O que é a Oracle
A Oracle Corporation é uma empresa americana de tecnologia com sede em Austin, no Texas. Nasceu vendendo banco de dados — o Oracle Database é seu produto mais conhecido — e hoje vende também software de gestão empresarial (ERP, RH, cadeia de suprimentos), serviços de nuvem e hardware. É negociada na Bolsa de Nova York sob o código ORCL e integra os índices S&P 100 e S&P 500.
No ano fiscal encerrado em 31 de maio de 2026, a Oracle registrou receita de US$ 67,36 bilhões e lucro líquido de US$ 17,09 bilhões, com cerca de 141 mil funcionários. No primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, encerrado em 31 de agosto de 2026 e divulgado em 10 de setembro, a receita trimestral foi recorde: US$ 19,3 bilhões, alta de 30% sobre um ano antes.
O que mudou a empresa nos últimos anos foi a infraestrutura de inteligência artificial. A receita de nuvem da Oracle chegou a US$ 11,6 bilhões no trimestre (+62%), puxada pela infraestrutura como serviço — a OCI —, que mais do que dobrou, para US$ 7,4 bilhões, um crescimento de 121% em um ano. A empresa projeta receita de pelo menos US$ 90 bilhões no ano fiscal de 2027.
Quem comanda a Oracle
Larry Ellison é cofundador, presidente do conselho (chairman) e diretor de tecnologia (CTO). É o maior acionista individual da companhia e nunca deixou de ditar a direção técnica dela.
Em 22 de setembro de 2025, a Oracle promoveu Clay Magouyrk e Mike Sicilia a CEOs — os dois dividem o cargo. Magouyrk, então com 39 anos, foi um dos primeiros funcionários da Oracle Cloud Infrastructure, depois de passar pela Amazon, e comandava a infraestrutura de nuvem. Sicilia, então com 54, era presidente da divisão de Indústrias e entrou na empresa em 2009, com a compra da Primavera Systems.
Safra Catz, CEO desde 2014, passou a ocupar o posto de vice-presidente executiva do conselho (executive vice chair). "Neste momento de força é a hora certa de passar o cargo de CEO para a próxima geração de executivos capazes", disse ela no anúncio.
História e origem do nome
Larry Ellison, Bob Miner e Ed Oates fundaram a empresa em 16 de junho de 1977, em Santa Clara, na Califórnia, com o nome de Software Development Laboratories (SDL). A inspiração veio do artigo de 1970 em que Edgar F. Codd descreveu o modelo relacional de dados.
O nome mudou três vezes: Relational Software, Inc. em 1979, Oracle Systems Corporation em 1983 e Oracle Corporation em 1995. "Oracle" era o codinome de um projeto de 1977 para a CIA — o primeiro cliente da empresa —, e os fundadores obtiveram permissão para reaproveitá-lo no produto.
Entre os três, Ellison foi considerado o pior programador e virou o vendedor. A empresa abriu capital em 12 de março de 1986. A sede ficou em Redwood Shores, na Califórnia, de 1989 até dezembro de 2020, quando se mudou para Austin; em abril de 2024 a Oracle anunciou que pretende mudar a sede novamente, para Nashville, sem informar prazo.
Oracle Cloud Infrastructure (OCI): o que é
A OCI é a plataforma de nuvem da Oracle — o equivalente ao AWS da Amazon, ao Azure da Microsoft e ao Google Cloud. Vende capacidade de computação (CPU e GPU), armazenamento, rede e banco de dados gerenciado, cobrados por uso.
É o motor de crescimento atual da empresa. No trimestre encerrado em agosto de 2026, a receita de infraestrutura de nuvem cresceu 121%, para US$ 7,4 bilhões, com US$ 6,5 bilhões vindo de computação em CPU e GPU (+151%). A Oracle entregou 850 megawatts de nova capacidade de data center no trimestre — quase o triplo do trimestre anterior — e disse operar sua frota de GPUs com 97,9% de utilização.
Uma aposta distinta da Oracle é o banco de dados multinuvem: rodar o Oracle Database dentro da infraestrutura dos concorrentes. Essa receita cresceu 353% em um ano, com 70 regiões multinuvem em Azure, AWS e Google Cloud.
