A greve acabou?
A greve nos trens de São Paulo de 2026 foi a paralisação dos ferroviários das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM, iniciada à 0h01 de terça-feira, 4 de agosto de 2026, e encerrada na tarde de quarta-feira, 5 de agosto. O movimento foi convocado contra a concessão das três linhas à Trivia Trens, empresa do grupo Comporte, e cobrava garantia formal de emprego para os trabalhadores da estatal.
A paralisação atingiu um sistema que transporta cerca de 890 mil passageiros por dia útil e ocorreu duas semanas depois de a concessionária assumir a operação comercial e ser afastada pelo governo estadual, após uma sequência de falhas graves em 23 de julho. Foram dois dias de trens parcialmente parados, rodízio municipal suspenso e congestionamentos acima de 700 km na capital.
Sim. A greve foi encerrada na quarta-feira, 5 de agosto de 2026, em assembleia realizada às 17h, por 131 votos a favor do retorno ao trabalho contra 26 pela continuidade da paralisação. A circulação das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foi retomada de forma gradual ainda naquela tarde e normalizada em seguida.
A categoria, porém, decidiu permanecer formalmente em "estado de greve" para acompanhar o cumprimento dos compromissos assumidos pelo governo de São Paulo na audiência de conciliação — ou seja, uma nova paralisação pode ser convocada se os acordos não forem cumpridos, sem que o processo precise recomeçar do zero.
Quais linhas foram afetadas
A greve atingiu apenas as três linhas concedidas à Trivia Trens:
- Linha 11-Coral — Luz a Estudantes (Mogi das Cruzes), o ramal mais movimentado do grupo
- Linha 12-Safira — Brás a Calmon Viana
- Linha 13-Jade — Engenheiro Goulart a Aeroporto de Guarulhos
As demais linhas da rede metropolitana operaram normalmente durante os dois dias: as Linhas 7-Rubi, 8-Diamante, 9-Esmeralda e 10-Turquesa não fizeram parte do movimento. O Metrô de São Paulo também funcionou sem paralisação, ainda que com reforço de frota e antecipação de horários para absorver a demanda desviada, e com registros de superlotação nas estações de integração.
No segundo dia, a Linha 13-Jade — que faz a ligação com o Aeroporto de Guarulhos — voltou a circular, enquanto as Linhas 11 e 12 seguiram com operação parcial.
Por que os ferroviários entraram em greve
A reivindicação central foi a garantia de emprego. Com a transferência das Linhas 11, 12 e 13 para a Trivia Trens, os cerca de 4,7 mil empregados da CPTM — contratados por concurso público, sob regime celetista — passaram a depender de realocação em outros pontos da rede ou em órgãos do Estado. O sindicato cobrava que essa garantia fosse formalizada em lei, e não apenas prometida.
A pauta incluía três pontos principais:
- Garantia de emprego por escrito para todos os trabalhadores da CPTM afetados pela concessão, com a aprovação do Projeto de Lei nº 730/2025 na Assembleia Legislativa (Alesp), que trata do reaproveitamento dos empregados públicos.
- Reestatização das linhas concedidas e cancelamento do contrato com a concessionária.
- Fim do processo de concessão da malha ferroviária metropolitana.
O movimento foi decidido em assembleia do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil, com apoio do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. Os trabalhadores haviam aprovado o indicativo de greve em 27 de julho e dado prazo até 31 de julho para que o governo apresentasse uma contraproposta formal.
O caos operacional de 23 de julho, três dias após a concessionária assumir, deu ao movimento um argumento adicional: para o sindicato, as falhas comprovavam que a operação privada não estava preparada para assumir o sistema.
Como começou: a concessão das Linhas 11, 12 e 13
A origem da crise está no leilão realizado na B3 em março de 2025, pelo governo de Tarcísio de Freitas, para conceder à iniciativa privada o lote Alto Tietê — as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM, além do Serviço Expresso Aeroporto, que liga a capital ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.
