Visão geral
A interferência estrangeira nas eleições de 2026 é o conjunto de suspeitas de que agentes dos Estados Unidos tentaram influenciar a disputa presidencial brasileira a favor de Flávio Bolsonaro (PL). O centro do caso é a Rockbridge Network, rede de doadores conservadores americanos cofundada pelo vice-presidente J.D. Vance. Empresários ligados a ela teriam ajudado a campanha de Flávio, que nega ter recebido recursos ou estrutura estrangeira (Folha).
Em 27 de outubro de 2026, dois dias depois da reeleição de Lula, o ministro Flávio Dino, do STF, mandou a Polícia Federal abrir inquérito sobre o caso (Agência Brasil, Valor). Na véspera, o presidente americano Donald Trump disse, sem apresentar provas, que a eleição "pareceu mais uma eleição fraudada" (g1, BBC).
O que é a Rockbridge Network
A Rockbridge Network foi criada em 2019 nos Estados Unidos por Christopher Buskirk, editor do site conservador American Greatness, e por J.D. Vance, então conhecido como autor de livro. Quem aproximou os dois foi o investidor Peter Thiel (g1). O nome vem de Rockbridge, em Ohio, onde aconteceu um dos primeiros encontros (Wikipédia).
O grupo reúne doadores do Partido Republicano, a maioria do setor de tecnologia, e se descreve como "uma espécie de empresa de capital de risco voltada para a política" (g1). Tinha até 150 membros em novembro de 2024 e arrecadou mais de US$ 100 milhões até aquele ano (g1). Em 2024, documentos obtidos pela Reuters mostraram um orçamento de cerca de US$ 75 milhões para a eleição americana daquele ano.
A Rockbridge no Brasil: Tallis Gomes e Pedro Sang
A Rockbridge Brazil LLC foi registrada no Wyoming, nos Estados Unidos, em maio de 2026. A rede negou por semanas ter planos para o Brasil, até admitir a empresa. Ela diz que a iniciativa não prosperou, que a empresa nunca recebeu recursos nem operou e que brasileiros produziram documentos com o nome dela sem consentimento (The Conversation, Intercept Brasil).
Dois empresários aparecem no caso:
- Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi e presidente do G4 Educação, disse em abril de 2026, no podcast Os Sócios, que fazia parte da Rockbridge e que Flávio lhe pedia propostas por escrito para o plano de governo. Depois, ao Intercept, disse participar só de um grupo de networking (The Conversation). À Folha, disse ter conversado com Flávio dezenas de vezes.
- Pedro Sang, apresentado num documento como CEO da Rockbridge Brasil, ajudou a montar o comitê de Flávio na avenida República do Líbano, em São Paulo, e lá fazia relatórios de monitoramento de redes e pesquisas, segundo seis pessoas próximas à campanha ouvidas pela Folha em 1º de outubro de 2026. Os serviços dele não aparecem na prestação de contas da campanha ao TSE. Sang diz que é amigo de pessoas da campanha, mas nunca trabalhou nela (Folha).
Sang conheceu a Rockbridge por meio de André Marinho (Novo), candidato ao governo do Rio e filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado (The Conversation).
Os documentos que vieram a público são dois. Um plano de negócios de abril de 2026, com a marca "Rockbridge Network Brasil", descrevia um "fundo de venture capital político" para financiar projetos na imprensa, nas universidades e no Legislativo. O outro, confidencial e endereçado ao "Pré-Candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro", propunha um Conselho de Tecnologia de 23 empresários, 19 deles estrangeiros, para assessorar o candidato e aproximar investidores americanos de um eventual governo dele (The Conversation, Folha). Sang disse ao Intercept que o conselho "foi só uma ideia, que nunca prosperou nem avançou". Não há indício de que o material tenha chegado a Flávio.
