O que é a Kalshi
A Kalshi é uma bolsa americana de mercados de previsão, com sede em Nova York, em que os usuários compram e vendem contratos sobre o resultado de eventos futuros: jogos, eleições, indicadores econômicos, o clima, premiações. Foi a primeira bolsa desse tipo registrada na Commodity Futures Trading Commission (CFTC), a agência federal que regula derivativos nos Estados Unidos, e se tornou a maior operadora do setor no país.
- Fundação: 2018, por Tarek Mansour (CEO) e pela brasileira Luana Lopes Lara (diretora de operações).
- Lançamento ao público: julho de 2021.
- Valor de mercado: US$ 40 bilhões, na rodada Série G de US$ 1 bilhão anunciada em 29 de outubro de 2026. Em maio de 2026 valia US$ 22 bilhões.
- Tamanho: a empresa diz ter mais de 90% da atividade de mercados de previsão nos EUA e volume anualizado de US$ 178 bilhões em maio de 2026.
- Principal uso: apostas esportivas, que respondem pela maior parte do volume.
- No Brasil: o site está bloqueado desde 24 de abril de 2026.
A Kalshi faz parte da categoria dos mercados de previsão, ao lado da rival Polymarket.
Como funciona
Cada mercado é uma pergunta de sim ou não ("o Fed vai subir os juros em dezembro?", "o time X vence o jogo?"). Cada contrato vale US$ 1 se a resposta apostada se confirmar e zero se não. O preço oscila entre 1 e 99 centavos e é lido como a probabilidade que o mercado atribui ao evento: um contrato "sim" a 70 centavos indica 70% de chance, e o "não" correspondente custa 30 centavos.
A Kalshi não aposta contra o cliente, como faz uma casa de apostas. Ela casa a ordem de quem compra "sim" com a de quem compra "não". "Na Kalshi, quando os clientes perdem, não perdem para mim. Perdem para outros clientes", disse Mansour à Bloomberg em outubro de 2026. Críticos respondem que, para o usuário, a experiência é a de uma aposta.
A plataforma exige idade mínima de 18 anos, verificada por checagem de identidade. As casas de apostas esportivas reguladas pelos estados americanos exigem, em geral, 21 anos.
Em 2026, a empresa passou a oferecer também contratos futuros perpétuos, primeiro ligados a criptomoedas e, em outubro, a um índice das 500 maiores empresas americanas, o que a aproxima de bolsas de derivativos tradicionais como a CME.
Quem fundou a Kalshi
Tarek Mansour, libanês, e Luana Lopes Lara, mineira de Belo Horizonte, se conheceram no Massachusetts Institute of Technology (MIT). A ideia surgiu em 2018, quando os dois estagiavam em Nova York; Mansour tinha passado pelo Goldman Sachs e Lara pela gestora Bridgewater.
Lara estudou na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil e trabalhou nove meses como bailarina profissional na Áustria antes de ir para o MIT. Em dezembro de 2025, quando a Kalshi foi avaliada em US$ 11 bilhões, os dois cofundadores, com cerca de 12% da empresa cada, passaram a figurar entre os bilionários. Em 28 de agosto de 2026, a Forbes Brasil a incluiu na lista de bilionários brasileiros, com patrimônio estimado em R$ 13,4 bilhões, como a mulher mais jovem do mundo a construir uma fortuna bilionária por conta própria.
A Kalshi funciona no Brasil?
Não. Em 24 de abril de 2026, o governo bloqueou 27 sites de mercados de previsão, entre eles a Kalshi e a Polymarket. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que as plataformas ofereciam "apostas ilegais". A Anatel notificou os provedores de internet para cumprir o bloqueio.
No mesmo dia, o Conselho Monetário Nacional (CMN) proibiu derivativos ligados a eventos esportivos, jogos online e eventos políticos, eleitorais, sociais, culturais ou de entretenimento. Contratos sobre índices econômicos e financeiros podem ser autorizados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Pouco antes, a Kalshi tinha anunciado planos de expansão para clientes no Brasil; um porta-voz disse na época que a empresa analisava a resolução. Parlamentares do Novo contestam a medida, sob o argumento de que uma proibição desse alcance exigiria lei.
