RODA VIVA | ANA TONI | 02/11/2026
Ana Toni, economista, doutora em Ciência Política e diretora-executiva da COP30 — tendo atuado anteriormente como Secretária Nacional de Mudança do Clima (2023–2025) e presidente do conselho do Greenpeace Internacional —, analisa os desdobramentos práticos da cúpula de Belém e os preparativos para a COP31 em Antália, na Turquia. A discussão foca na consolidação da "década da implementação", no financiamento climático global, na redução de emissões e nas tensões geopolíticas envolvendo potências emissoras e a política energética brasileira.
Balanço da COP30 e a Agenda da COP31 na Turquia
Ana Toni afirma que a COP30 atingiu seus três objetivos centrais: reforçar o multilateralismo em um contexto adverso, formalizar a entrada na "década da implementação" e colocar a dimensão humana e social no centro das negociações. Em Belém, foram aprovadas 29 decisões por consenso entre 195 países.
- Transição de fases nas COPs: As conferências pós-Acordo de Paris tinham como função estruturar o chamado "livro de regras". Com as diretrizes macro consolidadas até a COP30, as conferências seguintes entram na fase de refinamento e operacionalização.
- Metas herdadas para a Turquia: A COP30 aprovou a meta de triplicar os recursos globais destinados à adaptação climática e fixou novos indicadores. A COP31 terá como missão definir a forma de financiamento e a operacionalização desses indicadores diante do aumento de secas, enchentes e ondas de calor.
Mapas do Caminho: Combustíveis Fósseis e Desmatamento
Durante a COP30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs a elaboração de um roteiro internacional para superar a dependência de combustíveis fósseis, desdobrando o compromisso assumido na COP28 em Dubai. Como não houve consenso para incluir o texto integral na negociação oficial da plenária, a presidência da COP30 assumiu o compromisso voluntário de formular dois documentos técnicos:
- Mapa do Caminho para a Transição Longe dos Combustíveis Fósseis: Estrutura ações para redução simultânea de oferta e demanda energética, abordando impactos socioeconômicos e alternativas tecnológicas para descarbonização progressiva de uma economia moldada há 200 anos pelo setor fóssil.
- Mapa do Caminho Global contra o Desmatamento e para Restauração Florestal: Apresenta estratégias para interromper a supressão vegetal em todos os biomas florestais (não apenas tropicais) e acelerar a recomposição vegetal.
Os documentos serão entregues à presidência da COP31, conduzida pelo ministro turco Murat Kurum, e ao negociador-chefe Chris Bowen, ministro da Austrália. França, Holanda e Alemanha já publicaram versões nacionais de seus mapas, com previsão de mais seis ou sete países anunciarem os seus na COP31, visando atingir entre 20 e 50 nações na COP32.
Metano, Restauração e o Risco de Overshoot
Diante do relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que indica a inevitabilidade de um overshoot (superação temporária do teto de 1,5 °C de aquecimento global até 2100), Ana Toni destaca as duas medidas emergenciais prioritárias:
- Corte agressivo de metano ($CH_4$): Gás com potencial de aquecimento cerca de 80 vezes superior ao dióxido de carbono ($CO_2$) no curto prazo. As fontes prioritárias de intervenção são a queima e vazamento na exploração de óleo e gás (flaring), o manejo na agropecuária (orizicultura e pecuária) e a gestão de resíduos em lixões.
- Captura via restauração florestal: Retirada direta de carbono da atmosfera para encurtar a duração e a magnitude do pico térmico global.
Geopolítica: Estados Unidos, China e Financiamento Internacional
Impacto da saída dos Estados Unidos
A retirada do governo federal norte-americano do Acordo de Paris afeta a velocidade da redução global. Ana Toni detalha que cerca de 60% da política climática dos EUA é descentralizada em estados e municípios, articulados na coalizão America Is All In. Sem essa atuação subnacional, a redução projetada de emissões dos EUA até 2035 cairia de uma meta original de 65% para apenas 35%; com governadores e prefeitos democratas e independentes, a estimativa fica em 55%, demonstrando uma perda direta de 10% atribuível à postura federal negacionista.