A Trivia Trens venceu a disputa ao oferecer desconto de 2,57% sobre a contraprestação paga pelo Estado, superando a proposta da CCR, de 1,45%. O contrato de parceria público-privada foi assinado em maio de 2025, com prazo de 25 anos e investimentos previstos de R$ 14,3 bilhões.
O escopo abrange uma rede de cerca de 101 km, mais de 30 estações e uma frota de 92 trens. Entre as obrigações contratuais estão oito novas estações — como Bonsucesso, São João, Jardim Presidente Dutra, Gabriela Mistral, Cangaíba, Bom Retiro, Lajeado e César de Sousa —, cerca de 25,8 km de expansão da malha, a compra de novos trens e a redução de intervalos: na Linha 12, de aproximadamente cinco minutos para pouco mais de três; no trecho Guaianases–Estudantes da Linha 11, de até onze minutos para cerca de seis.
Em 27 de maio de 2026, a menos de 60 dias da transição, a concessionária anunciou ter contratado R$ 8,8 bilhões em investimentos, o equivalente a 62% do total previsto no contrato. A operação comercial das três linhas passou oficialmente à Trivia Trens à meia-noite de 21 de julho de 2026, com autorização da Artesp.
O que é a Trivia Trens e a quem pertence
A Trivia Trens S.A. é a concessionária criada para operar o lote Alto Tietê da rede metropolitana de São Paulo. Ela integra o grupo Comporte Participações, holding de transportes da família Constantino — a mesma que fundou a companhia aérea Gol, com o empresário Nenê Constantino à frente.
O Comporte tem atuação ampla em mobilidade, com operações rodoviárias e ferroviárias em 13 estados brasileiros e no Distrito Federal. Antes de assumir as linhas, o grupo montou uma estrutura de contratação e treinamento de operadores em São Paulo e chegou a enviar equipes à China para acompanhar o cronograma de fabricação de trens.
O caos de 23 de julho e a intervenção de 90 dias
Na manhã de quinta-feira, 23 de julho de 2026 — terceiro dia de operação sob gestão privada —, uma falha elétrica por volta das 5h40 derrubou as subestações de energia que alimentam as três linhas. Um trem pegou fogo na região entre as estações Tatuapé e Brás, na zona leste; um carro ficou completamente queimado por dentro e por fora. Não houve feridos, mas centenas de passageiros deixaram a composição e caminharam pelos trilhos até a estação seguinte.
O sistema ficou paralisado em plena hora de pico. A Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio de veículos na zona leste para reduzir o impacto no trânsito, e o episódio se somou a falhas registradas nos dois dias anteriores.
A resposta do governo estadual veio no mesmo dia: a Artesp acionou uma cláusula contratual que permite estender a fase pré-operacional quando a concessionária não cumpre suas obrigações, e determinou que a CPTM voltasse a operar as Linhas 11, 12 e 13 por até 90 dias. As linhas voltaram ao controle da estatal na sexta-feira, 24 de julho, com operação normalizada. Tarcísio de Freitas afirmou que a Trivia Trens poderia perder a concessão, e o período de intervenção foi definido como prazo para auditar procedimentos, apurar as causas das falhas e capacitar os funcionários da concessionária.
Investigações: TCE-SP e MP-SP
O episódio de 23 de julho abriu duas frentes de fiscalização, ambas em curso:
- Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) — ainda em 23 de julho, o conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira determinou que o governo estadual e a Trivia Trens prestassem esclarecimentos sobre as falhas, com foco nas causas técnicas e nas responsabilidades contratuais de cada parte.
- Ministério Público de São Paulo (MP-SP) — instaurou inquérito civil em 28 de julho para apurar as falhas operacionais. A investigação registra que a Linha 11-Coral apresentou aumento de 275% no número de ocorrências durante a fase de operação assistida e requisitou relatórios técnicos e o histórico de fiscalização desde 2021, para verificar eventuais omissões na supervisão do serviço.
Cronologia da greve
3 de agosto (segunda-feira) — Assembleia aprova greve por tempo indeterminado a partir das 0h01 do dia 4. No mesmo dia, o TRT-2 determina efetivo mínimo durante a paralisação.