Terras raras
A suspeita liga a Rockbridge às terras raras brasileiras. André Marinho escreveu um memorando sobre uma parceria Brasil-EUA em minerais críticos num eventual governo Flávio, que hoje chama de "exercício hipotético" (The Conversation). Em março de 2026, na conferência conservadora CPAC, em Dallas, Flávio disse que o Brasil seria "a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras" (Conjur).
Como o caso chegou ao STF
O caso veio a público depois que Renan Santos, candidato à Presidência pelo Missão, acusou Flávio, sem apresentar provas, de receber apoio financeiro clandestino ligado a promessas de negócios em terras raras (Intercept Brasil, DW). A série de reportagens do Amado Mundo, coluna de Guilherme Amado, revelou o papel de Sang no comitê.
Em 24 de setembro de 2026 foi noticiado o pedido do PT ao STF para investigar a suposta interferência estrangeira (R7). A petição foi apresentada como amicus curiae na ADPF 1.178, relatada por Dino. Ela cita a Rockbridge, publicidade paga no exterior em perfis do X favoráveis a Flávio e conteúdos do Brasil Paralelo e do Estúdio Quinto Elemento oferecidos à Academia da Direita (R7, Conjur).
O pedido da AGU e o relatório da OEA
Em 1º de outubro de 2026, a Advocacia-Geral da União, em documento assinado por Jorge Messias, pediu à Polícia Federal que investigasse uma reportagem do The Guardian. Segundo o jornal, o Departamento de Estado dos EUA destinou cerca de US$ 1 milhão a um programa chamado "Countering Lawfare and Censorship in Brazil", voltado a grupos que se opõem ao que chamam de excessos do STF (g1). Em 4 de outubro, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse que havia uma apuração preliminar. No mesmo dia, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse que os relatórios do tribunal não apontavam "nenhum risco internacional". Em 7 de outubro, a PF arquivou o pedido por falta de elementos para abrir inquérito (Folha, CNN Brasil).
A missão de observação da OEA, chefiada por José Miguel Insulza, registrou no relatório preliminar de 6 de outubro de 2026 que as eleições brasileiras não ficaram isentas do "ativismo político internacional" de chefes de Estado, que chegou a insultos contra uma das candidaturas (OEA).
O inquérito mandado por Flávio Dino
Em 27 de outubro de 2026, Dino requisitou à Polícia Federal um inquérito, sob supervisão do STF, a partir dos pedidos do PT e de Renan Santos (Valor). A ADPF 1.178 foi aberta pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e trata da aplicação de leis e ordens judiciais estrangeiras no Brasil. Dino entendeu que os fatos não devem tramitar nela, e sim em investigação própria (Agência Brasil). Ele citou um relatório da Abin anterior à eleição, que apontava alto incentivo para atores externos interferirem no processo eleitoral.
A PF deve investigar cinco pontos (Agência Brasil, Valor):
- as tratativas entre representantes da Rockbridge e Tallis Gomes e Pedro Sang, e se houve recursos, serviços ou vantagens para a campanha;
- quem pagou e contratou a publicidade eleitoral atribuída a perfis estrangeiros, com que dinheiro e com que ajuda no Brasil;
- se as conversas sobre financiamento se ligam aos interesses em terras raras e minerais críticos;
- quem participou dos contatos entre a Rockbridge e empresários brasileiros, e com que objetivo;
- manipulação deliberada de algoritmos por empresas de internet para favorecer ou prejudicar candidatos.
Dino escreveu que a proibição de financiamento estrangeiro alcança "toda vantagem economicamente aferível recebida por partidos ou candidatos, ainda que não haja transferência de dinheiro". Ele juntou à decisão a nota do Conselho de Supervisão da Meta sobre falhas da empresa nas regras eleitorais no Brasil (Valor).
Trump, Musk e Bannon depois do segundo turno
Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, Elon Musk repostou um cálculo sobre a virada de Lula e escreveu que "a conta não fecha". O cálculo ignorava os quase 5 milhões de votos a mais no segundo turno, 3 milhões deles pela queda da abstenção (UOL). Steve Bannon chamou a eleição de "roubada" e pediu que Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, rompessem relações diplomáticas com o Brasil (Folha, CNN Brasil). Nenhum dos dois apresentou provas.
