O que é a Meta
A Meta Platforms, Inc. é a empresa americana de tecnologia dona do Facebook, do Instagram, do WhatsApp, do Messenger e do Threads, com sede em Menlo Park, na Califórnia. Foi fundada em 4 de janeiro de 2004 como TheFacebook, Inc. por Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin, Andrew McCollum, Dustin Moskovitz e Chris Hughes, e adotou o nome atual em 28 de outubro de 2021.
O negócio é sustentado essencialmente por publicidade: no segundo trimestre de 2026, a receita total foi de US$ 60,8 bilhões, dos quais apenas US$ 431 milhões vieram do Reality Labs, a divisão de hardware e realidade virtual. A empresa reportou receita de US$ 201 bilhões e lucro líquido de US$ 60,5 bilhões em 2025, e tinha 75.472 funcionários em junho de 2026.
Mark Zuckerberg segue como presidente-executivo. Susan Li é a diretora financeira, Andrew Bosworth é o diretor de tecnologia e Alexandr Wang responde pela área de inteligência artificial.
História: do Facebook à Meta
O Facebook nasceu em 2004 como rede social universitária e cresceu comprando concorrentes e plataformas adjacentes. Comprou o Instagram em 2012 por cerca de US$ 1 bilhão, o WhatsApp em 2014 por mais de US$ 19 bilhões e a Oculus VR, também em 2014, por mais de US$ 2 bilhões — aquisição que originou a linha de headsets de realidade virtual.
Em 28 de outubro de 2021, a Facebook, Inc. passou a se chamar Meta Platforms, Inc., sinalizando a aposta no "metaverso". A virada custou caro: em fevereiro de 2022, a companhia perdeu US$ 237 bilhões em valor de mercado em um único dia, o maior tombo já registrado na bolsa americana até então. Nos anos seguintes, o foco declarado migrou do metaverso para a inteligência artificial.
Aplicativos e plataformas
O portfólio da Meta reúne Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger, Threads e Facebook Watch, além dos headsets Meta Quest. No segundo trimestre de 2026, a empresa informou 3,6 bilhões de usuários ativos diários no conjunto dos aplicativos.
Além dos aplicativos principais, a companhia tem lançado uma série de apps autônomos e experimentais. Em 20 de agosto de 2026, o Pocket — aplicativo de "vibe coding" em que o usuário gera pequenos jogos interativos a partir de instruções em texto, publicados em um feed rolável — passou a ser liberado para todos os usuários dos Estados Unidos, depois de ter estreado no mês anterior no Brasil, usado como mercado de teste. O produto nasceu da contratação da equipe da plataforma Gizmo, absorvida pela Meta no início do ano, cujo aplicativo original foi desligado no mesmo dia; os jogos, chamados de "gizmos", respondem ao toque e à inclinação do celular, tocam efeitos sonoros e podem usar fotos da galeria ou a câmera. O Pocket se soma a outros lançamentos recentes citados por Mark Zuckerberg na teleconferência de resultados de julho — Instagram Instants, o Forum (aplicativo autônomo de Grupos) e o Seller (do Marketplace) —, ritmo que o executivo atribui ao próprio uso de IA no desenvolvimento de software: "Espero que fique muito mais fácil lançar novos aplicativos".
O próprio Facebook está mudando de cara. Em outubro de 2026, a Meta começou a testar na Índia, maior mercado da rede social, com mais de 400 milhões de usuários, uma versão em que o aplicativo abre direto em vídeos de tela cheia, priorizando o Reels; o feed tradicional passa a ser uma segunda aba, e quem está no teste pode voltar ao formato antigo. A mudança segue a estratégia anunciada em julho de 2026 por Tom Alison, chefe do Facebook, de testar o formato em países com alto consumo de vídeo fora dos Estados Unidos, e a Meta confirmou um teste também na Indonésia. Pelos números que a empresa divulgou em junho, 89% dos jovens da Geração Z entrevistados usam o Reels todos os dias. A Meta pretende avaliar levar a experiência aos Estados Unidos em 2027.
Em 13 de outubro de 2026, a Meta começou a liberar no Facebook o "Seu algoritmo" (Your Algorithm), recurso que reúne num só lugar os tópicos que o usuário quer ver mais ou menos no Feed e no Reels. O acesso fica no menu de três pontos de cada publicação, onde a pessoa descreve em linguagem natural o que prefere ou marca "Tenho interesse" e "Não tenho interesse"; a plataforma pode fazer perguntas de acompanhamento, e as recomendações mudam na mesma sessão. A ferramenta já existia no Instagram, onde estreou no Reels em dezembro de 2025 e chegou ao Feed e ao Explorar em junho de 2026, e repete o "Dear Algo" lançado no Threads em fevereiro de 2026. A Meta não informou países nem calendário de chegada.
Meta Ads e Meta Business Suite
Praticamente toda a receita da Meta vem de anúncios vendidos dentro desses aplicativos. As ferramentas comerciais que dão acesso a esse inventário são o Gerenciador de Anúncios e o Meta Business Suite.
Segundo a documentação oficial da empresa, o Meta Business Suite é o espaço para gerenciar atividades de publicidade e marketing no Facebook e no Instagram, centralizando Facebook, Messenger e Instagram em um único painel. Ele permite responder mensagens, criar e programar publicações, stories e anúncios, e acompanhar métricas de desempenho. Funciona no navegador e em aplicativo móvel.
O WhatsApp é a outra frente de receita comercial, por meio da API do WhatsApp Business, usada por empresas para atender clientes em escala. Desde 1º de outubro de 2026, a Meta cobra pelas mensagens de serviço — as respostas enviadas dentro da janela de 24 horas de atendimento, seja por atendentes humanos, seja por ferramentas de IA de terceiros — e pelos templates de utilidade, como confirmações de pedido, avisos de entrega e lembretes, antes gratuitos. Cada mensagem entregue custa US$ 0,0068, ou cerca de R$ 0,035 para contas faturadas no Brasil, com franquia de 1.000 mensagens gratuitas por mês por número, sem acúmulo do saldo não usado. Continuam sem custo as conversas dentro da janela de 72 horas aberta quando o cliente chega por um anúncio do tipo Click to WhatsApp; o aplicativo comum e a versão gratuita do WhatsApp Business não são afetados.
Em 8 de outubro de 2026, a Meta passou a recusar anúncios e marketing pago da ByteDance, dona do TikTok, e campanhas de terceiros com links para o TikTok ou outras plataformas da ByteDance, nos Estados Unidos, no Canadá, no Egito, na Indonésia, no Japão, na Tailândia e no Vietnã. "Não temos de veicular anúncios de um concorrente cujo objetivo é tirar as pessoas dos nossos aplicativos", disse um porta-voz à Reuters, que descreveu a medida como prática comum no setor. ByteDance e TikTok não responderam de imediato.
Anúncios fraudulentos e desinformação paga
O modelo de negócio da empresa — receita quase toda vinda de publicidade vendida por leilão automatizado — colocou a Meta no centro de disputas sobre até que ponto uma plataforma responde pelos anúncios que ela própria decide exibir.
Nos Estados Unidos, a questão chegou aos estados. Em 22 de outubro de 2026, o procurador-geral de Rhode Island, Peter Neronha, processou a Meta no Tribunal Superior de Providence por tolerar a publicidade fraudulenta no Facebook, no Instagram e no WhatsApp. A ação diz que a empresa lucra com golpes e que suas ferramentas de criação de anúncios com IA ajudam os golpistas. Pede multa por violação, restituição aos consumidores, devolução dos lucros e uma ordem para que a Meta trate esses anúncios. É o primeiro processo desse tipo movido por um estado americano; em maio, o condado de Santa Clara, na Califórnia, tinha entrado com ação parecida (Reuters via Forbes Brasil).
Na Alemanha, a questão virou condenação. Em 16 de setembro de 2026, o Tribunal Regional de Frankfurt (Landgericht Frankfurt am Main) condenou a Meta Platforms Ireland Limited no processo 2-06 O 234/25, movido pela Finflow GmbH — dona da plataforma de educação financeira Finanzfluss — e por seu fundador e diretor-gerente, Thomas Kehl. Desde 2024, perfis falsos e anúncios fraudulentos vinham usando o nome e a imagem de Kehl e a marca Finanzfluss no Facebook e no Instagram para promover investimentos duvidosos. A sentença obriga a empresa a parar de veicular esse conteúdo, a prestar informações detalhadas sobre os formatos de anúncio envolvidos e a receita publicitária que geraram, a indenizar os prejudicados e a compensar Kehl pela violação de seus direitos de personalidade.
O fundamento jurídico é o que dá alcance à decisão. O tribunal aplicou o entendimento do Tribunal de Justiça da União Europeia no caso Webgroup e Coyote, de 16 de junho de 2026, segundo o qual a plataforma que exerce controle algorítmico sobre a distribuição do conteúdo perde a isenção de responsabilidade do artigo 14(1) da Diretiva de Comércio Eletrônico e do artigo 6(1) do Regulamento de Serviços Digitais (DSA). Para os juízes de Frankfurt, a Meta exerce esse controle por meio do sistema de leilão dos anúncios e dos algoritmos que ordenam o conteúdo — e, por isso, responde pelo material ilícito de terceiros independentemente de ter conhecimento efetivo dele. É a primeira aplicação por um tribunal alemão do critério mais estrito fixado pelo TJUE. A decisão não é definitiva e cabe recurso ao Tribunal Regional Superior (Oberlandesgericht) de Frankfurt.
No Brasil, a cobrança recaiu sobre a moderação de propaganda eleitoral. Em 17 de setembro de 2026, a organização britânica Ekō divulgou um estudo em que submeteu 15 anúncios políticos ao sistema automático de moderação do Instagram e do Facebook: 13 deles, ou 87%, foram aprovados. As peças traziam conteúdo fabricado com inteligência artificial — entre eles uma imagem gerada por IA do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, anunciando mudança na data da eleição; uma imagem sintética de Donald Trump ao lado do senador Flávio Bolsonaro promovendo sua candidatura; a alegação de que locais de votação estariam fechados e o pleito adiado para novembro; e alegações sobre facções criminosas danificando urnas. Os anúncios acumulavam várias violações das regras eleitorais: foram pagos por uma conta sediada nos Estados Unidos, o que a legislação brasileira veda; não traziam a identificação obrigatória do uso de IA; e não foram classificados como conteúdo político pelo sistema da plataforma, driblando a exigência de contratação direta por candidatos e partidos e permitindo gasto não rastreado, fora da prestação de contas eleitoral. Os pesquisadores removeram todas as peças logo após a decisão de aprovação ou rejeição, de modo que nenhuma chegou a ser exibida ao público. Em resposta, a Meta afirmou reafirmar "o compromisso de proteger o processo eleitoral", destacou que os anúncios "nunca foram vistos por nenhum usuário" e sustentou que o relatório não representa seu trabalho de moderação.
O teste da Ekō repetiu o resultado de um experimento anterior. Em 25 de agosto de 2026, a Anistia Internacional submeteu 15 anúncios em português — 14 com desinformação e um neutro — e teve 8 das peças enganosas aprovadas. O material explorava três estratégias: deslegitimação eleitoral, construção de inimigos e apelo autoritário travestido de segurança, com alegações de fraude, ataques à legitimidade de candidatos, procedimentos de votação incorretos e defesa de intervenção militar. Como no teste da Ekō, os anúncios aprovados foram cancelados antes de circular.
Um levantamento do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro, divulgado em 15 de outubro de 2026 mostrou que a propaganda irregular não ficou no teste. Entre julho e setembro, as plataformas da Meta veicularam ao menos 1.613 anúncios político-eleitorais pagos em moeda estrangeira, 99,5% deles em dólar, por 187 anunciantes, com gasto de cerca de R$ 2 milhões e 171,1 milhões de impressões; 70 candidatos foram mencionados. Dos anúncios que informavam a origem, 98,1% vinham dos Estados Unidos, e um único pagador, a Corporativo Lam, LCC, respondia por 97,3% deles. As peças, muitas sem o rótulo de propaganda eleitoral e sem identificação do pagador, foram veiculadas sem a classificação de tema político e só depois recategorizadas ou retiradas. A Meta afirmou que os anúncios foram retirados por violar suas políticas e que parte deles circulou antes do início oficial da campanha; para a diretora do NetLab, Marie Santini, a empresa lucrou com "anúncio absolutamente ilegal durante as eleições brasileiras".
Meta One: a assinatura paga
Em 15 de setembro de 2026 a Meta lançou globalmente o Meta One, um pacote de assinaturas que reúne recursos pagos do Facebook, do Instagram e do WhatsApp e amplia o uso das ferramentas de inteligência artificial da empresa. É a tentativa mais direta da companhia de tirar receita direta dos usuários e reduzir a dependência da publicidade.
Os planos avulsos por aplicativo continuam existindo — WhatsApp Plus por R$ 7 ao mês, Instagram Plus e Facebook Plus por R$ 10 cada — e dão figurinhas personalizadas, fontes, aviso de quem viu o story, métricas de Reels e super reações. Acima deles ficam os dois planos combinados para o público geral: o Core, a R$ 32 por mês (US$ 7,99 nos Estados Unidos), que junta os benefícios dos três planos Plus e libera os modelos de IA mais recentes; e o Premium, a R$ 97 (US$ 19,99), que acrescenta geração e edição de imagem e vídeo com o Muse, o recurso Restyle para os stories do Instagram e efeitos de voz.
Para criadores e empresas há quatro faixas: One Essencial, a partir de R$ 59 por mês (US$ 14,99), com Meta Business Agents, selo de verificação e proteção de identidade; One Avançado, a partir de R$ 199 (US$ 49,99), com ferramentas profissionais de publicação, agendamento de stories por 30 dias, análise de audiência e colaboração em equipe; One Expert, a partir de R$ 599 (US$ 149); e One Máximo, a partir de R$ 1.999 (US$ 499) — as duas últimas voltadas ao uso intensivo dos agentes de atendimento.