Oracle Cloud Free Tier: o que entra de graça
A Oracle oferece uma camada gratuita da nuvem em dois níveis:
- Teste gratuito: US$ 300 em créditos, válidos por até 30 dias, para usar em qualquer serviço elegível da OCI.
- Always Free (uso livre): serviços sem limite de tempo, que continuam disponíveis depois que os 30 dias acabam. A lista inclui computação Ampere A1 baseada em ARM, computação AMD, Block e Object Storage, Autonomous Database (Data Warehouse, Transaction Processing e JSON), HeatWave, balanceadores de carga, VPN site a site, monitoramento, logging e Vault.
O cadastro exige cartão de crédito ou débito para verificação de identidade — a Oracle informa que pode haver uma autorização temporária no cartão, removida pelo banco em três a cinco dias, sem cobrança efetiva. Vale uma conta por pessoa, e contas ociosas por 30 dias ou mais podem ser suspensas.
Oracle ERP: Fusion, NetSuite e as aplicações de negócio
Além da infraestrutura, a Oracle vende software de gestão em nuvem. São três famílias principais:
- Oracle Fusion Applications, lançada em 2010 para unificar as tecnologias das aquisições de PeopleSoft, Siebel Systems e JD Edwards num único pacote. Cobre ERP, RH (HCM), experiência do cliente (CX) e cadeia de suprimentos (SCM). No trimestre encerrado em agosto de 2026, o Fusion de back-office faturou US$ 1,6 bilhão, alta de 14%.
- NetSuite, o ERP em nuvem voltado a empresas menores e de porte médio: US$ 1,1 bilhão no trimestre, alta de 6%.
- Aplicações setoriais, incluindo a Oracle Health, construída sobre a Cerner — empresa de prontuário eletrônico comprada por US$ 28,3 bilhões em junho de 2022. O conjunto somou US$ 1,2 bilhão no trimestre, alta de 12%.
No total, as aplicações em nuvem (SaaS) cresceram 10%, para US$ 4,2 bilhões — bem abaixo da infraestrutura. A receita de software licenciado tradicional caiu 3%, para US$ 5,5 bilhões, o que a empresa atribui à migração de clientes do modelo local para a nuvem.
Oracle Database, Java, MySQL e VirtualBox
O Oracle Database, lançado no fim dos anos 1970, continua sendo o produto de origem da empresa e a base do negócio de banco de dados na nuvem.
Boa parte do resto do portfólio veio de aquisições. A compra da Sun Microsystems, anunciada em 2009 por US$ 7,4 bilhões, trouxe para a Oracle a linguagem Java, o banco de dados de código aberto MySQL, o sistema operacional Solaris e o virtualizador VirtualBox — este último, gratuito, é hoje um dos softwares Oracle mais instalados em computadores pessoais no mundo, sem qualquer relação com o negócio corporativo da empresa.
Outras marcas do grupo incluem PeopleSoft, Siebel, JD Edwards, NetSuite e Cerner. A compra da PeopleSoft foi a segunda aquisição hostil da história do setor de software.
A aposta em inteligência artificial: OpenAI, Stargate e os data centers
Em janeiro de 2025, a Oracle foi anunciada na Casa Branca como sócia do Stargate, uma joint venture com a OpenAI, o SoftBank e a MGX para investir até US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA nos Estados Unidos.
Em setembro de 2025, veio o contrato que redefiniu a empresa: a OpenAI fechou a compra de cerca de US$ 300 bilhões em capacidade de computação da Oracle ao longo de aproximadamente cinco anos, começando em 2027 — equivalente a cerca de 4,5 gigawatts de capacidade por ano. É um dos maiores contratos de nuvem já assinados.
O efeito aparece na carteira de contratos. As obrigações de desempenho remanescentes (RPO, na sigla em inglês) — receita contratada mas ainda não reconhecida — chegaram a US$ 664 bilhões no trimestre encerrado em agosto de 2026, alta de US$ 209 bilhões em um ano. Só nesse trimestre a Oracle fechou mais de US$ 30 bilhões em novos contratos de nuvem de IA.