4 de agosto (terça-feira) — A greve começa à 0h01 e atinge as Linhas 11, 12 e 13. A CPTM afirma que apenas 67% dos funcionários operavam, abaixo dos 80% determinados pela Justiça para os horários de pico. A prefeitura suspende o rodízio e aciona o sistema Paese, com ônibus extras. O congestionamento atinge 724 km às 8h30. À tarde, nova assembleia decide manter a greve, por falta de garantias por escrito.
5 de agosto (quarta-feira) — Segundo dia de paralisação. A Linha 13-Jade volta a circular; as Linhas 11 e 12 seguem parciais. O rodízio continua suspenso e o congestionamento chega a 699 km. O diretor de operações da CPTM afirma que só três dos 126 maquinistas convocados se apresentaram. O TRT medeia uma nova rodada de negociação; Tarcísio anuncia o envio de um projeto de lei à Alesp para garantir os empregos e descarta a reestatização. Às 17h, a assembleia aprova o fim da greve por 131 votos a 26.
6 de agosto (quinta-feira) — Operação normalizada nas três linhas, com a categoria em estado de greve.
Impacto na cidade: rodízio, congestionamento e ônibus extras
Com cerca de 1 milhão de deslocamentos diários dependentes das três linhas, o efeito sobre a mobilidade da Grande São Paulo foi imediato.
A Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio municipal de veículos nos dois dias, liberando a circulação de todas as placas no centro expandido, e acionou o Paese — o plano de atendimento de emergência que coloca ônibus para cobrir trechos de trem e metrô paralisados. O Metrô reforçou a frota e antecipou horários.
Mesmo assim, a lentidão bateu 724 km no pico da manhã de 4 de agosto e 699 km no dia seguinte. Naquela terça-feira, o site da CET chegou a exibir mais de 2 mil km de congestionamento por volta das 10h30, número depois desmentido pela própria companhia, que atribuiu a leitura a uma instabilidade do sistema durante manutenção interna.
Passageiros relataram filas e superlotação em estações e pontos de ônibus, e o preço das corridas por aplicativo chegou a quadruplicar nas regiões afetadas. O comércio da capital também registrou queda de movimento nos dois dias.
A decisão da Justiça do Trabalho
Em 3 de agosto, o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2) concedeu liminar fixando o efetivo mínimo a ser mantido durante a paralisação: 80% nos horários de pico — das 4h às 10h e das 16h às 21h — e 60% nos demais períodos, sob multa diária em caso de descumprimento. A decisão foi assinada pelo desembargador Francisco Ferreira Jorge Neto, e um oficial de Justiça foi designado para acompanhar o cumprimento nos Centros de Controle Operacional da CPTM, no Brás.
Segundo a CPTM, o percentual efetivamente registrado no primeiro dia ficou em 67%. O sindicato foi multado em R$ 400 mil por descumprimento, com direito a defesa e recurso, e o valor da multa diária foi elevado no decorrer da negociação.
Como a greve terminou e o que o governo prometeu
A saída veio de uma audiência de conciliação mediada pelo TRT. Em 5 de agosto, o governador Tarcísio de Freitas anunciou o envio à Alesp de um projeto de lei específico para assegurar os empregos dos trabalhadores das Linhas 11, 12 e 13 no processo de concessão, prevendo absorção, transferência, cessão e aproveitamento dos empregados em outros órgãos estaduais. A medida se soma à Lei estadual nº 17.293/2020, já em vigor. Ao mesmo tempo, o governador descartou reverter a concessão.
Dados apresentados pelo governo com base em junho de 2026 mostravam a seguinte distribuição dos 4.648 empregados da CPTM: 2.171 na Linha 10-Turquesa; 853 em áreas administrativas; 522 disponíveis para novas cessões; 475 de volta às Linhas 11, 12 e 13 sob gestão da estatal; 450 já cedidos ao Metrô; e 177 em negociação para Artesp e outros órgãos.
Com o compromisso formalizado, a assembleia da tarde aprovou o retorno ao trabalho. O sindicato ressalvou que a categoria seguirá em estado de greve até que o projeto seja efetivamente apreciado.