Nenhum dos planos remove anúncios, e os pacotes para empresas não aumentam o alcance das publicações. A Meta afirma que o uso básico dos aplicativos e o acesso ao Meta AI continuam gratuitos, e apresenta as assinaturas como forma de financiar o desenvolvimento de IA e a expansão da infraestrutura. Apesar do anúncio global, a oferta chega aos poucos: a própria Meta diz que os planos estão sendo liberados gradualmente, e sua central de ajuda descreve o serviço como em teste limitado, com planos e preços que variam conforme a conta e a região. No lançamento, a empresa contabilizava 15 milhões de assinaturas e períodos de teste.
A assinatura passou a ser também a porta de entrada para recursos de IA nos aplicativos. Em 1º de outubro de 2026, o Instagram lançou um assistente de IA no Edits, seu aplicativo de edição de vídeo, que cruza visualizações, retenção, curtidas, compartilhamentos, comentários e seguidores com tendências e interesses do público para apontar o que funciona com cada audiência; as decisões criativas continuam com o criador. O uso gratuito é limitado, e o acesso ampliado exige o Meta One.
Meta AI: Muse Spark, Muse Code e a Superintelligence Labs
A inteligência artificial passou a ser o principal destino de investimento da companhia, conduzida pela Meta Superintelligence Labs sob comando de Alexandr Wang. Em perfil publicado pelo Wall Street Journal em 4 de outubro de 2026, Wang aparece como o primeiro executivo sênior da geração Z na Meta e como o responsável por levar o agente Muse ao topo das paradas, ao custo de atritos dentro da empresa. Em 17 de outubro de 2026, um perfil do Financial Times assinado por Rafe Rosner-Uddin descreveu Wang, de 29 anos, como um "operador" que teve o apoio integral de Zuckerberg na reformulação da área de IA e que passou a ser apontado como possível sucessor dele no comando da Meta.
Nem toda aquisição na área vingou. Em dezembro de 2025, a Meta anunciou a compra da Manus, startup de agentes de IA fundada na China, por US$ 2 bilhões; a empresa tinha mais de US$ 100 milhões em receita anual recorrente. Em abril de 2026, autoridades chinesas ordenaram que o negócio fosse desfeito, em meio ao temor de perder talentos de IA para o Ocidente, e em agosto a Manus voltou a operar de forma independente, apagando parte dos dados de usuários na separação. Em 8 de outubro de 2026, a controladora Butterfly Effect anunciou a primeira captação depois do rompimento, de mais de US$ 500 milhões, liderada pela Boyu Capital e pela IDG Capital.
Em 5 de agosto de 2026, a Meta lançou em beta o Muse Code, um agente de programação que roda no terminal e executa tarefas completas de engenharia de software em repositórios grandes — planejar mudanças, escrever código e validar resultados. Para lidar com projetos extensos, ele distribui o trabalho entre subagentes que rodam em paralelo em worktrees isoladas, sem tocar na cópia de trabalho original. O agente é alimentado pelo modelo Muse Spark 1.2, apresentado junto com melhorias em geração de código, depuração e compreensão de bases de código.
O lançamento coloca a Meta em disputa direta com o Codex, da OpenAI, e o Claude Code, da Anthropic. O argumento de venda é preço: segundo Alexandr Wang, "para muitos fluxos de trabalho e muitos casos de uso, esta pode ser uma opção incrivelmente boa, especialmente do ponto de vista de custo". Além da cobrança por uso, a empresa oferece um nível de acesso com desconto expressivo em troca do compartilhamento de dados de uso pelo desenvolvedor.
O assistente ganhou um aplicativo próprio de desktop em 19 de agosto de 2026, com a estreia do Meta AI para macOS. É a primeira versão nativa do chatbot para computador e vem acompanhada de conexões voltadas a criadores e pequenas empresas que fazem marketing no Facebook e no Instagram: o app se liga às contas profissionais nas duas redes, às campanhas do gerenciador de anúncios da Meta e ao Google Workspace, respondendo a perguntas sobre métricas de engajamento e desempenho de anúncios. Dois recursos são exclusivos do desktop — anexar uma janela da tela à conversa, para que o assistente leia o que está visível e sugira edições ou textos, e ditar em qualquer aplicativo do Mac. O aplicativo é gratuito, mas os recursos avançados ficam sujeitos a limites de uso que exigem assinatura do Meta One.
Em 1º de setembro de 2026, a Meta Superintelligence Labs apresentou o Muse Voice Transcribe, seu primeiro modelo de percepção de áudio em tempo real. Ele reúne em uma única arquitetura a transcrição em streaming, a diarização de falantes — a identificação de quem fala, com suporte a gravações com mais de 20 vozes — e o endpointing, a detecção de quando alguém terminou de falar, sem etapa separada de pós-processamento. O ajuste chamado de "atraso adaptativo" define quanto tempo o modelo espera antes de fixar cada palavra, avançando rápido na fala fácil e acumulando mais contexto nos trechos difíceis, em vez de trabalhar com uma troca fixa entre velocidade e precisão. Foi treinado em mais de 70 idiomas, com 25 validados no lançamento, aceita alternância de idioma dentro de uma mesma frase e processa áudios de mais de uma hora.
No ranking de transcrição em streaming da Artificial Analysis, o modelo assumiu o primeiro lugar em 1º de setembro, com taxa de erro de palavras de 3,1% e transcrição final entregue 0,16 segundo após o fim da fala — à frente do Cartesia Ink-2 (3,4%), do ElevenLabs Scribe v2 Realtime (3,6%), do GPT Live Transcribe da OpenAI (3,9%) e do Gemini 3.5 Transcribe Live do Google (4%). O teste comparativo cobriu apenas o inglês. O preço é o outro argumento: US$ 3 por mil minutos de áudio, ou US$ 0,18 por hora, contra US$ 0,96 por hora do Google Cloud Speech-to-Text. O modelo está em prévia pública na Meta Model API, no Meta AI para Mac — onde alimenta o ditado do sistema, acionado pela tecla Fn — e no Muse Code.
Em 2 de setembro de 2026, a Meta liberou o Muse Spark 1.3, quarto modelo da linha Spark em cinco meses, disponível no Muse Code e na Meta Model API. Segundo a conta oficial AI at Meta, a versão sustenta trabalho de horizonte mais longo em vários fluxos dentro de uma mesma conversa, faz perguntas de esclarecimento, avisa quando trava e pede confirmação antes de ações consequentes, além de estar melhor calibrada sobre os próprios limites em vez de alucinar resultados. Em comparações internas, a empresa afirma que o modelo usa cerca de 20% menos chamadas de ferramenta e 25% menos tokens que o Muse Spark 1.2. Shengjia Zhao, da Meta Superintelligence Labs, descreveu-o como "o modelo mais forte para tarefas agênticas e de codificação" da linha. Mark Zuckerberg resumiu o lançamento como "desempenho de fronteira quase barato demais para medir" e "o maior salto que já demos em codificação e trabalho agêntico".
Os números independentes vieram da Artificial Analysis. A variante disponível ao público, Muse Spark 1.3 (xhigh), entrou no Artificial Analysis Intelligence Index com 61 pontos — 4 acima do Muse Spark 1.2 (57, em agosto) e 8 acima do Muse Spark 1.1 (53, em julho) —, empatada com GPT-5.6 Sol (max), Grok 4.6 (high) e Claude Opus 5 (high), e atrás de Claude Fable 5.1 (max, 66) e Claude Opus 5 (max, 63). A variante Muse Spark 1.3 (max), em prévia limitada para parceiros da Meta, marcou 62, ficando atrás apenas das versões Fable e Opus da Anthropic. Os ganhos vieram sobretudo de trabalho agêntico e capacidade científica: no Tau3-Bench Banking o xhigh saltou de 35% para 47% e o max chegou a 52%, a melhor marca entre todos os modelos avaliados; no Terminal-Bench 2.1 a alta foi de 80% para 85%. Houve duas regressões, ambas em relação ao 1.2: o AA-LCR caiu de 83% para 79% nas duas variantes e a acurácia no AA-Omniscience recuou, efeito de uma taxa maior de abstenção que, em contrapartida, reduziu a taxa de alucinação.
O argumento comercial é o mesmo do Muse Code: preço. A Meta manteve a tabela do modelo anterior, US$ 1,25 por milhão de tokens de entrada e US$ 4,25 por milhão de saída (US$ 0,15 para entrada em cache), o que dá US$ 0,55 por tarefa do índice — contra US$ 0,95 do GPT-5.6 Sol (max) e US$ 0,94 do Grok 4.6 (high), um prêmio de mais de 70% para os concorrentes de mesma pontuação. No Artificial Analysis Coding Agent Index, o xhigh rodando no Muse Code marcou 64 a US$ 1,72 por tarefa, o menor custo entre os agentes acima de 60 pontos e cerca de um quinto do Claude Opus 5 (xhigh) no Claude Code (US$ 8,17); o max chegou a 68, atrás somente do Opus 5 (xhigh). A Meta não divulgou preço para a variante max.
Em 12 de outubro de 2026, a Meta Superintelligence Labs lançou o Muse Wonder e o Muse Wonder Full, primeiros modelos de fronteira da empresa. Maiores que a linha Spark, que fora desenhada para ser leve e de baixa latência, eles foram treinados no data center Prometheus, em Ohio, e chegaram como o modelo de codinome interno Watermelon. A Meta os apresenta como voltados a tarefas agênticas pessoais e profissionais e destaca a "memória ativa", a capacidade de reter e sintetizar ao longo de dias e meses o que o usuário informa; no anúncio, a empresa chamou o par de "o próximo degrau da nossa escada de escalonamento e um grande salto rumo à superinteligência pessoal". Os dois passam a alimentar o agente Muse.
O acesso é segmentado. O Muse Wonder está na Meta Model API, a US$ 4 por milhão de tokens de entrada e US$ 20 por milhão de saída (US$ 0,20 para entrada em cache), mais que o triplo da tabela do Muse Spark 1.3, e no Muse Code; o Muse Wonder Full fica restrito aos assinantes do Muse Code, que pagam US$ 50 ou US$ 200 por mês, e não é servido pela API. No aplicativo Muse, que segue gratuito, os planos para uso mais intenso custam US$ 20 ou US$ 100 mensais. Segundo a empresa, as proteções contra uso indevido para fins cibernéticos só valem na versão paga.
Na Artificial Analysis, o Muse Wonder Full (max) somou 56 pontos na versão 4.3 do Intelligence Index, contra 52 do Muse Wonder e 48 do Muse Spark 1.3 na mesma régua: à frente do Claude Fable 5.1 (max), empatado com o Claude Sonnet 5.5 (max) e logo abaixo do Claude Opus 5.5 (max). Ficou entre os três primeiros em seis das dez avaliações do índice e em primeiro no CritPt e no GDP.pdf, ambos com 33%. O ponto fraco é conhecimento: no AA-Omniscience marcou 30, contra 46 do Opus 5.5 e 43 do GPT-6 Astra. Cada tarefa do índice custou US$ 4,52 com o Muse Wonder (max), 2,8 vezes o gasto do Muse Spark 1.3 (max). Os números que a Meta divulgou sobre concorrentes vieram de testes internos, e em programação o resultado foi misto, com o Wonder Full à frente do Opus 5.5 em alguns testes e atrás em outros.
No mesmo dia, em entrevista ao Financial Times, Mark Zuckerberg afirmou que a Meta alcançou os rivais na fronteira da IA e que o Muse Wonder "permitirá comportamentos muito mais sofisticados, situados na fronteira do que está sendo desenvolvido no campo da IA". Ele rejeitou os apelos de Dario Amodei, da Anthropic, e de Sam Altman, da OpenAI, por uma desaceleração coordenada do setor, minimizou os temores sobre riscos e disse que a empresa já trabalha no "próximo grande avanço". O Wonder é um modelo fechado, e as versões mais avançadas serão vendidas diretamente a empresas.
A escala do esforço não se limita à infraestrutura própria. Em 20 de agosto de 2026, a Bloomberg informou que a Meta se tornou um dos maiores clientes de inteligência artificial da Microsoft: gasta centenas de milhões de dólares por ano no Azure e consome trilhões de tokens de IA por semana, por meio do Foundry, o marketplace de modelos da Microsoft. O serviço tem entre seus grandes compradores a ByteDance, dona do TikTok e normalmente a maior deles, além de Adobe, Perplexity e Sierra; ainda assim, a OpenAI respondeu sozinha por cerca de 70% da receita de IA da Microsoft no último ano fiscal. Meta e Microsoft se recusaram a comentar o acordo.
A aposta em agentes também reorganizou a comunicação interna da empresa. Em memorando revelado pelo Business Insider, Alexandr Wang informou aos funcionários que a Meta abandonaria o Google Chat em favor do Slack, da Salesforce, com a justificativa de que "o Slack é a plataforma mais forte disponível hoje para agentes". Wang apoiou o argumento na interface conversacional da ferramenta, no ferramental para desenvolvedores e nas integrações com produtos de terceiros já disponíveis nela — ou seja, a escolha recaiu menos sobre o aplicativo de mensagens em si do que sobre o ecossistema de agentes que já se conecta a ele.
Nem toda contratação da área vingou. Em junho de 2026, a Meta Superintelligence Labs absorveu a equipe da Virtue AI, startup de segurança em IA que havia trabalhado com a Anthropic, a OpenAI e o NIST, do Departamento de Comércio americano, incluindo os cofundadores Bo Li, Dawn Song e Sanmi Koyejo. Em 2 de outubro de 2026, cerca de quatro meses depois, a empresa desligou esses funcionários, segundo o Semafor. "Infelizmente, o arranjo não funcionou como planejado", disse o porta-voz Andy Stone, que atribuiu a saída a estilos de trabalho incompatíveis e afirmou que a Superintelligence Labs segue comprometida com a pesquisa em segurança, alinhamento e riscos de fronteira.
