O que é a Polymarket
A Polymarket é uma plataforma de mercados de previsão fundada em junho de 2020 por Shayne Coplan, com sede em Nova York e domicílio legal no Panamá. Nela, os usuários negociam contratos atrelados ao resultado de eventos futuros — eleições, indicadores econômicos, disputas esportivas, conflitos militares — e o preço de cada contrato funciona como uma estimativa da probabilidade daquele desfecho. É a maior operadora do setor ao lado da norte-americana Kalshi, e faz parte da categoria mais ampla de mercados de previsão.
Como funciona
Os participantes depositam a stablecoin USDC pela rede blockchain Polygon e compram cotas que representam "sim" ou "não" para um desfecho específico. Cada cota é liquidada por US$ 1 se o evento se confirmar e por zero se não se confirmar, de modo que o preço de negociação — entre 0 e 1 dólar — é lido como a probabilidade implícita atribuída pelo mercado. Quem acerta lucra a diferença; quem erra perde o valor aplicado. A lógica é a da "sabedoria das multidões": como há dinheiro em jogo, o preço tenderia a incorporar informação nova mais rápido do que pesquisas ou opiniões de especialistas.
História e fundação
Coplan nasceu em 14 de junho de 1998 e abandonou o curso de ciência da computação na Universidade de Nova York ainda no primeiro ano para se dedicar a blockchain. Criou a Polymarket aos 22 anos, trabalhando sozinho de seu apartamento no Lower East Side, em Manhattan.
A primeira colisão regulatória veio cedo: em janeiro de 2022, a Polymarket pagou US$ 1,4 milhão à CFTC, a reguladora de derivativos dos Estados Unidos, e aceitou uma ordem de cessação por não ter se registrado como swap execution facility. O acordo a afastou formalmente do mercado norte-americano.
A projeção global veio com a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2024, quando mais de US$ 3,3 bilhões foram movimentados no mercado da disputa até 5 de novembro daquele ano. Um operador francês, usando várias contas, obteve cerca de US$ 85 milhões de lucro apostando na vitória de Donald Trump.
Investigações nos Estados Unidos e volta ao mercado americano
Em 13 de novembro de 2024, poucos dias após a eleição, agentes do FBI revistaram a casa de Coplan em Manhattan e apreenderam seus aparelhos eletrônicos, no âmbito de uma investigação sobre se a plataforma estaria permitindo ilegalmente que norte-americanos apostassem em eleições dos Estados Unidos.
Nenhuma acusação foi apresentada. Em 15 de julho de 2025, o Departamento de Justiça e a CFTC encerraram formalmente suas investigações sem novas medidas. No mesmo mês, a Polymarket comprou por US$ 112 milhões a QCEX, uma bolsa de derivativos já licenciada pela CFTC — o caminho para operar legalmente nos Estados Unidos. Em novembro de 2025 recebeu da CFTC a ordem de designação alterada que consolidou essa operação.
Polymarket no Brasil: bloqueio e acesso
Em abril de 2026, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), ligada ao Ministério da Fazenda, determinou o bloqueio da Polymarket e de outros 26 sites de mercados de previsão no Brasil. O entendimento do governo é que essas plataformas não são intermediárias de investimentos no mercado financeiro: quando os eventos negociados não são financeiros — política ou entretenimento, por exemplo —, elas operam com lógica de aposta, sem a autorização exigida das casas de apostas, o que as aproximaria de loterias irregulares.
A execução coube à Anatel, que notificou mais de 20 mil prestadoras de serviços de telecomunicações a bloquear os domínios. No total, cerca de 30 sites de mercados de previsão foram atingidos, incluindo a concorrente Kalshi. A justificativa oficial citou a proteção da poupança popular e o risco de manipulação de contratos baseados em eventos não financeiros. A medida é contestada: parlamentares do partido Novo sustentam que uma restrição desse alcance exigiria lei, não resolução administrativa.
