Visão geral
A doença de Newcastle é uma doença viral de aves domésticas e silvestres, causada pelo vírus virulento do paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1), segundo os critérios da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) citados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Nas aves, pode matar até 100% de um lote. Em pessoas, causa no máximo uma conjuntivite passageira, e não se pega comendo carne ou ovos.
No Brasil, o peso maior da doença recai sobre o comércio do agronegócio. O país é o maior exportador mundial de carne de frango, e um foco em granja comercial obriga a avisar a OMSA e os países compradores, que podem suspender as importações. Foi o que aconteceu em julho de 2024, no Rio Grande do Sul, e de novo em outubro de 2026. Em 18 de outubro de 2026, o Mapa confirmou um foco em uma granja de perus de corte em Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina. O México suspendeu a compra de produtos avícolas de todo o Brasil. China e Chile restringiram só os de Santa Catarina.
O que é a doença de Newcastle
A doença de Newcastle (DNC) é uma infecção viral que atinge aves domésticas e silvestres. O Mapa a define pelo agente: o vírus virulento do paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1). Focos em granjas são notificados à OMSA e aos países compradores. O controle de focos no Brasil segue o Plano de Contingência para Influenza Aviária e Doença de Newcastle, o mesmo usado para a gripe aviária.
Sintomas nas aves
Segundo a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), os sinais são:
- respiratórios: ofegação, tosse e espirros;
- nervosos: tremores, paralisia nas asas e pernas, pescoço torcido e espasmos;
- diarreia, frequentemente esverdeada, e edema da cabeça;
- queda na produção de ovos e ovos com cor ou forma anormal;
- mortes repentinas.
A taxa de mortalidade varia, mas pode chegar a 100% do plantel, segundo a Globo Rural. A Cidasc pede que produtores que notem esses sinais avisem o órgão.
Como se transmite
Entre as aves, a principal via são os aerossóis, gotículas de secreção respiratória que se espalham pelo ar. As fezes de aves doentes também carregam o vírus. Aves migratórias infectadas levam a doença entre continentes, por isso ela pode surgir em qualquer lugar do mundo, segundo o g1.
Tem tratamento ou vacina?
Não há tratamento. O lote com o vírus é eliminado para evitar que a doença chegue a outras granjas. A prevenção é a biosseguridade. Iara Trevisol, pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, recomenda manter as aves protegidas dentro das granjas, sem contato com patos, marrecos, pombos e aves silvestres; restringir visitas; vacinar as aves conforme a recomendação do Mapa; e usar bons desinfetantes na limpeza.
Pega em humanos? É seguro comer frango?
A infecção em humanos é rara e leve. Pode causar conjuntivite passageira, de cerca de uma semana, em quem tem contato direto e próximo com secreções de aves doentes. A transmissão ocorre pelo contato, e não pelo consumo.
O Mapa afirma que o consumo de produtos avícolas com inspeção oficial "permanece seguro, sem contraindicações". Em 19 de outubro de 2026, o ministro André de Paula disse: "o consumo dessa carne não traz nenhum risco às pessoas". A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) chama o caso de "questão de sanidade animal, restrita ao âmbito da produção, e não de segurança dos alimentos". Os produtos inspecionados trazem na embalagem um dos selos SIM (municipal), SIE (estadual) ou SIF (federal), segundo o governo de Santa Catarina.
O foco em Santa Catarina (2026)
O Mapa confirmou em 18 de outubro de 2026 um foco da doença em um estabelecimento comercial de corte de perus em Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina, e o anunciou em 19 de outubro. As amostras foram coletadas entre 21 de setembro e 14 de outubro, em ação de vigilância ativa. O Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), referência da OMSA para a doença, fez o diagnóstico.
A granja tem cerca de 6 mil perus. As aves não saíram da propriedade nem viraram produto para consumo. O Mapa interditou o local, suspendeu a movimentação de aves e prevê a eliminação do plantel, seguida de limpeza e desinfecção. Não haverá recolhimento de produtos.
