Ep. 043 - The Midterms and the 2028 Datacenter Buildout (Datacenters)
Jordan Nanos, Maya Barkin, Wayne Ma e Jeremie Eliahou Ontiveros, analistas da SemiAnalysis, discutem o impacto das eleições de meio de mandato (midterms) dos Estados Unidos sobre o cronograma de construção e licenciamento de data centers para 2027 e 2028, analisando o avanço de restrições bipartidárias, riscos elétricos, incentivos fiscais e as disputas estaduais críticas.
Pipeline de Construção: Bloqueio em 2027 vs. Incerteza em 2028
A tese central apresentada por Maya Barkin estabelece que o pipeline de data centers previsto para 2027 está praticamente consolidado, enquanto a expansão de 2028 enfrenta incerteza regulatória significativa:
- Pipeline de 2027: Cerca de 75% da capacidade projetada para entrar em operação nos 20 principais estados já está em estágio avançado de obras físicas (construção das estruturas/shells). O modelo da SemiAnalysis sustenta a projeção de mais de 50 GW adicionados globalmente no ano (com cerca de 40 GW nos EUA). Como as licenças de construção, manejo de águas pluviais e a maior parte das licenças ambientais já foram emitidas, os resultados eleitorais imediatos não têm força para paralisar essas entregas.
- Pipeline de 2028: O modelo projeta aproximadamente 62 GW em novas adições nos EUA. A maioria desses projetos ainda não iniciou a construção civil e depende de aprovações pendentes em estados com eleições para governador.
- Exposição de Capacidade: O Texas representa sozinho cerca de 30% das adições norte-americanas previstas para 2028. Em cenários analisados pela SemiAnalysis, uma vitória ampla de candidatos pró-moratória colocaria até 30,3 GW de capacidade planejada de 2028 sob risco de exposição. No cenário baseado nas pesquisas de intenção de voto — onde prevalecem candidatos favoráveis apenas a condições mais rígidas —, a capacidade sob risco real cai para 5,7 GW.
Moratórias (Pausas) versus Condicionantes Regulatórias
Maya Barkin diferencia o impacto operacional e financeiro entre as duas abordagens políticas adotadas por governos estaduais e municipais:
- Pausas / Moratórias: Paralisam integralmente o processamento e a emissão de licenças (alvarás de construção, zoneamento ou licenças ambientais de emissões atmosféricas). Projetos que não possuem todas as licenças em mãos ficam travados indefinidamente sem caminho regulatório de avanço.
- Condicionantes: Exigem contrapartidas estruturais e financeiras dos desenvolvedores — como custear reforços na rede elétrica, redesenhar sistemas de resfriamento para menor consumo hídrico, eliminar acordos de confidencialidade (NDAs), financiar estudos de impacto e firmar acordos comunitários com créditos em contas de luz residenciais. As condições encarecem o projeto e aumentam prazos, mas mantêm o projeto viável e em andamento.
A Reação Bipartidária e o Fim dos Incentivos Fiscais
Wayne Ma e Jeremie Eliahou Ontiveros destacam que a oposição a data centers não segue divisões partidárias tradicionais:
- Cenário Eleitoral: Dos 20 indicados aos governos estaduais monitorados nas 10 principais disputas, 9 defendem pausas temporárias e 11 apoiam condições mais rígidas, com divisão equilibrada entre democratas e republicanos.
- Sentimento Popular: A hostilidade local decorre de receios com ruído sonoro, consumo intensivo de água, aumento nas faturas de energia, impacto da inteligência artificial no emprego e desinformação. Pesquisas indicam que a população tem visão substancialmente mais favorável à IA do que à instalação física de data centers em suas vizinhanças.
- Escala e Escassez: Em cinco anos, o ritmo de construção anual nos EUA saltou de poucos gigawatts para uma escala de 40 GW previstos em 2027 (expansão de 10 a 20 vezes). A densidade de capital é extrema: um campus de 1 GW representa um investimento em torno de US$ 50 bilhões, concentrado predominantemente no valor dos servidores e GPUs, e não no tamanho físico do galpão.
- Revisão de Isenções Fiscais (Caso de Ohio): Wayne Ma aponta que incentivos fiscais originalmente estimados para custar US$ 136 milhões por ano ao estado de Ohio saltaram para US$ 555 milhões há dois anos e atingiram US$ 1,6 bilhão no último ano. Diante da restrição de oferta e do alto valor agregado da infraestrutura de IA, tanto democratas quanto republicanos defendem extinguir subsídios fiscais, repassando custos da infraestrutura aos desenvolvedores.
