Geopolítica da inteligência artificial
A guerra fria da IA
Em oito meses, a inteligência artificial ganhou dois blocos formais. Os Estados Unidos lançaram a Declaração Pax Silica em dezembro de 2025 com sete países; hoje são 24 signatários mais a União Europeia. A China respondeu em julho de 2026 fundando a WAICO, uma organização intergovernamental com sede em Xangai e 29 membros fundadores. Um único país está nos dois — e, desde agosto, Washington está mandando cartas para garantir que continue sendo o único.
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O que está acontecendo
Os dois acordos não competem pela mesma coisa, e é isso que torna a comparação interessante. O Pax Silica é um pacto de cadeia de suprimentos: chips, minerais críticos, energia, data centers, manufatura avançada e logística. Não regula modelos nem define regras de uso. É um clube de acesso — quem está dentro participa de investimentos conjuntos e de cadeias de semicondutores consideradas confiáveis por Washington.
A WAICO é o oposto no formato: uma organização internacional de verdade, com personalidade jurídica própria, sede fixa e vocação declarada de escrever regras globais de governança de IA. Nasce da Global AI Governance Initiative que a China lançou em 2023 e da proposta feita pelo premiê Li Qiang na conferência de Xangai em 2025. O discurso é de acesso equitativo e soberania tecnológica para países que não fabricam chips — que é exatamente a maioria dos seus 29 fundadores.
Ou seja: os EUA oferecem entrada numa cadeia produtiva; a China oferece assento numa mesa de regras. Um país pobre em capacidade de computação pode racionalmente querer os dois. Foi o que o Cazaquistão fez.
Os dois acordos, lado a lado
Declaração Pax Silica
Estados Unidos · dez/2025
- Natureza
- Declaração política, não vinculante
- Signatários
- 24 países + União Europeia
- Escopo
- Conectividade e data centers, computação e semicondutores, manufatura avançada, logística, refino de minerais e energia
- Sede
- Nenhuma — não é uma organização
- Documento irmão
- Joint Statement on AI Opportunity (35 países, jun/2026)
WAICO
China · jul/2026
- Natureza
- Organização intergovernamental com personalidade jurídica
- Signatários
- 29 membros fundadores
- Escopo
- Governança global de IA: regras, padrões, capacitação e acesso à tecnologia
- Sede
- Xangai
- Origem
- Global AI Governance Initiative (2023) e proposta de Li Qiang (2025)
Nenhum país do G7 e nenhum Estado-membro da União Europeia assinou a WAICO. Taiwan participou da 2ª Cúpula do Pax Silica sem assinar a declaração, e endossou seus princípios por meio de uma declaração bilateral separada com os EUA.
A carta que manda escolher
Em 14 de agosto de 2026, a Reuters revelou um rascunho de carta do Departamento de Estado endereçado aos 35 governos que assinaram o Joint Statement on AI Opportunity. O texto não cita a China nem a WAICO pelo nome, mas o alvo é inequívoco: a adesão ao Pax Silica, diz o documento, “não pode ser mantida junto com a participação em iniciativas duplicadas cujas expectativas conflitam com as nossas”.
“Estar em tudo é não estar em nada. […] A assinatura da Declaração Pax Silica não é uma mera assinatura de adesão, mas um compromisso.”
O Departamento de Estado não comentou o que chamou de “supostos documentos internos vazados”. Se a carta for enviada como está, ela transforma dois acordos paralelos e não vinculantes em uma escolha binária — que é a definição operacional de uma guerra fria tecnológica.
Onde o Brasil está
O Brasil é membro fundador da WAICO e não assinou nenhum dos dois documentos americanos — nem o Pax Silica, nem o Joint Statement on AI Opportunity de junho. É um dos cinco membros do G20 entre os 29 fundadores, ao lado de China, Rússia, Indonésia e África do Sul, e o único deles no hemisfério ocidental.
A companhia importa. Na América Latina, os outros signatários da WAICO são Cuba, Nicarágua e Venezuela. Já Argentina, Chile, Costa Rica, El Salvador, Panamá e Paraguai estão do lado americano. O Brasil é a única economia grande da região no bloco chinês.
