O que é a Vale
A Vale S.A. é a maior mineradora do Brasil e a maior produtora mundial de minério de ferro. Além do minério de ferro e das pelotas, a companhia produz níquel, cobre, cobalto, alumina e bauxita. Suas ações são negociadas na B3 sob o código VALE3 e na Bolsa de Nova York (NYSE) na forma de ADRs.
A empresa opera em 14 estados brasileiros e mantém operações em cinco continentes, com presença em países como Canadá, Indonésia, Omã e Malásia. Em 2021, a companhia declarava 213.413 trabalhadores, sendo 72.266 empregados próprios e 141.147 terceirizados.
O presidente-executivo é Gustavo Pimenta, que assumiu o cargo em 1º de outubro de 2024. Antes da Vale, Pimenta passou 12 anos na AES, onde foi CFO global.
História e privatização
A companhia foi criada em 1942, em Itabira (MG), pelo governo de Getúlio Vargas, com o nome de Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Nasceu estatal, voltada à exploração das jazidas de ferro do Quadrilátero Ferrífero mineiro e ao escoamento da produção pela Estrada de Ferro Vitória a Minas.
A privatização ocorreu em 6 de maio de 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. O Consórcio Brasil, liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN, com 16,30%), arrematou 41,73% das ações ordinárias por US$ 3,3 bilhões. A empresa adotou a marca "Vale" no lugar de Companhia Vale do Rio Doce nos anos seguintes.
O que a Vale produz
O minério de ferro é o principal negócio da companhia, seguido pelas pelotas — o minério aglomerado usado em altos-fornos siderúrgicos. Os metais para transição energética formam a segunda frente: níquel, cobre e cobalto. A empresa também atua em alumina e bauxita.
No segundo trimestre de 2026, o preço realizado do minério de ferro foi de US$ 95 por tonelada, alta de 12% em um ano. O cobre foi vendido a US$ 14,1 mil por tonelada (alta de 57%) e o níquel a US$ 18,1 mil por tonelada (alta de 14%).
Onde a Vale opera: minas, ferrovias e portos
As duas grandes bases de minério de ferro são a Serra dos Carajás, no sudeste do Pará, e o Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais. A mina de níquel Onça Puma também fica no Pará.
A Vale opera cerca de 2.000 km de malha ferroviária própria, incluindo a Estrada de Ferro Carajás (892 km), que liga a mina ao Maranhão, e a Estrada de Ferro Vitória a Minas. A companhia controla nove terminais portuários próprios, entre eles Tubarão (ES), Ponta da Madeira (MA) e Itaguaí (RJ). Essa integração mina-ferrovia-porto é o que sustenta a competitividade da empresa no mercado transoceânico.
Serra Sul +20 e o complexo S11D
O S11D, em Canaã dos Carajás (PA), é a operação de minério de ferro mais competitiva da companhia. O projeto Serra Sul +20 adiciona 20 milhões de toneladas à capacidade anual do complexo, levando o total a 120 milhões de toneladas por ano. O comissionamento começou no segundo trimestre de 2026, junto com o projeto Britador de Compactos.
Mega Hubs e descarbonização da siderurgia
Os Mega Hubs são complexos industriais que a Vale planeja instalar fora do Brasil para transformar seu minério em produtos de maior valor agregado — sobretudo o ferro briquetado a quente (HBI) e briquetes de minério —, destinados a siderúrgicas que buscam reduzir emissões. Em comunicado de 1º de novembro de 2022, a companhia anunciou acordos para desenvolver hubs na Arábia Saudita (com o National Industrial Development Center, em Ras Al Khair), nos Emirados Árabes Unidos (com a Emirates Steel Arkan, em Abu Dhabi) e em Omã (com o ministério de Comércio, Indústria e Promoção de Investimentos, na zona econômica especial de Duqm).
