O que aconteceu
As eleições parlamentares antecipadas da Sérvia, em 25 de outubro de 2026, terminaram com a vitória da Lista Estudantil (Studentska lista), o movimento nascido dos protestos contra a corrupção que começaram em novembro de 2024. O Partido Progressista Sérvio (SNS), de Aleksandar Vučić, perdeu o governo pela primeira vez desde 2012.
Vučić reconheceu a derrota na noite da votação, na sede do partido em Belgrado: "A julgar por uma amostra estratificada, está claro que perdemos estas eleições" (AFP, via g1). Houve festa nas ruas de Belgrado, Novi Sad e outras cidades (BBC).
O comparecimento foi o maior em eleições legislativas no país em 30 anos: 68,78%, segundo a Comissão Eleitoral da República (RIK), contra cerca de 59% em 2023 (Al Jazeera, Wikipédia).
Resultado
Os números são parciais. Na manhã de 26 de outubro, com cerca de 97% das seções apuradas, a RIK dava:
| Lista | Votos | Cadeiras (projeção) |
|---|---|---|
| Lista Estudantil | 52,7% (2,25 milhões) | 140 |
| "Aleksandar Vučić – Sérvia Unida" (SNS e aliados) | 39,2% (1,67 milhão) | 103 |
| Listas de minorias (húngaros, albaneses, bosníacos e outras) | — | 7 |
Fontes: RIK, via BBC; projeção de cadeiras do CeSID–Ipsos, via Al Jazeera. O Parlamento tem 250 cadeiras, e a maioria é de 126. Com 140, a Lista Estudantil governa sozinha, sem precisar de coalizão. Fora as listas de minorias, nenhuma outra lista passou da cláusula de barreira de 3% (Wikipédia).
Como chegamos aqui: Novi Sad e os protestos
Em 1º de novembro de 2024, a marquise de concreto da estação ferroviária de Novi Sad, a segunda maior cidade da Sérvia, desabou sobre a calçada e matou 16 pessoas. A estação tinha acabado de ser reformada como parte da linha de alta velocidade Belgrado–Budapeste, obra-vitrine do governo feita com a China (Wikipédia, BBC). Os manifestantes atribuíram o desastre à corrupção e à falta de fiscalização.
Estudantes ocuparam faculdades e lideraram a maior onda de protestos no país desde a queda de Slobodan Milošević, em 2000 (AFP, via g1). Os maiores atos reuniram cerca de 100 mil pessoas na Praça Slavija, em Belgrado, em 22 de dezembro de 2024, e cerca de 325 mil em 15 de março de 2025. O primeiro-ministro Miloš Vučević anunciou a renúncia em 28 de janeiro de 2025 e foi substituído por Đuro Macut em 16 de abril. Desde então, os estudantes passaram a pedir eleições antecipadas e anunciaram que disputariam o voto (Wikipédia).
Em 9 de setembro de 2026, Vučić, então presidente, dissolveu o Parlamento e convocou a eleição para 25 de outubro, a pedido do governo. O pleito regular seria só no fim de 2027 (governo da Sérvia, AP).
Quem disputou
Lista Estudantil. As assembleias de estudantes das faculdades escolheram os 250 candidatos, gente de fora da política: médicos, professores, engenheiros, economistas, atores e atletas. A lista não tem hierarquia nem líder formal. O primeiro nome é Ilija Srdanović, cardiologista e professor da Universidade de Novi Sad (BBC). Vários partidos de oposição retiraram as próprias listas para apoiá-la (Wikipédia). O programa promete combate à corrupção e ao crime organizado, mídia pública livre de controle político, afastamento dos funcionários que reprimiram protestos e fim da nomeação de aliados para estatais (BBC, Al Jazeera).
Aleksandar Vučić e o SNS. O SNS chegou ao governo em 2012. Vučić foi vice-primeiro-ministro, primeiro-ministro de 2014 a 2017 e presidente de 2017 a 2026. Sem poder disputar um terceiro mandato presidencial, renunciou à Presidência em 27 de setembro de 2026 para encabeçar a lista "Aleksandar Vučić – Sérvia Unida" e voltar ao cargo de primeiro-ministro. A presidente do Parlamento, Ana Brnabić, assumiu a Presidência interinamente (governo da Sérvia). Na campanha, Vučić chamou o movimento estudantil de financiado do exterior e prometeu aumentar aposentadorias e salários do setor público. Ele defende a candidatura da Sérvia à União Europeia e se recusa a impor sanções à Rússia pela invasão da Ucrânia (BBC).
