O que é a crise Yanomami
A crise Yanomami é a crise humanitária e sanitária na Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, marcada por mortes por malária, desnutrição e infecções respiratórias, provocada sobretudo pela invasão do garimpo ilegal. Em 20 de janeiro de 2023, o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional no território.
- Onde: a Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil em extensão, com 9,66 milhões de hectares, na fronteira com a Venezuela.
- Quem: povos Yanomami e Ye'kwana. Em janeiro de 2023, o Ministério da Saúde contava mais de 30,4 mil habitantes, mais de 5 mil deles crianças.
- Causa principal: o garimpo ilegal de ouro e cassiterita, que leva doenças, contamina rios com mercúrio e espanta caça e peixe.
- Situação em 2026: o governo federal informa queda de mortes e do garimpo desde 2023. A emergência de saúde segue em vigor, e o Senado acompanha as políticas no território por uma subcomissão permanente.
Onde fica a Terra Indígena Yanomami
O território ocupa o oeste de Roraima e o norte do Amazonas e faz fronteira com a Venezuela. Tem 9.664.975 hectares e se sobrepõe em parte ao Parque Nacional do Pico da Neblina e à Floresta Nacional do Amazonas.
A Terra Indígena foi criada em 25 de maio de 1992, por decreto do presidente Fernando Collor, que homologou a demarcação fixada em 1991 pelo ministro da Justiça Jarbas Passarinho. Seguiu-se uma campanha internacional de apoio aos Yanomami, e os garimpeiros foram retirados da área.
A Casa de Saúde Indígena (Casai) que atende a população fica em Boa Vista.
Quem são os Yanomami
Os Yanomami falam línguas da família ianomâmi (yanomam, yanomami, sanumá e ninam); os Ye'kwana, que dividem o território, falam uma língua caribe. Vivem em comunidades espalhadas pela floresta, muitas em malocas coletivas, e dependem da caça e da pesca.
Os primeiros contatos com não indígenas foram esparsos entre os anos 1910 e 1940. Missões religiosas, a abertura de estradas e projetos de mineração nos anos 1970 trouxeram epidemias de gripe, sarampo e coqueluche.
As principais organizações do povo são a Hutukara Associação Yanomami (HAY), presidida pelo xamã e líder Davi Kopenawa Yanomami, e a Urihi Associação Yanomami, presidida por Waihiri Hekurari Yanomami. Kopenawa nasceu em 1956 no Alto Rio Toototobi, no Amazonas.
O garimpo ilegal
O garimpo é o centro da crise. Os garimpeiros abrem pistas de pouso clandestinas e levam combustível, máquinas e mantimentos por avião. O mercúrio usado para separar o ouro contamina rios e peixes; o barulho das máquinas espanta a caça; e a presença de milhares de pessoas espalha malária e outras doenças.
Segundo o MapBiomas, a área de garimpo dentro da Terra Indígena passou de 414 hectares em 2020 para 1.556 hectares em 2021. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informou ao Senado, em 27 de outubro de 2026, que 63,66 quilômetros quadrados de floresta e cursos d'água foram degradados pelo garimpo entre 2016 e 2024, atingindo 256 das 406 comunidades estudadas (63,1%).
A emergência de saúde de 2023
Em 20 de janeiro de 2023, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, assinou a Portaria GM/MS nº 28, que declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional "em decorrência de desassistência à população Yanomami". A portaria criou o Centro de Operações de Emergências (COE Yanomami), coordenado pela Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), para organizar a resposta, contratar profissionais e comprar insumos.
No dia seguinte, o presidente Lula e ministros foram a Roraima anunciar um pacote de ajuda. Em 30 de janeiro de 2023, uma portaria conjunta da Funai e da Sesai suspendeu novas autorizações de entrada no território enquanto durasse a emergência.
Mortes e desnutrição: os números oficiais
Os dados abaixo vêm dos informes do COE Yanomami, do Ministério da Saúde:
- Mortes em geral: 428 em 2023 e 337 em 2024, queda de 21% (Informe nº 7, maio de 2025). As mortes por causas evitáveis caíram de 179 para 132.
- Malária: queda de 80,8% nas mortes entre janeiro de 2023 e o fim de 2025 (Informe nº 9, 8 de abril de 2026). Os testes passaram de 144.986 para 257.930 por ano.
- Desnutrição: as mortes caíram 53,2% entre 2023 e 2025. A parcela de crianças menores de 5 anos com peso adequado subiu de 45,4% para 53,8%, e a de crianças com muito baixo peso caiu de 24,2% para 15,2% (Informe nº 9).
- Infecções respiratórias: as mortes caíram 16,7% desde o início da resposta, e a letalidade, 76% (Informe nº 9).
- Profissionais de saúde: de 690 no início de 2023 para mais de 2.130 em 2026.
- Vacinação: crianças menores de 1 ano com esquema completo passaram de 27% em 2023 para 60,6% em 2025.
Até abril de 2024, o ministério reabriu os sete polos-base de saúde fechados por falta de segurança diante do garimpo (Kayanaú, Homoxi, Hakoma, Ajaraní, Haxiú, Xitei e Palimiú). Os números são do governo federal. Em audiência no Senado em 27 de outubro de 2026, lideranças indígenas ainda cobraram segurança alimentar, água potável e proteção às crianças.