O bloqueio, porém, não foi estanque. Em reportagem de setembro de 2026, a Agência Pública registrou que o site ainda era acessível sem VPN em parte do Rio de Janeiro, do Paraná e de Santa Catarina, e que a Polymarket mantinha um perfil em português nas redes sociais após a página oficial ter sido derrubada no Instagram.
Apostas nas eleições brasileiras de 2026
Apesar da proibição, a Polymarket seguiu oferecendo mercados sobre a eleição presidencial brasileira de 2026. Até 2 de setembro de 2026, US$ 141,7 milhões haviam sido movimentados em contratos sobre a disputa, com mercados dedicados a candidatos específicos.
A questão não é apenas de licença para apostar. A Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe plataformas digitais de oferecer bens, produtos ou publicidade vinculados a candidatos ou a resultados eleitorais, e o descumprimento pode configurar abuso de poder econômico e captação ilícita de sufrágio. Em setembro de 2026, a Advocacia-Geral da União passou a avaliar uma ofensiva contra apostas sobre as eleições.
Investimento da ICE, avaliação e planos de IPO
Em outubro de 2025, a Intercontinental Exchange (ICE), dona da Bolsa de Nova York, anunciou um aporte de até US$ 2 bilhões na Polymarket, avaliando a empresa em US$ 8 bilhões antes do dinheiro novo. Foi o movimento que tirou o setor da margem: a controladora da NYSE passou a ter participação numa plataforma de apostas em eventos.
A avaliação subiu rápido. Em abril de 2026, uma nova rodada precificou a empresa em US$ 15 bilhões, com US$ 600 milhões vindos da própria ICE. Em agosto de 2026, a Polymarket buscava capital a uma avaliação de US$ 20 bilhões, enquanto a Kalshi negociava a US$ 40 bilhões. A receita anualizada da Polymarket estava "bem acima de US$ 1 bilhão" em junho de 2026.
A empresa vem se estruturando para uma eventual abertura de capital. Em 10 de setembro de 2026 nomeou seu primeiro diretor financeiro, Warren Jenson, que passou por Amazon, Electronic Arts, Delta Air Lines e Nielsen. Não há cronograma de IPO anunciado nem registro protocolado.
Fraude com cartões roubados e críticas de compliance
Em setembro de 2026, o Wall Street Journal revelou que a plataforma norte-americana da Polymarket foi alvo, em fevereiro daquele ano, de um esquema que tentou movimentar ao menos US$ 10 milhões com cartões de débito roubados. Fraudadores vincularam cartões furtados a milhares de contas, abasteceram-nas, negociaram para movimentar o dinheiro e tentaram sacar para cartões e contas sob seu controle.
A escala do problema aparece nos números do processador de pagamentos: no pico de fevereiro, a Checkout.com rejeitou como fraudulentos mais de 80% dos depósitos da Polymarket US, contra um padrão de mercado de cerca de 1%. Segundo o jornal, funcionários da área de conformidade levaram o alerta a Coplan, que teria respondido que bastava continuar crescendo e pagar uma multa se os reguladores descobrissem. A empresa não confirmou publicamente a frase.
Até maio de 2026 os índices de fraude haviam se normalizado, após a imposição de limites para vinculação de cartões de débito e a contratação da Riskified como provedora antifraude. A Polymarket também reforçou o quadro executivo: contratou Shana Bautista, ex-investigadora do FBI, como chefe global de investigações e inteligência.
Mercados esportivos e a Copa do Mundo
Além de política e economia, a Polymarket opera mercados esportivos, que respondem por parte relevante do volume. Os volumes de negociação caíram em abril e maio de 2026 e foram compensados por recordes durante a Copa do Mundo.
Concorrentes
A principal rival é a Kalshi, bolsa de contratos de eventos regulada em âmbito federal nos Estados Unidos — uma diferença de arquitetura que separa o público das duas: a Polymarket liquida em criptomoeda sobre blockchain, a Kalshi opera como bolsa tradicional. Corretoras como Coinbase e Robinhood também vêm ampliando funcionalidades de mercados de previsão em suas plataformas.