Regulação: CFTC e a disputa com os estados
A Kalshi obteve da CFTC, em novembro de 2020, o registro de mercado de contratos designado (DCM), o mesmo das bolsas de futuros. Em 2023, a agência vetou os contratos sobre o controle do Congresso americano; a Kalshi processou a CFTC e, em 2024, um tribunal federal em Washington decidiu a seu favor, o que abriu caminho para apostas legais sobre eleições.
A tese central da empresa é que seus contratos são derivativos de competência exclusiva federal e, por isso, escapam das leis estaduais de jogo. A CFTC, presidida por Michael Selig, defende a mesma posição e processou estados que tentaram barrar a plataforma. Os estados respondem que apostas esportivas são jogo e cabem a eles. O litígio já se espalhou por cerca de 20 estados, com decisões contraditórias:
- Arizona: acusações criminais em março de 2026, por jogo ilegal e apostas eleitorais; um juiz federal as rejeitou em maio, por entender que a lei federal se sobrepõe.
- Utah: em 4 de agosto de 2026, o juiz federal Robert Shelby decidiu que a lei de commodities não impede o estado de aplicar sua proibição de jogo à Kalshi. A empresa disse que recorreria.
- Massachusetts, Nevada e Washington: decisões judiciais limitaram ou barraram contratos da Kalshi nesses estados em 2026.
- Nova York: em julho de 2026, a procuradora-geral Letitia James processou a empresa por jogo sem licença; a CFTC foi à Justiça para barrar a ação.
A expectativa de analistas ouvidos pela Associated Press é que a questão termine na Suprema Corte dos EUA.
Kalshi x Polymarket
As duas lideram o setor, mas funcionam de formas diferentes. A Kalshi é uma bolsa americana tradicional, registrada na CFTC, com depósitos em dólar e verificação de identidade. A Polymarket nasceu como plataforma em criptomoeda sobre blockchain, com domicílio legal no Panamá. Ambas estão bloqueadas no Brasil.
Polêmicas
- Perdas dos usuários: estudo do Roosevelt Institute de julho de 2026 estimou em US$ 583,5 milhões as perdas acumuladas do lado tomador das operações entre 2021 e maio de 2026. A Kalshi contesta que o número meça as perdas de apostadores comuns.
- Jovens: a idade mínima de 18 anos é criticada como porta de entrada para apostas esportivas onde a idade legal é 21. Em 2025, a empresa retirou do ar um programa de "embaixadores" universitários depois de críticas.
- Informação privilegiada: em 2026, a Kalshi multou e suspendeu um editor do youtuber MrBeast e três candidatos ao Congresso que apostaram nas próprias campanhas. Em agosto, o ex-deputado George Santos, que tinha sido porta-voz pago da plataforma, fez acordo com a CFTC e foi banido pela Kalshi.
- Mercados sensíveis: a plataforma foi criticada por mercados ligados à guerra em Gaza e congelou US$ 54 milhões em contratos sobre a saída do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, depois de sua morte.
- Política: Donald Trump Jr. é conselheiro da Kalshi desde janeiro de 2025.
O que acontece agora
Em 28 de outubro de 2026, Utah apresentou acusações criminais contra a Kalshi, Mansour e Lara: 13 crimes de violação da proibição estadual de jogo e um de lucro com atividade ilegal. As acusações são de nível grave (felony) e podem levar à prisão. O procurador-geral Derek Brown disse que a empresa seguiu operando no estado depois da decisão de agosto. A Kalshi chamou as acusações de "exagero absurdo" e disse que vai derrubá-las "como fez no Arizona".
Na véspera, em 27 de outubro, a empresa anunciou um limite padrão de depósito de US$ 2.500 por mês para usuários de 18 a 20 anos e um alerta para quem tem saldo acima de US$ 1.000 e coloca mais de 25% dele em uma única operação. Em entrevista à Bloomberg publicada em 28 de outubro, Mansour disse estudar novas proteções para clientes que perdem dinheiro e se declarou aberto a que reguladores elevem a idade mínima para 21 anos.