Repercussão política e a eleição de 2026
A paralisação caiu no meio da campanha ao governo de São Paulo e transformou o modelo de concessões em tema eleitoral.
Tarcísio de Freitas classificou o movimento como "baderna" e de motivação política, defendeu a manutenção do programa de concessões como caminho para modernizar o transporte metropolitano e afirmou que os compromissos de realocação já estavam assegurados.
Do outro lado, o programa de governo de Fernando Haddad para o estado prevê uma auditoria técnica nos contratos de concessão e privatização da CPTM, em resposta direta ao colapso de 23 de julho — sem, contudo, propor a rescisão dos acordos vigentes, justamente para não gerar insegurança jurídica. Durante a greve, a equipe de campanha esteve na estação Engenheiro Goulart, na zona leste, gravando relatos de passageiros afetados.
Parlamentares do PSOL criticaram a decisão da Artesp de devolver as linhas à CPTM por apenas 90 dias, classificando-a como recuo eleitoreiro, e defenderam a revisão do contrato da concessionária.
Antecedentes: privatização e mobilização ferroviária
A greve de agosto não foi um evento isolado. Em 13 de maio de 2026, os metroviários de São Paulo chegaram a marcar uma paralisação, cancelada na véspera em assembleia com cerca de 1.500 funcionários, após a aceitação de uma proposta da empresa; a pauta incluía plano de saúde, novas contratações e plano de carreira, e as negociações seguiram no TRT-2.
Em 18 de junho, representantes da categoria levaram à Câmara dos Deputados denúncias sobre os efeitos das privatizações nos sistemas de trens urbanos do país, citando demissões, precarização das condições de trabalho e problemas de manutenção. O debate incluiu projetos de lei voltados à realocação de funcionários concursados desligados após concessões — o mesmo mecanismo que viria a ser o centro da negociação em São Paulo semanas depois.
Situação atual
As Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade seguem operadas pela CPTM sob o período de intervenção de até 90 dias determinado pela Artesp em julho de 2026, enquanto a Trivia Trens trabalha para cumprir as exigências e reassumir a operação plena. O contrato de concessão permanece vigente.
Continuam em andamento o inquérito civil do MP-SP, o pedido de esclarecimentos do TCE-SP e a tramitação, na Alesp, do projeto de lei sobre o aproveitamento dos empregados da CPTM. A categoria permanece em estado de greve.
Perguntas frequentes
Quando foi a greve nos trens de SP em 2026? Começou à 0h01 de terça-feira, 4 de agosto de 2026, e terminou na tarde de quarta-feira, 5 de agosto — dois dias de paralisação parcial.
Quantos dias durou a greve? Dois dias. A circulação foi normalizada na quinta-feira, 6 de agosto.
A greve afetou o Metrô? Não. O Metrô de São Paulo operou normalmente, com reforço de frota e antecipação de horários para absorver a demanda das linhas paradas.
A Linha 10-Turquesa parou? Não. A paralisação atingiu apenas as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. As Linhas 7-Rubi, 8-Diamante, 9-Esmeralda e 10-Turquesa funcionaram normalmente.
Por que o rodízio foi suspenso? A Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio municipal nos dois dias de greve para liberar a circulação de veículos e reduzir o impacto sobre quem ficou sem trem, sobretudo na zona leste.
Quem é a dona da Trivia Trens? A Trivia Trens S.A. pertence ao grupo Comporte Participações, da família Constantino, fundadora da companhia aérea Gol.
A concessão foi cancelada? Não. O contrato de 25 anos segue válido. O que houve foi uma intervenção temporária de até 90 dias, determinada pela Artesp, na qual a CPTM voltou a operar as três linhas.
O que os trabalhadores conseguiram? O compromisso do governo estadual de enviar à Alesp um projeto de lei que assegura a absorção e o aproveitamento dos empregados da CPTM em outros órgãos do Estado. A reestatização, principal bandeira do movimento, foi descartada pelo governador.
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