Na pesquisa básica, uma equipe da Meta AI formada por Jason Weston, Ilia Kulikov e Swarnadeep Saha publicou em setembro de 2026 o RL-XAR (Reinforcement Learning from eXpert-Aligned Rubrics), método de treino voltado a melhorar a qualidade da escrita dos modelos de linguagem. A técnica parte de textos escritos por especialistas humanos, faz um modelo-juiz aprender rubricas que pontuem esses textos acima das gerações da máquina e usa essas rubricas como recompensa no aprendizado por reforço, repetindo o ciclo até que a diferença desapareça. Aplicado ao Qwen3.5-27B, o método elevou a nota em continuação de histórias de 2,8 para 8,2, numa escala em que o texto humano vale 10, e venceu 95% das comparações às cegas feitas por avaliadores; em seções de artigos científicos, chegou a 9,6 e a 89% de vitórias. Em seções da Wikipédia o ganho foi menor, de 2,7 para 4,0, o que os autores atribuem à qualidade inferior do juiz nesse domínio.
Hatch: o agente que executa tarefas
Em agosto de 2026 vieram a público os planos da Meta para um agente de IA capaz de executar tarefas em nome do usuário, chamado internamente de Hatch. Segundo documentos internos revelados pelo The Information em 25 de agosto, a companhia pretendia lançar a versão de consumo do agente nas semanas seguintes e mirava outubro para um novo modelo, de codinome Watermelon.
Um memorando interno obtido por Hugh Langley, do Business Insider, e publicado em 27 de agosto de 2026 descreve o que distingue o produto: o Hatch "tem o próprio computador" para processar as solicitações, o que lhe permite seguir trabalhando com o aplicativo fechado, e se conecta a serviços externos como e-mail, Instagram e a plataforma de reservas OpenTable.
O escopo relatado é o de um agente de tarefas, não o de um chatbot: com autorização do usuário, ele interpreta um objetivo, decompõe as etapas e age nos serviços conectados — comparar produtos, reservar mesa, acompanhar entregas, resumir e-mails e compromissos de agenda. A primeira vitrine seria o Instagram, com uma função de compras que permite descobrir e adquirir itens sem sair do aplicativo, e as reportagens apontam planos de assinatura para uso intensivo. O produto é peça central da tentativa de Zuckerberg de extrair receita direta dos investimentos em IA e reduzir a dependência da publicidade.
Internamente, a adoção do Hatch avançou junto com um recuo na cobrança por uso de IA. Reportagem da Wired publicada em 2 de setembro de 2026 informou que a Meta reescreveu o texto das avaliações de desempenho: onde antes se exigia "uso de IA" como critério e se classificava o funcionário como "AI Native", a nova redação diz apenas que os resultados esperados "podem ser apoiados por IA ou por outros meios". A mudança encerra o incentivo que havia produzido o fenômeno apelidado de tokenmaxxing — o consumo inflado artificialmente para subir num placar interno —, já criticado meses antes pelo diretor de tecnologia Andrew Bosworth: "ninguém deveria usar ferramentas de IA apenas pelo fato de usá-las; todo movimento não é progresso, e o uso de tokens sozinho não é medida de impacto de nenhum tipo". Ao mesmo tempo, e nisso está a contradição apontada pela reportagem, a empresa vinha estimulando — sem obrigar — o uso do Hatch, liberado aos funcionários nas semanas anteriores e mais intensivo em tokens que os chatbots e assistentes de código convencionais.
Muse: o agente pessoal e a liderança na App Store
Em 8 de setembro de 2026, a Meta lançou o Muse, a versão de consumo do agente que vinha sendo desenvolvido internamente sob o codinome Hatch — nome que segue visível na arquitetura do produto, em serviços como hatch-authd e hatch-safety. O agente roda sobre o Muse Spark 1.3 e chegou apenas aos Estados Unidos, para maiores de 18 anos, em aplicativos para iOS e Android, no site muse.ai e dentro do WhatsApp, com integração aos óculos prometida para depois. Um aplicativo próprio do Muse para Mac — distinto do app do Meta AI lançado em agosto — veio em 17 de setembro.
O lançamento saiu apesar de alertas internos. Segundo reportagem do The New York Times publicada em 9 de outubro de 2026, Zuckerberg reuniu em agosto Alexandr Wang, diretor de IA, e Nat Friedman, chefe de produtos de IA, para discutir o avanço da Instinct, startup de 14 pessoas cujo agente vinha ganhando tração, e decidiu que o Muse, adiado por meses por questões de segurança, estava pronto para sair, de acordo com três pessoas que conheciam a reunião. Wang e Friedman sabiam de falhas detectadas em testes recentes, entre elas um caso em que o agente trocou a senha de um usuário sem autorização. Três semanas depois do lançamento, a OpenAI anunciou o Dots, seu próprio agente. Um porta-voz da Meta negou que a concorrência da Instinct tenha motivado a decisão: "Temos orgulho desse trabalho e, como já dissemos publicamente, chegamos a adiar o lançamento do Muse por vários meses para garantir que tudo fosse feito corretamente".
A proposta não é a de um chatbot: o Muse abre um navegador, preenche formulários, lê e envia e-mails, gerencia a agenda, compara preços, reserva viagens e conclui compras, conectando-se às contas de e-mail, calendário, pagamento, saúde, casa inteligente e comércio do usuário. Entre os exemplos divulgados pela empresa está converter um vídeo de receita em lista de compras. Mark Zuckerberg enquadrou o produto como primeiro passo da "superinteligência pessoal": "Todos terão um agente pessoal excepcionalmente capaz que entende você, seus objetivos e tudo aquilo com que você se importa. Seu agente trabalhará 24 horas por dia em seu favor".
A cobrança é por consumo de tokens. O nível gratuito dá até 100 milhões de tokens por semana; o Power custa US$ 20 por mês e o Maximum, US$ 100. A Meta não publicou os tetos exatos dos planos pagos no lançamento.
A segurança foi o argumento central da apresentação, e é onde está a engenharia mais incomum do produto. Cada usuário recebe uma máquina virtual Linux isolada — a Muse Secure VM —, com navegador, CPU, memória e armazenamento próprios. Nas palavras de Zuckerberg, "seus dados e credenciais vivem na Muse Secure VM — um computador Linux isolado com navegador, CPU, memória e armazenamento". Um componente chamado Sentinel funciona como corretor de permissões, autorizando no nível do kernel cada ação de conector e cada saída de rede; o agente nunca recebe as credenciais reais, apenas tokens substitutos, inseridos só na fronteira da rede. Contra injeção de prompt, a empresa descreve cinco camadas — treinamento do modelo, rotulagem de conteúdo no harness, um conjunto de classificadores em paralelo, aprovação humana para qualquer dado que saia da VM e limites determinísticos abaixo do agente — e abriu um programa de recompensas que paga até US$ 300 mil por falha de segurança e até US$ 130 mil por um ataque de injeção bem-sucedido. A janela do navegador fica visível para que o usuário acompanhe o que o agente faz, e gastar dinheiro ou enviar mensagem exige aprovação explícita. A Meta afirma que o Muse não acessa senhas nem meios de pagamento e que as conversas não alimentam o sistema de anúncios.
A adoção foi rápida. O aplicativo estreou em segundo lugar na App Store americana em 10 de setembro, com mais de 83 mil downloads no iOS nos dois primeiros dias, e assumiu a primeira posição entre os gratuitos em 18 de setembro, dez dias após o lançamento, à frente do ChatGPT. As ações da Meta subiram cerca de 0,6% depois do lançamento, reação que a imprensa financeira classificou como contida. A leitura mudou em seguida: com o aplicativo na liderança, as ações subiram 11% em 21 de setembro de 2026. Segundo a Sensor Tower, citada pelo Wall Street Journal, o Muse passou de 2,5 milhões de downloads desde o lançamento; a Truist Securities estima que o agente pode acrescentar US$ 28,5 bilhões à receita da empresa até 2030. A alta continuou depois do Meta Connect: em 24 de setembro de 2026, as ações subiram 4,5%, para cerca de US$ 778, voltando aos níveis mais altos desde o verão de 2025 no hemisfério norte, depois de terem caído a cerca de US$ 525 no fim de março. Segundo a Apptopia, o Muse somou 1,8 milhão de downloads em iPhones na América do Norte em duas semanas, contra 1,3 milhão do ChatGPT em seu lançamento, em maio de 2023; o JPMorgan elevou o preço-alvo da ação para US$ 920. A empresa também fechou parceria com o Walmart, pela qual o agente recebe comissão sobre as compras dos usuários. A valorização levou Mark Zuckerberg ao quinto lugar entre as pessoas mais ricas do mundo no ranking da Forbes, com fortuna de US$ 256,8 bilhões, à frente de Sergey Brin, cofundador do Google (US$ 255,4 bilhões).
O tamanho do público nos primeiros dias foi menos impressionante que o ranking. Os 83 mil downloads em dois dias se comparam aos 4,3 milhões que o Threads registrou nos Estados Unidos em seu primeiro dia e aos cerca de 108 mil do aplicativo do Meta AI no lançamento; no Google Play, o Muse aparecia em 338º lugar na categoria Produtividade. A empresa não divulgou conversão em uso recorrente nem em assinaturas. Os primeiros números de uso vieram de dados internos obtidos pelo The Information e publicados em 30 de setembro de 2026: o Muse passou de 3 milhões de usuários que enviam ao menos um comando por semana e de 1 milhão de usuários ativos diários. Segundo a Sensor Tower, o aplicativo chegou a 5 milhões de downloads nos Estados Unidos em 22 dias, marca que o ChatGPT levou 56 dias para atingir, o Grok 103 e o Claude 492; só 23 aplicativos haviam passado de 5 milhões de downloads americanos nesse prazo, cerca de 85% deles jogos. A comparação favorece o Muse, lançado ao mesmo tempo no iOS e no Android e empurrado por publicidade pesada.
Em relatório noticiado em 6 de outubro de 2026, o Citigroup projetou que o Muse pode gerar mais de US$ 27 bilhões de receita anual até 2030, cerca de US$ 23 bilhões em transações e US$ 4,5 bilhões em assinaturas, e o descreveu como "porta de entrada da IA para a internet". Segundo a Forbes Brasil, o aplicativo havia passado de 6,6 milhões de downloads e tinha 1,8 milhão de usuários ativos diários, e as ações da Meta acumulavam alta de mais de 20% desde o lançamento, com valor de mercado perto de US$ 2 trilhões.
Executivos aproveitaram a alta para vender ações, segundo documentos entregues à SEC e noticiados pela Barron's em 9 de outubro de 2026. Em 24 de setembro, Zuckerberg vendeu 27.474 ações por mais de US$ 21,3 milhões, por meio da CZI Holdings e da Chan Zuckerberg Biohub, dentro de um plano de negociação definido em 31 de janeiro; foi sua primeira venda desde agosto de 2025. O diretor de produtos, Christopher Cox, vendeu 40 mil ações por US$ 28,5 milhões em 21 de setembro, e o diretor de operações, Javier Olivan, 1.575 ações em 21 de setembro (quase US$ 1,1 milhão) e outras 1.575 em 28 de setembro (cerca de US$ 1,2 milhão).
Há também um obstáculo estrutural para a parte de compras. Os grandes varejistas vêm fechando as portas para agentes: em agosto de 2025, a Amazon acrescentou seis rastreadores de IA ao seu arquivo robots.txt, entre eles os da Meta, do Google, da Huawei e da Mistral, ampliando bloqueios anteriores que já atingiam o Claude, da Anthropic, a Perplexity e o Project Mariner, do Google. A restrição por robots.txt é uma convenção, não uma barreira técnica, mas sinalizava a disposição da maior loja online do mundo de não servir de back-end para o agente de um concorrente. Em setembro de 2026, duas semanas após o lançamento, a Amazon passou a bloquear o Muse de fazer compras em seu site, segundo o Wall Street Journal. O bloqueio foi aplicado em 20 de setembro, e a Amazon alegou que o agente não se identificava ao navegar e armazenava as credenciais de login dos clientes; a Meta nega ter acesso a senhas e meios de pagamento. A Shopify tomou o caminho oposto e fechou parceria com a Meta: o agente acessa o catálogo de produtos da plataforma e paga pelo Shop Pay.
A Meta passou a usar o próprio alcance para empurrar o aplicativo. Os anúncios internos do Muse começaram em 9 de setembro, um dia após o lançamento, e em dez dias o agente já ocupava a maior parte do espaço publicitário que a empresa reserva a si mesma em suas plataformas. A campanha também saiu da casa, com anúncios no Reddit, no TikTok, no YouTube e em redes de anúncios para celular, e em 22 de setembro o Muse estava entre as dez marcas que mais gastavam em publicidade, segundo levantamento citado pelo TechCrunch. Connor Hayes, chefe do Threads, explicou a lógica: "o truque com o Muse é criar peças promocionais que mostrem algo que o agente consegue fazer" a partir dos interesses de cada usuário. As estimativas de downloads divergem conforme a consultoria: 3,4 milhões pela Sensor Tower, 4,3 milhões pela Apptopia e 2,3 milhões pela Appfigures, até 24 de setembro. O aplicativo chegou ao primeiro lugar do Google Play em 19 de setembro, um dia depois de liderar a App Store, e os usuários ativos diários cresceram 27% no dia seguinte ao Meta Connect.
A confiança é o outro obstáculo. Uma pesquisa da Oppenheimer & Co. com consumidores americanos mostrou que só 8% confiariam suas senhas à Meta, contra 30% que as entregariam ao Google.