O campus âncora fica em Abilene, no Texas, onde a Oracle entregou 131 mil GPUs em um único trimestre e seis dos oito prédios do complexo, com 618 megawatts. O modelo GPT-6 Astra, da OpenAI, foi treinado ali, segundo a Oracle. O próximo campus de escala de gigawatt é Shackelford, também no Texas.
Para alimentar essas instalações, a Oracle anunciou em 17 de setembro de 2026 investimentos em mais de 1,7 GW de energia eólica no Texas, distribuídos em dez projetos com Clearway Energy, ENGIE, RWE e Scout Clean Energy. O acordo com a RWE é um contrato virtual de compra de energia (vPPA) de 433 MW dos parques Panther Creek I, II e III, no oeste do estado; o com a ENGIE chega a 568 MW. A empresa estima que os projetos gerem energia equivalente ao consumo de mais de 525 mil residências e evitem 1,8 milhão de toneladas de CO₂ por ano em relação à média da rede texana, e diz mirar 100% de eletricidade livre de carbono para seus data centers de IA sob medida até 2035.
Demissões e reestruturação
A Oracle cortou pessoal em larga escala enquanto crescia em receita. No ano fiscal encerrado em 31 de maio de 2026, o quadro global caiu de cerca de 162 mil para cerca de 141 mil funcionários — uma redução de aproximadamente 21 mil pessoas, ou 13%. A empresa gastou US$ 1,84 bilhão em rescisões e outros custos de saída no período, contra US$ 374 milhões no ano anterior.
A primeira onda começou em 31 de março de 2026, atingindo trabalhadores nos Estados Unidos, Índia, Canadá, México e Uruguai. Uma segunda onda começou em 14 de setembro de 2026, com e-mails de desligamento enviados de madrugada. O texto, segundo cópia publicada pelo Business Insider, dizia: "Após cuidadosa consideração das necessidades atuais do negócio da Oracle, decidimos eliminar sua função como parte de uma mudança organizacional mais ampla. Como resultado, hoje é seu último dia de trabalho."
A Oracle não divulgou quantas pessoas foram atingidas em setembro. O que existe é o registro contábil: em documento enviado ao regulador americano em 11 de setembro de 2026, a empresa acrescentou cerca de US$ 700 milhões ao plano de reestruturação de 2026, elevando o custo total estimado para cerca de US$ 2,8 bilhões. O mesmo documento citou pela primeira vez a adoção de inteligência artificial como um dos motivos da reestruturação.
Analistas alertam que o valor não se converte diretamente em número de demitidos. "O suplemento é uma estimativa, não uma fatura", disse Sanchit Vir Gogia, analista-chefe da Greyhound Research, ao Computerworld, observando que a cifra cobre indenizações, rescisões contratuais e outros custos de saída em vários países. Pelos números da própria Oracle no ano fiscal de 2026, pesquisa e desenvolvimento caiu de 50 mil para 43 mil pessoas, vendas e marketing de 31 mil para 25 mil, e serviços de 37 mil para 34 mil.
Dívida, ações e o risco da aposta
O crescimento da Oracle está sendo financiado com dívida, e essa é a principal fonte de questionamento sobre a empresa. No trimestre encerrado em agosto de 2026, o investimento em infraestrutura (capex) saltou para US$ 28,5 bilhões, contra US$ 8,5 bilhões um ano antes. O fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 5,4 bilhões, e a dívida total alcançou US$ 125 bilhões. A companhia projeta capex de US$ 90 bilhões a US$ 95 bilhões no ano fiscal completo.
Em julho de 2026, a S&P rebaixou a nota de crédito corporativo da Oracle, que passou a ficar um degrau acima do grau especulativo ("junk").
O sinal mais recente de estresse veio de Doña Ana County, no Novo México. Cerca de US$ 18 bilhões em empréstimos ligados ao "Project Jupiter", um campus de 1.400 acres arrendado pela Oracle e peça do contrato com a OpenAI, passaram a ser cotados entre 89 e 91 centavos por dólar por bancos do sindicato, incluindo Santander e Jefferies, segundo o Financial Times em 18 de setembro de 2026. A tentativa de revender essa dívida a um conjunto maior de investidores travou, e os bancos ficaram com mais exposição à Oracle do que pretendiam.
