O que é o governo Tarcísio
O governo Tarcísio de Freitas é a gestão do estado de São Paulo iniciada em 1º de janeiro de 2023, quando Tarcísio de Freitas (Republicanos) tomou posse como governador na Assembleia Legislativa, com Felício Ramuth como vice. Ex-ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, Tarcísio havia derrotado Fernando Haddad (PT) no segundo turno da eleição de 30 de outubro de 2022, em sua primeira disputa eleitoral.
O primeiro mandato teve como eixos uma ampla agenda de privatizações e concessões, cuja peça central foi a venda do controle da Sabesp em 2024, e uma política de segurança pública conduzida pelo secretário Guilherme Derrite, marcada por operações policiais letais na Baixada Santista e pelo aumento das mortes causadas por policiais. Na educação, o governo reduziu o piso constitucional de gastos com o setor e apostou em material digital e escolas cívico-militares.
Em 4 de outubro de 2026, Tarcísio foi reeleito no primeiro turno com 62,65% dos votos válidos, de novo contra Haddad. O primeiro mandato termina em janeiro de 2027; o segundo começa em 6 de janeiro de 2027.
Aprovação e avaliação do governo
As pesquisas mostraram o governo com avaliação majoritariamente positiva ao longo do mandato. No Datafolha, a fatia que considera a gestão ótima ou boa foi de 44% em abril de 2023, caiu para 41% em abril de 2025, quando a reprovação chegou a 22%, e voltou a 45% em março e julho de 2026.
| Pesquisa | Data | Ótimo/bom | Regular | Ruim/péssimo | Aprova | Desaprova |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Datafolha | abr/2023 | 44% | 39% | 11% | — | — |
| Datafolha | abr/2025 | 41% | 33% | 22% | 61% | 33% |
| Datafolha | mar/2026 | 45% | 31% | 20% | 64% | 30% |
| Datafolha | jul/2026 | 45% | 32% | 20% | 63% | 32% |
| Datafolha | set/2026 | 46% | 30% | 21% | 63% | 32% |
A última pesquisa Datafolha com avaliação do governo antes da eleição, divulgada em 11 de setembro de 2026, apontou 46% de ótimo ou bom e 63% de aprovação. Na Genial/Quaest, a aprovação foi de 61% em fevereiro de 2025, quando saúde e segurança eram as áreas com pior avaliação, e de 56% contra 26% de desaprovação na rodada divulgada em 29 de setembro de 2026, a última antes do primeiro turno.
Plano de governo 2026
Para o segundo mandato (2027-2030), a campanha apresentou o plano "Trilhas da Prosperidade", cuja versão preliminar foi divulgada em 7 de agosto de 2026, organizado em dez eixos que incluem segurança, desenvolvimento social, educação, mulheres, clima e segurança hídrica, infraestrutura e economia do conhecimento. Entre as principais propostas:
- Obras: o programa "SP Pra Toda Obra 4.0", com mais de R$ 500 bilhões em rodovias, ferrovias, metrô, saneamento, escolas e hospitais.
- Segurança: expansão da "Muralha Paulista", rede de câmeras, sensores e reconhecimento facial, e criação de um centro integrado de inteligência.
- Educação: levar 60% dos estudantes da rede ao ensino técnico, manter o Provão Paulista e ampliar as escolas cívico-militares.
- Saúde: ampliar o teleatendimento, usar inteligência artificial para reduzir filas e expandir a Tabela SUS Paulista.
Privatizações e concessões
A agenda de desestatização foi a marca do primeiro mandato. Em março de 2025, Tarcísio afirmou que o programa de parcerias do estado já somava mais de R$ 354 bilhões em investimentos contratados, acima da meta inicial de R$ 220 bilhões.
Sabesp
A Assembleia Legislativa (Alesp) aprovou o projeto de lei que autorizou a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) em 6 de dezembro de 2023, por 62 votos a 1, numa sessão marcada por protestos; a oposição deixou o plenário e não votou. O governador sancionou a lei (Lei 17.853/2023) em 8 de dezembro. A capital aderiu ao novo modelo depois que a Câmara Municipal aprovou o projeto em segunda votação, em 2 de maio de 2024, por 37 votos a 17.
O novo contrato de concessão, aprovado pelos municípios em maio de 2024, antecipou de 2033 para 2029 a meta de universalização: 99% da população com água e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Também previu redução de tarifa de 10% na tarifa social e de 1% na residencial.
