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How Mark Zuckerberg, Palmer Luckey, Josh Kushner & Scott Wu Think | Jeremy Stern

David Senra04 de outubro de 20261h08minVer no YouTube|

Jeremy Stern, editor-chefe da Colossus, detalha os bastidores, a psicologia e o processo de reportagem por trás de seus extensos perfis de fundadores e investidores como Mark Zuckerberg, Palmer Luckey, Scott Wu e Josh Kushner. A conversa com David Senra explora a motivação desses líderes, a aplicação de ambição literária ao jornalismo de negócios e as origens intelectuais e pessoais do próprio trabalho de Stern.


Os bastidores do perfil de Mark Zuckerberg

O contato inicial partiu da própria equipe de Mark Zuckerberg no final do ano anterior, o que surpreendeu Jeremy Stern. No perfil anterior que Stern escrevera sobre Palmer Luckey, Zuckerberg figurava como o grande antagonista por ter demitido (ou não impedido a demissão de) Luckey em 2016, após uma doação a um comitê pró-Donald Trump. Um comentário formal fornecido por Zuckerberg para aquele primeiro texto acabou aproximando os dois.

Stern e Zuckerberg realizaram um almoço inicial de duas horas off the record. O ceticismo inicial de Stern — dado que Zuckerberg é uma das figuras mais superexpostas do planeta, sob escrutínio público há 25 anos — foi superado pela constatação de que ele é uma figura singular:

  • O último remanescente de sua geração: Larry Page e Sergey Brin se afastaram do Google; Jeff Bezos deixou a liderança da Amazon; Bill Gates saiu da Microsoft; Steve Jobs faleceu. Zuckerberg permanece no comando executivo.
  • Escala geracional: É o único fundador millennial nessa ordem de grandeza. A segunda empresa mais valiosa fundada por um millennial é o Stripe (avaliada entre US$ 100 bilhões e US$ 150 bilhões), cerca de um décimo do tamanho da Meta.

A apuração durou entre cinco e seis meses, envolvendo conversas diretas com Zuckerberg e entrevistas com quase 40 pessoas de seu círculo — abrindo o perfil com uma conversa com os pais de Mark e encerrando com sua rotina familiar e sua esposa, Priscilla Chan.

A identificação com Augusto e Roma Antiga

O interesse de Zuckerberg por Roma não é superficial nem recente; remonta aos 15 ou 16 anos, época em que criava jogos de computador e estudava latim no ensino médio (ele ainda recita versos de Eneida, de Virgílio, aos 42 anos).

  • Fórmulas internas: No início do Facebook, encerrava reuniões com a frase "Cartago deve ser destruída" ou gritando "dominação!" — até Sean Parker alertá-lo de que a palavra poderia ser usada contra eles em processos antitruste.
  • Agripa: Recentemente, Zuckerberg apresentou seu agente de IA chamando-o de "Agrippa", em homenagem a Marco Vipsânio Agripa, principal general e tenente de Augusto.
  • Interpretação idiossincrática: Zuckerberg descreve o papel de Augusto como o de quem transformou uma economia baseada em pilhagem em uma economia de comércio pacífico, permitindo aos cidadãos trabalhar e negociar sem guerras civis constantes. Stern observa que essa visão é seletiva, pois omite que Augusto conseguiu isso criando o primeiro exército profissional permanente de Roma e liquidando a liberdade política da República para instituir a autocracia de um só homem.

Impulso competitivo e execução metódica

Pessoas próximas e rivais de Zuckerberg apontam dois traços recorrentes:

  1. Sua competitividade empresarial e frieza estratégica são invariavelmente subestimadas pelo público externo.
  2. No trato interpessoal direto, ele não é tirânico nem maltrata seus funcionários.

Um ex-pesquisador de inteligência artificial da Meta, hoje em um laboratório concorrente, declarou a Stern: "Mark é a porra do Exterminador do Futuro. Ele simplesmente não para. Uma de suas vantagens é que ele está sempre descontente, mas não é um babaca. Ele apenas continua avançando."

O próprio Zuckerberg definiu seu diferencial competitivo em relação a Sam Altman e Elon Musk como um trabalho focado e desprovido de espetáculo: sentar-se com uma equipe e aprimorar metodicamente um único produto ao longo de décadas, sem necessidade de captações contínuas de capital ou pedidos de permissão a terceiros.