Riscos Técnicos à Rede Elétrica e Resfriamento
Jeremie Eliahou Ontiveros explica os riscos sistêmicos que motivam operadoras de rede a exigir condições severas:
- Estabilidade da Carga e Risco de Blackout: Grandes data centers conectados à rede criam risco similar ao colapso de geração intermitente (como ocorrido na Espanha com renováveis). Na Virgínia, uma oscilação súbita de voltagem disparou sistemas de no-break (UPS) de vários data centers simultaneamente, desconectando 1,5 GW de carga de forma instantânea, o que quase causou um apagão generalizado.
- Transição Hídrica: Práticas anteriores utilizavam sistemas de resfriamento evaporativo em circuito aberto (open-loop), altamente eficientes no consumo elétrico, mas com consumo massivo de água potável. O adensamento de projetos força a transição para sistemas fechados ou de baixo consumo hídrico.
Panorama Estadual: Texas e Geórgia
Texas
- Ações Vigentes: No fim de setembro, o governador republicano Greg Abbott congelou a emissão de licenças da Texas Commission on Environmental Quality (TCEQ) para data centers, somando-se à auditoria na fila de interconexão da ERCOT iniciada em agosto. Isso inviabilizou a estratégia de geração própria no local (Bring Your Own Power - BYOP), pois usinas dedicadas a gás também necessitam de licenças de emissão da TCEQ.
- Cenário Abbott: Com a conclusão prevista da auditoria da ERCOT para o início de dezembro, a expectativa é de reabertura do licenciamento com exigências mais rigorosas (fim de incentivos legislativos em 2027, obrigatoriedade de aporte de nova geração e proteção tarifária residencial).
- Cenário Gina Hinojosa (Democrata): A candidata propunha estender a moratória até que a legislatura aprovasse proteções tarifárias, veto a NDAs, exigência de mão de obra sindicalizada e corte de subsídios durante a sessão regular (janeiro a maio de 2027), estendendo a paralisação por 8 a 12 meses adicionais.
- Risco Específico para 2027 no Texas: Projetos já financiados (com captações bilionárias) cujos prédios físicos estão sendo erguidos sem a licença final de emissões da TCEQ correm o risco de terminar a obra civil e ficarem impossibilitados de operar geradores a gás dedicados caso o congelamento de licenças seja prorrogado.
Geórgia e Dinâmica Local
- A disputa para o governo estadual entre a democrata Keisha Lance Bottoms (favorável a pausa temporária) e o republicano Rick Jackson (favorável a condicionantes) reflete uma indefinição técnica, onde temas como incentivos fiscais não foram explicitados abertamente nas plataformas eleitorais.
- Jeremie Ontiveros e Maya Barkin ressaltam a importância da descentralização: impor regras estaduais rígidas como BYOP obrigatório é ineficiente em estados que cobrem múltiplos operadores de rede (como Indiana, dividida entre PJM e MISO).
Cenário Federal e Estratégia de Relações Públicas
- Impacto Federal: Uma eventual maioria democrata no Congresso traria poucas alterações práticas imediatas à expansão, dado o poder de veto presidencial de Donald Trump e a convergência bipartidária em forçar grandes consumidores de energia a pagar adiantado (ou via garantias/colaterais) pelos custos de expansão e reforço da infraestrutura de transmissão.
- Mão de Obra e Comunidades Locais: Wayne Ma observa críticas em municípios rurais (como em condados de Iowa) devido ao uso predominante de mão de obra técnica terceirizada de outros estados ou países, reduzindo os ganhos de emprego para moradores locais. Pagamentos diretos a residentes (como ofertas hipotéticas de US$ 10.000) são vistos como suborno e rejeitados.
- Mitigação e Licença Social: Casos bem-sucedidos envolvem transparência ativa, abandono de NDAs por operadoras como Google e AWS, investimentos diretos em infraestrutura cívica (escolas, postos de bombeiros, pavimentação de vias públicas) e compartilhamento de receitas fiscais com serviços públicos essenciais, a exemplo de bônus pagos a professores financiados por tributos de data centers da Meta na Louisiana.
