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Cepea liga inadimplência rural ao custo da dívida, não ao seu tamanho

No Brasil, pesquisadores do Cepea/Esalq-USP atribuem a inadimplência rural recorde ao custo e à composição da dívida, e não à sua dimensão em relação à renda; a MP 1.376/2026 alcançou pouco.

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Foto: Globo Rural
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22/10 às 06:31

Pontos principais

  • Segundo o Banco Central, a inadimplência do crédito rural de pessoas físicas chegou a 9,7% do saldo em agosto de 2026, recorde da série, ante 0,77% no fim de 2022.
  • Nas operações a taxas de mercado, a inadimplência é de 17,6%; nas controladas, de 3,8%. Os autores calculam que as operações a mercado concentram 77% do saldo em atraso.
  • A relação entre dívida e renda agropecuária foi de 94% em 2025, dentro da faixa de 2013 a 2019 (87% a 109%); a inadimplência de dezembro de 2025, de 6,6%, foi o triplo da média daquele período.
  • A taxa média do crédito rural a pessoas físicas subiu de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025; segundo estimativa dos autores, os juros anuais sobre a carteira foram de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, a preços de 2025.
  • A carteira problemática do crédito rural, que inclui renegociadas e prorrogadas, era de R$ 205 bilhões em agosto de 2026, 23,8% da carteira ativa de R$ 863 bilhões, segundo o Banco Central.
  • A MP 1.376/2026 havia renegociado R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, cerca de 5% do potencial de até R$ 120 bilhões, com taxa média de 8,8% ao ano, segundo o Banco Central.
  • Dessa soma, R$ 4,2 bilhões são custeio e R$ 79 milhões, 1,3%, são investimento; o Rio Grande do Sul concentra R$ 4,8 bilhões.
  • Pelo balanço do Banco Central, o Sicredi renegociou R$ 3,17 bilhões, o Banrisul R$ 1,91 bilhão e o Banco do Brasil, maior credor rural do país, pouco mais de R$ 430 milhões.
  • No Rio Grande do Sul, 32,7% da carteira está renegociada ou prorrogada e a inadimplência é de 3,2%, abaixo dos 5,6% do país, segundo o Banco Central.
  • Nos estados de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba, a inadimplência vai de 6,3% a 15,8% da carteira, e Maranhão e Tocantins passam de 15%, segundo o Banco Central.
  • Segundo os autores, com dados do Ministério da Fazenda, os recursos equalizados do Plano Safra 2026/27 caíram de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões.

No Brasil, a inadimplência recorde não decorre do tamanho do endividamento em relação à renda do setor, segundo os pesquisadores Lucilio Alves e Geraldo Barros, do Cepea/Esalq-USP. Para eles, o custo do crédito, a composição das fontes e a concentração em grãos e em dívidas de investimento contratadas com as margens de 2020 a 2022 explicam melhor o atraso. Eles lembram que a taxa de inadimplência ainda subestima o problema, já que três quartos da carteira problemática estão renegociados ou prorrogados.

A principal resposta em curso, a MP 1.376/2026, alcança pouco, segundo os autores, sobretudo porque a adesão dos bancos é facultativa e a medida não cobre a dívida de investimento. Os autores propõem separar prorrogação, que mantém os encargos originais, de renegociação por operação nova, que tende a encarecer a dívida; coordenar os credores, já que cada um protege o próprio crédito; e condicionar o alongamento a um plano de fluxo de caixa com assistência técnica, recompondo o seguro rural e o Proagro. Lembram que o país já renegociou dívidas rurais em 1995, 1998, 2008 e 2018, e que a repetição cria expectativa de novo socorro.

Os autores ressalvam que os dados não provam causalidade e não separam a inadimplência de custeio da de investimento. Também não informam a taxa das renegociações feitas diretamente com os bancos.

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