países em desenvolvimento em torno de uma ordem internacional que consideram mais representativa. Na nota à imprensa que antecedeu a cúpula de 2026, o Itamaraty descreveu o Brics como "foro central para a articulação de posições conjuntas entre países em desenvolvimento, com vistas à construção de uma ordem global mais justa e inclusiva".
Somados, os membros respondem por cerca de 28% do PIB mundial em termos nominais e por perto de metade da população do planeta — proporção que cresceu com a expansão iniciada em 2024.
O que significa a sigla e quem criou o termo
A sigla original, BRIC, foi cunhada em 2001 pelo economista Jim O'Neill, do banco Goldman Sachs, no relatório "Building Better Global Economic BRICs". O texto agrupava Brasil, Rússia, Índia e China como as economias emergentes que deveriam ganhar peso na economia mundial nas décadas seguintes. Em 2003, o relatório "Dreaming with BRICs: The Path to 2050" ampliou a tese. A autoria é atribuída a O'Neill, embora haja controvérsia sobre a participação da economista Roopa Purushothaman na formulação do acrônimo.
O termo nasceu, portanto, como categoria de análise de mercado, não como projeto diplomático. Os quatro países só o converteram em mecanismo político anos depois. Com a entrada da África do Sul, em 2011, o "S" foi acrescentado e a sigla passou a Brics.
Países do Brics
Membros plenos (10): Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia.
Os quatro fundadores — Brasil, Rússia, Índia e China — realizaram a primeira cúpula em 16 de junho de 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia. A África do Sul aderiu em 2011. Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã tornaram-se membros plenos em 1º de janeiro de 2024, e a Indonésia, em 6 de janeiro de 2025. A Argentina, também convidada, recusou o convite em novembro de 2023.
A situação da Arábia Saudita é ambígua: o país foi convidado na mesma rodada de 2024 e aparece em documentação oficial do agrupamento, mas nunca confirmou formalmente a adesão — em janeiro de 2024, seu ministro do Comércio afirmou que o país ainda não havia ingressado oficialmente.
Países parceiros: categoria criada na cúpula de Kazan, em outubro de 2024, para países que participam de parte das atividades sem serem membros plenos. Segundo a programação da cúpula de 2026, dez parceiros participam do encontro: Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.
Cúpula de 2026 em Nova Délhi
A 18ª Cúpula de Líderes do Brics ocorre em 12 e 13 de setembro de 2026, em Nova Délhi, no centro de convenções Bharat Mandapam, sob presidência rotativa da Índia — que assumiu o comando do agrupamento em 1º de janeiro de 2026, sucedendo o Brasil. O tema oficial é "Construindo Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade".
O encontro tem duas sessões de trabalho. Na tarde de 12 de setembro, em sessão restrita aos membros, os líderes discutem "Governança Global Inclusiva e Fortalecimento do Multilateralismo". No dia 13, em formato ampliado, participam também os dez países parceiros e dezesseis países convidados, sob o tema "Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade: Moldando o Futuro para um Crescimento Global Inclusivo". A agenda inclui segurança alimentar e energética, saúde, resiliência a desastres e cadeias de suprimentos críticas.
Entre os presentes estão o presidente chinês, Xi Jinping — em sua primeira visita à Índia em sete anos —, o russo Vladimir Putin, o iraniano Masoud Pezeshkian, o sul-africano Cyril Ramaphosa, o egípcio Abdel Fattah al-Sisi e o indonésio Prabowo Subianto, além do secretário-geral da ONU, António Guterres. Os Emirados Árabes Unidos são representados pelo príncipe herdeiro Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan. O governo indiano mobilizou cerca de 30 mil agentes no esquema de segurança da capital.
O Brasil é representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e não pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Tensões internas e críticas
A expansão trouxe ao mesmo tempo peso e dissenso. Como o agrupamento decide por consenso, divergências entre membros travam documentos conjuntos: em maio de 2026, os chanceleres não conseguiram emitir declaração conjunta por causa de desacordos entre Irã e Emirados Árabes Unidos.