A lógica do projeto é a rota de redução direta: segundo a Vale, produzir HBI com gás natural emite cerca de 60% menos CO₂ do que produzir ferro-gusa pela rota tradicional de alto-forno (BF-BOF). A empresa projetava demanda adicional de 100 milhões de toneladas de aglomerados de alto teor por essa rota nos 15 a 20 anos seguintes, e vincula a iniciativa à meta de cortar em 15% suas emissões líquidas de escopo 3 até 2035. A atratividade do Oriente Médio está no gás natural barato e na posição logística entre os mercados asiático e europeu.
Em 4 de agosto de 2026, o presidente-executivo Gustavo Pimenta afirmou que os três projetos desaceleraram diante da guerra no Irã: "com a guerra, os projetos seguem sendo avaliados e discutidos, mas eles desaceleraram". A companhia pretendia iniciar as atividades do primeiro centro industrial da região em 2027.
Agenda regulatória, licenciamento e minerais críticos
Em 18 de agosto de 2026, a Vale apresentou em Brasília uma agenda regulatória para o setor mineral, baseada em estudo que encomendou à consultoria Accenture. O documento reúne 15 iniciativas em três eixos: licenciamento ambiental, ambiente de negócios e segurança institucional, e cadeia produtiva e valor compartilhado. Entre as propostas estão padronizar os processos de licenciamento e a análise de títulos minerários, fortalecer órgãos como Ibama, Iphan, ICMBio e Funai, e ampliar o mapeamento geológico do país — hoje restrito a 28% do território.
O diagnóstico é de perda de posição: entre 2014 e 2023, o Brasil caiu do 4º para o 7º lugar na produção mineral mundial, enquanto o valor da produção nacional passou de R$ 273 bilhões para R$ 296 bilhões. O contraste é com o tamanho das reservas — o país detém 66% do nióbio mundial, é o segundo em terras-raras e grafita e o terceiro em ferro, manganês, estanho e níquel.
O decreto das cavidades
O principal gargalo apontado pela companhia é a norma que regula a proteção de cavidades naturais subterrâneas, que trava o licenciamento ambiental em áreas onde a Vale já opera, como a Serra dos Carajás. Um decreto federal sobre o tema estava na Casa Civil em agosto de 2026. Em 28 de agosto, no seminário do Lide, Gustavo Pimenta disse estar otimista quanto à publicação: "Está caminhando, depois de 20 anos, hoje acho que posso dizer que me sinto otimista que esse processo está próximo de sair". Segundo ele, a norma "vai destravando a mineração para que os processos futuros possam ser mais céleres".
Bloco C, em Serra Sul
Em 25 de agosto de 2026, Pimenta afirmou que o chamado bloco C, um corpo minerário em Serra Sul (PA) vizinho ao S11D, tem potencial para adicionar de 40 a 50 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. A Vale detém ainda os blocos A e B na mesma área. O avanço depende da modernização das regras de cavidades, e a companhia não havia fechado o capex do projeto.
Ações, dividendos e proventos (VALE3)
A Vale distribui resultados por meio de dividendos e de juros sobre capital próprio (JCP), com anúncios normalmente atrelados aos balanços semestrais.
Referente ao primeiro semestre de 2026, o conselho aprovou proventos de R$ 2,030721898 por ação — R$ 1,568705805 em JCP e R$ 0,462016093 em dividendos —, o equivalente a US$ 1,7 bilhão no total. A data-base é 11 de agosto de 2026, com negociação "ex" a partir de 12 de agosto. O pagamento aos acionistas no Brasil está previsto para 2 de setembro de 2026, e aos detentores de ADRs na NYSE para 10 de setembro.
O conselho também aprovou um novo programa de recompra de até 100 milhões de ações ordinárias, cerca de 2,3% das ações em circulação, com prazo de 18 meses e início em 19 de agosto de 2026, após o encerramento do plano vigente.
Resultados do segundo trimestre de 2026
A Vale registrou lucro líquido de US$ 1,37 bilhão no segundo trimestre de 2026, queda de 35% na comparação anual e abaixo do consenso LSEG, que projetava US$ 1,84 bilhão. A receita líquida de vendas somou US$ 10,5 bilhões, em linha com as projeções.