Em 29 de outubro de 2026, a Kalshi anunciou uma rodada Série G de US$ 1 bilhão que a avalia em US$ 40 bilhões (pós-investimento), liderada pela Wellington e pela Sequoia, com Baillie Gifford, Andreessen Horowitz, Coatue, Morgan Stanley Investment Management, CapitalG e outros. Segundo a empresa:
- o volume anualizado de negociação passou de US$ 1 trilhão, somando mercados de previsão, commodities, cripto e futuros perpétuos;
- a receita anualizada fora dos esportes passa de US$ 1 bilhão;
- foram abertas mais de 30 milhões de contas, e a Kalshi responde por mais de 75% do volume de mercados de previsão;
- o dinheiro vai para índices, futuros perpétuos de ações individuais, mercados sobre o preço de computação e expansão internacional, com foco na América Latina e na Europa (blog da Kalshi).
A avaliação subiu cerca de 82% em pouco mais de cinco meses (Reuters). Mansour disse que "houve discussões" sobre abrir o capital, sem dar data.
Linha do tempo
- 2018: Tarek Mansour e Luana Lopes Lara fundam a Kalshi.
- Novembro de 2020: a CFTC registra a Kalshi como bolsa de contratos de eventos.
- Julho de 2021: a plataforma abre ao público.
- Setembro de 2023: a CFTC veta contratos sobre o controle do Congresso; a Kalshi processa a agência.
- 2024: decisão judicial libera os contratos eleitorais.
- Dezembro de 2025: rodada de US$ 1 bilhão avalia a empresa em US$ 11 bilhões.
- Março de 2026: Arizona apresenta acusações criminais, rejeitadas em maio.
- 24 de abril de 2026: Brasil bloqueia a Kalshi e outros 26 sites; o CMN proíbe contratos sobre eleições e esportes.
- 7 de maio de 2026: rodada de US$ 1 bilhão avalia a Kalshi em US$ 22 bilhões.
- 4 de agosto de 2026: juiz federal decide que Utah pode aplicar sua lei de jogo à Kalshi.
- 27 de outubro de 2026: limite de depósito de US$ 2.500 por mês para usuários de 18 a 20 anos.
- 28 de outubro de 2026: Utah apresenta acusações criminais contra a empresa e os cofundadores.
- 29 de outubro de 2026: rodada Série G de US$ 1 bilhão, liderada por Wellington e Sequoia, avalia a Kalshi em US$ 40 bilhões.
Perguntas frequentes
O que é a Kalshi?
A Kalshi é uma bolsa americana de mercados de previsão, regulada pela CFTC, em que se compram contratos de sim ou não sobre eventos futuros, como jogos e eleições.
A Kalshi funciona no Brasil?
Não. O site está bloqueado no Brasil desde 24 de abril de 2026, e o CMN proibiu contratos sobre eleições, esportes e entretenimento.
A Kalshi é brasileira?
Não. É uma empresa americana, com sede em Nova York, mas uma das cofundadoras, Luana Lopes Lara, é brasileira, de Belo Horizonte.
Quanto vale a Kalshi?
US$ 40 bilhões, segundo a rodada Série G de US$ 1 bilhão anunciada em 29 de outubro de 2026, liderada pela Wellington e pela Sequoia. Na rodada anterior, de maio de 2026, liderada pela Coatue, valia US$ 22 bilhões.
Qual a diferença entre Kalshi e Polymarket?
A Kalshi é uma bolsa americana registrada na CFTC, com depósitos em dólar. A Polymarket nasceu como plataforma em criptomoeda sobre blockchain. As duas estão bloqueadas no Brasil.
Por que Utah processou a Kalshi?
Utah proíbe todo tipo de jogo. Em 28 de outubro de 2026, o estado acusou a Kalshi e seus cofundadores de 13 crimes de jogo ilegal e de lucrar com atividade ilegal.
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