Na cúpula de 2026, a guerra envolvendo o Irã coloca dois membros em lados opostos — os Emirados suspenderam transações comerciais com Teerã em agosto. Analistas apontam que a principal dificuldade do encontro é encontrar, sobre a crise no Oriente Médio, uma linguagem que tanto Abu Dhabi quanto Teerã aceitem.
Há ainda divergências mais estruturais. China e Índia têm visões distintas sobre o que o agrupamento deve ser: Pequim tende a tratá-lo como contrapeso explícito à ordem liderada pelos Estados Unidos, enquanto Nova Délhi resiste a esse enquadramento e mantém relações estreitas com o Ocidente. Os dois países também disputam influência regional e têm um contencioso de fronteira não resolvido.
Novo Banco de Desenvolvimento
O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como "banco do Brics", foi criado na cúpula de Fortaleza, em 2014, e entrou em operação em 2015. A sede fica em Xangai, na China, e o capital autorizado inicial foi de US$ 50 bilhões, com previsão de ampliação para US$ 100 bilhões. O banco financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países membros.
A brasileira Dilma Rousseff preside a instituição desde março de 2023 e foi reeleita por unanimidade em março de 2025 para um segundo mandato de cinco anos, iniciado em julho do mesmo ano.
Na mesma cúpula de 2014 foi acordado o Arranjo Contingente de Reservas, mecanismo de apoio mútuo em crises de balanço de pagamentos, com US$ 100 bilhões comprometidos, em vigor desde 2015.
Brics Pay e a discussão sobre moedas
Um dos temas mais recorrentes em torno do agrupamento é a redução da dependência do dólar nas transações entre seus membros. A discussão não trata de uma moeda única — que não existe e não está em negociação —, mas de infraestrutura de pagamentos.
O projeto conhecido como Brics Pay propõe conectar sistemas de pagamento instantâneo e moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) dos países membros, permitindo transações diretas sem intermediação de bancos ocidentais. Em 11 de agosto de 2026, o presidente do banco central da Índia, Sanjay Malhotra, afirmou em evento em Mumbai que o agrupamento avalia integrar sistemas de pagamento rápido e CBDCs para baratear transações transfronteiriças. As conversas ainda não convergiram para um modelo comum, e a Índia tem sustentado publicamente que o objetivo é reduzir custos, não substituir o dólar.
Na prática, parte do movimento já ocorre por via bilateral, fora de qualquer plataforma comum do agrupamento: China e Índia realizam a maior parte do comércio mútuo em moedas locais.
Cúpulas recentes
- 16ª cúpula — Kazan, Rússia, 22 a 24 de outubro de 2024. Primeira com Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos como membros plenos; criou a categoria de países parceiros.
- 17ª cúpula — Rio de Janeiro, Brasil, 6 e 7 de julho de 2025. Primeira com a Indonésia como membro pleno; tratou de regulação de inteligência artificial e protecionismo comercial.
- 18ª cúpula — Nova Délhi, Índia, 12 e 13 de setembro de 2026, sob presidência indiana.
Perguntas frequentes
O Brics é um bloco econômico? Não no sentido formal. Não há tratado constitutivo, união aduaneira, tarifa externa comum nem moeda comum. É um foro de coordenação política e econômica que decide por consenso e criou instituições financeiras próprias.
Quantos países fazem parte do Brics? Dez membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia. Há ainda países parceiros, categoria criada em 2024, que participam de parte das atividades.
O Brics vai criar uma moeda única? Não há projeto de moeda única em negociação. O que está em discussão é a interligação de sistemas de pagamento e de moedas digitais de bancos centrais para transações entre os membros.
Quem criou a sigla Brics? O economista Jim O'Neill, do Goldman Sachs, em relatório de 2001 — inicialmente como BRIC, sem a África do Sul, que entrou em 2011.
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