A oferta de ações foi precificada em julho de 2024 a R$ 67 por ação e levantou R$ 14,8 bilhões, a maior operação do tipo na América Latina desde a Eletrobras, em 2022. A Equatorial Energia, única a apresentar proposta final como investidora de referência, ficou com 15% da companhia, por cerca de R$ 6,9 bilhões, e não pode vender as ações até o fim de 2029. A participação do estado caiu de 50,3% para cerca de 18%. O preço, cerca de 20% abaixo da cotação da véspera, foi criticado por entidades ligadas aos trabalhadores do saneamento. Em 2026, a agência reguladora Arsesp autorizou o primeiro reajuste tarifário depois da privatização, de 6,11%, em vigor desde 1º de janeiro.
Outras desestatizações
- EMAE: a Empresa Metropolitana de Águas e Energia foi a primeira privatização do governo, em leilão na B3 em 19 de abril de 2024. O Fundo Phoenix, que tem Nelson Tanure entre os cotistas, pagou R$ 1,04 bilhão. Em 2026, a própria Sabesp assumiu o controle da EMAE, com aval do Cade e da Aneel em janeiro.
- Trem Intercidades (TIC) Eixo Norte: leiloado em 29 de fevereiro de 2024, com o consórcio C2 Mobilidade sobre Trilhos (Comporte e CRRC) como único proponente. Ligará São Paulo a Campinas e inclui a operação da Linha 7-Rubi da CPTM.
- Linhas 11, 12 e 13 da CPTM: concedidas em 28 de março de 2025 ao Grupo Comporte, por 25 anos, com R$ 14,3 bilhões de investimento privado previsto.
- Túnel Santos-Guarujá: a portuguesa Mota-Engil venceu o leilão em 5 de setembro de 2025. A obra, de R$ 6,8 bilhões, tem aporte público dividido entre o estado e a União.
- Rodovias: o governo concedeu, entre outros, os lotes Rota Sorocabana (CCR, outorga de R$ 1,6 bilhão, outubro de 2024), Nova Raposo (EcoRodovias, R$ 2,2 bilhões, novembro de 2024), Paranapanema (Infra BR, setembro de 2025) e Rota Mogiana (Azevedo & Travassos e Quimassa, R$ 1,08 bilhão, fevereiro de 2026).
- Loteria Paulista: concedida em novembro de 2024 a um consórcio liderado pela portuguesa SAV, por R$ 600 milhões.
- Escolas: a parceria público-privada para construir 33 escolas teve os dois lotes leiloados no fim de 2024 e virou alvo de disputa judicial em 2025.
Enel
O governo Tarcísio se juntou à prefeitura de São Paulo e ao governo federal na pressão contra a distribuidora de energia Enel, depois dos apagões de novembro de 2023, outubro de 2024 e dezembro de 2025. Em outubro de 2024, o governador disse que a empresa "tem que sair do Brasil" e pediu a caducidade do contrato. Em abril de 2026, a Aneel abriu o processo administrativo de recomendação de caducidade; a decisão foi adiada por pedido de vista de um diretor em 6 de outubro de 2026. A palavra final cabe ao Ministério de Minas e Energia.
Finanças públicas
São Paulo tem a maior dívida entre os estados com a União, de cerca de R$ 300 bilhões. Em dezembro de 2025, a Alesp autorizou a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), que permite pagar o saldo em até 30 anos com juros menores. Em janeiro de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, reconheceu a adesão do estado; o governo estima economia de R$ 1 bilhão por mês.
Pela Procuradoria-Geral do Estado, o programa Acordo Paulista abriu a renegociação de dívidas tributárias com descontos em juros e multas.
Educação
A Secretaria da Educação está com o empresário Renato Feder desde o início do mandato. Em agosto de 2023, o governo anunciou que deixaria o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do governo federal, para usar apenas material digital próprio. Depois de uma liminar do Tribunal de Justiça obtida por deputados do PSOL, o estado recuou e aderiu ao PNLD em 16 de agosto de 2023. O uso intensivo de plataformas digitais e aulas em slides na rede continuou alvo de críticas de professores.
Em novembro de 2024, a Alesp aprovou a proposta de emenda à Constituição estadual que reduziu de 30% para 25% da receita de impostos o gasto mínimo obrigatório com educação; os cinco pontos liberados podem ir para educação ou saúde. A PEC passou em segundo turno em 27 de novembro, por 59 votos a 19.
