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Sarah Paine — Why wars are so difficult to end

Dwarkesh Patel25 de setembro de 202652minVer no YouTube|

Sarah Paine, historiadora e professora de estratégia naval no U.S. Naval War College, analisa a dinâmica do término de conflitos bélicos, demonstrando por que guerras são fáceis de iniciar, difíceis de encerrar e ainda mais difíceis de concluir nos termos originalmente planejados. A análise utiliza a Guerra Russo-Japonesa (1904–1905) como modelo de encerramento bem-sucedido de guerra limitada e examina os mecanismos teóricos de Carl von Clausewitz e Sun Tzu para explicar dois problemas centrais: a escalada de conflitos regionais em conflagrações globais e o surgimento de insurgências prolongadas após vitórias convencionais.

O modelo da Guerra Russo-Japonesa (1904–1905)

A Guerra Russo-Japonesa representa, na perspectiva japonesa, um modelo de planejamento e terminação de guerra limitada. Em termos quantitativos brutos — extensão territorial, população, base industrial, recursos naturais, efetivo do exército e poder naval —, a Rússia superava o Japão por múltiplas vezes.

Origens e dinâmica operacional

  • Disputa regional: A Rússia expandia sua infraestrutura ferroviária pela Manchúria a partir de Harbin até Port Arthur (base naval livre de gelo no inverno, ao contrário de Vladivostok). O Japão buscava consolidar sua influência na península coreana.
  • Pretexto da Revolta dos Boxers: A Rússia mobilizou tropas para proteger ferrovias durante a revolta na China e se recusou a desocupar a região após o término dos distúrbios. O Japão propôs uma divisão de esferas de influência (reconhecimento russo na Manchúria em troca do reconhecimento japonês na Coreia), proposta rejeitada pelo czar Nicolau II.
  • O cerco de Port Arthur: O Japão atacou de forma preventiva para neutralizar a esquadra russa do Pacífico, necessária para proteger suas linhas de comunicação marítima. O general Nogi Maresuke comandou o cerco terrestre, lançando quatro ofensivas frontais que custaram aproximadamente 45.000 homens — o equivalente a um exército inteiro de campanha (o Japão dispunha inicialmente de apenas quatro exércitos).
  • Colina dos 203 Metros: A captura dessa elevação permitiu o emprego de observadores de tiro para direcionar obuseiros pesados contra os navios russos fundeados no porto. A frota foi destruída em três dias. O czar enviou a Frota do Báltico em uma viagem de circum-navegação de meses para tentar quebrar o cerco; os navios russos restantes foram aniquilados na Batalha de Tsushima em maio de 1905, onde o Japão perdeu apenas três torpedeiros e capturou diversas embarcações inimigas.

Objetivos limitados e custo de oportunidade

O Japão operou estritamente com objetivos limitados: expulsar a presença militar russa da Coreia e obter concessões ferroviárias e territoriais no sul da Manchúria, sem pretensão de mudança de regime em São Petersburgo. O czar Nicolau II iniciou a campanha com pretensões ilimitadas, mas foi forçado a reduzir seus objetivos.

O custo de oportunidade para a Rússia foi desastroso: o capital despendido no Extremo Oriente deixou de ser investido na malha ferroviária da Rússia europeia. Uma década depois, na Primeira Guerra Mundial, o colapso no transporte de alimentos para Petrogrado desencadeou os distúrbios revolucionários que culminaram na execução de Nicolau II e de sua família em um porão na Sibéria.

Conceitos teóricos: Clausewitz e Sun Tzu

Ponto culminante de ataque e de vitória

Clausewitz define o ponto culminante do ataque (operational culminating point) no nível da batalha ou campanha: o estágio além do qual as forças restantes são insuficientes para manter a defesa e a iniciativa se inverte em favor do contra-ataque adversário. Ultrapassar esse ponto acarreta destruição operacional.

