O que é a Polymarket
A Polymarket é uma plataforma de mercados de previsão fundada em junho de 2020 por Shayne Coplan, com sede em Nova York e domicílio legal no Panamá. Nela, os usuários negociam contratos atrelados ao resultado de eventos futuros, como eleições, indicadores econômicos, disputas esportivas e conflitos militares, e o preço de cada contrato funciona como uma estimativa da probabilidade daquele desfecho. É a maior operadora do setor ao lado da norte-americana Kalshi e faz parte da categoria mais ampla de mercados de previsão.
No Brasil, a Polymarket está bloqueada desde abril de 2026: o governo a trata como site de apostas sem autorização, e o Conselho Monetário Nacional proibiu contratos sobre eleições e esportes. Mesmo assim, a plataforma manteve mercados sobre a eleição presidencial brasileira de 2026, cujas cotações passaram a circular na campanha do segundo turno.
Como funciona
Os participantes depositam a stablecoin USDC pela rede blockchain Polygon e compram cotas que representam "sim" ou "não" para um desfecho específico. Cada cota é liquidada por US$ 1 se o evento se confirmar e por zero se não se confirmar, de modo que o preço de negociação, entre 0 e 1 dólar, é lido como a probabilidade implícita atribuída pelo mercado. Quem acerta lucra a diferença; quem erra perde o valor aplicado. A lógica é a da "sabedoria das multidões": como há dinheiro em jogo, o preço tenderia a incorporar informação nova mais rápido do que pesquisas ou opiniões de especialistas. A cotação reflete as apostas de quem negocia na plataforma, não uma amostra do eleitorado, e por isso não é pesquisa eleitoral.
A Polymarket é legal no Brasil?
Não. Em 24 de abril de 2026, o governo bloqueou o acesso a 27 sites de mercados de previsão, entre eles a Polymarket e a Kalshi. A decisão foi da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, que considera essas plataformas casas de apostas sem a autorização exigida das bets, e não intermediárias de investimento: quando o evento negociado não é financeiro, como política ou entretenimento, a operação seria de aposta. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou a atividade de "apostas ilegais". A justificativa oficial citou a proteção da poupança popular e o risco de manipulação de contratos sobre eventos não financeiros.
No mesmo dia, o Conselho Monetário Nacional publicou a Resolução 5.298/2026, que proíbe derivativos sobre esportes, jogos online e eventos políticos, eleitorais, sociais, culturais ou de entretenimento. Contratos sobre índices econômicos e financeiros podem ser autorizados pela CVM. Em 27 de abril, a B3 lançou seis "contratos de eventos" sobre Ibovespa, dólar e bitcoin, que a CVM liberou só para investidores profissionais.
A execução do bloqueio coube à Anatel, que notificou as prestadoras de internet. Parlamentares do Novo sustentam que uma restrição desse alcance exigiria lei, não resolução. Em julho de 2026, a própria Polymarket passou o Brasil para o modo "close-only", em que usuários do país só podem encerrar posições. O bloqueio, porém, não foi completo: em setembro, a Agência Pública registrou que o site ainda abria sem VPN em partes do Rio de Janeiro, do Paraná e de Santa Catarina. Em 22 de setembro de 2026, a Meta restringiu no Brasil o perfil da Polymarket em português no Instagram, a pedido da SPA, depois que o TSE avisou que a plataforma seguia oferecendo apostas sobre a eleição.
Polymarket e a eleição brasileira de 2026
A Polymarket manteve mercados sobre a eleição presidencial mesmo após o bloqueio. Até 2 de setembro de 2026, US$ 141,7 milhões tinham sido movimentados em contratos sobre a disputa; em 17 de outubro, o mercado principal sobre o vencedor somava cerca de US$ 185 milhões.
No primeiro turno, em 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%; os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro. As cotações da Polymarket para a vitória de Flávio passaram de 63% na manhã de 4 de outubro para 84,8% no dia 5 e chegaram a 87% em 12 de outubro. Depois caíram: 81% em 15 de outubro e cerca de 77%, contra 23% de Lula, na madrugada de 17 de outubro. Em agosto, o mercado tinha Lula como favorito. As pesquisas de intenção de voto mostravam disputa apertada: em 16 de outubro, PoderData registrou 50% a 50% e CNT/MDA, 50,5% a 49,5%. (Eleições brasileiras de 2026)
A questão não é só de licença. A Resolução 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe plataformas digitais de oferecer bens, produtos ou publicidade ligados a candidatos ou a resultados eleitorais, e o descumprimento pode configurar abuso de poder econômico. A Advocacia-Geral da União passou a avaliar em setembro uma ofensiva contra apostas sobre a eleição. Segundo a Agência Pública, ao menos dez candidatos, entre eles Flávio Bolsonaro, divulgaram cotações da Polymarket e da Kalshi como se fossem pesquisas. A Polymarket diz que "não apoia candidatos" e que não tem equipe no Brasil.
Propaganda paga com influenciadores
Entre 18 e 21 de setembro de 2026, ao menos 11 contas do X, em sua maioria ligadas ao ecossistema de Donald Trump, publicaram conteúdo com o rótulo "parceria paga" exibindo gráficos da Polymarket com a alta de Flávio Bolsonaro, segundo a Folha de S.Paulo. Entre elas estavam o ex-deputado republicano Matt Gaetz, o influenciador George Behizy e a UHN Plus, conta de direita em espanhol sediada na Flórida. Os posts não identificam quem pagou. A lei eleitoral proíbe o impulsionamento de propaganda de candidato por terceiros e doações de entidades estrangeiras; a campanha de Flávio disse desconhecer os anúncios.