No mesmo dia, Trump disse a jornalistas: "Eu não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada". Ele criticou a prorrogação da votação, decidida pelo ministro Cristiano Zanin, e disse que "não governa o Brasil" e que gosta de Lula (g1, BBC). Segundo o TSE, cerca de 35 mil pessoas votaram depois das 17h, contra uma vantagem de 4,4 milhões de votos de Lula (g1). O vice-presidente Geraldo Alckmin chamou a fala de "totalmente equivocada" (Agência Brasil). Até a noite de 26 de outubro, os EUA não tinham parabenizado Lula (DW).
O que acontece agora
A Polícia Federal abre o inquérito sob supervisão de Dino. A campanha de Flávio nega ter recebido dinheiro estrangeiro, e a Rockbridge nega ter operado no Brasil. Flávio Bolsonaro, que não reconheceu o resultado, anunciou em 26 de outubro uma ação de cassação da chapa de Lula e Alckmin no TSE.
Linha do tempo
- 2019: Christopher Buskirk e J.D. Vance criam a Rockbridge Network nos EUA (g1).
- Março de 2026: na CPAC, em Dallas, Flávio Bolsonaro oferece o Brasil como alternativa à China em terras raras (Conjur).
- Abril de 2026: documentos com a marca "Rockbridge Network Brasil" propõem um fundo político e um Conselho de Tecnologia para Flávio (The Conversation).
- Maio de 2026: a Rockbridge Brazil LLC é registrada no Wyoming (The Conversation).
- 24 de setembro de 2026: é noticiado o pedido do PT ao STF para investigar interferência estrangeira (R7).
- 29 de setembro de 2026: o Intercept Brasil publica os documentos do projeto no Brasil.
- 1º de outubro de 2026: a Folha relata que Pedro Sang e Tallis Gomes ajudaram a campanha de Flávio.
- 1º de outubro de 2026: a AGU pede à PF que investigue repasses do Departamento de Estado dos EUA a grupos que atacam o STF (g1).
- 7 de outubro de 2026: a PF arquiva o pedido da AGU (Folha).
- 26 de outubro de 2026: Musk, Bannon e Trump questionam, sem provas, a reeleição de Lula (Folha, g1).
- 27 de outubro de 2026: Flávio Dino manda a PF abrir inquérito sobre interferência estrangeira na eleição (Agência Brasil).
Perguntas frequentes
Houve interferência estrangeira nas eleições de 2026?
Ainda não há conclusão. Em 27 de outubro de 2026, o ministro Flávio Dino mandou a Polícia Federal investigar as suspeitas envolvendo a Rockbridge Network, publicidade paga por perfis estrangeiros e manipulação de algoritmos. A campanha de Flávio Bolsonaro nega ter recebido recursos estrangeiros.
O que é a Rockbridge?
É uma rede de doadores conservadores dos Estados Unidos, criada em 2019 por Christopher Buskirk e J.D. Vance, que financia projetos da agenda republicana e reúne investidores de tecnologia.
Qual a ligação de Tallis Gomes com a Rockbridge?
Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi e presidente do G4 Educação, disse em abril de 2026 que fazia parte da Rockbridge e que levava propostas ao plano de governo de Flávio Bolsonaro. Depois, disse participar só de um grupo de networking.
Quem é Pedro Sang?
É um empresário carioca apresentado num documento como CEO da Rockbridge Brasil. Segundo a Folha, ajudou a montar o comitê de Flávio em São Paulo. Ele nega ter trabalhado na campanha.
O que Trump disse sobre a eleição no Brasil?
Em 26 de outubro de 2026, Trump disse, sem provas, que a eleição "pareceu mais uma eleição fraudada" e criticou a prorrogação da votação, mas afirmou que não governa o Brasil e que gosta de Lula.
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