Isso tem consequência prática, não só simbólica. O que o Pax Silica distribui é acesso: a cadeias de semicondutores, a minerais críticos e a investimento conjunto em data centers. O Brasil tem ambição declarada de virar destino de data centers de IA e depende de chips importados para isso. Estar fora do clube que organiza essa cadeia — enquanto vizinhos menores estão dentro — é um custo que ainda não foi contabilizado publicamente.
Como se chegou aqui
2023
China lança a Global AI Governance Initiative
Pequim propõe um arcabouço de governança de IA sob a ONU, com ênfase em soberania tecnológica e acesso do Sul Global. É a base doutrinária do que viraria a WAICO.
jul/2025
Li Qiang propõe uma organização internacional de IA
Na Conferência Mundial de IA em Xangai, o premiê chinês propõe criar um organismo intergovernamental dedicado à cooperação em inteligência artificial.
12/dez/2025
EUA lançam o Pax Silica com sete países
Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Austrália e Israel assinam a declaração. O escopo não é regulação de IA: é cadeia de suprimentos — chips, minerais críticos, energia, data centers e logística.
mar/2026
A WAICO entra no Plano Quinquenal chinês
O plano 2026–2030 aprovado em março formaliza a criação do organismo como política de Estado, e não apenas como proposta diplomática.
jun/2026
2ª Cúpula do Pax Silica: 25 signatários e um segundo documento
A União Europeia assina como bloco, junto de Alemanha, Grécia e mais sete países. Em paralelo, 35 governos assinam o Joint Statement on AI Opportunity — um círculo mais amplo e menos exigente.
16/jul/2026
29 países fundam a WAICO em Xangai
Nasce a Organização Mundial de Cooperação em IA, com personalidade jurídica própria e sede em Xangai. Nenhum país do G7 e nenhum Estado-membro da UE assina. O Brasil, sim.
ago/2026
Washington manda escolher
A Reuters revela um rascunho de carta do Departamento de Estado aos 35 signatários do AI Opportunity: a adesão ao Pax Silica "não pode ser mantida junto com a participação em iniciativas duplicadas cujas expectativas conflitam com as nossas". A frase que resume o documento: "estar em tudo é não estar em nada".
Quem assinou o quê
Nos dois blocos
(1)- Cazaquistão
A situação que a carta americana de agosto quer eliminar.
Declaração Pax Silica
(25)- Alemanha
- Argentina
- Austrália
- Catar
- Cazaquistão *
- Chile
- Cingapura
- Coreia do Sul
- Costa Rica
- El Salvador
- Emirados Árabes Unidos
- Estados Unidos
- Estônia
- Filipinas
- Finlândia
- Grécia
- Índia
- Israel
- Japão
- Noruega
- Países Baixos
- Panamá
- Reino Unido
- Suécia
- União Europeia (como bloco)
A assinatura da UE cobre os 27 Estados-membros; seis deles (Alemanha, Estônia, Finlândia, Grécia, Países Baixos e Suécia) também assinaram individualmente. O asterisco marca quem também está na WAICO.
Só o Joint Statement on AI Opportunity
(11)- Armênia
- Bahrein
- Dinamarca
- Itália
- Letônia
- Lituânia
- Nova Zelândia
- Paraguai
- Polônia
- Portugal
- Turquia
Assinaram a declaração conjunta de junho, mais ampla e menos exigente, mas não a Pax Silica. São eles, somados aos 24 signatários do Pax Silica, os 35 destinatários da carta.
WAICO
(29)- África do Sul
- Argélia
- Belarus
- Brasil
- Camarões
- Camboja
- Cazaquistão *
- China
- Congo
- Cuba
- Etiópia
- Indonésia
- Laos
- Lesoto
- Malásia
- Moçambique
- Myanmar
- Nicarágua
- Omã
- Paquistão
- Quênia
- Quirguistão
- Rússia
- Senegal
- Sérvia
- Tajiquistão
- Uzbequistão
- Venezuela
- Zâmbia
Dez países africanos, doze asiáticos, três europeus e quatro latino-americanos. O asterisco marca quem também assinou o Pax Silica.