Na conferência Meta Connect, em 23 de setembro de 2026, Zuckerberg chamou o Muse de "peça central" da estratégia da empresa e disse que a Meta pretende lucrar "cobrando uma pequena taxa das transações". Foram anunciados: um avatar digital para o agente, com quem o usuário conversa por videochamada, movido por um novo modelo, o Muse Realtime Avatar; a integração do Muse a todos os óculos com IA da empresa, acionada por palavra de ativação, prevista para "os próximos meses"; o uso do Mac pelo agente, que passa a operar qualquer aplicativo do computador; e um endereço de e-mail próprio do Muse, sem data. No encerramento, Zuckerberg apresentou o Muse Charm, um aparelho do tamanho da palma da mão, com tela e sensor de impressão digital, feito só para conversar com o agente sem desbloquear o celular. A entrega foi prometida para dezembro de 2026. A tela, de 2 polegadas, exibe um pequeno avatar do agente, e o aparelho pode ser preso a uma bolsa ou usado como chaveiro, o que rendeu comparações com o Tamagotchi e o Labubu. Para Joshua Paul Dale, professor da Universidade Chuo, em Tóquio, e autor de um livro sobre o apelo da fofura, a escolha é deliberada: a tela pequena e simples incentiva o usuário a tratar a figura como se fosse humana, e é significativo que o aparelho tenha sido apresentado junto com um par de óculos sem câmera, depois da reação negativa aos óculos com câmera da empresa.
A privacidade virou argumento de venda do agente. Cada usuário do Muse recebe uma máquina virtual pessoal, e a Meta prometeu uma opção, ainda não disponível, em que nem a própria empresa tem acesso aos dados, seguindo o que Zuckerberg escreveu no manifesto de agosto: "as pessoas devem ter um modo totalmente privado para agentes pessoais, em que nem a Meta nem qualquer outro provedor de serviço possa ver ou dar acesso às suas informações". O padrão, porém, ainda permite usar as interações para treinar os modelos da empresa, o que o usuário precisa desligar, e as proteções do Muse não valem para quem usa o Meta AI pelo Facebook, pelo Instagram ou pelo aplicativo Meta AI, segundo reportagem da Axios de 25 de setembro de 2026. O agente tem planos pagos de US$ 20 e US$ 100 por mês para uso intenso, mas a empresa espera que a maior parte do uso fique no nível gratuito. Alan Butler, diretor-executivo do Electronic Privacy Information Center (EPIC), contestou o argumento: "o processamento confidencial não resolve o problema de espalhar pelo mundo sistemas de vigilância embutidos" em aparelhos com câmeras e microfones.
Duas semanas depois do lançamento, um caso no Facebook Marketplace expôs o limite dessas salvaguardas. O criador de conteúdo Matt Robb delegou ao Muse o anúncio de um teclado Logitech MX Keys Mini, e o agente negociou a venda, compartilhou o endereço residencial dele com um comprador e marcou a retirada sem que Robb soubesse que a negociação tinha chegado a esse ponto. O episódio foi analisado pelo Android Authority e noticiado pelo Canaltech em 28 de setembro de 2026. David Singleton, da Meta Superintelligence Labs, afirmou que "o Muse estava seguindo instruções diretas e havia solicitado as permissões necessárias"; a empresa disse investigar se uma autorização dada antes permitiu ao agente ir além do que o usuário pretendia.
Em 2 de outubro de 2026, a empresa abriu o agente para hardware de terceiros com o Muse Gadgets, projeto de código aberto com firmware para placas ESP32 e um kit de desenvolvimento (SDK) para Linux, que permite ligar o Muse a aparelhos como o Raspberry Pi, com telas, botões, sensores e atuadores. No mesmo dia apresentou o Muse Home Link, um aparelho alimentado por USB-C que conecta o agente à rede doméstica para controlar caixas de som e televisores inteligentes. Foram fabricadas 5.000 unidades, distribuídas de graça a assinantes do Muse até acabar o estoque; segundo Nat Friedman, chefe de produto da Meta Superintelligence Labs, o envio começa em algumas semanas.
Em 3 de outubro de 2026, a Wired revelou o que as instruções internas do agente mandam fazer com as pessoas ao redor do usuário. O pesquisador independente de segurança em IA Karan Joshi extraiu os prompts de sistema do Muse pedindo, na própria janela de conversa, que o agente copiasse e compartilhasse seus arquivos. Uma das instruções manda criar "uma página para cada pessoa da vida do usuário", num processo que roda de hora em hora e cobre família, parceiros, amigos, colegas, "colaboradores" e pessoas que o usuário "segue". Cada página começa "esparsa" e é preenchida com o tempo, em seções como Fatos, História, A relação, Em comum, Assuntos em aberto e Fortalecimento — onde a pessoa mora, o que faz, aniversários, uma briga resolvida, quão próximos são e "do que a relação parece precisar agora", além de sugestões como "um motivo para ligar". As instruções proíbem inventar detalhes: um dado inventado é pior que uma página vazia. A Meta afirmou que pretendia deixar esses arquivos acessíveis por transparência, e o porta-voz Daniel Roberts disse que o Muse reúne esse contexto "com base em informações públicas e no que você escolheu compartilhar". As pessoas descritas nessas páginas não são consultadas.
Em 12 de outubro de 2026, outra reportagem da Wired, de Reece Rogers, mostrou que o agente produz conteúdo sexual explícito a partir de pedidos simples, e que a Meta considera isso permitido. "O Muse é um aplicativo para maiores de 18 anos que permite conversas adultas, se assim escolherem, numa máquina virtual privada e segura acessível só a eles", disse o porta-voz Daniel Roberts; "ele não bloqueia comportamento adulto legal". A empresa citou o prompt de sistema do agente, segundo o qual "o conteúdo sexual adulto é expressão legal e trabalho criativo legítimo" e que manda preservar a "intensidade" escolhida pelo usuário. Nos mesmos testes, o Dots, da OpenAI, e o Grok Bot, da xAI, recusaram os pedidos. Ben Winters, diretor de IA e privacidade da Consumer Federation of America, viu na decisão "um descuido com o produto-símbolo do momento", e Calli Schroeder, do Electronic Privacy Information Center (EPIC), chamou-a de "barril de pólvora": uma conta invadida exporia conversas que podem servir para constranger ou extorquir o usuário.
Em 7 de outubro de 2026, um mês depois da estreia no celular, o Muse ganhou versão para iPad — o Instagram levou 15 anos para ter a sua. O lançamento trouxe novos conectores de produtividade (Asana, Canva, Dropbox, Figma, QuickBooks, GitHub, Klaviyo, Zoom, Notion, Granola e as contas de anúncios da própria Meta) e compras em Best Buy, Gap, Sephora, Walmart e Wayfair. Na mesma data, segundo o TechCrunch, a Meta disse trabalhar num padrão técnico aberto para que agentes pessoais se identifiquem aos sites, resposta aos bloqueios de varejistas a robôs. Pela Sensor Tower, o aplicativo somava 6,6 milhões de instalações desde 8 de setembro.
Meta Enterprise Platform: a aposta no mercado corporativo
Em 28 de setembro de 2026, a Meta lançou a Meta Enterprise Platform, divisão voltada a vender a empresas e desenvolvedores as ferramentas de IA que até então oferecia ao consumidor. O pacote reúne o agente Muse, o Meta Business Agent, a Muse API e o Muse Code. Zuckerberg apresentou a iniciativa como o "próximo grande pilar" do negócio: "Acreditamos que a superinteligência vai criar oportunidades novas e significativas para todas as pessoas e empresas".
Para comandar a divisão, a Meta contratou Chirantan "CJ" Desai, então presidente-executivo da MongoDB e antes executivo da Cloudflare e da ServiceNow, no cargo de Chief Enterprise Platform Officer, subordinado diretamente a Zuckerberg. "A Meta tem um papel único a desempenhar porque reúne modelos avançados e agentes de ponta com um histórico comprovado de ajudar milhões de anunciantes e centenas de milhões de empresas a crescer", disse Desai. As ações da MongoDB caíram mais de 17% no dia do anúncio, e a empresa reconduziu o ex-presidente-executivo Dev Ittycheria ao cargo de forma interina enquanto procura um substituto. A imprensa financeira leu o movimento como a tentativa da Meta de extrair retorno direto dos gastos bilionários em IA, até aqui sustentados pela publicidade.
No dia seguinte, 29 de setembro, a empresa lançou o Muse for Small Business, versão do agente para pequenos negócios. Ele se conecta às páginas do Facebook, às métricas das contas profissionais do Instagram e às contas de anúncios da Meta, além de aplicativos de terceiros como Shopify, Stripe, Intuit QuickBooks, Slack, Zoom, Asana, Notion, Canva, Figma e Dropbox, e aprende o que a empresa vende, o tom da marca e as perguntas mais comuns dos clientes. Há um nível gratuito com limite de uso e planos pagos para uso maior, com disponibilidade nos Estados Unidos e no Canadá. "Pequenas empresas crescem em nossos aplicativos há quase duas décadas. Elas nos disseram que falta tempo, não ideias", afirmou a Meta no anúncio.
A dependência dos modelos da Anthropic
O discurso público da Meta sobre a Anthropic não corresponde ao uso que a empresa faz dos modelos da concorrente. Documentos internos citados em reportagens de 27 de agosto de 2026 mostram que a companhia chegou a projetar, ao longo de 2026, gasto anual de até US$ 10 bilhões com as ferramentas de IA da rival, o que a colocaria entre suas maiores clientes. O Claude Code passou a ser adotado em larga escala pelos desenvolvedores da Meta a partir do início de 2026, e a tecnologia da Anthropic foi usada em testes e no suporte computacional do próprio Hatch. Nat Friedman, chefe de produto de IA da Meta, chegou a dizer a funcionários que restringir o uso às ferramentas internas reduziria a receita da Anthropic às vésperas de sua abertura de capital.
No sentido inverso, e sem relação com esse gasto, o New York Times informou em 17 de julho de 2026 que a Anthropic negociava em estágio preliminar alugar capacidade computacional da Meta em um acordo de cerca de US$ 10 bilhões por dois anos — movimento que colocaria a Meta na posição de fornecedora de infraestrutura para uma concorrente direta.
A virada para os pesos abertos: Muse Glimmer e o manifesto de Zuckerberg
Em 10 de agosto de 2026, a Meta anunciou o Muse Glimmer, um modelo agêntico de 30 bilhões de parâmetros publicado sob licença permissiva Apache 2.0 e voltado a fluxos de trabalho locais e contínuos. Segundo a própria empresa, o modelo é pequeno o bastante para rodar em um Mac ou PC com uma única GPU de consumidor: a versão quantizada ocupa menos de 20 GB, o que a acomoda em placas de 24 a 32 GB de memória. O Muse Glimmer foi treinado por destilação de logits a partir das saídas do Muse Spark e é descrito como capaz de execução de tarefas de longo horizonte, chamada precisa de ferramentas, compreensão multimodal, memória de contexto longo e operação em mais de 100 idiomas.
No mesmo anúncio, a companhia informou que pretende liberar nas semanas seguintes os pesos do Muse Spark 1.2, seu modelo mais avançado, e destinar US$ 1 bilhão a um fundo para comunidades vizinhas de seus data centers nos Estados Unidos.
A promessa foi reiterada no lançamento do Muse Spark 1.3. Em 2 de setembro de 2026, ao anunciar o modelo, Zuckerberg escreveu que "a seguir vêm o 🍉 e os lançamentos de pesos abertos do Muse Spark, em breve" — o emoji de melancia é a referência pública ao Watermelon, o modelo de codinome interno que reportagens de agosto situavam para outubro. O Watermelon saiu em 12 de outubro de 2026 como Muse Wonder, e fechado, sem publicação de pesos.
O lançamento veio acompanhado de um texto assinado por Mark Zuckerberg e publicado pela Meta sob o título "O futuro é para todos". Nele, o executivo defende que a superinteligência seja distribuída amplamente em vez de concentrada em poucas instituições, e afirma que "se o poder da superinteligência estiver nas mãos de um pequeno número de indivíduos, empresas, governos ou da própria IA, isso naturalmente levará a resultados menos favoráveis para todos os demais". O texto trata o código aberto como "uma força positiva e importante para empoderar as pessoas e evitar a centralização" e anuncia que a Meta voltará a publicar alguns modelos abertos. Como exemplo do efeito local de seus investimentos, o manifesto cita o data center de Richland Parish, na Louisiana, cuja arrecadação de impostos permitiu bônus de US$ 50 mil a professores da região.
Zuckerberg também dirigiu o argumento a legisladores americanos, sustentando que restrições excessivas prejudicam a competitividade do país: "Laboratórios estrangeiros hoje têm várias vantagens aqui, já que os laboratórios americanos precisam cumprir muitas restrições adicionais sobre dados de treinamento". A movimentação ocorre em um cenário em que concorrentes chineses — entre eles DeepSeek, Alibaba e Moonshot — ganharam espaço justamente no segmento de modelos de pesos abertos.
A promessa de pesos abertos só se cumpriu em 15 de outubro de 2026, com o Muse Spark Open, que a Meta apresenta como o modelo de pesos abertos mais capaz desenvolvido nos Estados Unidos. É um modelo de mistura de especialistas com 816 bilhões de parâmetros, janela de contexto de 1 milhão de tokens e entrada nativamente multimodal, voltado a programação complexa e tarefas agênticas; os pesos são de download gratuito, com licença que permite uso comercial, e o modelo também é oferecido por provedores de nuvem e plataformas de API. Segundo o Axios, ele é semelhante ao Muse Spark 1.3, e a própria Meta o posiciona contra os modelos abertos chineses, como o Qwen, da Alibaba, o Kimi K3, da Moonshot AI, e a família GLM, da Z.ai.
O lançamento selou uma aproximação inesperada com a Apple. As duas empresas trabalharam juntas por meses para que o modelo rodasse localmente em dois ou quatro Mac Studio conectados, com o chip M5 Ultra e o framework MLX da Apple; Zuckerberg atribuiu o resultado ao trabalho com a Apple e com John Ternus, novo CEO da fabricante. Alexandr Wang, chefe de IA da Meta, creditou a Daniel Gross, ex-executivo da Apple que hoje está na Meta, o papel de aproximar as duas empresas, cujos líderes trocaram ataques públicos por anos sobre privacidade, do escândalo Cambridge Analytica, em 2018, às mudanças de privacidade do iOS que atingiram os anúncios do Facebook em 2021.