As aves não tinham sinais da doença. "Vírus esse que não desenvolveu a doença, foi apenas confirmada a presença. As aves não estão tendo sintomas e nem mortalidade", disse a presidente da Cidasc, Celles Regina de Matos. Segundo o presidente da ABPA, Ricardo Santin, os exames acharam material genético de uma variante do vírus associada a pombos.
O governo federal declarou emergência zoossanitária por 60 dias em Nova Itaberaba, Coronel Freitas, Nova Erechim e Águas Frias, em portaria no Diário Oficial da União. Nos quatro municípios, a área de restrição tem cerca de 133 propriedades sob monitoramento epidemiológico. Equipes vão visitá-las, examinar as aves e colher amostras para o LFDA-SP.
Por que a doença trava exportações
Um foco em granja comercial é notificado à OMSA e aos parceiros comerciais. Cada país decide o que suspender, conforme o protocolo sanitário que assinou com o Brasil. A maioria restringe só a área do foco, em geral um raio de 10 quilômetros, segundo Santin.
A China funciona de outro jeito. O protocolo bilateral prevê um "autoembargo": o Brasil suspende preventivamente todas as exportações de carne de aves para a China, e Pequim decide depois se o bloqueio vale para o país inteiro, para o estado ou só para a região do foco. "Alguns países, como a China, se tiver uma dessas doenças (Newcastle ou gripe aviária), o Brasil precisa suspender as exportações, para ela definir como vai ficar a regionalização", disse Santin à Reuters em 19 de outubro de 2026.
Restrições em outubro de 2026
Pela nota do Mapa de 20 de outubro de 2026, as restrições ficaram assim:
- México: suspendeu as importações de todo o Brasil (aves vivas, carne e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias e aves ornamentais ou de companhia). Anunciou a medida em 19 de outubro, para proteger uma produção que considera livre da doença.
- China: suspendeu só a carne de aves de Santa Catarina. Segundo o Mapa, a restrição ficou limitada ao estado após negociação do governo brasileiro.
- Chile: suspendeu só produtos de Santa Catarina (ovos férteis, ovos SPF, pintinhos de um dia, aves ornamentais, carne fresca de aves, ovos para consumo e produtos com carne fresca de aves).
A decisão chinesa chegou na manhã de 20 de outubro. "Ao todo são 14 estabelecimentos em Santa Catarina que exportam frango para lá e que, agora, ficam suspensos de exportar", disse ao g1 o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Billi. O Brasil tem 61 plantas habilitadas a vender frango à China. As outras 47 seguem exportando. A situação dos demais mercados segue em monitoramento pelo Mapa.
Analistas do Citi chamaram a decisão de "precedente encorajador": em 2024, a China havia suspendido as compras de todo o Brasil e só limitou a restrição ao Rio Grande do Sul 26 dias depois.
O peso do frango e o efeito na bolsa
O Brasil exportou 5,324 milhões de toneladas de carne de frango em 2025, recorde, segundo levantamento do InfoMoney. De janeiro a setembro de 2026, a China comprou 420 mil toneladas, cerca de 10% das exportações brasileiras do produto, segundo dados do governo. Pelos dados do Mapa citados pelo g1, o mercado chinês respondeu por 13,5% da receita no período. Santa Catarina responde por pouco mais de 20% dos embarques de carne de frango do país, segundo a ABPA.
Em 19 de outubro de 2026, a ação da MBRF (MBRF3) caiu 4,11%, a R$ 18,29, na B3. Em Nova York, a ação da JBS recuou 1%. O J.P. Morgan estimou que Santa Catarina responde por 10% a 20% das exportações de frango da MBRF e da Seara, da JBS, e previu impacto limitado e temporário. O Goldman Sachs apontou as duas a três semanas seguintes como o período para acompanhar uma possível propagação a outros municípios ou estados.
Precedente: o foco de 2024 no Rio Grande do Sul
O caso anterior em granja comercial no Brasil foi registrado em 17 de julho de 2024, em Anta Gorda (RS). O Brasil suspendeu as exportações de frango para a China naquele mês. Cerca de um mês depois, a China voltou a comprar do Brasil, mas manteve o bloqueio às empresas gaúchas. As restrições ao Rio Grande do Sul só caíram em janeiro de 2026, segundo o g1. A OMSA considerou o episódio encerrado 90 dias depois do foco.