A vantagem estrutural da Meta na corrida de IA

Stern e Senra destacam que os laboratórios puros de IA enfrentam custos massivos de aluguel de capacidade computacional e infraestrutura, enquanto a Meta consolidou vantagens decisivas:

  • Distribuição global: Uma base instalada potencial de aproximadamente metade da população mundial em qualquer dia, somando os usuários de WhatsApp, Instagram, Facebook, Messenger e Meta AI.
  • Infraestrutura física: Duas décadas de trabalho silencioso e burocrático negociando contratos de infraestrutura, redes de fibra óptica, incentivos fiscais e centros de dados com governos municipais e estaduais.
  • Monetização de complementos: O valor gerado pela IA tende a acumular nos pontos de contato e distribuição que a Meta já domina.

A recusa em vender ou se afastar

Em 2006, aos 21 ou 22 anos, Zuckerberg recebeu uma oferta de compra do Yahoo! por US$ 1 bilhão. Embora detivesse cerca de 70% da empresa e toda a diretoria e o conselho (composto na época por Don Graham e Peter Thiel) o pressionassem a aceitar, ele recusou instantaneamente, o que levou à renúncia em massa de sua equipe de executivos.

Stern argumenta que tanto Zuckerberg quanto Elon Musk são figuras que jamais se aposentarão para viver em iates ou se dedicar exclusivamente à filantropia; a tendência é que ambos permaneçam como CEOs até o fim da vida.


Palmer Luckey e a tecnologia de defesa

O primeiro perfil biográfico escrito por Stern foi sobre Palmer Luckey, criador da Oculus e fundador da Anduril Industries. Stern vinha do jornalismo político e de relações internacionais, sem histórico em tecnologia.

A premissa: teste de realidade da Defesa Tech

O ponto de partida foi o ataque de 7 de outubro de 2023 em Israel. As Forças de Defesa de Israel dispunham de um aparato de guerra híbrida de quarta geração amplamente considerado o mais avançado do planeta (redes de drones, sensores subterrâneos, cercas inteligentes e satélites), dispensando em tese meios militares convencionais. O Hamas invadiu o território usando asas-deltas, maquinário de construção civil e armas leves.

Stern formulou a questão: A tecnologia de defesa moderna é eficaz ou ilusória? O cenário na Ucrânia combinava enxames de drones com centenas de milhares de soldados lutando em trincheiras com táticas do século XIX. Para investigar a maturidade desse setor, Stern procurou Palmer Luckey, evoluindo de uma proposta de 3.000 palavras para um perfil biográfico de 15.000 palavras.

Integridade e custo pessoal

O perfil foi publicado por volta de agosto de 2024, semanas após o atentado contra Donald Trump em Butler, Pensilvânia — momento em que diversos investidores do Vale do Silício passaram a apoiar Trump publicamente. O diferencial de Luckey foi ter assumido apoio político em 2016, quando o gesto gerou repúdio unânime no setor de tecnologia, custando-lhe o emprego no Facebook e o controle da Oculus.


O ofício da escrita e a ambição literária nos negócios

Stern explica que não busca extrair lições práticas de gestão para sua vida pessoal. Ao concluir um perfil de seis a doze meses, ele se desliga completamente do tema para preservar a saúde mental.

O perfil como gênero literário americano

Citando seu antigo colega David Samuels (da revista Tablet), Stern afirma que o perfil longo de revista (long-form magazine profile) é a única forma de escrita indígena genuinamente americana — diferentemente do romance e da poesia, que vieram da Europa. Essa tradição teve seu ápice em veículos como The New Yorker (anos 1940 e 1950), Esquire (anos 1960) e Vanity Fair e Harper's (anos 1980 e 1990), sendo posteriormente fragmentada pela internet.

Stern identificou que as figuras mais centrais, interdisciplinares e determinantes do futuro americano contemporâneo são fundadores de tecnologia e investidores (assim como foram físicos e burocratas de segurança nacional nos anos 1940, ou cineastas e músicos nos anos 1960 e 1970). Contudo, a qualidade média da prosa que cobre negócios carece de estilo literário perene. Sua meta na Colossus é aplicar rigor estético, ritmo e ambição narrativa a esses temas.

Ele cita um ensaio de David Foster Wallace sobre escritores serem "observadores natos" (watchers and lurkers) que necessitam da posição de testemunhas e temem o momento em que a situação se inverte e passam a ser os interrogados.


Scott Wu e a Cognition

Scott Wu, cofundador e CEO da Cognition (criadora do assistente de código Devin), foi procurado por Stern no início do verão norte-americano, em meio à saturação e rejeição pública em torno de fundadores de IA caricatos ou egocêntricos.