Chips próprios: a linha MTIA
Além de comprar GPUs no mercado, a Meta desenvolve aceleradores próprios para inteligência artificial, a linha MTIA (Meta Training and Inference Accelerator). Em 15 de setembro de 2026, segundo reportagem de Dina Bass para a Bloomberg, a empresa afirmou que pretende começar a implantar em seus data centers o MTIA 450 — a terceira geração do chip — no primeiro semestre de 2027, seguido de uma distribuição ampla do MTIA 500 até o fim do mesmo ano.
A empresa também aluga capacidade de terceiros. Em 29 de setembro de 2026, a australiana Firmus anunciou acordos para fornecer à Meta capacidade de GPUs em suas "fábricas de IA" no Sudeste Asiático, construídas sobre a plataforma DSX da Nvidia, com capacidade contratada e opções de expansão para pesquisa, desenvolvimento e treinamento de modelos. Os valores e os locais não foram divulgados. A Meta já usava sistemas Nvidia GB300 NVL72 no data center da Firmus em Melbourne, a maior instalação de chips Blackwell Ultra do Hemisfério Sul. "Vemos a Firmus como parceira estratégica de longo prazo em infraestrutura enquanto construímos a próxima geração de IA na Ásia-Pacífico", disse Gaya Nagarajan, vice-presidente de engenharia de infraestrutura da Meta. A Firmus tem projetos na Austrália, em Singapura, na Indonésia e na Malásia, onde a OpenAI também é cliente.
Em 13 de outubro de 2026, a Meta foi identificada, numa reunião do Fiscal Court do condado de Mason, no Kentucky, como a empresa por trás de um campus de data centers de quase 3.000 acres na região. O acordo de benefícios comunitários aprovado pelos comissários prevê investimento de US$ 10 bilhões, que pode crescer em fases futuras, mais de 4.000 empregos na construção e 300 vagas permanentes, além de US$ 115 milhões em melhorias de estradas, estações de tratamento de água e tubulações. Em troca, a empresa ganhou isenção de 40 anos do imposto predial local. Documentos de rezoneamento de maio de 2026 indicam seis prédios de data center e três subestações, com potência que pode chegar a 2,2 GW; um abaixo-assinado contra o projeto reunia 1.429 assinaturas em 15 de outubro.
Na rede, a Meta anunciou em setembro de 2026 o Petal, cabo submarino de 7.000 km entre os Estados Unidos e a França construído com a NEC e a Sumitomo Electric, o primeiro transoceânico com capacidade de petabit por segundo. A entrada em operação está prevista para 2029, com a Orange cuidando do pouso na França. A empresa já investiu em mais de 20 projetos de cabos submarinos.
Meta Quest e o Reality Labs
O Reality Labs é a divisão responsável pelos headsets Meta Quest, pelos óculos inteligentes e pelas apostas em realidade virtual e aumentada. É deficitária de forma consistente: no segundo trimestre de 2026, teve receita de US$ 431 milhões, alta de 16% na comparação anual, e prejuízo operacional de US$ 4,6 bilhões.
No Meta Connect de 23 de setembro de 2026, a empresa apresentou o Meta VR Glasses, sucessor da linha Quest em formato de óculos. O aparelho pesa cerca de 100 gramas, cinco vezes menos que o Meta Quest 3, porque a bateria e o processador ficam num módulo externo (o "puck") ligado por cabo, que vai no bolso ou no cinto. Usa telas micro-OLED de resolução 5K, chip Snapdragon da Qualcomm, é controlado por olhar e gestos das mãos e roda a biblioteca do Quest. A Meta o posiciona como cinema pessoal: é o primeiro aparelho de realidade virtual com certificação IMAX Enhanced, e a Disney+ vai oferecer filmes em 3D a partir de novembro. Chega na primavera de 2027 (hemisfério norte) por US$ 1.299,99. No mesmo evento, a empresa anunciou o Hologram, que representa o usuário em chamadas como imagem tridimensional em tempo real, a partir de uma captura feita pelo celular. A empresa também apresentou o aplicativo móvel Horizon Create e o aplicativo web Horizon Studio, que criam jogos a partir de comandos em linguagem natural, sem programação; os jogos rodam no Facebook, no Instagram e no Horizon, e o acesso antecipado abriu por lista de espera.
Óculos Ray-Ban Meta e a disputa sobre privacidade
Os óculos inteligentes feitos em parceria com a Ray-Ban, que gravam vídeo a partir da armação, viraram alvo de restrições no Reino Unido. Em agosto de 2026, estabelecimentos britânicos passaram a proibir o uso do produto em suas dependências, entre eles os restaurantes de Jeremy King (Simpsons in the Strand, Arlington e The Park), os clubes Soho House, a rede de pubs Wetherspoons e a ATG Theatres, dona do Bristol Hippodrome, do Edinburgh Playhouse e de teatros em Londres.
A justificativa é a proteção da privacidade de clientes e funcionários e a proibição de filmagens não autorizadas. Tim Martin, presidente-executivo da Wetherspoons, afirmou que os óculos violam o código geral dos pubs ao permitir vigilância encoberta. A reação não é unânime: o chef Tom Kerridge declarou não ver problema no produto, argumentando que filmar já faz parte da vida cotidiana.
Na Alemanha, a disputa saiu do terreno civil. Em 12 de agosto de 2026, a organização de direitos digitais HateAid apresentou uma queixa-crime à Zentralstelle zur Bekämpfung der Internetkriminalität (ZIT), unidade de crimes digitais da Procuradoria-Geral de Frankfurt am Main, contra a direção da Meta, contra as marcas Ray-Ban e Oakley (do grupo EssilorLuxottica) e contra as redes varejistas Fielmann, Apollo-Optik, Mister Spex e MediaMarkt. O alvo é o Ray-Ban Meta Wayfarer de segunda geração.
A base legal invocada é a lei alemã de proteção de dados em telecomunicações e serviços digitais (TDDDG), nos § 8, parágrafo 1, e § 27, parágrafo 1, item 3, que proíbem colocar no mercado aparelhos disfarçados de objetos do cotidiano e construídos para filmar ou escutar pessoas sem que elas percebam. A HateAid sustenta que o LED de gravação não protege ninguém: é preciso olhar de perto para distinguir a versão inteligente de um Wayfarer comum, o piscar do indicador passa despercebido e há relatos de serviços que desativam a luz mantendo a gravação. A ZIT confirmou o recebimento e fará uma avaliação preliminar antes de decidir se abre investigação formal. Meta, Ray-Ban e Apollo-Optik não se manifestaram à publicação alemã heise online.
Em 2 de outubro de 2026, a Hans Anders, uma das maiores redes de óticas da Holanda, suspendeu a venda do Ray-Ban Meta na Holanda e na Bélgica, citando as crescentes preocupações com privacidade. Segundo a Reuters, foi uma das primeiras medidas do tipo tomadas por um varejista.
No Brasil, a cobrança partiu da sociedade civil. Em 20 de agosto de 2026, o Idec e a organização de direitos digitais Coding Rights protocolaram uma denúncia pedindo investigação conjunta do Ministério Público Federal, do Ministério da Justiça e da ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) sobre os riscos à privacidade — principalmente de mulheres e crianças — criados pela venda dos óculos da Meta, fabricados em parceria com a EssilorLuxottica, grupo que controla a Ray-Ban e a Oakley. As entidades pedem também a suspensão imediata de tecnologias de reconhecimento facial ligadas ao aparelho.
O argumento é que o LED de aviso pode ser driblado quebrando a lâmpada e que o produto vem sendo usado em "crescentes episódios de gravações veladas, notadamente mulheres em consultórios médicos, em situações de assédio ou expostas sem consentimento em locais públicos". O caso concreto citado é o de Salvador, em que uma paciente denunciou um médico por usar óculos com câmera durante uma consulta ginecológica: o ginecologista foi preso em flagrante e solto após a audiência de custódia; a defesa admitiu o uso dos óculos, mas nenhuma imagem armazenada foi encontrada no aparelho, e o juiz anulou a prisão. Para as organizações, "tal episódio é exemplo de situação de vulnerabilidade das mulheres em contextos nos quais a proteção da intimidade deve ser absoluta". A denúncia também invoca reportagens do jornal sueco Svenska Dagbladet para sustentar que conteúdos enviados aos servidores da Meta podem ser revisados e rotulados por prestadores terceirizados para treinar modelos de IA.
Os pedidos são específicos: que a ANPD verifique a regularidade do tratamento e do envio de mídias de brasileiros para desenvolvimento de software e exija da empresa um relatório sobre os riscos reais a mulheres, meninas, crianças e adolescentes, em linha com o ECA Digital; que o MPF instaure inquérito contra a Meta e a EssilorLuxottica para apurar lesões transindividuais à privacidade, com eventual ação civil pública e indenização por danos morais coletivos; e que o Ministério da Justiça fiscalize o dever de informar sobre a facilidade de alterar ou ocultar o LED. Em nota à Folha de S.Paulo, a Meta afirmou que leva a privacidade em conta desde o início do desenvolvimento dos óculos e que o LED de captura "não pode ser desligado, e se alguém cobrir ou danificar o LED, a câmera é desativada", acrescentando que as pessoas usam o aparelho "para ouvir música, fazer tradução simultânea e fazer ligações com as mãos livres".
O peso do mercado ajuda a explicar o foco na empresa: segundo dados da consultoria IDC citados pelo Idec, as vendas globais de óculos inteligentes podem chegar a 13,6 milhões de unidades até o fim de 2026, com a Meta detendo 76,1% delas. Antes da denúncia, a Câmara dos Deputados já havia aprovado um projeto de lei com novas regras para os dispositivos que, se mantido pelo Senado no formato atual, proíbe o uso em banheiros, vestiários, salas de aula e outros ambientes "com expectativa de privacidade".
Nos Estados Unidos, a restrição partiu do próprio governo. Em meados de agosto de 2026, o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) distribuiu um memorando interno proibindo todos os seus funcionários — não apenas os agentes de campo — de usar os óculos da Meta em serviço. O texto afirma que "o uso dos óculos da Meta ou de dispositivos semelhantes pode capturar, gravar ou transmitir informações sensíveis de forma não intencional, comprometendo potencialmente a privacidade e proteções legais". A ordem veio depois de relatos, desde março de 2026, de agentes do ICE e da Patrulha de Fronteira usando o produto durante operações e protestos; um porta-voz do Departamento de Segurança Interna afirmou ao New York Times que servidores sempre estiveram proibidos de usar câmeras corporais particulares. Mesmo assim, o site 404 Media registrou um agente da CBP gravando com os óculos em uma operação já sob a nova regra.
A próxima geração do produto está no centro de um debate sobre reconhecimento facial. Em 13 de agosto de 2026 foi publicado o pedido de patente US 2026/0238876 A1, "Smart Cameras Enabled by Assistant Systems", de uma família de pedidos que remonta a 2019. O documento descreve um assistente que combina câmera com reconhecimento facial, leitura de expressões, direção do olhar e identificação de objetos: os óculos reconheceriam quem está no campo de visão, gravariam trechos curtos quando alguém rir, falar ou entrar em quadro e montariam automaticamente um resumo em vídeo do encontro — priorizando pessoas identificadas e podendo desfocar as demais. Uma patente não é um produto anunciado, mas o registro reacendeu a crítica de que a tecnologia permitiria identificar estranhos na rua sem consentimento, num país sem lei federal abrangente de privacidade biométrica. Em junho de 2026, a WIRED já havia encontrado no aplicativo Meta AI um sistema de reconhecimento facial não lançado, chamado NameTag, que a empresa classificou como "exploratório" e disse não ter decisão final antes de remover seus componentes.
Sob essa pressão, a empresa mexeu no produto. Em 28 de agosto de 2026, a Meta começou a distribuir uma atualização de software que fecha a brecha mais simples de burlar o LED: até então os óculos impediam o início de uma gravação com a luz coberta, mas nada acontecia se o usuário tapasse o indicador depois que a captura já tinha começado. Alex Himel, vice-presidente de realidade aumentada da Meta, afirmou que "a câmera agora vai parar de funcionar se a luz for coberta durante uma gravação" e que, se o LED for "coberto, adulterado fisicamente ou destruído", o aparelho desativa a câmera automaticamente. A atualização vale para as linhas Ray-Ban Meta, Oakley Meta e Meta AI glasses. Em 1º de setembro de 2026, o Semafor informou que a medida já havia atingido milhares de aparelhos: a atualização detecta o LED coberto ou destruído e desliga a câmera, e a Meta calcula que menos de 0,1% de todos os óculos vendidos foram adulterados. Alex Himel tratou o problema como permanente — "tem sido um pouco um jogo de gato e rato (…) sempre há novas formas de contornar as salvaguardas" — e a empresa passou a acompanhar a trava técnica de uma campanha em redes sociais e em outdoors para ensinar o público a reconhecer quando os óculos estão gravando. No mesmo período, o Digital Trends noticiou uma patente concedida à empresa que descreve um circuito de corte físico ("hardware privacy mute circuit") capaz de interromper a energia do sensor da câmera — uma trava de hardware, que não depende de software e por isso não pode ser contornada por atualização ou modificação do sistema. Uma patente concedida não é um produto anunciado.
O uso dos óculos para assédio também expõe os limites da moderação da própria empresa. Em meados de julho de 2026, Adam Mosseri anunciou que o Instagram passaria a remover vídeos gravados com os óculos que assediem mulheres em espaços públicos — o gênero de conteúdo de "cantada" e pegadinha que rendeu ao produto o apelido de "óculos de pervertido". Cerca de um mês depois, uma apuração de Katie Notopoulos, do Business Insider, encontrou dezenas desses vídeos ainda no ar: dos mais de 20 links enviados à Meta, a empresa removeu nove, e uma conta desativada chegou a ser reativada por engano antes de ser banida de novo. A Meta afirma ter retirado milhares de conteúdos, derrubado grandes contas e bloqueado buscas por termos como "rizz" e "cold approach", mas não divulgou o texto da política, o que deixa sem definição pública o que conta como assédio e qual é o alcance da regra.
