How AI Is Turning Figma’s Finance Team Into Builders
Discussão entre Praveer Melwani (CFO da Figma), Seema Amble (Sócia da a16z) e Ivan Makarov (Sócio da a16z) sobre como a inteligência artificial e a automação estão redefinindo a função financeira dentro das empresas de tecnologia. Com base no artigo You Need a New CFO publicado pela a16z, a conversa detalha a transição do papel de finanças de uma área reativa de conciliação para um polo de construção de sistemas, estratégia de negócios e experimentação operacional.
A Evolução da Automação em Finanças: Do SQL Manual aos Agentes de IA
Praveer Melwani relata que, no início de sua trajetória na Figma, a função financeira dependia inteiramente de trabalho manual de dados:
- Construção manual de pipelines: Melwani passava os dias no editor de consultas escrevendo blocos de 400 a 500 linhas de SQL para cruzar métricas de utilização de produto com dados de faturamento do Stripe. Essas "tabelas douradas" (golden tables) eram repassadas manualmente a engenheiros de dados para inclusão em rotinas de ETL e posterior envio ao Salesforce e Marketo.
- Aceleração da cadência temporal: As rotinas de análise migraram de fechamentos trimestrais/mensais para ciclos semanais, diários e, atualmente, horários. No início da Figma, Melwani analisava diariamente, linha por linha, os primeiros 30 usuários que assinavam planos pagos (checando se eram domínios corporativos ou pessoais) para identificar padrões de adoção que subsidiaram o desenvolvimento do produto Figma Organization.
- Identificação de anomalias em tempo real: Em vez de levar semanas para detectar distorções de faturamento ou picos de uso (como ocorreu no início da pandemia da Covid-19), ferramentas modernas permitem rastrear variações no intervalo de poucas horas, possibilitando intervenções táticas imediatas.
Perfil de Contratação e o Risco de "Terceirização do Pensamento"
Apesar do avanço das ferramentas de automação, os fundamentos de um bom profissional de finanças permanecem centrados na capacidade analítica e de negócios:
- Critérios centrais: Curiosidade intelectual profunda, fluência analítica, rigor na formulação de perguntas e capacidade de comunicação clara. A automação serve para eliminar tarefas repetitivas, liberando tempo para diagnosticar alavancas de crescimento.
- Estrutura do estudo de caso para liderança: Na seleção para cargos executivos (como VP of Finance), Melwani utiliza dados públicos da Figma sem fornecer contexto excessivo. O objetivo é testar se o candidato realmente compreende a mecânica, as premissas e a sensibilidade do modelo financeiro às variáveis-chave, em vez de apenas reproduzir saídas brutas geradas por LLMs.
- Combate ao AI Slop: O excesso de memorandos e análises superficiais gerados sem revisão crítica consome tempo da liderança. A Figma adotou diretrizes internas para sinalizar documentos gerados por IA, mantendo a regra de que o profissional é responsável por sintetizar, validar e demonstrar domínio real do conteúdo antes de compartilhá-lo.
Fluxos de Trabalho Automatizados na Figma
A equipe financeira da Figma implementou automações práticas em diferentes frentes de negócio, frequentemente apresentadas no evento interno da empresa (FigNation):
1. Crédito e Cobranças (Credit & Collections)
- Reestruturação ponta a ponta: O líder da área (Kajal) reconstruiu os fluxos de rastreamento de faturas, conciliação direta com o NetSuite e análise de crédito utilizando agentes configurados via ChatGPT e fluxos integrados.
- Impacto: Redução no prazo médio de recebimento (Days Sales Outstanding - DSO) e eliminação da checagem manual de dados em birôs de crédito.
2. Desenvolvimento Corporativo e M&A (Corp Dev)
- "Vibe coding" em diligências técnicas: A equipe de M&A utiliza ferramentas como CodeX e Figma Make (gerador de aplicações e sites via prompts em linguagem natural) para prototipar e recriar produtos de empresas-alvo antes de envolver a engenharia de produto, avaliando rapidamente a complexidade do software e a profundidade de seu diferencial (moat).
