O Irã fechou o Estreito de Ormuz e seu Parlamento declarou inviáveis as negociações com os EUA, alegando violações de um cessar-fogo por Israel e descumprimento de cláusulas iranianas, apesar da retomada parcial do tráfego marítimo.

O Irã encerrou o período de 40 dias de luto pela morte de Ali Khamenei, confirmada em 28 de fevereiro de 2026, após um ataque aéreo em Teerã. Em meio a essa transição de liderança para Mojtaba Khamenei, filho do antecessor, o país fechou o Estreito de Ormuz nesta quarta-feira (8 de janeiro), menos de 24 horas após um cessar-fogo firmado com os Estados Unidos. A medida foi divulgada pela agência iraniana Fars, com o governo iraniano alegando que Israel violou o pacto ao manter sua ofensiva contra o Líbano. Anteriormente, a agência russa Tass havia reportado que o Irã limitaria a passagem de 15 embarcações diárias pelo estreito como parte do acordo. A mídia iraniana também reportou que petroleiros pararam de passar pelo Estreito de Ormuz em meio aos ataques israelenses no Líbano, que ocorreram no primeiro dia do cessar-fogo. O Irã voltou a fechar o Estreito de Ormuz em meio a uma trégua na região, com o objetivo de pressionar Israel a cessar seus ataques no Líbano, reforçando a instabilidade na rota marítima estratégica.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, menos de 24 horas após a trégua, pressionou o preço do petróleo e causou quedas nas bolsas asiáticas. O barril de Brent para junho era negociado a US$ 97,93, em alta de 3,36%, recuperando-se parcialmente após a queda inicial com o anúncio do cessar-fogo. A retomada do bloqueio recolocou dúvidas sobre a segurança da rota marítima e a continuidade do fluxo de petróleo na região. As bolsas asiáticas, que haviam subido com a trégua, registraram quedas generalizadas nesta quinta-feira, com exceção de Taiwan e Austrália. Apesar do fechamento inicial, o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz foi parcialmente retomado com cautela após o anúncio de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, conforme registrado por plataformas de monitoramento. Centenas de navios, incluindo petroleiros e embarcações de gás, estavam retidos na região durante a interrupção, que durou mais de um mês e viu 4.000 navios deixarem de cruzar o estreito. O Irã havia autorizado a travessia de 15 embarcações no domingo e confirmou uma trégua de 14 dias na terça-feira. A notícia do cessar-fogo fez os preços do petróleo Brent recuarem, após terem superado US$ 111 com ameaças anteriores, mas voltaram a subir com o novo fechamento.
A tensão se intensifica com a declaração do presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, de que as negociações com os Estados Unidos se tornaram inviáveis. Ghalibaf atribuiu a impossibilidade de negociações à "profunda desconfiança histórica" e às repetidas violações de compromissos pelos EUA. Ele citou o descumprimento de três cláusulas da proposta iraniana de 10 pontos para as tratativas: a continuidade dos combates no Líbano, com ataques de Israel que resultaram em 254 mortos; a entrada de um drone intruso no espaço aéreo iraniano, derrubado na província de Fars; e a negação do direito do Irã ao enriquecimento de urânio por parte de Trump. Um acordo de cessar-fogo de duas semanas entre Irã e EUA, que abriu caminho para negociações diretas, gerou forte oposição entre a facção linha-dura iraniana, conforme análise de Kasra Naji da BBC News Persa. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que o cessar-fogo envolvia apenas EUA, Israel e Irã.
O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, reforçou a posição iraniana, afirmando que o país garantirá a passagem segura no Estreito de Ormuz se os Estados Unidos interromperem sua "agressão". Khatibzadeh criticou os ataques de Israel no Líbano, classificando-os como uma "grave violação", apesar de Israel alegar que o Líbano não estava incluído no cessar-fogo. O diplomata iraniano descreveu o Hezbollah como um "movimento de libertação libanês" e afirmou que o grupo cumpriu o cessar-fogo. O Irã enviou uma mensagem à Casa Branca, exigindo que os EUA escolham entre "guerra e cessar-fogo" e não apoiem ações militares de aliados enquanto defendem uma trégua. Khatibzadeh expressou ceticismo sobre um acordo permanente com os EUA, acusando Washington de usar as negociações como pretexto para ação militar. O Irã pretende discutir com Omã e a comunidade internacional um protocolo para garantir a segurança da navegação no estreito, evitando o uso da rota por embarcações militares hostis, mantendo a esperança de avanço diplomático.
Especialistas em geopolítica sugerem que o frágil cessar-fogo entre EUA e Irã é, na verdade, uma pausa operacional para os Estados Unidos se prepararem para um novo ataque massivo. A grande mobilização de tropas e aeronaves dos EUA no Oriente Médio, incluindo cerca de 500 aviões, é vista como um indicativo de preparação para uma ofensiva. Rodolfo Queiroz Laterza compara a estratégia dos EUA à do Vietnã do Norte em 1972, com bombardeios massivos antes da retirada. Ali Ramos aponta o esgotamento de mísseis Tomahawk e Patriot dos EUA como um fator para a pausa, mas prevê um "mega ataque". A centésima onda de ataques do Irã contra alvos em Israel e outros países reforça a precariedade do cessar-fogo. China e outros países do Golfo pressionaram o Irã a aceitar o cessar-fogo, buscando uma nova realidade estratégica na região, enquanto Israel, sob Netanyahu, é visto como um ator que busca implodir o acordo para manter a guerra e sua posição política. O Estreito de Ormuz é uma rota marítima vital, responsável pela passagem de cerca de um quinto dos suprimentos mundiais de petróleo e um quarto do gás natural liquefeito (GNL). Qualquer interrupção do fluxo por este gargalo de 34 km de largura, que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Árabe, pode levar a um aumento drástico nos preços dos combustíveis e impactar a economia global.
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