O programa de escolas cívico-militares foi aprovado pela Alesp e sancionado em maio de 2024. Suspenso pelo Tribunal de Justiça em agosto daquele ano, voltou a valer em novembro, por decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF. O julgamento de mérito das ações contra a lei começou no Supremo em maio de 2026 e foi interrompido por pedido de vista do ministro Cristiano Zanin em 26 de maio.
Segurança pública
A Secretaria da Segurança Pública foi comandada de janeiro de 2023 a 1º de dezembro de 2025 por Guilherme Derrite, capitão da reserva da PM e deputado federal, que deixou o cargo para disputar o Senado. O delegado Osvaldo Nico Gonçalves assumiu a pasta. Derrite foi eleito senador em 4 de outubro de 2026.
Duas operações na Baixada Santista marcaram a gestão. A Operação Escudo, deflagrada depois da morte do soldado da Rota Patrick Bastos Reis em Guarujá, em julho de 2023, terminou após 40 dias com 28 mortos. A Operação Verão, encerrada em 1º de abril de 2024, deixou 56 mortos. Questionado sobre o número, Derrite disse: "Eu nem sabia que eram 56 mortes, não faço essa contagem".
As mortes causadas por policiais no estado passaram de 421 em 2022 para 504 em 2023, 813 em 2024 e 834 em 2025. No mesmo ano, os homicídios dolosos caíram para 2.438, o menor número da série. Em dezembro de 2024, um policial militar foi filmado jogando um homem de uma ponte na zona sul da capital; o caso e outros vídeos de abuso levaram o governador a admitir que estava "errado" ao duvidar das câmeras corporais. O novo modelo de câmeras, acionadas pelo policial, foi questionado no STF, e em maio de 2025 o tribunal homologou um acordo que ampliou o contrato para 15 mil equipamentos e tornou o uso obrigatório em operações de grande porte.
Os feminicídios subiram de 253 em 2024 para 266 em 2025. Em março de 2026, o governo anunciou um departamento de homicídios voltado aos crimes contra mulheres. Reportagens mostraram que verbas de programas de combate à violência contra a mulher foram contingenciadas em anos seguidos.
Saúde, habitação e tragédias
Na saúde, o governo criou em 2023 a Tabela SUS Paulista, que complementa os valores pagos pela tabela federal a hospitais filantrópicos e conveniados. Na habitação, lançou em abril de 2024 um pacote de 43.756 moradias em 231 municípios.
A primeira grande crise do mandato veio em fevereiro de 2023, quando chuvas de cerca de 680 milímetros em 24 horas atingiram o litoral norte. Morreram 65 pessoas, 64 delas em São Sebastião, para onde o governador transferiu o despacho do governo durante a resposta ao desastre.
Polêmicas
Além das mortes em operações policiais e dos cortes na educação, a gestão enfrentou questionamentos ligados ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador da campanha de Tarcísio em 2022, com R$ 2 milhões. Em 2026, o deputado estadual Antônio Donato (PT) levou ao Ministério Público uma representação que aponta supostas conexões entre o Master e as privatizações da Sabesp e da EMAE; o MP abriu uma apuração preliminar. Em setembro de 2026, veio a público uma proposta de delação de Vorcaro, rejeitada pela Polícia Federal e pela PGR, segundo a qual doações à campanha seriam propina. O governo nega irregularidades e afirma que as privatizações passaram por estudos do BNDES e da IFC, leilões na B3 e fiscalização do Tribunal de Contas, e que as contas de campanha foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.
Eleição de 2026 e segundo mandato
Tarcísio foi apontado em pesquisas do início de 2026 como o nome mais competitivo da oposição contra o presidente Lula, mas optou por disputar a reeleição em São Paulo. Em 4 de outubro de 2026, recebeu 14.491.874 votos (62,65% dos válidos), contra 8.423.656 (36,42%) de Haddad; Haddad ganhou em apenas seis dos 645 municípios. Felício Ramuth foi reeleito vice. Depois da vitória, o governador passou a fazer campanha por Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno presidencial contra Lula, marcado para 25 de outubro de 2026.
O segundo mandato começa em 6 de janeiro de 2027, data fixada para a posse dos governadores.
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