A resposta seguinte à pressão por privacidade é um produto sem câmera. Em 15 de setembro de 2026, o The Information informou que a Meta prepara para o outono do hemisfério norte um modelo de óculos inteligentes de codinome Luna, sem lentes de captura: a interação se dá por voz, com seis microfones que dão acesso ao chatbot de IA da empresa e ao agente Muse. O produto foi confirmado na conferência Meta Connect, em 23 de setembro de 2026, com o nome Ray-Ban Meta Audio: os primeiros óculos da empresa sem câmera, com música, chamadas, tradução e acesso ao Muse. Pesam 43 gramas, têm até 12 horas de bateria (48 horas com o estojo), vêm nos estilos Clubmaster e Burbank e custam a partir de US$ 349. Incluem um modo de aparelho auditivo com aval da FDA, cobrado à parte ou incluído na assinatura Meta One. "Há quase 2 bilhões de pessoas no mundo que usam óculos atualmente (…) e acreditamos que, nos próximos anos, a maioria deles será atualizada para óculos com IA", disse Zuckerberg.
Os modelos com câmera seguem: no mesmo evento saiu a terceira geração do Ray-Ban Meta, a partir de US$ 449, com câmera de 12 MP, vídeo 3K, seis microfones, até nove horas de bateria e um botão de ação programável, nos estilos Wayfarer, Aviator e Zena. O Meta Ray-Ban Display, a versão com tela, a partir de US$ 799, chega a Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Canadá. A empresa também prometeu levar aos óculos o Private Processing, que processa os pedidos à IA sem que a Meta tenha acesso aos dados, e deixar o usuário impedir que suas imagens treinem a IA da empresa ou sejam vistas por prestadores terceirizados fora dos Estados Unidos.
O Meta Ray-Ban Display também ganhou o Hologram, versão realista do avatar do usuário para chamadas, anunciada no Meta Connect. Depois de uma captura rápida do próprio rosto pelo aplicativo Meta AI, a pessoa passa a aparecer como uma réplica fotorrealista dos ombros para cima nas chamadas de vídeo do WhatsApp; a expressão é inferida só pela voz, do que se diz e de como se diz. Segundo a empresa, o recurso começa a ser liberado em acesso antecipado nos Estados Unidos ainda no outono do hemisfério norte de 2026, e uma versão de corpo inteiro chegará com o Meta VR Glasses. É a resposta da Meta às Personas do Apple Vision Pro.
Em outubro de 2026, donos dos óculos relataram no Reddit que, depois de uma atualização de firmware, os aparelhos passavam a gravar conversas sem o comando "Hey, Meta" — mesmo com a opção de responder sem a frase de ativação desligada —, com áudio e transcrição salvos no aplicativo Meta AI; os relatos citavam modelos de segunda e terceira geração. Em 13 de outubro, a Meta disse ao Android Authority que o problema estava resolvido e que os usuários podem revisar e apagar os registros de voz nas configurações, sem explicar a causa.
Resultados financeiros
No segundo trimestre de 2026, a Meta registrou receita de US$ 60,8 bilhões, crescimento de 28% em um ano e acima da expectativa do mercado, de US$ 60,17 bilhões. O lucro líquido, porém, caiu 14%, para US$ 15,8 bilhões, e o lucro por ação diluído recuou 13%, para US$ 6,18 — abaixo dos US$ 7,22 projetados por analistas.
A margem operacional encolheu de 43% para 31% e os custos totais subiram 55% no ano, para US$ 42 bilhões. A queda do lucro foi atribuída principalmente a itens não recorrentes, incluindo US$ 2,4 bilhões em despesas jurídicas e US$ 1,18 bilhão em custos de rescisão.
O investimento em infraestrutura de IA explica boa parte da pressão: o capex do trimestre foi de US$ 31,08 bilhões, o fluxo de caixa livre caiu para US$ 784 milhões e a companhia elevou a projeção de investimento para 2026 à faixa de US$ 130 bilhões a US$ 145 bilhões. Para o terceiro trimestre, a projeção de receita ficou entre US$ 61 bilhões e US$ 64 bilhões.
No terceiro trimestre de 2026, divulgado em 21 de outubro, a receita foi de US$ 64,6 bilhões, alta de 26% em um ano e acima dos US$ 63,34 bilhões esperados pelos analistas. O lucro líquido ficou em US$ 9,86 bilhões, e o lucro operacional caiu 37%, para US$ 12,99 bilhões, por causa de uma cobrança de US$ 9,89 bilhões ligada ao acordo com os procuradores-gerais estaduais sobre a dependência de adolescentes em redes sociais. Sem ela, segundo a empresa, o lucro por ação teria sido de US$ 7,40, e não de US$ 3,83. O capex do trimestre foi de US$ 34,91 bilhões. A Meta estreitou a projeção de investimento de 2026 para US$ 135 bilhões a US$ 145 bilhões e prevê receita de US$ 73 bilhões a US$ 76 bilhões no quarto trimestre. As ações subiram mais de 3% no after hours, mas no pregão de 22 de outubro caíram cerca de 6%: o fluxo de caixa livre do trimestre ficou negativo em US$ 2,12 bilhões, e o spread do CDS de cinco anos da empresa, a medida do risco de crédito, bateu recorde (Estadão Conteúdo via InfoMoney; Bloomberg; CNBC via Times Brasil).
No mesmo balanço, a empresa anunciou ações ordinárias Classe C, sem direito a voto, que passam a valer em janeiro de 2027. A distribuição aos acionistas atuais equivale a um desdobramento de dois por um. Segundo a diretora financeira Susan Li, os papéis ampliam as opções para financiar o investimento em IA, aquisições e a remuneração de funcionários sem diluir o controle de voto de Zuckerberg. O Google fez algo parecido em 2012 (UOL).
As ações Classe C também resolvem um problema pessoal de Zuckerberg. Pelo acordo anunciado em 21 de outubro de 2026, ele pode vender de imediato 20% das ações Classe C que receber, o equivalente a 10% da sua participação econômica, para pagar o imposto único de 5% sobre fortunas de bilionários que a Proposição 40 cria na Califórnia, se os eleitores a aprovarem. Em troca, Zuckerberg se compromete a morar na Califórnia por oito anos (ou no estado para onde a sede for). Com a fortuna de US$ 240 bilhões estimada pela Forbes, a cobrança chegaria a cerca de US$ 12 bilhões (Times Brasil, com Reuters).
Em 26 de outubro de 2026, a Meta lançou uma oferta pública de cerca de US$ 35 bilhões em ações ordinárias e ações preferenciais conversíveis para financiar data centers, capacidade computacional e produtos de IA. A empresa também anunciou um programa separado de venda de ações no mercado ("at-the-market") de até US$ 60 bilhões, que começa depois que as ações Classe C passarem a ser negociadas, previsto para o primeiro trimestre de 2027. Somados, os dois chegavam a US$ 95 bilhões. Em 27 de outubro, a empresa elevou a parte em ações ordinárias Classe A de US$ 22,5 bilhões para US$ 25 bilhões, ao preço de US$ 625 por ação, e manteve a venda de cerca de US$ 12,5 bilhões em 250 milhões de ações preferenciais conversíveis, a US$ 50 cada. Com o programa de até US$ 60 bilhões, o plano passou a US$ 97,5 bilhões, a maior captação da história da Meta (Reuters). Segundo a Bloomberg, a oferta de ações ordinárias teve demanda de cerca de cinco vezes o volume disponível, e mais da metade dos papéis foi para investidores de longo prazo e acionistas atuais.
No anúncio de 26 de outubro, a Meta informou que Nvidia, AMD e Broadcom tinham manifestado interesse não vinculante em comprar, somadas, até US$ 5 bilhões em ações Classe A (Reuters; CNBC). No dia seguinte, a Nvidia anunciou que vai investir US$ 3 bilhões na oferta, junto com a ampliação da parceria em torno do Muse e o uso de mais processadores Vera Rubin e CPUs Vera pela Meta, e a AMD anunciou investimento de US$ 1 bilhão (Nvidia; CNBC). A Broadcom não divulgou valor. Para a Reuters, a participação dos fornecedores aumenta a preocupação com o fluxo circular de capital no setor de IA, em que fabricantes de chips ajudam a financiar a expansão de um de seus maiores clientes.
Em 30 de setembro, a Meta tinha US$ 82,45 bilhões em caixa e títulos, pouco acima da dívida de longo prazo de US$ 80,92 bilhões, e compromissos futuros de cerca de US$ 825 bilhões, a maior parte em data centers e computação em nuvem (Reuters, via InfoMoney).
O tamanho do investimento virou fonte de pressão sobre as ações no fim de setembro de 2026. Uma análise do Goldman Sachs estimou que empresas como a Meta precisariam gerar cerca de US$ 300 bilhões por ano em receita com serviços de IA só para atingir o ponto de equilíbrio sobre o capex, e US$ 1 trilhão para obter lucros considerados significativos. As ações caíram na sexta-feira, 25 de setembro, e recuaram mais de 4% na segunda-feira, 28, interrompendo uma alta de cerca de 36% acumulada no mês. Pelo ranking da Forbes, a fortuna de Zuckerberg perdeu quase US$ 20 bilhões nos dois pregões.
Os gastos também puseram em foco os benefícios fiscais da empresa. Em carta de 27 de setembro de 2026 a Zuckerberg, os senadores democratas Elizabeth Warren, Tina Smith e Jeff Merkley afirmaram que a despesa corrente da Meta com imposto de renda federal caiu de US$ 9,6 bilhões em 2024 para US$ 2,8 bilhões em 2025, enquanto o lucro antes de impostos subiu US$ 15,3 bilhões, e atribuíram parte da queda às deduções criadas ou ampliadas pela lei tributária de 2025, a One Big Beautiful Bill Act, sobre um capex de US$ 72 bilhões naquele ano. Em 30 de setembro, o New York Times informou que a Meta vinha reivindicando de forma agressiva um crédito tributário sobre a construção de data centers de IA, ao classificar as instalações como experimentais. No mesmo dia, o jornal revelou outra disputa, travada com a Receita Federal americana (IRS) no Tribunal Tributário dos Estados Unidos: a Meta reivindica US$ 355 milhões em economia com o crédito federal de pesquisa, previsto na Seção 41 do código tributário, ao tratar como despesa de pesquisa os US$ 4,1 bilhões em opções de ações exercidas por Zuckerberg, referentes aos anos fiscais de 2012 e 2013. A empresa diz que as opções remuneravam o trabalho de Zuckerberg como programador em 2005; o IRS diz que valem pelo período de aquisição, de 2008 a 2010. No total, os créditos de pesquisa pedidos pela Meta nesses dois anos somam US$ 618 milhões.
A questão chegou ao Comitê de Finanças do Senado. Em carta a Zuckerberg divulgada em 15 de outubro de 2026, os democratas do comitê — os senadores Sheldon Whitehouse, Catherine Cortez Masto, Ron Wyden, Ben Ray Luján, Peter Welch e Maggie Hassan, além de Elizabeth Warren, do Comitê de Bancos — questionam relatos de que a Meta declara ao IRS seus data centers de IA como "modelos-piloto" para enquadrá-los no crédito de pesquisa, o que lhe teria poupado bilhões na compra de equipamentos. Segundo os documentos regulatórios da empresa, os créditos de pesquisa somaram US$ 700 milhões em 2023, US$ 2 bilhões em 2024 e US$ 4 bilhões em 2025, ano em que o benefício custou US$ 32 bilhões ao governo federal no total. Os senadores pedem respostas a dez perguntas até o fim de outubro. A Meta respondeu que investiu US$ 200 bilhões em pesquisa e desenvolvimento em cinco anos e que data centers otimizados para IA "exigem extensos testes e experimentação que não podem ser simulados".
O Conselho de Supervisão e os deepfakes
O Conselho de Supervisão (Oversight Board) é o órgão independente que revisa decisões de moderação da Meta e cujas determinações sobre conteúdo a empresa se comprometeu a cumprir. Em 17 de setembro de 2026, ele emitiu sua crítica mais dura até aqui às regras da companhia sobre conteúdo sintético, ao reverter duas decisões da empresa e classificar suas políticas de IA como "consistente e fundamentalmente inadequadas" diante do avanço do material gerado por inteligência artificial.
O primeiro caso envolvia um vídeo gerado por IA que punha declarações inflamadas sobre refugiados na boca de uma pessoa eleita vereadora pelo Partido Trabalhista na Escócia. O material era realista, o áudio não acompanhava os movimentos faciais e não havia qualquer rótulo indicando origem sintética; a Meta havia decidido não removê-lo depois de receber a denúncia. Para o Conselho, o vídeo violava a política de conduta de ódio e deveria ter sido removido e rotulado com destaque. A vítima descreveu o uso da própria voz replicada como "bastante traumático".
No segundo caso, uma jovem muçulmana que havia participado de uma campanha de educação sobre saúde menstrual teve trechos de sua entrevista manipulados para ridicularizá-la — num dos vídeos ela aparecia se exercitando de forma absurda e comendo besteira. O conteúdo acumulou dezenas de milhões de visualizações, e a Meta chegou a fechar automaticamente as denúncias sobre a publicação. O Conselho entendeu que o vídeo violava a política de bullying e assédio e determinou a remoção, além da aplicação das regras aos comentários — providência que a empresa só tomou depois da decisão.
As falhas apontadas foram a dependência da sinalização por "parceiros confiáveis" em vez de revisão independente, a rotulagem inconsistente do conteúdo de IA e a ausência de salvaguardas contra campanhas de assédio direcionado, que atingem de forma desproporcional mulheres com presença pública. O Conselho fez nove recomendações, entre elas baixar o limiar para aplicação do rótulo de "IA de alto risco", inserir telas de aviso antes da exibição, reduzir o alcance ou desmonetizar o conteúdo sinalizado, punir reincidentes, publicar anualmente dados sobre rotulagem, ampliar a definição de imagem manipulada não consentida para alcançar pessoas privadas e priorizar revisão humana quando houver indício de conteúdo sintético. A Meta tem 60 dias para responder; removeu os dois vídeos após as decisões, mas não havia adotado de forma substantiva as recomendações anteriores do órgão sobre rotulagem de IA.