Campanha e denúncias
Vinte e quatro ONGs sérvias disseram que não havia condições para uma eleição "livre e justa", e os estudantes montaram uma rede própria de voluntários para fiscalizar a votação (AFP, via g1). Na eleição de 2023, a missão internacional de observação já tinha apontado "vantagem esmagadora do partido governista" pelo viés da mídia e pelo uso de cargos públicos (BBC).
Uma investigação da BBC publicada em 24 de outubro achou 56 páginas no Facebook que publicaram ao menos 90 anúncios pagos contra o movimento estudantil entre meados de setembro e meados de outubro, sem dizer quem pagava. Todos foram pagos em leu romeno, cerca de R$ 30 mil até 16 de outubro, embora a lei sérvia proíba dinheiro estrangeiro em propaganda política. A Meta removeu 47 desses anúncios (BBC, via g1).
O que acontece agora
- Resultado oficial. A RIK ainda totaliza os votos. Vučić disse que o SNS não vai atrasar a instalação do novo Parlamento (g1).
- Parlamento e governo. A nova Assembleia tem de ser instalada em até 30 dias depois do resultado final, e o governo tem de ser formado em até 90 dias depois disso (Al Jazeera). Vučić estimou de 10 a 15 dias para cada etapa (g1).
- Primeiro-ministro. A Lista Estudantil não anunciou candidato. Srdanović é visto como o nome mais provável, mas não há definição sobre ele nem sobre os ministérios do Interior, das Finanças e da Justiça (Al Jazeera).
- Eleição presidencial. A renúncia de Vučić obriga a uma eleição para presidente até 27 de dezembro de 2026. A convocação cabe a Ana Brnabić. O cargo é em grande parte cerimonial (Al Jazeera, governo da Sérvia). Vučić não pode concorrer, porque já cumpriu dois mandatos.
Repercussão
A comissária europeia para o Alargamento, Marta Kos, disse que "a porta da UE está aberta". O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, elogiou Vučić e disse esperar que a nova força política entenda que a cooperação com Moscou é do interesse da Sérvia. O primeiro-ministro da Hungria, Péter Magyar, cujo partido encerrou 16 anos de Viktor Orbán nas eleições húngaras de abril de 2026, comemorou o resultado (BBC).
Linha do tempo
- 1º de novembro de 2024: a marquise da estação de Novi Sad desaba e mata 16 pessoas.
- 22 de dezembro de 2024: cerca de 100 mil pessoas protestam na Praça Slavija, em Belgrado.
- 28 de janeiro de 2025: o primeiro-ministro Miloš Vučević anuncia a renúncia.
- 15 de março de 2025: o maior protesto do movimento reúne cerca de 325 mil pessoas em Belgrado.
- 16 de abril de 2025: Đuro Macut assume como primeiro-ministro.
- 9 de setembro de 2026: Vučić dissolve o Parlamento e marca a eleição para 25 de outubro.
- 27 de setembro de 2026: Vučić renuncia à Presidência para disputar o cargo de primeiro-ministro; Ana Brnabić assume interinamente.
- 24 de outubro de 2026: a BBC revela anúncios pagos com dinheiro romeno contra os estudantes no Facebook.
- 25 de outubro de 2026: a Lista Estudantil vence, com comparecimento recorde, e Vučić reconhece a derrota.
- Até 27 de dezembro de 2026: prazo para a eleição presidencial.
Perguntas frequentes
Quem ganhou as eleições na Sérvia em 2026?
A Lista Estudantil, movimento nascido dos protestos contra a corrupção, venceu as eleições parlamentares de 25 de outubro de 2026 com cerca de 52,7% dos votos e uma projeção de 140 das 250 cadeiras. O SNS, de Aleksandar Vučić, ficou com cerca de 39,2%.
Vučić ainda é presidente da Sérvia?
Não. Vučić renunciou à Presidência em 27 de setembro de 2026 para disputar o cargo de primeiro-ministro. Ana Brnabić, presidente do Parlamento, ocupa a Presidência interinamente até a eleição presidencial, que tem de acontecer até 27 de dezembro de 2026.
Quem vai ser o novo primeiro-ministro da Sérvia?
Ainda não está definido. A Lista Estudantil não indicou candidato na campanha. O cardiologista Ilija Srdanović, primeiro nome da lista, é apontado como o mais provável.
Por que houve protestos na Sérvia?
Os protestos começaram depois que a marquise da estação de trem de Novi Sad desabou em 1º de novembro de 2024 e matou 16 pessoas. Os manifestantes culparam a corrupção nas obras públicas e passaram a pedir responsabilização, liberdade de imprensa e novas eleições.
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