O que está acontecendo
Desde a última semana de setembro de 2026, estudantes do ensino médio (lycéens, de 15 a 18 anos) bloqueiam e protestam em frente a escolas em toda a França contra as condições de ensino. O movimento começou em escolas da região de Paris e se espalhou pelo país em poucos dias. Em 1º de outubro, universitários aderiram aos bloqueios.
Segundo o Ministério do Interior, 1.027 liceus foram afetados por manifestações na quinta-feira, 1º de outubro, 222 deles bloqueados. Cerca de 30 campi universitários também foram bloqueados naquele dia, incluindo unidades em Paris, Estrasburgo, Marselha, Lyon, Reims, Poitiers e Nanterre, segundo a União Estudantil. Na sexta-feira, 2 de outubro, cerca de 400 das 3.700 escolas de ensino médio do país foram fechadas por ordem dos prefeitos de polícia, e muitas passaram para aulas a distância.
Reivindicações
Os estudantes reclamam de jornadas longas, falta de professores, ausências de docentes que não são repostas, turmas superlotadas, prédios deteriorados e salas superaquecidas durante as ondas de calor do ano. Uma aluna ouvida pela AFP citou aulas das 8h às 18h e turmas sem professor responsável.
Não há uma pauta nacional única. O ministro da Educação, Édouard Geffray, afirmou que o movimento nasceu de "um conjunto bastante diverso de reivindicações locais". As entidades estudantis pedem "financiamento maciço" para liceus e universidades. A Unef, terceira maior organização estudantil do país, protesta também contra a redução de vagas nas universidades e o congelamento do auxílio-moradia.
Cronologia
- Última semana de setembro de 2026: começam os bloqueios em escolas da região de Paris.
- 29 de setembro (terça): dia de confrontos, com incêndio de contêineres e objetos lançados contra a polícia; 440 pessoas detidas, segundo o Ministério do Interior.
- 30 de setembro (quarta): o movimento atinge 356 escolas, contra 338 na véspera; 625 detidos e 83 policiais e gendarmes feridos. Em Tours, um estudante é hospitalizado com ferimento na cabeça que o Ministério Público considerou "compatível" com disparo de LBD, arma não letal da polícia. O governo anuncia uma plataforma de consulta para os alunos.
- 1º de outubro (quinta): universidades aderem; 1.027 liceus afetados e 1.949 pessoas detidas no dia; 305 policiais, gendarmes e bombeiros feridos. Incêndios atingem escolas em Nantes e Rouen. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu convoca reunião de crise e manda ministros cancelarem viagens oficiais. À noite, o governo retira a proposta de taxa de matrícula para cursos BTS e classes preparatórias.
- 2 de outubro (sexta): cerca de 400 escolas fechadas; novos focos de incêndio e confrontos com a polícia.
- 6 de outubro (terça): dia nacional de mobilização convocado pelas entidades estudantis.
Violência e detenções
O governo passou a classificar os protestos como "violência urbana". Houve lixeiras e contêineres incendiados, barricadas e disparos de rojões. Em Nantes, o fogo de uma lixeira se espalhou para a entrada do liceu Nelson Mandela. Em Marselha, funcionários do liceu Victor Hugo foram atingidos por gasolina, e o transporte público de Marselha e Estrasburgo foi interrompido em 1º de outubro.
Até 2 de outubro, Geffray contabilizava 170 alunos e 65 funcionários da educação feridos desde o início do movimento e mais de 100 escolas com danos graves. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, disse que cerca de 90% dos detidos eram menores de idade.
A IGPN, órgão que investiga a polícia, abriu três inquéritos sobre estudantes feridos em Sevran, Saint-Ouen-l'Aumône e Tours. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou que as forças de segurança agiram "com muita proporcionalidade".
Resposta do governo
Além da reunião de crise de 1º de outubro, o governo anunciou uma plataforma on-line em que todos os alunos do ensino médio podem registrar demandas, para depois dar "respostas estruturadas". A primeira concessão concreta veio na noite de 1º de outubro: Geffray anunciou que o orçamento de 2027 deixaria de prever taxas de matrícula de €178 para alunos não bolsistas dos cursos técnicos BTS e de €270 para os das classes preparatórias às grandes écoles.
Em 2 de outubro, Darmanin disse ter pedido ao Ministério Público que busque a responsabilização civil dos pais de menores envolvidos em vandalismo: "Não é o menor quem paga, são os pais". Geffray pediu aos pais que impeçam os filhos de ir aos bloqueios e marcou reuniões com entidades estudantis, associações de pais e sindicatos de professores.
Em 30 de setembro, o presidente Emmanuel Macron disse entender "as ansiedades, às vezes a raiva" dos jovens, mas afirmou que nada justifica a violência e acusou políticos da esquerda radical de "legitimar a violência".
Repercussão política
Os protestos ocorrem a poucos dias da apresentação do orçamento, em meio a greves de servidores públicos por reajuste salarial (cerca de 200 mil manifestantes em 29 de setembro, segundo o Ministério do Interior) e a meses da eleição presidencial de maio de 2027, à qual Macron não pode concorrer.
O gabinete de Lecornu descreveu os protestos como "manobra organizada pela LFI e seus satélites na extrema esquerda". O coordenador da França Insubmissa (LFI), Manuel Bompard, rejeitou a acusação. A participação da LFI na organização não foi comprovada de forma independente. Jean-Luc Mélenchon, líder da LFI, chamou a resposta do governo de repressiva e disse defender protestos não violentos. Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional, afirmou que já não se trata de protesto de estudantes, e sim de "tumultos organizados por profissionais", e defendeu uma nova lei antidistúrbios.
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