- Simulação de Comitê de Investimento: Criação de personas de IA representando os executivos da Figma (como o CEO Dylan Field, o CFO Praveer Melwani e o CRO Shaunt Voskanian). Os memorandos de investimento são submetidos a esses agentes para antecipar objeções, refinar teses e encurtar o tempo de discussão em reuniões reais.
3. Análise de Despesas de Viagem e Representação (T&E)
- Cruzamento de fontes heterogêneas: Durante o planejamento financeiro, a equipe de finanças corporativas integrou dados do Navan, Zip e Ramp via modelos com correspondência difusa (fuzzy matching) para identificar desvios em políticas de viagens (por exemplo, diferenciar viagens corporativas de funcionários residentes na própria cidade de destino). Ajustes de visualização solicitados pela liderança foram implementados e renderizados em 30 minutos.
Construir vs. Comprar (Build vs. Buy) e a Estrutura de TI
A Figma adota uma separação clara entre sistemas críticos e ferramentas de fluxo de trabalho:
- Comprar: Sistemas de registro (systems of record), ERPs e infraestruturas regulatórias onde erros contábeis ou de conformidade não são tolerados.
- Construir: Automações de fluxos de trabalho e ferramentas customizadas de produtividade interna, operadas descentralizadamente pelas próprias equipes.
- Centralização via TI/Sistemas: Com múltiplas equipes desenvolvendo agentes isolados (auditoria interna rastreando conformidade SOX, equipe de GRC gerenciando auditorias ISO/SOC 2 e contas a pagar automatizando provisões), a empresa contratou um novo CIO, Casper Sorensen (ex-Coinbase), para criar uma camada central de gerenciamento de produtos internos. O objetivo é converter automações pontuais criadas na base (bottom-up) em plataformas institucionais seguras e escaláveis.
- O papel do Engenheiro Financeiro (Finance Engineer): Profissionais dedicados na interface entre ciência de dados, engenharia e finanças corporativas, unindo conhecimento de regras contábeis (estornos, créditos incobráveis, conciliações) à capacidade de desenvolvimento técnico.
Governança de Métricas e o Papel Contínuo do Excel
- Propriedade das métricas: O time de finanças mantém a custódia centralizada das definições financeiras e operacionais para garantir consistência histórica perante o Conselho de Administração, investidores e relatórios públicos de resultados (earnings).
- A permanência do Excel: Melwani e os sócios da a16z reforçam que planilhas permanecem fundamentais como ferramenta tátil de modelagem e exploração espacial de cenários. A IA passa a atuar como um acelerador de leitura, permitindo sintetizar e mapear as variáveis mais sensíveis de modelos com mais de 20 abas antes de revisões manuais.
Previsões para os Próximos 12 a 18 Meses
- Equilíbrio de Headcount e Complexidade: Se a complexidade operacional da Figma permanecesse constante, os ganhos de produtividade com IA reduziriam a necessidade de novas contratações no time financeiro. No entanto, o lançamento de novos produtos e operações de M&A mantêm o crescimento de complexidade à frente, resultando em maior eficiência por funcionário sem inchaço proporcional de equipe.
- Automação auditável de ponta a ponta: A expectativa é a evolução de tarefas determinísticas (como análise de variações de balanço / flux analysis) para rotinas totalmente automáticas, gerando relatórios com trilhas completas de auditoria prontas para validação externa.
- IA como benefício de recrutamento: O acesso a ferramentas avançadas de IA e uma cultura ativa de experimentação (hackathons internos como o Maker Week) tornaram-se alavancas decisivas para atrair e reter talentos analíticos de ponta.
Recomendações para Startups em Estágio Inicial
Ao aconselhar empresas dos portfólios da a16z, Ivan Makarov e Seema Amble destacam os passos essenciais para iniciar a automação em finanças:
- Priorizar a integridade dos dados na origem: Antes de gerar relatórios ou adotar ferramentas de IA, é indispensável garantir o rastreamento confiável e a arquitetura correta dos dados de receita e uso.
- Rigor nas definições de ARR: Evitar métricas "criativas" nos estágios Seed e Série A; estabelecer regras contábeis sólidas desde o início.
- Transição para a narrativa orientada a dados: Utilizar a automação para liberar tempo da liderança, permitindo construir narrativas financeiras embasadas para rodadas de captação e futuras etapas de abertura de capital (IPO).