O ponto culminante da vitória refere-se ao nível estratégico da guerra como um todo:

  • Abaixo do ponto: Ganhos políticos adicionais poderiam ser obtidos a um custo aceitável, mas a oportunidade é desperdiçada.
  • Acima do ponto: Os custos e riscos operacionais superam os benefícios políticos obtidos, frequentemente provocando a intervenção de terceiras potências que alteram o equilíbrio de forças.

A metáfora da Âmpola de Bolonha

Clausewitz utiliza a Âmpola de Bolonha (ou Gota de Rupert) para ilustrar a resiliência estatal em guerra: a peça é forte o suficiente no exterior para servir de martelo contra pregos, mas se sua estrutura interna for arranhada superficialmente, explode e se fragmenta por inteiro. O agressor raramente sabe antes da batalha se o adversário reagirá com resistência reforçada ou se sofrerá um colapso estrutural interno imediato.

Batalhas decisivas versus batalhas pivotais

  • Batalha pivotal: Altera drasticamente as opções estratégicas de ambos os lados, abrindo novas linhas de ação e fechando outras (ex.: Port Arthur).
  • Batalha decisiva: Encerra a guerra em si (casos raros na história militar, conforme Clausewitz e Maquiavel).

"Terreno da Morte" (Sun Tzu)

Quando um beligerante adota objetivos ilimitados (mudança de regime, dissolução do Estado ou aniquilação física/política), ele coloca a liderança e a população adversária no "terreno da morte". Sem opção viável de sobrevivência fora da luta desesperada, o defensor mobiliza uma resistência fanática e prolongada, transformando Estados frágeis em oponentes letais.

As cinco explicações para o término da Guerra Russo-Japonesa

Paine apresenta cinco hipóteses analíticas para identificar o ponto culminante que levou a Rússia à mesa de negociações em Portsmouth:

  1. Colapso interno (Revolução de 1905): A Rússia era uma das três únicas entidades europeias sem parlamento na época (ao lado do Império Otomano e de Montenegro). O massacre do Domingo Sangrento destruiu a legitimidade imperial; amotinações de reservistas na Rússia europeia ameaçavam o regime enquanto o exército regular estava disperso na Ásia.
  2. A Batalha de Mukden: O maior confronto terrestre da guerra. O Japão empenhou todas as suas reservas humanas (700.000 homens mobilizados no teatro). A ferrovia Transiberiana aumentara sua capacidade de transporte de 20.000–40.000 soldados/mês no início da guerra para 100.000/mês, permitindo à Rússia reunir 800.000 soldados na Ásia até agosto de 1905 (apenas 40% de seu exército total de 3 milhões). O marechal Yamagata Aritomo alertou que o Japão havia esgotado suas reservas de oficiais e homens, recomendando o fim imediato das operações.
  3. Colapso financeiro: O conflito foi financiado por dívida externa. As vitórias japonesas reduziram os juros de seus empréstimos em Londres e Nova York, permitindo a captação de duas rodadas cruciais de crédito pós-Mukden. A Rússia, já fragilizada por recessão e quebra de safra, teve novos empréstimos recusados pelos mercados internacionais até a assinatura da paz.
  4. A Batalha de Tsushima: A aniquilação naval completa privou a Rússia de qualquer meio de contestação marítima, enquanto o Japão capturou embarcações suficientes para expandir o tamanho de sua própria frota.
  5. Ocupação de Sacalina: Por sugestão de Theodore Roosevelt, tropas japonesas invadiram e ocuparam a ilha de Sacalina — território soberano russo indiscutível —, criando uma moeda de troca essencial para as negociações de paz.

A saída negociada pré-planejada do Japão

Antes mesmo do primeiro disparo em Port Arthur, o primeiro-ministro Ito Hirobumi estruturou a estratégia de saída. Ele mobilizou contatos acadêmicos na Universidade de Harvard: enviou o visconde Kaneko Kentaro para cultivar a mediação do presidente Theodore Roosevelt (também graduado em Harvard) e designou o barão Komura Jutaro para liderar a delegação de paz. Quando Yamagata determinou que o exército alcançara seu limite físico em Mukden, o governo japonês imediatamente acionou Roosevelt para atuar como o "corpo de bombeiros" e impor o encerramento do conflito.