O efeito nas exportações foi curto. Os embarques caíram de uma média de mais de 450 mil toneladas em julho de 2024 para menos de 380 mil em agosto, mas o ano fechou com alta de 3%, em 5,3 milhões de toneladas, segundo o InfoMoney. Pelo J.P. Morgan, as exportações perderam cerca de 100 mil toneladas durante as restrições, e o Ebitda de JBS e MBRF não teve impacto material.
Em maio de 2025, o primeiro foco de gripe aviária em granja comercial do país, também no Rio Grande do Sul, levou a China a suspender as compras de todo o Brasil por cerca de seis meses, segundo o Citi.
O que acontece agora
A emergência zoossanitária, declarada em 19 de outubro de 2026, vale por 60 dias. Nesse período, o Mapa e a Cidasc eliminam o plantel da granja, limpam e desinfetam o local e monitoram as cerca de 133 propriedades da área de restrição. A retomada da produção na granja depende do cumprimento dos procedimentos sanitários e da ausência de novos casos.
O Mapa negocia com os países importadores a retomada do comércio. A duração das restrições define o impacto financeiro, segundo o Citi, assim como a capacidade de redirecionar os volumes afetados.
Linha do tempo
- 17 de julho de 2024: Foco de doença de Newcastle em granja comercial em Anta Gorda (RS); Brasil suspende exportações de frango para a China.
- Agosto de 2024: Cerca de um mês depois, a China volta a comprar do Brasil, mas mantém o bloqueio ao Rio Grande do Sul.
- Maio de 2025: Primeiro foco de gripe aviária em granja comercial do Brasil, no Rio Grande do Sul; a China suspende compras de todo o país por cerca de seis meses.
- Janeiro de 2026: China retira as restrições ao frango do Rio Grande do Sul.
- 21 de setembro a 14 de outubro de 2026: Coleta de amostras em granja de perus em Nova Itaberaba (SC), em vigilância ativa.
- 18 de outubro de 2026: O LFDA-SP confirma o vírus; o Mapa confirma o foco.
- 19 de outubro de 2026: O ministro André de Paula anuncia o caso; o governo declara emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios; o México suspende produtos avícolas de todo o Brasil; a ação da MBRF cai 4,11%.
- 20 de outubro de 2026: A China limita a suspensão à carne de aves de Santa Catarina (14 plantas); o Chile restringe só produtos catarinenses.
Perguntas frequentes
O que é a doença de Newcastle?
É uma doença viral de aves domésticas e silvestres causada pelo paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1). Provoca sinais respiratórios, nervosos e digestivos e pode matar até todo o plantel.
Doença de Newcastle pega em humanos?
Raramente. Pode causar conjuntivite leve, de cerca de uma semana, em quem tem contato direto com secreções de aves doentes. Não há transmissão pelo consumo de carne ou ovos.
Posso comer frango, peru e ovos?
Sim. O Mapa afirma que o consumo de produtos avícolas com inspeção oficial (selos SIM, SIE ou SIF) permanece seguro. As aves do foco de Santa Catarina não saíram da granja nem viraram alimento.
A doença de Newcastle tem cura ou tratamento?
Não. O lote infectado é eliminado. A prevenção depende de biosseguridade e de vacinação das aves conforme a recomendação do Mapa.
Qual a diferença entre doença de Newcastle e gripe aviária?
São doenças diferentes. A doença de Newcastle é causada pelo paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1). As duas seguem o mesmo plano de contingência do Mapa e, segundo a ABPA, um foco de qualquer uma delas aciona o autoembargo previsto no acordo com a China.
Por que a China suspendeu só Santa Catarina?
O protocolo com a China prevê que o Brasil suspenda tudo e que Pequim defina o alcance. Em 20 de outubro de 2026, após negociação do governo brasileiro, a China limitou a suspensão a Santa Catarina, segundo o Mapa.
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