Papel da China
A China inseriu a meta climática em seu terceiro plano quinquenal consecutivo e fixou um objetivo de redução de 7% a 10% nas emissões após atingir seu pico fóssil. No plano comercial, o volume anual de tecnologias limpas exportadas pelo país (painéis solares, baterias e veículos elétricos) já gera um abatimento de emissões equivalente ao total emitido anualmente pela Argentina. A diplomacia chinesa atua em interlocução estreita com blocos como Índia, União Europeia e Brasil.
Financiamento e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF)
O Tropical Forests Forever Facility (TFFF), estruturado pela diplomacia brasileira, busca alcançar US$ 10 bilhões em capital catalítico para remunerar a preservação de florestas em pé a partir dos rendimentos de suas aplicações. O fundo registrou US$ 7,8 bilhões após novo aporte do governo da Holanda, contando também com aportes de nações emergentes e florestais, como Brasil e Indonésia, e negociações com países árabes e China.
Resultados do Brasil: Emissões, Mercado de Carbono e Resíduos
- Queda do desmatamento: O Brasil registrou redução de 71% na taxa de desmatamento em quatro anos, reduzindo a área anual desmatada na Amazônia de 13 milhões para 3 milhões de hectares. O volume de emissões evitadas equivale à emissão anual bruta do Japão (sétimo maior emissor global).
- Metas de emissão da NDC: O balanço mais recente do SEEG/Observatório do Clima apontou queda de 6% nas emissões do país em 2025, atingindo 1,4 gigatoneladas de $CO_2$e (muito próximo da meta de 1,3 Gt). As metas seguintes preveem 1,2 Gt para 2030 e uma faixa entre 850 milhões e 1.000 gigatoneladas para 2035.
- Financiamento doméstico da transição: O Fundo Clima foi expandido de R$ 400 milhões para R$ 32 bilhões em recursos operacionais pelo Ministério da Fazenda, complementado pela Plataforma Brasil de Investimentos pelo Clima (BIP) e pelo programa Eco Invest.
- Mercado Regulado de Carbono: Aprovado após duas décadas de tramitação, estabelece regras de reporte e mensuração obrigatórias para empresas com emissões anuais acima de 10.000 toneladas de $CO_2$e e a obrigatoriedade de aquisição de créditos para equalização de passivos acima de 25.000 toneladas (abrangendo cerca de 1% dos CNPJs nacionais). O Brasil estruturou também a Coalizão Aberta de Mercado de Carbono junto à União Europeia e à China para compatibilizar padrões de integridade.
- Gargalo no setor de resíduos: Emissões por descarte inadequado de lixo continuam em alta. No estado do Amazonas, o lixo representa a principal fonte de metano em 16 de seus 62 municípios, com 57 cidades mantendo lixões a céu aberto. O problema decorre da fragmentação da governança e indefinição de competências fiscais e executivas entre União, estados e prefeituras.
Exploração de Petróleo e Justiça Climática
Questionada sobre as descobertas de petróleo na Foz do Amazonas e a contradição entre a expansão fóssil e o discurso ambiental, Ana Toni argumenta que as etapas atuais autorizadas limitam-se a pesquisas geológicas e que uma decisão final de exploração exigirá compatibilização com o Plano de Transformação Ecológica. A transição deve ser planejada sem rupturas abruptas na segurança energética, investindo receitas em matrizes limpas (a matriz elétrica brasileira já opera com 90% de fontes renováveis, ante a média mundial de 40%).
Na frente social, a diretora enfatiza o plano transversal de Justiça Climática contido no Plano Clima do governo federal, adaptando o princípio de "responsabilidades comuns, porém diferenciadas" para o plano interno. A diretriz visa direcionar recursos e proteção a populações vulneráveis aos desastres extremos e salvaguardar trabalhadores de indústrias fósseis impactados pelo fechamento gradual de postos de trabalho.
Monitoramento de Metas e Governança Contra o Greenwashing
A presidência da COP30 reformulou a Agenda de Ação Global, vinculando os mais de 800 compromissos corporativos e de entes subnacionais à plataforma NAZCA da ONU. A medida impõe critérios padronizados de reporte anual transparente, permitindo fiscalização pública e jornalística sobre promessas voluntárias de descarbonização e cortes de metano.