O Tratado de Portsmouth garantiu ao Japão o controle sobre a Coreia, o terço meridional da Manchúria (incluindo ferrovias de bitola larga e a base de Port Arthur) e a metade sul de Sacalina, consolidando o país como potência hegemônica no Leste Asiático.

Guerra do Golfo (1991) vs. Guerra da Coreia (1950–1953)

Guerra do Golfo: Precisão de objetivos e financiamento externo

  • Objetivos limitados claros: Estabelecidos pela Diretiva de Segurança Nacional 54 (NSCD 54) do presidente George H. W. Bush — expulsão das forças iraquianas do Kuwait, restauração do governo legítimo kuwaitiano e preservação da estabilidade regional, sem avanço para Bagdá.
  • Financiamento por terceiros: A coalizão de 34 países pagou os custos da guerra. Aliados repassaram mais de US$ 50 bilhões aos Estados Unidos para cobrir despesas operacionais, além de US$ 14 bilhões distribuídos a parceiros de coalizão.
  • Assimetria de perdas: A coalizão mobilizou quase 1 milhão de combatentes (cerca de 700.000 norte-americanos e mais de 200.000 de aliados). O Iraque perdeu entre 20.000 e 35.000 militares e cerca de 3.000 civis. A coalizão sofreu 392 baixas fatais totais (sendo 258 norte-americanas).
  • Isolamento diplomático total: Saddam Hussein invadiu o Kuwait para amortizar dívidas da guerra contra o Irã e monopolizar a produção de petróleo, mas enfrentou oposição unificada de quase todos os países vizinhos e potências ocidentais.

Guerra da Coreia: A oscilação catastrófica de objetivos

  • Primeira ultrapassagem do ponto culminante: Kim Il-sung invadiu a Coreia do Sul esperando uma guerra civil isolada; seu avanço precipitou a intervenção militar dos EUA e da ONU.
  • Segunda ultrapassagem do ponto culminante: Após o desembarque em Incheon, os Estados Unidos alteraram seu objetivo político de restaurar o status quo (fronteira no Paralelo 38) para a unificação total da península (mudança de regime/objetivo ilimitado). A aproximação das tropas do general Douglas MacArthur ao Rio Yalu provocou a intervenção maciça da China de Mao Tsé-Tung com centenas de milhares de homens.
  • Geografia desfavorável: A península coreana possui uma fronteira terrestre interna de 250 km, mas divide 1.400 km de fronteira ao norte com a base industrial chinesa na Manchúria e 17 km com a Rússia, inviabilizando qualquer isolamento do teatro de operações.

Dinâmicas de escalada: de guerras regionais a guerras mundiais

Guerras regionais tornam-se mundiais quando frentes amplas prolongam a luta, permitindo que terceiras potências calculem intervenções contra rivais fragilizados:

  • Revolução Americana: A Grã-Bretanha tentou destruir o Congresso Continental e o Exército Continental (objetivo ilimitado), colocando os rebeldes no "terreno da morte". A extensão da guerra levou a alianças francesas (1778), espanholas (1779) e holandesas (1780), expandindo os combates para Gibraltar, Minorca, Cabo Verde, Índia, o Canal da Mancha e as valiosas ilhas açucareiras do Caribe. A Grã-Bretanha optou por ceder as Treze Colônias para proteger suas posses caribenhas.
  • Primeira Guerra Mundial: Cada participante entrou esperando ganhos territoriais rápidos e limitados, mas os objetivos dos blocos de aliança eram irreconciliáveis entre si:
    • Grã-Bretanha buscava a preservação do status quo;
    • França exigia a recuperação da Alsácia-Lorena;
    • Itália almejava territórios no Mediterrâneo oriental;
    • Rússia e Áustria-Hungria disputavam a supremacia nos Bálcãs;
    • Império Otomano buscava recuperar territórios balcânicos;
    • Alemanha exigia concessões coloniais globais. Nenhum membro de aliança podia aceitar um acordo de paz parcial sem alienar seus próprios aliados vitais.
  • Segunda Guerra Mundial na Ásia: A tarifa protecionista norte-americana Smoot-Hawley (1930) colapsou o comércio internacional. O Japão buscou autarquia invadindo a Manchúria (1931) e depois toda a China (1937). O impasse forçou Tóquio a tentar cortar toda a ajuda externa à China atacando simultaneamente em 7–8 de dezembro de 1941 Pearl Harbor, Malásia, Filipinas, Cingapura, Ilha Wake, Guam, Tailândia e a Concessão Internacional de Xangai, resultando na criação de uma supercoalizão inimiga (EUA, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia).

