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O Brasil já usa IA antes de decidir quem manda nela

Pix, crédito, deepfake, data center e GOV.BR já rodam com inteligência artificial. Faltou combinar quem define as regras, quem paga a conta e quem captura o valor.

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O Brasil já usa IA antes de decidir quem manda nela
Michael··

Um empréstimo aprovado em segundos por um algoritmo. Uma transferência no Pix lida por um modelo antifraude. Um vídeo da Xuxa que ela nunca gravou. Um data center de R$ 20 bilhões disputando energia da rede elétrica em Jundiaí. Um atendimento no GOV.BR respondido por IA generativa. Nada disso é cenário de futuro: é a semana passada no Brasil.

A inteligência artificial deixou de ser promessa de palco de evento e virou camada de infraestrutura do país. O problema é que ela foi implantada antes de o Brasil decidir como quer governá-la. Já não é uma discussão sobre tecnologia — é uma disputa de poder público, infraestrutura, direitos e captura econômica. E, em quase todas as frentes, a adoção chegou primeiro; as regras, o orçamento e a capacidade própria vêm correndo atrás.

Um país que regula por reação

Comece pelo vazio. O Brasil ainda não aprovou um Marco Legal da Inteligência Artificial, e o efeito prático é claro: quem define os limites éticos e operacionais é o próprio setor privado — startups, bancos, laboratórios — avançando sem diretriz do Estado. Quando a regra aparece, costuma ser tardia e reativa. O Tribunal Superior Eleitoral edita resoluções para conter deepfakes, e o Conselho de Comunicação Social do Congresso convoca audiência sobre IA e desinformação eleitoral às vésperas do ciclo de 2026, não antes dele.

Enquanto a lei não chega, são os tribunais que decidem o que ela não definiu. Um deputado foi condenado a indenizar por publicar imagem manipulada com IA, e o CADE investiga o uso de conteúdo jornalístico por plataformas. O país está, no fundo, legislando por jurisprudência e por susto — um modelo que protege quem tem advogado e deixa o resto à própria sorte.

Onde a disputa fica concreta: energia e data centers

É na infraestrutura que o discurso encontra a realidade. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial foi desenhado para reduzir a dependência tecnológica externa, mas esbarra em orçamento apertado e no próprio arcabouço fiscal. O governo federal montou um núcleo de IA no CPQD, em Campinas, com R$ 60 milhões, mirando IA generativa no GOV.BR e a promessa de manter dados sensíveis fora de nuvens estrangeiras. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, resume o dilema de fundo: a baixa integração do país às cadeias globais protegeu a economia de choques, mas também explica a estagnação da produtividade. Consumir IA é barato; ter capacidade própria, não.

E aqui está o gargalo que diferencia o caso brasileiro de qualquer análise genérica sobre regulação: a conta de luz. Os data centers deixaram de ser galpões de armazenamento e viraram instalações industriais de consumo altíssimo. Operadores como Ascenty e Scala anunciam aportes bilionários — o Scala AI City, novas unidades no Ceará — atraídos pela energia renovável brasileira. Mas a rede tem limite, e a escolha do Estado já apareceu: o ONS alterou um parecer técnico no fim do prazo para garantir a reserva de energia de um data center de R$ 20 bilhões em Jundiaí, revertendo diretriz anterior do próprio órgão. Traduzindo: a infraestrutura crítica está sendo flexibilizada para não perder o investimento. A pergunta que ninguém respondeu é quem paga essa conta — e se a prioridade energética da IA vai disputar megawatts com a casa do cidadão.

A oportunidade é real, mas não é para todos igualmente

Seria desonesto fingir que não há ganho econômico. Fintechs integram IA ao Pix, seguradoras cruzam IA e CPF para precificar apólices, o setor de saúde prioriza eficiência com IA, a Electrolux investe em diagnóstico remoto, a ClickHouse abre operação no Brasil de olho no setor financeiro e startups brasileiras captam para produtos de IA e dados. Há até inclusão: a Gerando Falcões usa IA em programas de combate à pobreza.

Mas vender isso como uma maré que levanta todos os barcos seria tecnoutopia barata. O ganho de eficiência tende a se concentrar em quem opera o algoritmo — o banco, a seguradora, a plataforma — enquanto o risco escorre para a ponta. A mesma IA que aprova crédito em segundos está elevando o superendividamento de jovens, liberando limites incompatíveis com a renda real. Precificação personalizada por algoritmo, vista do outro lado do balcão, é discriminação de preço. A questão não é se a IA gera valor, mas quem o captura e quem absorve o prejuízo.

O custo social chegou antes da proteção

Porque o dano já está na rua — e a defesa institucional, não. A Xuxa processa uma empresa por usar sua imagem em propaganda feita com deepfake, pedindo R$ 100 mil. Golpes de clonagem de voz e imagem ficaram sofisticados a ponto de enganar até especialistas. A política já colhe condenações por imagem manipulada. Em todos esses casos, a vítima corre atrás de reparação numa Justiça que improvisa, porque a lei específica não existe. E o cidadão comum — que não tem o advogado da Xuxa nem assessoria de imagem — é o primeiro a ficar exposto e o último a ser protegido.

A fase prática chegou. Falta a fase política.

O Brasil entrou na fase prática da IA. O que ainda não resolveu é a fase política dela. Nas próximas semanas e meses, cinco frentes merecem atenção — e cada uma é, no fundo, uma pergunta sem resposta:

  • Quem regula? O Marco Legal sai do Congresso, ou o país segue legislando por resolução do TSE e por sentença judicial?

  • Quem financia? O PBIA sobrevive ao orçamento, ou a soberania digital fica no slide de PowerPoint?

  • Onde roda? Os novos data centers se viabilizam — e a que custo para a rede elétrica e para a conta de quem mora ao lado?

  • Quem responde pelo dano? A judicialização dos deepfakes vira jurisprudência sólida ou continua loteria?

  • Quem captura o valor? A eficiência da IA se distribui, ou concentra ainda mais?

A IA já está implantada no cotidiano e na infraestrutura do país. Falta o Brasil decidir de quem ela é.

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