História e fundação
Coplan nasceu em 14 de junho de 1998 e abandonou o curso de ciência da computação na Universidade de Nova York no primeiro ano para se dedicar a blockchain. Criou a Polymarket aos 22 anos, sozinho, no apartamento em que morava no Lower East Side, em Manhattan.
Em janeiro de 2022, a empresa pagou US$ 1,4 milhão à CFTC, a reguladora de derivativos dos EUA, e aceitou uma ordem de cessação por não ter se registrado como swap execution facility, o que a afastou do mercado americano. A projeção global veio com a eleição presidencial americana de 2024, quando mais de US$ 3,3 bilhões foram movimentados no mercado da disputa; um operador francês, com várias contas, lucrou cerca de US$ 85 milhões apostando em Trump.
Em 13 de novembro de 2024, o FBI revistou a casa de Coplan em Manhattan e apreendeu seus aparelhos numa investigação sobre se a plataforma permitia apostas de americanos em eleições dos EUA. Não houve acusação: em 15 de julho de 2025, o Departamento de Justiça e a CFTC encerraram as investigações. No mesmo mês, a Polymarket comprou por US$ 112 milhões a QCEX, bolsa de derivativos licenciada pela CFTC, e em novembro de 2025 recebeu a ordem que consolidou sua volta ao mercado americano.
Investidores e avaliação
Em outubro de 2025, a Intercontinental Exchange (ICE), dona da Bolsa de Nova York, anunciou aporte de até US$ 2 bilhões, avaliando a Polymarket em US$ 8 bilhões. Em abril de 2026, uma nova rodada a precificou em US$ 15 bilhões, e em agosto a empresa buscava capital a US$ 20 bilhões. A receita anualizada passava de US$ 1 bilhão em junho de 2026. Donald Trump Jr. é conselheiro da Polymarket e da Kalshi, e a 1789 Capital, da qual é sócio, investiu na Polymarket. Em 10 de setembro de 2026, a empresa nomeou seu primeiro diretor financeiro, Warren Jenson; não há IPO anunciado.
Polêmicas
- Informação privilegiada: a CFTC autorizou entre maio e julho de 2026 ao menos três investigações sobre negociações com informação privilegiada na Polymarket, envolvendo mercados sobre indultos de Joe Biden, o Irã e o ranking anual de buscas do Google. A autoridade europeia de mercados (Esma) alertou em setembro de 2026 que esses mercados estão "repletos de negociações com informação privilegiada".
- Fraude com cartões roubados: segundo o Wall Street Journal, a plataforma americana foi alvo em fevereiro de 2026 de um esquema que tentou movimentar ao menos US$ 10 milhões com cartões de débito roubados; no pico, a processadora Checkout.com rejeitou como fraude mais de 80% dos depósitos. Funcionários de conformidade disseram que Coplan respondeu que bastava continuar crescendo e pagar multa se os reguladores descobrissem; a empresa não confirmou a frase. Os índices se normalizaram até maio, com limites a cartões e a contratação da Riskified.
- Influenciadores nos EUA: a Polymarket pagou ao menos US$ 350 mil a influenciadores entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, segundo o Politico. Em agosto de 2026, os senadores Alex Padilla e Mark Warner cobraram a Polymarket e a Kalshi por remunerar quem espalha alegações falsas de fraude eleitoral.
- Europa: a empresa faz lobby em Londres e Bruxelas para ser tratada como serviço financeiro, e não pelas leis de jogos de azar; reguladores do Reino Unido, da França, da Alemanha e da Itália exigem licença local.
Concorrentes
A principal rival é a Kalshi, bolsa de contratos de eventos regulada em âmbito federal nos EUA. A diferença é de arquitetura: a Polymarket liquida em criptomoeda sobre blockchain, a Kalshi opera como bolsa tradicional. Corretoras como Coinbase e Robinhood também oferecem mercados de previsão. Os mercados esportivos respondem por parte relevante do volume da Polymarket, que teve recordes durante a Copa do Mundo de 2026.
Perguntas frequentes
A Polymarket é proibida no Brasil?
Sim. Desde 24 de abril de 2026, o site está bloqueado por determinação da Secretaria de Prêmios e Apostas, e a Resolução 5.298/2026 do CMN proíbe contratos sobre eleições e esportes. A própria Polymarket só permite que usuários do Brasil encerrem posições.
O que a Polymarket mostra para a eleição presidencial?
Em 17 de outubro de 2026, as cotações davam cerca de 77% de chance de vitória a Flávio Bolsonaro e 23% a Lula. São preços de apostas, não intenção de voto; as pesquisas indicavam disputa apertada.
A Polymarket é pesquisa eleitoral?
Não. As cotações refletem o dinheiro apostado por usuários da plataforma, sem amostra representativa do eleitorado.
Quem é o dono da Polymarket?
A empresa foi fundada por Shayne Coplan, seu presidente-executivo, e tem entre os investidores a Intercontinental Exchange, dona da Bolsa de Nova York, e a 1789 Capital.
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