No lado operacional, o desempenho foi mais forte: o Ebitda proforma chegou a US$ 4,06 bilhões, alta de 19% em um ano, com margem estável de 39%. O Ebitda ajustado foi de US$ 3,67 bilhões, alta de 9% na comparação anual e recuo de 4% ante o trimestre anterior. A produção de minério de ferro foi a maior para um segundo trimestre desde 2018.
Os custos pressionaram o resultado. O custo caixa C1 do minério de ferro subiu 9% em um ano, para US$ 24,1 por tonelada, e o custo all-in avançou 18%, para US$ 61,6 por tonelada. A companhia atribuiu o aumento à maior atividade de concentração de minério, à suspensão das operações nas unidades Fábrica e Viga e à manutenção bienal programada.
Os volumes vendidos cresceram em todas as linhas: 3% em minério de ferro (mais 2 milhões de toneladas), 10% em cobre (mais 9 mil toneladas) e 7% em níquel (mais 3 mil toneladas). Segundo Gustavo Pimenta, a companhia entregou "resultados sólidos em todas as nossas áreas de negócio".
Disputa tributária no STF sobre lucros no exterior
O Supremo Tribunal Federal julga se incidem Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) sobre os lucros de controladas da Vale no exterior — no caso concreto, subsidiárias na Bélgica, na Dinamarca, em Luxemburgo e nas Bermudas. A disputa pode custar cerca de R$ 34 bilhões à companhia.
Em 28 de agosto de 2026, o relator André Mendonça pediu destaque e suspendeu o julgamento no plenário virtual, levando o caso ao plenário físico e zerando os votos já proferidos. Até então o placar era de seis votos favoráveis à tributação — Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Nunes Marques, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Cármen Lúcia — contra dois, do próprio Mendonça e de Luiz Fux. Dias Toffoli adotou posição intermediária, contrária à tributação em países com os quais o Brasil mantém tratado e favorável no caso de paraísos fiscais. Faltava o voto do presidente da Corte, Edson Fachin. Não há data marcada para a retomada.
Mariana e Brumadinho
Mariana (2015)
Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, da Samarco — controlada em partes iguais pela Vale e pela anglo-australiana BHP —, rompeu-se em Mariana (MG), liberando 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos sobre o distrito de Bento Rodrigues e a bacia do Rio Doce.
O acordo definitivo de repactuação foi assinado em 25 de outubro de 2024, em Brasília, entre as empresas e os governos federal, de Minas Gerais e do Espírito Santo. O valor total é de aproximadamente R$ 170 bilhões, incluindo obrigações já cumpridas e futuras, com R$ 38 bilhões já investidos e R$ 100 bilhões a serem repassados à União e aos dois estados ao longo de 20 anos. O acordo prevê ainda um sistema de indenização individual simplificado e voluntário, a conclusão dos reassentamentos e a recuperação ambiental do Rio Doce.
Brumadinho (2019)
Em 25 de janeiro de 2019, a barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), rompeu-se. Até dezembro de 2022, 270 mortes haviam sido oficialmente confirmadas. O rompimento levou à revisão das normas brasileiras de segurança de barragens e ao descomissionamento de estruturas construídas pelo método de alteamento a montante.
Governança e estrutura acionária
A Vale é uma corporação sem controlador definido: em 2021, 51,79% do capital estava em free float. A Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, é a principal acionista — detinha 8,09% em 2021 e é hoje apontada como titular de cerca de 10% do capital, com dois representantes no conselho de administração.
Bradesco e Mitsui indicam um conselheiro cada. A Cosan, que adquiriu participação relevante na companhia, também tem representante no conselho. Os demais assentos são preenchidos por indicados de acionistas minoritários, tipicamente fundos estrangeiros.
Em julho de 2026, o conselho elegeu Reinaldo Duarte Castanheira Filho como vice-presidente do colegiado e Wilfred Theodoor Bruijn como conselheiro independente líder, com mandatos a partir de 1º de agosto de 2026.
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