Em 20 de outubro de 2026, o Conselho apontou "falhas recorrentes" da Meta na aplicação das regras de integridade eleitoral, no Brasil e nos Estados Unidos. No Brasil, disse que a empresa aplicou com rigor excessivo suas políticas antifraude às contas de anúncios do presidente Lula, o que levou a alegações de interferência na eleição, e que o caso deveria ter ido a uma equipe interna de revisores especializados. Nos Estados Unidos, citou a retirada de contas ligadas ao movimento No Kings antes das eleições de meio de mandato. O órgão perguntou por que essas contas não estavam no cross-check, o programa de revisão humana de decisões sensíveis, e repetiu um pedido feito depois da eleição brasileira de 2022: métricas públicas que meçam a eficácia da moderação eleitoral, e não só números gerais de anúncios e contas removidas (Agência Brasil, Times Brasil). No mesmo dia, cinco organizações da sociedade civil pediram ao Congresso dos Estados Unidos que investigue a atuação da Meta na eleição brasileira, segundo a Folha.
Controvérsias e regulação
A Meta acumula litígios e disputas regulatórias em várias frentes.
Cambridge Analytica. O escândalo envolveu a coleta não autorizada de dados de usuários do Facebook por terceiros e se tornou o caso emblemático das falhas de privacidade da empresa.
O veredicto do Novo México. Em 25 de setembro de 2026, um júri de Santa Fe concluiu, no processo State of New Mexico v. Facebook, Inc., movido em 2021 pelo Departamento de Justiça do estado, que a empresa violou de forma deliberada a lei estadual de práticas comerciais desleais (Unfair Practices Act) cerca de 43,9 milhões de vezes. Os jurados analisaram declarações públicas de Mark Zuckerberg, da ex-diretora de operações Sheryl Sandberg e de outros executivos em cinco categorias: o controle dos usuários sobre os próprios dados, desinformação, discurso de ódio, aplicação igualitária dos Padrões da Comunidade e a investigação prometida depois do caso Cambridge Analytica. Houve violação deliberada em todas elas. Entre as declarações consideradas enganosas estão as de que o Facebook não vendia dados dos usuários a anunciantes, não lucrava com desinformação ou ódio e não abria exceções às suas regras para políticos. A categoria da Cambridge Analytica concentrou mais de 18,1 milhões de violações, pelas promessas de auditar aplicativos suspeitos, banir desenvolvedores que usaram dados indevidamente e avisar os afetados. Segundo o procurador-geral Raúl Torrez, mais de 350 mil moradores do estado podem ter tido dados coletados. A lei prevê multa de até US$ 5 mil por violação, o que leva a exposição máxima a cerca de US$ 219,5 bilhões. O valor por violação e as mudanças a exigir da empresa cabem ao juiz distrital Francis Mathew. Em audiência em 1º de outubro de 2026, o estado pediu a multa máxima de US$ 5 mil por violação, reduzida depois a um total entre US$ 35 bilhões e US$ 40 bilhões, cerca de 20% do teto; se concedido, seria o maior valor já fixado numa ação judicial nos Estados Unidos. "Este tribunal deveria falar com a Meta na única língua que ela entende, que é dinheiro e o valor de suas ações", disse a advogada do estado Randi McGinn. A Meta propôs uma condenação de no máximo US$ 3,45 bilhões, e seu advogado Matt Nicholson classificou o pedido de "penalidade astronômica" que violaria várias garantias constitucionais. Mathew respondeu que, ao ir a julgamento, as partes "jogam os dados" e precisam aceitar as consequências, e prometeu decidir até o fim de outubro. Em 21 de outubro de 2026, Mathew fixou a condenação em US$ 25 bilhões. Pela lei estadual, o dinheiro vai para o sistema escolar do Novo México (Reuters, via g1). O diretor jurídico da Meta, C.J. Mahoney, disse que a decisão torna "praticamente impossível" fazer negócios no estado e que a empresa confia em vencer na apelação (TechCrunch). Foi a segunda vitória do estado contra a Meta em 2026: em março, outro júri concluiu que a empresa expôs crianças a predadores e enganou consumidores sobre os riscos, com multas de US$ 375 milhões, e um juiz mandou a empresa pôr mais US$ 567 milhões num fundo estadual de saúde mental de adolescentes (g1).
Antitruste nos Estados Unidos. Em novembro de 2025, a Justiça americana decidiu que a Meta não violou as leis antitruste e não detém monopólio no mercado analisado, encerrando a fase principal do processo movido pela FTC.
A marca "Meta" no Brasil. A companhia disputa no Judiciário brasileiro o direito de usar o próprio nome no país. A Meta Serviços em Informática S/A, empresa brasileira que usa a marca há mais de trinta anos e obteve o registro no INPI em 2008, acionou a dona do Facebook depois da mudança de nome de 2021. Em 28 de fevereiro de 2024, a 1ª Câmara de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu por unanimidade, sob relatoria do desembargador Eduardo Azuma Nishi, que a Meta Platforms tinha 30 dias para parar de usar a marca no Brasil, sob multa diária de R$ 100 mil. Em 15 de março de 2024, o desembargador Heraldo de Oliveira Silva, presidente da Seção de Direito Privado do mesmo tribunal, suspendeu os efeitos dessa decisão por ver "risco de dano irreparável ou de difícil reparação", liberando o uso da marca enquanto o mérito não é julgado. No recurso, a Meta Platforms sustentou que a Justiça estadual não teria competência para anular registro de marca, atribuição que, segundo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça invocado pela empresa, cabe à Justiça Federal.
O julgamento dos 29 estados na Califórnia. A maior ação já movida contra a empresa por danos a menores chegou a júri em agosto de 2026 em um tribunal federal de Oakland, na Califórnia, sob a juíza Yvonne Gonzalez Rogers. Vinte e nove estados americanos acusam a Meta de desenhar o Facebook e o Instagram para induzir o uso compulsivo por adolescentes, de coletar dados de crianças menores de 13 anos e de enganar os pais sobre a segurança das plataformas. A seleção do júri começou em 12 de agosto e as alegações iniciais foram apresentadas em 18 de agosto; Mark Zuckerberg e Adam Mosseri, chefe do Instagram, estavam na lista de depoentes. O julgamento não chegou ao fim: em 26 de agosto de 2026 as partes anunciaram um acordo que encerra o processo (ver abaixo).
Na abertura, em 18 de agosto, falaram os advogados de quatro estados que lideram a coalizão — Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey. A procuradora-geral adjunta da Califórnia, Megan O'Neill, resumiu assim a acusação: a Meta teria desenhado seus produtos para "fisgar os usuários, mantê-los pelo maior tempo possível, colher seus dados e então esconder a verdade do público". Pela defesa, o advogado Paul Schmidt reconheceu que parte dos usuários enfrenta dificuldades, mas sustentou que a pesquisa disponível não estabelece relação clara entre o uso de redes sociais por adolescentes e piora do bem-estar, e que a empresa admite ter havido linguagem "solta" em comunicações internas sem que isso descreva o produto. Entre as mudanças pedidas pelos estados estão o fim das curtidas e da rolagem infinita, limites de tempo por faixa etária e barreiras efetivas ao acesso de menores de 13 anos.
A cifra de US$ 1,4 trilhão citada como exposição máxima é uma estimativa da própria Meta, obtida somando as sanções previstas para cada violação das leis de proteção ao consumidor e de privacidade; a empresa contesta o método, alegando que ele conta o mesmo adolescente várias vezes. A defesa também sustenta que o "vício em redes sociais" não é um diagnóstico psiquiátrico reconhecido. Além de multas, os estados pedem mudanças nos produtos: restrições por idade, limites rígidos de tempo de uso para menores, fim da rolagem infinita e corte das notificações constantes.
O primeiro depoente de peso foi Arturo Béjar, em 19 de agosto. Diretor de engenharia da Meta entre 2009 e 2015 e depois consultor independente sobre o bem-estar de adolescentes no Instagram, entre 2019 e 2021, ele afirmou que a empresa premiava funcionários por métricas de engajamento — como as "interações sociais significativas" e os usuários ativos diários — em detrimento da segurança, e que a cultura de decisão vinha de cima: "Se o Mark faz de algo uma prioridade, montanhas se movem em meses". Béjar disse ter levado a Zuckerberg e a outros executivos estudos internos que documentavam a exposição de menores a conteúdo sexual e violento sem ver ação correspondente, e classificou de "projetadas para falhar" ferramentas de segurança como o lembrete de pausa e o "modo silencioso", por serem opcionais em vez de padrão. Sobre as declarações públicas do fundador em 2021, afirmou: "É tão falso, cada parte disso. Você simplesmente não pode confiar no Mark Zuckerberg com crianças". No contra-interrogatório, o advogado da Meta Brian Stekloff destacou que Béjar desconhecia problemas enfrentados pela própria filha adolescente no Instagram e o levou a reconhecer que a empresa emprega centenas de profissionais dedicados à segurança.
Adam Mosseri, chefe do Instagram, depôs em 25 e 26 de agosto e viu a acusação transformar uma das ferramentas de segurança da empresa em prova contra ela. Interrogado por Jason Slothouber, advogado do Colorado, Mosseri reconheceu que a adesão ao "Faça uma Pausa" — o recurso que sugere ao adolescente fechar o aplicativo depois de certo tempo de uso — ficava "na casa de um dígito" antes de a ferramenta passar a vir ligada por padrão nas Contas de Adolescente, lançadas em 2024; um documento interno admitido como prova registrou 1,8% dos adolescentes usando o recurso. Ele confirmou que a companhia nunca divulgou publicamente esse número e que, à época, não havia como um pai ou uma mãe saber que apenas 1% a 2% dos adolescentes usariam a ferramenta. Em um post de dezembro de 2021, Mosseri havia afirmado que mais de 90% dos adolescentes que ativaram o recurso o mantiveram ligado — percentual que contava apenas quem já o tinha habilitado manualmente. No depoimento, resumiu a decisão assim: "A maioria dos adolescentes não queria. Decidimos seguir em frente mesmo assim."
O acordo de US$ 18 bilhões. Em 26 de agosto de 2026, com o julgamento em curso, a Meta e os procuradores-gerais anunciaram um acordo que encerra o processo antes do veredicto: a empresa pagará até US$ 18 bilhões ao longo de dez anos, valor que os estados destinarão a iniciativas de saúde mental e de tratamento da dependência de redes sociais entre menores. Cerca de US$ 5,3 bilhões — 30% do total — só serão desembolsados se YouTube e TikTok adotarem medidas equivalentes: limite diário de uma hora, modo noturno e verificação de idade. É a maior quantia já paga pela empresa em um litígio de segurança infantil. Segundo a Al Jazeera, a adesão foi além dos 29 estados autores e alcançou 48 estados, o Distrito de Columbia, Porto Rico, Samoa Americana e as Ilhas Marianas do Norte; a coalizão bipartidária é liderada pelo procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta.
A contrapartida em produto vale para Facebook e Instagram e é o que muda para o usuário: limite padrão de duas horas diárias somadas nos dois aplicativos para menores de 18 anos, que só pode ser afrouxado por um dos pais, com avisos aos 60 e aos 90 minutos; um "modo noturno" que bloqueia o acesso entre meia-noite e 6h; um "modo escola" que silencia notificações entre 8h e 15h; contagem de curtidas oculta nas contas de adolescentes; bloqueio por padrão de filtros que simulam maquiagem pesada e procedimentos estéticos; supervisão parental ampliada sobre tempo de uso, contatos e mensagens; e tecnologia mais estrita de verificação de idade para barrar menores de 13 anos. As obrigações valem por cinco anos e podem se estender a dez caso as plataformas concorrentes adotem regras equivalentes. O cronograma começa a correr depois da homologação judicial: quatro meses para os feeds não personalizados de adolescentes, seis meses para as demais medidas e um ano para os requisitos de verificação de idade.
A ação da Flórida. A Flórida ficou fora do acordo nacional. O procurador-geral do estado, o republicano James Uthmeier, chamou-o de "mera repreensão" e "custo de fazer negócios", e em 7 de outubro de 2026 pediu a um tribunal estadual do condado de Pasco que obrigue a Meta a identificar e remover do Facebook e do Instagram os usuários da Flórida com menos de 14 anos, limitar o uso de adolescentes a duas horas diárias somadas em todos os aplicativos, desligar a reprodução automática e a rolagem infinita, proibir anúncios direcionados a adolescentes e cortar o acesso às mensagens quando o limite de tempo for atingido. As duas últimas exigências vão além do que o acordo de agosto prevê.
A investigação na Índia. Em julho de 2026, o Ministério de Eletrônica e Tecnologia da Informação (MeitY) notificou a Meta sobre anúncios pagos no Instagram ligados a material de abuso e exploração sexual infantil, apontados por uma reportagem do BBC Eye que identificou peças usando termos associados a abuso sexual de crianças e direcionando usuários a canais no Telegram. Em 3 de julho de 2026, a Comissão Nacional de Proteção dos Direitos da Criança (NCPCR) abriu apuração de ofício e, em 16 de setembro de 2026, intimou o diretor-gerente e chefe da Meta na Índia a depor. O governo indiano passou a contestar o enquadramento da empresa como mera intermediária: para fontes oficiais, uma companhia cujos algoritmos amplificam e decidem o que cada usuário vê é prestadora de serviço, não intermediária passiva — tese que, se acolhida, alcança a proteção de safe harbour e cuja palavra final cabe ao Judiciário indiano. A Meta concordou em reportar casos de segurança infantil diretamente ao I4C, o portal de cibercrime do país, tornando-se a primeira grande intermediária de tecnologia a abrir esse canal direto com as autoridades indianas. Em 7 de outubro de 2026, a empresa anunciou novas ferramentas de IA contra esse tipo de anúncio: um modelo de linguagem que examina o destino de cada peça, e não só o conteúdo, para achar anúncios de aparência inofensiva que levam a material de exploração sexual infantil fora da plataforma, bloqueando os sites e mirando as contas por trás deles; um agente de red-teaming que testa as próprias defesas; e detecção de quem volta com conta nova depois de banido. Segundo a Meta, a empresa agiu contra 33,2 milhões de conteúdos de exploração sexual infantil no Facebook e no Instagram no primeiro semestre de 2026, mais de 97% detectados antes de denúncia de usuário; na Índia foram 5,3 milhões.
