Estados Unidos e Irã iniciam negociações de paz em Islamabad, mediadas pelo Paquistão, em meio a grande ceticismo, acusações mútuas, impasse sobre o Estreito de Ormuz e ataques à infraestrutura saudita.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cobrou o Irã pela reabertura do Estreito de Ormuz, afirmando que a situação atual não corresponde ao acordo firmado. Ele também alertou o Irã contra a cobrança de pedágios de navios na rota marítima, ameaçando uma resposta caso a prática se concretize e sugerindo que os próprios EUA poderiam cobrar essas taxas. Em um tom mais agressivo, Trump ameaçou o Irã, afirmando que o país "só está vivo hoje para negociar" e que os EUA estão preparando munições caso as negociações fracassem. As declarações ocorrem às vésperas de negociações bilaterais e em meio a um cessar-fogo frágil e esforços diplomáticos entre Washington e Teerã. Trump também acusou o Irã de "extorsão de curto prazo do mundo" pelo controle de vias marítimas e de manipular a mídia, afirmando que os iranianos são "melhores em lidar com a mídia de fake news e relações públicas do que em lutar".
Em meio a esse cenário de tensões e desconfiança mútua, Estados Unidos e Irã iniciaram negociações presenciais em Islamabad, mediadas pelo Paquistão, marcando o 42º dia do conflito no Oriente Médio. Esta é a reunião de mais alto nível entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979. A delegação dos EUA é liderada pelo vice-presidente JD Vance, que também inclui Steve Witkoff e Jared Kushner, enquanto o Irã pode ser representado pelo presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf. A Casa Branca expressou dúvidas quanto à reabertura imediata do Estreito de Ormuz e à autoridade da equipe iraniana para negociar. O Irã, por sua vez, impõe condições para o diálogo, incluindo o cumprimento de compromissos pelos EUA, a inclusão do Líbano no cessar-fogo e o fim dos ataques israelenses, além da liberação de ativos bloqueados. A morte de Kamal Kharazi, assessor sênior do líder supremo iraniano, em um ataque americano-israelense, adiciona mais tensão ao cenário.
O tráfego no Estreito de Ormuz, vital para o transporte de petróleo global, mostra pouca retomada desde o anúncio da trégua. Um levantamento da Kpler registrou a passagem de apenas 12 navios pelo Estreito de Ormuz na quinta-feira (9), dois dias após a trégua, um número significativamente menor do que as mais de cem embarcações que cruzam o estreito diariamente em tempos de paz. Essa contagem não inclui navios da "frota escura" que transportam petróleo iraniano sob sanções e operam sem sistema de localização. Um navio de gás natural de Botswana tentou seguir uma rota da Guarda Revolucionária Islâmica, mas desistiu. O estreito permanece restrito a embarcações ligadas ao Irã, com apenas nove navios, incluindo petroleiros iranianos e um russo, observados passando desde quinta-feira. Dados de rastreamento mais recentes indicam que a maioria dos navios que transitaram pelo Estreito de Ormuz no último dia estava ligada ao Irã, com outras embarcações adiando suas viagens, mesmo após o cessar-fogo. Três navios-tanque iranianos, incluindo um superpetroleiro, deixaram águas iranianas nas últimas 24 horas, e quatro navios graneleiros, um deles transportando minério de ferro do Irã para a China, também navegaram. Autoridades do governo Trump afirmam que o Irã não pode reabrir totalmente o Estreito de Ormuz porque não sabe a localização exata das minas navais que colocou durante a guerra, o que tem irritado o governo americano. O vice-ministro iraniano Saeed Khatibzadeh declarou que o estreito está aberto com restrições e que a Guarda Revolucionária coordena o tráfego, alertando para o risco de minas. O Irã pretende cobrar pedágio pela passagem para cobrir os custos da guerra, e poucos navios têm recebido autorização para travessia. O novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, indicou que o Irã levará a gestão do Estreito de Ormuz a um novo estágio e exige reparações de guerra. A interferência eletrônica e o desligamento de transponders AIS dificultam o rastreamento preciso das embarcações na região. A Arábia Saudita, por sua vez, reportou ataques à sua infraestrutura crítica de energia, atribuindo-os ao Irã, o que interrompeu a produção de petróleo e gás, indicando a continuidade do conflito e a baixa expectativa de retomada do trânsito em Ormuz.
O cessar-fogo de duas semanas mostra rachaduras, com ataques contínuos de Israel no Líbano e retaliação do Hezbollah. Israel destruiu a última ponte sobre o rio Litani, isolando o sul do Líbano, e anunciou negociações diretas com o governo libanês sobre o desarmamento do Hezbollah. Analistas apontam que, militarmente, o Irã sofreu mais baixas e destruição de infraestrutura, mas manteve alta capacidade de retaliação, enquanto os EUA tiveram 13 militares mortos e 10 aeronaves destruídas. Economicamente, os EUA gastaram US$ 16,5 bilhões em 12 dias, e o Irã enfrenta um custo estimado de US$ 600 bilhões para reconstrução pós-guerra. Politicamente, o Irã perdeu o aiatolá Ali Khamenei e outros 15 membros do regime, com seu filho Mojtaba Khamenei assumindo, enquanto Donald Trump enfrenta desgaste político e queda de aprovação nos EUA. Estrategicamente, o Irã ganhou força ao controlar o Estreito de Ormuz e sobreviver a ataques, enquanto os EUA não alcançaram o objetivo de destruir o programa nuclear iraniano. Grandes lacunas existem entre as propostas de paz de Washington e Teerã, gerando dúvidas sobre a viabilidade de um acordo que satisfaça ambas as partes. Trump expressa otimismo por um acordo de paz, mas as propostas de ambos os lados apresentam pontos de discórdia significativos. O presidente americano enfrenta pressão para resolver o conflito, que causou um choque no fornecimento de petróleo e gerou temores de recessão global, com especialistas alertando para um alto risco de escalada.
G1 Mundo • 11 abr, 00:00
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