Estratégias de imposição de custos: Guerra irregular e sociedades em mosaico

Quando um beligerante é derrotado no campo de batalha convencional, mas se recusa a aceitar os termos políticos do vencedor, ele adota a estratégia de negação de vitória por insurgência.

O dilema de forças na China e na Revolução Americana

Na Segunda Guerra Sino-Japonesa, o Japão enfrentou forças regulares nacionalistas e guerrilhas comunistas/nacionalistas:

  • Ao concentrar forças para engajar exércitos regulares, o ocupante deixava a retaguarda desprotegida para a guerrilha;
  • Ao dispersar forças para pacificar áreas rurais, enfraquecia suas guarnições diante de contra-ataques regulares.

George Washington operou dinâmica idêntica, combinando o Exército Continental regular com milícias locais para infligir atrito contínuo à Grã-Bretanha.

O "Valor do Objetivo" (Value of the Object)

O defensor local luta em sua própria terra (onde o valor do objetivo é existencial/máximo), enquanto a potência externa que intervém opera longe de sua base com valor decrescente do objetivo. Se a insurgência mantiver os custos humanos e financeiros elevados por tempo suficiente, a potência externa inevitavelmente se retira, padrão verificado no Vietnã, no Afeganistão e no Iraque.

O colapso pós-invasão no Iraque (2003)

A invasão de 2003 teve como meta um objetivo ilimitado (derrubada do regime em Bagdá). A destruição das instituições estatais colapsou uma sociedade em mosaico, onde lealdades étnicas e sectárias superam a identidade nacional:

  • Fronteiras incontroláveis: Enquanto a Guerra do Golfo de 1991 envolvia a libertação de uma fronteira de 158 milhas (254 km), a ocupação do Iraque exigiu o controle de mais de 2.000 milhas (3.200 km) de fronteiras permeáveis.
  • Interferência de vizinhos regionais: Três potências regionais vizinhas com ambições estratégicas — Arábia Saudita, Irã e Turquia — intervieram diretamente por meio de facções locais.
  • Gatilho de atrito: A destruição da Mesquita de al-Askari em Samarra por carro-bomba detonou uma guerra civil sectária impossível de pacificar por meios militares convencionais.

Critérios analíticos fundamentais antes de iniciar ou avaliar uma guerra

Paine conclui detalhando as perguntas essenciais que formuladores de política devem responder antes do início de qualquer conflito:

  • Identificação de atores e interesses: Quem são todas as partes envolvidas e quem possui interesses indiretos na disputa?
  • Natureza dos objetivos: Quais beligerantes possuem objetivos limitados e quais buscam objetivos ilimitados? (Exemplo: na Guerra da Ucrânia, a Rússia opera com objetivos ilimitados de soberania/regime contra a Ucrânia, enquanto a Ucrânia tem o objetivo limitado de expulsão do invasor de suas fronteiras).
  • Alinhamento de coalizões: Em que medida os objetivos políticos de aliados são compatíveis entre si ou mutuamente excludentes?
  • Valor relativo do objetivo: Para qual dos lados a sobrevivência no conflito é existencial e para qual lado a vitória é apenas uma preferência política opcional?
  • Acesso geográfico e santuários: As fronteiras do teatro de operações são isoláveis militarmente, ou o adversário dispõe de refúgios territoriais e linhas de suprimento protegidas contra intervenção externa?