A retirada dos garimpeiros
A desintrusão, nome oficial da retirada dos invasores, começou em 2023. Fiscais do Ibama e militares das Forças Armadas inutilizaram aviões, pistas de pouso e equipamentos do garimpo, e houve prisões. Em janeiro de 2024, com a volta de invasores, o governo decidiu manter um contingente militar permanente na região. A Operação Catrimani II, das Forças Armadas, atua contra o garimpo no território desde 1º de abril de 2024.
Uma Casa de Governo, em Boa Vista, coordena as ações desde 2024. Em 26 de fevereiro de 2026, no balanço de dois anos, o diretor da Casa de Governo, Nilton Tubino, informou a lideranças Yanomami, Ye'kwana, Sanöma e Ninam uma redução de 98,9% da área ocupada pelo garimpo ilegal até fevereiro de 2026. As lideranças relataram tentativas de invasores de voltar a áreas desocupadas, e o governo discutiu integrar os alertas enviados pelas associações indígenas ao monitoramento.
Recuperação ambiental
A Funai e a Universidade de Brasília (UnB) elaboraram com lideranças e pajés o Plano de Recuperação Ambiental Yanomami Ye'kwana. Ele prevê recuperar 356,7 hectares degradados pelo garimpo em cinco anos, com R$ 37,3 milhões, e até 1.057,8 hectares em dez anos, segundo a presidente da Funai, Lúcia Alberta Baré.
O Senado e a Subcomissão Yanomami
A Subcomissão Permanente dos Povos Indígenas Yanomami (CDHYANOM), ligada à Comissão de Direitos Humanos do Senado, foi composta em 28 de abril de 2026. Em 6 de maio de 2026, elegeu presidente a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Os titulares são Damares Alves, Roberta Acioly (Republicanos-RR), Marcio Bittar (PL-AC), Flávio Arns (PSB-PR) e Jaime Bagattoli (PL-RO).
Em 27 de outubro de 2026, a subcomissão fez audiência pública sobre a efetividade das políticas no território, com Funai, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social e lideranças indígenas. Waihiri Hekurari Yanomami pediu proteção às comunidades, sobretudo às crianças, e o apoio do Congresso.
Em 29 e 30 de outubro de 2026, a subcomissão fez diligência a Manaus e São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, com visitas a unidades de saúde, reuniões com as Forças Armadas e a Funai e uma audiência com lideranças na Câmara de Vereadores de São Gabriel. A entrada na Terra Indígena não foi autorizada. Damares Alves disse que o colegiado precisa definir se a emergência de saúde decretada em 2023 deve ser prorrogada.
Linha do tempo
- 25 mai. 1992: decreto homologa a Terra Indígena Yanomami, com 9,66 milhões de hectares.
- 2020-2021: área de garimpo no território passa de 414 para 1.556 hectares, segundo o MapBiomas.
- 20 jan. 2023: Portaria GM/MS nº 28 declara emergência em saúde pública e cria o COE Yanomami.
- 21 jan. 2023: Lula visita Roraima e anuncia ajuda federal.
- Jan. 2024: governo decide manter presença militar permanente no território.
- 1º abr. 2024: começa a Operação Catrimani II.
- Abr. 2024: reabertos os sete polos-base de saúde fechados pelo garimpo.
- 5 mai. 2025: Ministério da Saúde informa queda de 21% nas mortes em 2024.
- 26 fev. 2026: Casa de Governo informa redução de 98,9% da área de garimpo.
- 8 abr. 2026: Informe nº 9 aponta queda de 80,8% nas mortes por malária.
- 6 mai. 2026: Damares Alves é eleita presidente da Subcomissão Yanomami do Senado.
- 27 out. 2026: audiência no Senado avalia políticas no território.
- 29-30 out. 2026: subcomissão faz diligência em Manaus e São Gabriel da Cachoeira (AM).
Perguntas frequentes
O que é a crise Yanomami?
É a crise humanitária e sanitária na Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, com mortes por malária e desnutrição ligadas ao garimpo ilegal. O governo declarou emergência de saúde em 20 de janeiro de 2023.
Onde fica a Terra Indígena Yanomami?
No oeste de Roraima e no norte do Amazonas, na fronteira com a Venezuela. Tem 9,66 milhões de hectares e foi homologada em 25 de maio de 1992.
Quando começou a crise Yanomami?
A crise se agravou a partir de 2019 com a invasão do garimpo, cuja área quase quadruplicou de 2020 para 2021. A emergência de saúde foi declarada em 20 de janeiro de 2023.
A crise Yanomami acabou?
Não oficialmente. A emergência de saúde segue em vigor em outubro de 2026. O governo informa queda nas mortes por malária (80,8%) e por desnutrição (53,2%) entre 2023 e 2025 e redução de 98,9% da área de garimpo até fevereiro de 2026.
Quem é Davi Kopenawa?
É xamã e líder Yanomami, nascido em 1956, presidente da Hutukara Associação Yanomami.
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