Pautas-bomba podem custar R$ 2 trilhões aos cofres públicos em 10 anos
Projetos no Congresso ameaçam a sustentabilidade fiscal com impacto anual de R$ 111 bilhões e custo total estimado em R$ 2 trilhões na próxima década.
Pontos principais
- O impacto fiscal de longo prazo é estimado em R$ 2 trilhões, superando a economia da reforma da Previdência de 2019.
- O Ministério da Fazenda e o Planejamento revisaram o custo de nove projetos, que somam despesas anuais superiores a R$ 111 bilhões.
- A renegociação de dívidas rurais, aprovada no Senado, possui impacto estimado em R$ 140 bilhões ao longo de 13 anos.
- As propostas incluem a PEC das Igrejas, novos pisos salariais, aposentadorias especiais e renúncias fiscais como a do Simples Nacional.
- O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, avançou com pautas sem acordo prévio com o Executivo, transferindo a pressão para a Câmara.
- O governo avalia vetos ou ações no STF para conter o avanço das medidas e evitar a pressão sobre a taxa de juros.
- O ministro do STF, Gilmar Mendes, manifestou apoio à contenção de gastos, criticando a criação de despesas sem fonte de custeio.
O Ministério da Fazenda e o Ministério do Planejamento emitiram nota conjunta alertando que o avanço de projetos classificados como 'pautas-bomba' pode comprometer severamente a sustentabilidade das contas públicas. Além do impacto imediato de R$ 263,7 bilhões decorrente de medidas aprovadas recentemente pelo Senado, órgãos técnicos do Executivo revisaram as estimativas de outras nove proposições em tramitação, que agora indicam um custo anual superior a R$ 111 bilhões. Entre as medidas de maior peso, destaca-se a renegociação de dívidas rurais, com custo estimado em R$ 140 bilhões em 13 anos, além de propostas que envolvem pisos salariais, aposentadorias especiais e renúncias fiscais, como as do Simples Nacional. A projeção de longo prazo para o conjunto dessas iniciativas atinge R$ 2 trilhões, montante que supera a economia obtida com a reforma da Previdência de 2019.
O cenário é agravado pela decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de pautar projetos sem acordo prévio com o Executivo, o que tem dificultado a gestão das despesas obrigatórias. O ministro Dario Durigan defende a responsabilidade fiscal e não descarta o uso de vetos presidenciais ou ações judiciais no STF para barrar as propostas, contando com o apoio do ministro Gilmar Mendes, que criticou a criação de despesas sem fonte de custeio. Enquanto o governo busca conscientizar os parlamentares sobre as consequências orçamentárias, a pressão política se desloca para a Câmara dos Deputados, onde o presidente Hugo Motta sinalizou resistência ao avanço das matérias.
Analistas advertem que a ausência de compensação orçamentária para esses gastos pressionará a dívida pública, o que contribui para a manutenção de taxas de juros elevadas e dificulta o controle da inflação no país. A equipe econômica monitora de perto a tramitação de cada projeto, tratando a contenção dessas pautas como prioridade para garantir o equilíbrio fiscal necessário ao governo do presidente Donald Trump.
Fontes primárias
Fazenda estima que impacto de pautas-bomba supera R$ 2 trilhões em 10 anos
Cálculos do Ministério da Fazenda, revelados ao g1 por interlocutores da pasta e não publicados oficialmente, estimam que as quatro principais pautas-bomba em análise no Congresso podem gerar aumento de gastos ou perda de arrecadação superior a R$ 2 trilhões em 10 anos: dívidas rurais (PL 5122/23) R$ 1,4 trilhão; PEC das Igrejas (PEC 5/23) R$ 100 bilhões de perda, elevando o imposto de todos na mesma proporção; aposentadoria dos Agentes Comunitários de Saúde (PEC 14/21) cerca de R$ 500 bilhões para a União, fora o efeito nos municípios; piso de médicos e dentistas (PL 1365/22) cerca de R$ 500 bilhões para o governo federal, além do impacto nas prefeituras. O efeito equivale a mais de duas vezes a economia de R$ 855 bilhões em 10 anos estimada para a reforma da Previdência de 2019, e a aprovação pressionaria a dívida pública e a taxa de juros.
Nota conjunta Fazenda/Planejamento — impacto fiscal de nove proposições em tramitação no Congresso
Em nota conjunta divulgada à imprensa em 11/06 (não publicada no gov.br), os Ministérios da Fazenda e do Planejamento itemizam o impacto fiscal de nove proposições em tramitação no Congresso, que somam mais de R$ 111 bilhões por ano: PL 5.122/2023 (dívidas rurais com equalização de juros pela União) até R$ 140 bilhões em 13 anos; PLP 108/2021 (teto do Simples Nacional) renúncia de R$ 50 bilhões/ano; PEC 231/2019 (ampliação do FPM) redução de R$ 10 bilhões/ano nas receitas líquidas da União; PEC 5/2023 (imunidade tributária de templos) custo mínimo de R$ 10 bilhões/ano; PLP 11/2026 (entidades sem fins lucrativos) R$ 1 bilhão/ano; PEC 383/2017 (vinculação ao SUAS) despesa média de R$ 9 bilhões/ano entre 2026 e 2030; PL 4.728/2020 (novo Pert) custo médio de R$ 8,8 bilhões/ano; PL 1.365/2022 (piso de médicos e cirurgiões-dentistas) R$ 8,4 bilhões/ano só na União, sem contar estados, municípios e Ebserh; PEC 14/2021 (aposentadoria de agentes comunitários de saúde e de endemias) amplia em R$ 3 bilhões/ano a insuficiência dos regimes de previdência. Nas palavras da nota: 'As estimativas combinam renúncias de receita e despesas obrigatórias, incluindo equalização de taxas de juros e impactos previdenciários... As médias anuais pressupõem distribuição uniforme dos custos, sem atualização monetária, de modo que o impacto efetivo em cada exercício pode ser superior.'
Comentários
Carregando comentários...