O projeto enfrenta resistência local por temores sobre abastecimento de água e qualidade do ar. O escritório de terras do estado barrou um pedido para levar um gasoduto até o data center, que seria alimentado por 2,2 GW de turbinas a gás; a Suprema Corte do Novo México permitiu, em 17 de setembro de 2026, que o licenciamento fosse retomado. Segundo o FT, a ação da Oracle caiu 50% desde o anúncio do contrato com a OpenAI.
A Oracle no Brasil
A Oracle opera duas regiões de nuvem no país, ambas no estado de São Paulo: a região de São Paulo e a região de Vinhedo, no interior paulista, aberta em maio de 2021. A estratégia de duas regiões no mesmo país serve à recuperação de desastres e às exigências de residência de dados — os dados permanecem em território nacional.
As regiões brasileiras oferecem serviços da OCI, incluindo Oracle Autonomous Database, Kubernetes, Oracle Cloud VMware Solution e as aplicações em nuvem. Entre os clientes citados pela empresa estão a TIM Brasil, que migrou 100% de seus data centers, e a SKY.
Em outubro de 2025, durante o SuiteWorld em Las Vegas, a Oracle NetSuite anunciou a disponibilidade geral de seus primeiros data centers no Brasil, nas regiões de São Paulo e Vinhedo. "A América Latina é um mercado estratégico para a NetSuite, e o lançamento de data centers locais marca um marco importante em nosso crescimento", disse Gustavo Moussalli, vice-presidente sênior da NetSuite para a América Latina. Com a adição do Brasil, a NetSuite passou a operar em 35 data centers distribuídos por 18 regiões da OCI em cinco continentes.
Oracle e o TikTok
A Oracle é uma das três investidoras gestoras da TikTok USDS Joint Venture LLC, a empresa que passou a controlar a operação americana do TikTok. O negócio foi fechado em 22 de janeiro de 2026, cumprindo a ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump em 25 de setembro de 2025.
A Oracle, a Silver Lake e a MGX detêm 15% cada. A ByteDance, dona chinesa original, ficou com 19,9% — o teto permitido pela lei americana de 2024 que obrigava a venda ou o banimento do aplicativo. O restante dos 80,1% está pulverizado entre outros investidores, incluindo o family office de Michael Dell e a NJJ Capital, de Xavier Niel.
O papel da Oracle é técnico e vai além da participação societária: os dados dos usuários americanos ficam em seu ambiente de nuvem, o algoritmo de recomendação é retreinado e guardado nessa mesma infraestrutura, e a empresa atua como "parceira de segurança confiável", revisando e validando o código-fonte dos aplicativos — TikTok, CapCut, Lemon8 e outros.
Perguntas frequentes
Quanto vale a Oracle? O valor de mercado varia com a cotação da ação ORCL na Bolsa de Nova York. Como referência de porte: a receita da empresa no ano fiscal encerrado em maio de 2026 foi de US$ 67,36 bilhões, com ativos totais de US$ 261,76 bilhões. Segundo o Financial Times, a ação caiu 50% desde o anúncio do contrato com a OpenAI, em setembro de 2025.
Quem é o dono da Oracle? A Oracle é uma empresa de capital aberto, com ações negociadas na NYSE sob o código ORCL. Larry Ellison, cofundador e presidente do conselho, é o maior acionista individual.
Qual é a diferença entre Oracle Cloud e OCI? "OCI" é a sigla de Oracle Cloud Infrastructure, a camada de infraestrutura da Oracle Cloud — computação, armazenamento e rede. "Oracle Cloud" é o guarda-chuva, que inclui também as aplicações em nuvem (SaaS), como Fusion e NetSuite.
O Oracle Cloud é realmente gratuito? Em parte. Há US$ 300 em créditos válidos por 30 dias e um conjunto de serviços "Always Free" que continuam disponíveis por tempo indeterminado, com limites de capacidade. Fora desses limites, a cobrança é por uso.
O VirtualBox é da Oracle? Sim. O VirtualBox chegou à Oracle com a compra da Sun Microsystems e continua distribuído gratuitamente.
Quantos funcionários a Oracle tem? Cerca de 141 mil em 31 de maio de 2026, contra 162 mil um ano antes. Uma nova rodada de demissões começou em 14 de setembro de 2026, sem número divulgado pela empresa.
