O que é a Novo Nordisk
A Novo Nordisk é uma farmacêutica dinamarquesa fundada em 1923, com sede em Bagsværd, na região metropolitana de Copenhague. Nasceu da fusão de duas empresas criadas em 1920 e construiu sua história em torno da insulina: é a maior produtora mundial do hormônio, com cerca de metade do mercado global.
Hoje a companhia emprega aproximadamente 64 mil pessoas em 80 países e comercializa seus produtos em cerca de 170. Além da linha de insulinas (Levemir, Tresiba, NovoRapid, Novolin), o portfólio inclui os análogos de GLP-1 que transformaram a empresa na década de 2020 — Victoza e Saxenda (liraglutida) e, sobretudo, Ozempic e Wegovy (semaglutida) — além de medicamentos para hemofilia como o NovoSeven.
Em setembro de 2026, sob o comando do CEO Maziar "Mike" Doustdar, a empresa passou a se apresentar comercialmente apenas como "Novo", com um novo logotipo do touro Apis e o slogan "Lasting Health Starts Now". A razão social segue sendo Novo Nordisk.
Ozempic e Wegovy: a semaglutida
Ozempic e Wegovy são a mesma molécula, a semaglutida, aprovada em indicações e doses diferentes: o Ozempic para diabetes tipo 2 e o Wegovy para o tratamento da obesidade. A semaglutida é um análogo do GLP-1, hormônio que regula a saciedade e a liberação de insulina — o que explica tanto o efeito sobre a glicemia quanto a perda de peso.
Foram esses dois produtos que levaram a Novo Nordisk ao posto de empresa mais valiosa da Europa em 2024, e é a disputa por esse mercado — que analistas projetam em mais de US$ 100 bilhões anuais até 2030 — que define o momento atual da companhia.
Novo Nordisk no Brasil e a fábrica de Montes Claros
A Novo Nordisk opera no Brasil desde 1990 e tem mais de 2.100 funcionários no país, distribuídos entre a sede administrativa em São Paulo, dois centros de distribuição no Paraná e a unidade fabril de Montes Claros, em Minas Gerais.
Inaugurada em 2007, a fábrica de Montes Claros emprega cerca de 1.700 pessoas e é a maior unidade de insulina da América Latina. Ela responde por 25% de toda a insulina produzida pela Novo Nordisk no mundo — o equivalente a cerca de 15% da insulina consumida globalmente — e as insulinas que exporta representam 25% de toda a exportação farmacêutica brasileira. A planta também abastece o SUS com insulina humana de ação lenta e rápida e insulina análoga de ação rápida em caneta.
Em 2025 a empresa anunciou um investimento de R$ 6,4 bilhões na expansão da unidade, um dos maiores aportes farmacêuticos já feitos no país. O projeto acrescenta processos de produção asséptica voltados a produtos GLP-1, um novo armazém e um laboratório de controle de qualidade. A produção na nova área está prevista para começar em 2028, com 600 empregos permanentes e até 2.000 trabalhadores durante as obras. A unidade busca certificação LEED, com energia 100% proveniente de painéis solares e captação de água de chuva.
Fim da patente da semaglutida no Brasil
A patente da semaglutida expira no Brasil em 20 de março de 2026, abrindo o mercado para genéricos e similares de Ozempic e Wegovy.
A Novo Nordisk tentou estender a proteção por 12 anos, alegando que a demora do INPI na análise havia encurtado indevidamente seu período de exclusividade. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido: reconheceu a irrazoabilidade do atraso do INPI e o prejuízo à empresa, mas concluiu que não há mecanismo legal para ajustar o prazo de patente sem nova legislação.
O mercado brasileiro de canetas injetáveis para controle de peso e metabólico movimenta cerca de R$ 11 bilhões por ano. Pela legislação brasileira, um genérico precisa custar ao menos 35% menos que o medicamento de referência. Ao menos 20 pedidos de registro de medicamentos à base de semaglutida e liraglutida aguardavam análise da Anvisa, apresentados por diferentes empresas; a EMS, líder no mercado de genéricos, investiu mais de R$ 1 bilhão em sua planta de Hortolândia (SP) e afirma ter capacidade de produzir do insumo farmacêutico ativo ao produto final.
A disputa com a Eli Lilly e o CagriSema
A norte-americana Eli Lilly, com a tirzepatida (Mounjaro e Zepbound), tomou espaço da Novo Nordisk no mercado de obesidade. O contraste aparece nas projeções: enquanto a Lilly orientou crescimento de vendas de cerca de 25% em 2026, a Novo Nordisk projetou queda de 5% a 13% em vendas e lucro no mesmo ano.
O CagriSema — combinação de cagrilintida e semaglutida — é a aposta da empresa para retomar a liderança. Em fevereiro de 2026, um estudo comparativo direto contra a tirzepatida não atingiu o desfecho primário de não inferioridade em perda de peso, e a ação caiu mais de 16%.
Em 21 de setembro de 2026 a empresa divulgou resultados preliminares dos estudos de fase 3 REIMAGINE 5 e REDEFINE 9. No REIMAGINE 5, o CagriSema 1 mg mostrou perda de peso superior à tirzepatida 5 mg (12,4% contra 9,1%) e redução não inferior de HbA1c (1,71% contra 1,67%). No REDEFINE 9, em obesidade, o CagriSema levou a 21,0% de perda de peso contra 2,0% do placebo em 68 semanas. A empresa protocolou o pedido de registro do CagriSema para controle de peso junto à FDA em dezembro de 2025, com decisão esperada para o quarto trimestre de 2026.
Crise: queda das ações, demissões e reestruturação
A Novo Nordisk passa pela pior fase de sua história recente. A ação acumula queda de cerca de 75% desde o pico de pouco mais de 1.000 coroas dinamarquesas em meados de 2024 — no mesmo intervalo, a Eli Lilly subiu cerca de 400% e o índice europeu Stoxx 600 avançou 55%. Só em julho de 2025, após a empresa cortar sua projeção de vendas, os papéis caíram 21,7% em um dia, apagando cerca de US$ 70 bilhões em valor de mercado.
Maziar "Mike" Doustdar assumiu como CEO em agosto de 2025. Sob seu comando a empresa anunciou o corte de 9.000 postos — 11% da força de trabalho global, 5.000 deles na Dinamarca — dentro de um plano para economizar 8 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de US$ 1,25 bilhão) até o fim de 2026. Em setembro de 2026, o balanço de 12 meses chegou a 13 mil postos eliminados, segundo a empresa em boa parte por atrito natural e vagas deixadas em aberto.
No Capital Markets Day realizado em Londres em 21 de setembro de 2026, Doustdar apresentou a estratégia para 2030: lançar mais de cinco produtos multiblockbuster até o fim da década, manter ao menos cinco programas de fase 3 em obesidade e diabetes e outros cinco em demais áreas terapêuticas, e mirar mais de 150 bilhões de coroas em vendas ajustadas ao risco do pipeline em 2035. Os investidores consideraram as metas vagas demais: as ações negociadas nos Estados Unidos chegaram a cair 9% durante o pregão e fecharam em queda de cerca de 8%.
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