A Ofcom e o Instagram Instants. Em 6 de outubro de 2026, a Ofcom, reguladora de comunicações do Reino Unido, abriu investigação para apurar se a Meta violou a Online Safety Act ao lançar o Instagram Instants, recurso de fotos que somem depois de vistas, sem fazer avaliação de risco adequada sobre a exposição a conteúdo ilegal e o acesso de crianças. A lei exige essa avaliação antes de mudanças relevantes no desenho de um serviço, e a violação pode render de advertência formal a multa de até 10% do faturamento global. "Segurança desde a concepção precisa vir de fábrica, não ser parafusada depois", disse George Lusty, diretor de fiscalização da Ofcom. A Meta afirmou ter feito uma análise de risco, ter conversado com a Ofcom várias vezes antes do lançamento e que o recurso bloqueia o reencaminhamento e herda as proteções das contas de adolescentes; disse que vai cooperar. A Ofcom já investigava a empresa por não atender a um pedido de informações sobre o WhatsApp, e a Meta contesta o regulador na High Court tanto pelas taxas cobradas das empresas quanto pela inclusão do WhatsApp e do Instagram numa categoria da lei com obrigações adicionais.
O vazamento no GitHub. Em 13 de outubro de 2026, a Meta informou que invasores usaram credenciais roubadas de um funcionário para acessar repositórios da empresa no GitHub e levaram código de produtos e dados pessoais de cerca de 1.500 pessoas, a maioria funcionários nos Estados Unidos. Segundo a empresa, 99% do material era dado de negócio; o 1% restante eram dados pessoais guardados ali por engano, contra a política interna, boa parte deles dados de teste sintéticos ou anonimizados. A Meta disse que não houve falha em nenhum produto nem invasão de seus sistemas internos, começou a notificar os afetados em 8 de outubro, ofereceu monitoramento de crédito e da dark web e avisou os reguladores. Nenhum grupo reivindicou o ataque.
O TSE e o segundo turno. Em 15 de outubro de 2026, a pedido da campanha de Lula à reeleição, que acusou a empresa de falhar "de forma reiterada e sistemática" na entrega das postagens da coligação e de a Meta AI recusar imagens de Lula enquanto aceitava as de Flávio Bolsonaro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que a Meta não reduza a distribuição, não exclua das recomendações nem restrinja a busca de conteúdo político-eleitoral de nenhum dos dois candidatos até o fim do segundo turno, sob multa diária de R$ 500 mil. A Meta AI deve aplicar critério idêntico às duas candidaturas e não gerar propaganda a favor ou contra nenhuma delas. Bellizze escreveu que não estava comprovada manipulação deliberada, mandou a empresa apurar 255 perfis e 1.204 publicações e pediu em 48 horas dados de alcance dos perfis oficiais dos candidatos entre 1º e 7 de outubro.
A Meta respondeu em comunicado em 16 de outubro de 2026, depois de a Folha de S.Paulo publicar comunicações internas em que funcionários reconheciam restrições ao impulsionamento de posts da campanha de Lula. A empresa negou viés político e atribuiu os episódios a "incidentes técnicos": duas falhas globais em outubro, uma que congelou a contagem de visualizações do Instagram Reels em mais de 100 países e outra que suspendeu por um dia a criação de anúncios a partir de publicações existentes, e uma brecha que combinava nomes genéricos a números de urna e, por pouco tempo, impediu a Meta AI de gerar imagens de Lula enquanto as de Flávio Bolsonaro seguiam liberadas por mais um dia. "Os eleitores brasileiros merecem fatos, não uma narrativa política construída combinando problemas técnicos sem relação entre si", disse a empresa, que afirmou aplicar "as mesmas regras a todos os candidatos, partidos e pontos de vista políticos" e prometeu se defender na ação. Segundo a Associated Press, a Meta não explicou por que canais de Bolsonaro no Instagram e no WhatsApp receberam recomendações algorítmicas, prática que o TSE considerou ilegal. O segundo turno está marcado para 25 de outubro de 2026. No mesmo dia, a Folha mostrou que a Facebook Serviços Online do Brasil, subsidiária da Meta, é a empresa que mais recebeu dinheiro de campanhas nas eleições brasileiras de 2026. Ainda em 16 de outubro, o plenário do TSE manteve por unanimidade a decisão de Bellizze, segundo a Agência Brasil. Em 19 de outubro de 2026, Bellizze deu 24 horas para a Meta comprovar que cumpriu a decisão: a empresa tinha trocado por conta própria o prazo de 72 horas por cinco dias, o que o ministro chamou de descumprimento. Se não comprovar, a multa diária sobe de R$ 500 mil para R$ 1 milhão. O ministro também exigiu relatórios em português sobre os anúncios políticos e admitiu Flávio Bolsonaro como interessado na ação, segundo o g1. A Meta respondeu em 20 de outubro de 2026. Disse que uma declaração técnica anexada ao processo "atesta que os conteúdos relativos às duas candidaturas são tratados de forma igual e não discriminatória" e que não houve negligência nem resistência às ordens do tribunal (g1). Segundo a empresa, bloqueios automáticos de contas de anúncio das campanhas passam por revisão humana em até duas horas até o domingo da votação, e 720 de 1.204 publicações analisadas foram removidas por não identificar o uso de inteligência artificial; ela pediu que o TSE não aplique a multa (Times Brasil). A Meta também contestou dois pontos da ordem: diz que não consegue tratar de forma diferente uma mesma publicação em colaboração (collab) conforme o perfil em que ela aparece, e que a revisão humana prévia de anúncios políticos atrasaria campanhas. A resposta ainda será analisada por Bellizze (InfoMoney). Em 21 de outubro de 2026, a Procuradoria-Geral Eleitoral, consultada por Bellizze, disse que a Meta descumpriu parte das determinações "por reconhecimento expresso ou implícito" da própria empresa: não processou as denúncias de forma isonômica, não informou um a um os anúncios reavaliados e suspensos, não detalhou as providências tomadas e não reapresentou em português o relatório sigiloso. A procuradoria pediu multa contada desde cada descumprimento, sem citar valor, e uma explicação técnica específica no lugar de "declarações genéricas de isonomia". Também apontou indício de nova desigualdade, a partir de elementos levados pela campanha de Lula: a ferramenta de tradução da plataforma invertia o sentido de comentários contra Flávio ("Flávio futuro presidiário!!" saía como "Flávio future president!!"), e a IA da empresa gerava propaganda a favor dele (g1).
Em 23 de outubro de 2026, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, deu 24 horas para a Meta e o X detalharem suas regras sobre inteligência artificial, distribuição de conteúdo político, anúncios eleitorais e remoção de publicações. A ordem atende a um pedido de investigação da campanha de Lula contra Flávio Bolsonaro, por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. Cueva também mandou a Meta submeter à revisão humana a retirada, em 22 de outubro, de um vídeo do cantor MC Cabelinho com o portal Revelando, com críticas a Flávio, que a empresa derrubou por uso de IA; os autores negam ter usado a tecnologia. O ministro negou o pedido de revisão de todos os posts da campanha. No mesmo dia, o presidente do TSE, Nunes Marques, se reuniu com Meta, X, TikTok e Kwai (g1). Também em 23 de outubro, 13 parlamentares dos Estados Unidos mandaram carta a Zuckerberg pedindo explicações sobre o tratamento das duas campanhas, com prazo até novembro para resposta por escrito (Times Brasil, citando o g1).
O governo, o MPF e a moderação de conteúdo. Em 17 de outubro de 2026, o Ministério da Justiça e Segurança Pública pediu à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que investigue se a Meta descumpre o Marco Civil da Internet, nas regras de moderação em vigor desde julho de 2026, e mandou as informações ao Ministério Público Federal. As notas técnicas da pasta reúnem relatos de organizações da sociedade civil, como os 1.121 casos de corte de alcance e restrição de funções contados pela CTRL+Z entre 25 de setembro e 13 de outubro, e apontam seis falhas: decisões sem motivo e sem recurso, enquadramento sem ler o contexto, remoções depois de denúncias em massa, corte de alcance sem aviso, aprovação de anúncios pagos do exterior com deepfakes e respostas insuficientes às autoridades. O ministério pede auditoria nos sistemas automáticos de moderação e de distribuição e sugere que a ANPD avalie medida cautelar antes do segundo turno, segundo o g1. No mesmo dia, a 1ª Vara Federal de Porto Alegre mandou a Meta restabelecer em até dois dias as contas no Instagram de quatro entidades estudantis da UFRGS e da UFCSPA, derrubadas em 6 de outubro, sem aviso, depois de convocarem atos a favor da reeleição de Lula. A ação civil pública é do MPF com o Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da UFRGS. Até a tarde de 17 de outubro, as contas seguiam suspensas, e a Meta não quis se manifestar, segundo a Agência Brasil. A ANPD abriu o procedimento em 16 de outubro de 2026, motivada por uma manifestação do MPF, por denúncias de organizações da sociedade civil e por petições de usuários, e em 19 de outubro mandou ofícios dando à Meta cinco dias úteis para explicar como recebe denúncias, remove conteúdo e suspende contas, e como o usuário pode recorrer de decisões automatizadas. A apuração se apoia na LGPD e no Marco Civil, regulamentado pelo Decreto nº 12.975/2026; as denúncias com efeito eleitoral foram enviadas ao TSE, segundo o g1.
Os gastos eleitorais nos Estados Unidos. Em 2025, a Meta anunciou um orçamento de US$ 65 milhões para eleger políticos estaduais favoráveis à indústria de inteligência artificial nas eleições de meio de mandato de 2026, com um super PAC criado com US$ 45 milhões para combater projetos de lei estaduais de regulação de IA. Segundo documentos citados pelo New York Times em 16 de outubro de 2026, a empresa reduziu esse orçamento em US$ 25 milhões por meio de reembolsos, a maior parte vinda desse super PAC.
A investigação sobre venda de drogas. Em 15 de outubro de 2026, a Bloomberg Law informou que a cúpula do Departamento de Justiça americano mandou os promotores de carreira do Distrito Oeste da Virgínia interromperem a investigação de júri sob a qual a Meta era apurada por facilitar a venda ilegal de medicamentos e drogas em suas plataformas, aberta no governo Biden. A ordem veio logo depois de executivos da empresa serem intimados a depor e de uma reunião com os advogados da Meta; segundo a reportagem, o vice-procurador-geral interino Trent McCotter e seu adjunto Aakash Singh avaliam um acordo civil com multa ou um acordo de não persecução. O Departamento de Justiça disse não comentar investigações em curso, e a Meta não comentou.
Os novos termos comerciais. A Meta atualizou em outubro de 2026 os termos comerciais, com vigência a partir de 30 de outubro, e incluiu uma cláusula que a autorizava a usar "qualquer conteúdo" dos domínios, páginas e URLs ligados a contas comerciais no Facebook, no Instagram e no WhatsApp para "desenvolver, melhorar, pesquisar, treinar" seus produtos, entre eles a IA da empresa. Não havia opção de recusa: quem continuasse usando as contas comerciais consentia. Segundo três especialistas ouvidos pelo Nieman Lab, a cláusula alcançaria praticamente todos os veículos de imprensa, que quase sempre mantêm uma conta comercial na Meta. Em 17 de outubro de 2026, depois da repercussão, a empresa retirou o trecho. "As regras de rastreamento que consolidamos valiam só para os nossos produtos de anúncios e de negócios, e deixamos isso claro nos próprios termos", disse a Meta, segundo o TechCrunch e o The Verge. "Isso não muda a forma como a Meta usa rastreadores." A versão revisada ainda permitia o uso do conteúdo em publicidade e produtos comerciais, e as críticas continuaram, da News/Media Alliance, que representa mais de 2 mil publicações nos Estados Unidos, da WAN-IFRA e do European Publishers Council. Em 23 de outubro de 2026, a Meta adiou a entrada em vigor dos novos termos de 30 de outubro para 20 de novembro, para "explicar aos nossos parceiros e partes interessadas o que está mudando e o que não está", segundo um porta-voz à Fast Company (Estadão).
Linha do tempo
- 4 de janeiro de 2004: Mark Zuckerberg e colegas fundam a TheFacebook, Inc.
- 2012: o Facebook compra o Instagram por cerca de US$ 1 bilhão.
- 2014: compra o WhatsApp, por mais de US$ 19 bilhões, e a Oculus VR, por mais de US$ 2 bilhões.
- 28 de outubro de 2021: a Facebook, Inc. passa a se chamar Meta Platforms, Inc.
- Fevereiro de 2022: a empresa perde US$ 237 bilhões em valor de mercado em um único dia.
- 25 de setembro de 2026: júri do Novo México conclui que a Meta violou deliberadamente a lei estadual de práticas comerciais desleais.
- 21 de outubro de 2026: a Meta divulga o terceiro trimestre, com fluxo de caixa livre negativo, e anuncia ações Classe C sem direito a voto; no mesmo dia, um juiz do Novo México fixa a condenação em US$ 25 bilhões.
- 26 de outubro de 2026: lança oferta de cerca de US$ 35 bilhões em ações e anuncia um programa de até US$ 60 bilhões para 2027.
- 27 de outubro de 2026: eleva o plano de captação para US$ 97,5 bilhões, o maior da sua história; a Nvidia anuncia investimento de US$ 3 bilhões e a AMD, de US$ 1 bilhão.
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