O formato de entrevista direta

Stern realizou duas conversas de 90 minutos em intervalos de tempo distintos. O perfil acabou adotando um formato próximo à transcrição comentada, pois a autenticidade de Wu e a ausência de media training tornavam a voz direta mais potente do que uma narrativa em terceira pessoa.

Características de Scott Wu

  • Gênio matemático e liderança: Mesmo entre medalhistas de ouro das Olimpíadas Internacionais de Matemática, Física e Informática, Wu é apontado como a referência máxima tanto em competição quanto em mentoria técnica. Em grupos de cientistas de ponta, sua autoridade de liderança emerge imediatamente, mesmo tendo menos de 30 anos.
  • Competitividade compulsiva: Diferente de Zuckerberg (competitivo dentro do objetivo de sua empresa), Wu é comparado a Michael Jordan por querer vencer em qualquer disputa trivial imediata (jogos de dados, moedas ou velocidade).
  • Independência: Wu recusou múltiplas propostas bilionárias de aquisição para manter a Cognition independente, logo após a Cursor fechar um acordo de grande porte.

Josh Kushner, Thrive Capital e o Sonho Americano

O perfil sobre Josh Kushner aborda a trajetória da Thrive Capital sob a ótica da história familiar e da identidade judaico-americana.

A saga dos Kushner e os partisans de Bielski

A avó de Josh perdeu quase toda a família no Holocausto e sobreviveu integrando os Bielski partisans nas florestas da atual Bielorrússia — grupo de fugitivos de campos de concentração liderados por Tuvia Bielski que combateu e executou soldados nazistas (episódio retratado no filme Defiance, estrelado por Daniel Craig). Após décadas tentando emigrar, chegou aos Estados Unidos sem recursos. Em apenas duas gerações, o clã ergueu um império imobiliário em Nova Jersey a ponto de líderes mundiais como Bill Clinton e Benjamin Netanyahu frequentarem a casa da matriarca.

Stern, também neto de sobreviventes do Holocausto, conecta essa trajetória ao conceito do "Sonho Americano" como uma "supratribo": uma estrutura constitucional e de liberdades individuais que permite a qualquer cidadão preservar suas identidades étnicas ou culturais sem abrir mão da identidade compartilhada.

A conversa com Rick Rubin

O perfil abre com um encontro matinal entre Josh Kushner e o produtor musical Rick Rubin. Kushner procurou Rubin aflito com uma pergunta central: "O que eu faço se perder a magia?"

Stern interpreta essa angústia como um reflexo psicológico típico de famílias marcadas pelo trauma do Holocausto: o medo latente de que todo o patrimônio e realizações construídos possam ser arrancados da noite para o dia, forçando o indivíduo a recomeçar do zero.


A mentora de Jeremy Stern: Natalia Olshanskaya

Questionado por David Senra sobre quem desempenhava em sua vida o papel que Rick Rubin exerceu para Josh Kushner, Stern relatou sua relação com Natalia Olshanskaya, sua professora de russo na universidade.

Stern começou a estudar russo aos 18 anos por acaso, após não conseguir dispensa do currículo de línguas devido a notas baixas em espanhol. O idioma tornou-se sua graduação, levando-o a morar e estudar na Rússia por um ano e meio, período em que conversava com Shansky todos os domingos.

O dever para com o próprio talento

Shansky, uma mulher que enfrentou décadas de dificuldades para escapar da União Soviética com sua filha pequena, confrontava o comportamento autodestrutivo do jovem Stern (marcado pelo consumo excessivo de álcool e drogas):

"Ela acreditava que, se alguém tem um dom, tem uma obrigação perante esse dom. Se você não fizer tudo o que estiver ao seu alcance para compartilhar e explorar esse talento, está pecando contra si mesmo e contra Deus."

O alistamento e a despedida

Quando Stern decidiu se alistar no Exército dos EUA, Shansky ficou desapontada, considerando irracional que alguém nascido em condições de conforto e segurança arriscasse a vida fisicamente. Devido aos cortes orçamentários do governo Obama (sequestration), houve uma espera de oito meses entre a assinatura do contrato e o embarque para o treinamento básico, período em que ambos conversaram intensamente.

Durante o treinamento, sem acesso a celulares, Stern se correspondia por cartas apenas com sua namorada (atual esposa) e com Natasha. A professora faleceu em 2015 em decorrência de esclerose lateral amiotrófica (ELA / doença de Lou Gehrig). Stern preserva suas mensagens de voz arquivadas na nuvem e batizou sua filha de um ano com o nome de Natalya.