Crusoe CEO Chase Lochmiller: Turning Stranded Energy Into Intelligence
Chase Lochmiller, cofundador e CEO da Crusoe — empresa de infraestrutura de inteligência artificial avaliada em US$ 31 bilhões —, detalha a Brian Halligan (partner da Sequoia Capital e cofundador da HubSpot) a operação verticalizada da companhia, a transição estratégica da mineração de Bitcoin para computação em nuvem de IA, os modelos de gestão para liderar mais de 2.000 funcionários e os paralelos entre tomada de risco calculada em negócios e o montanhismo de alta altitude.
Gestão de complexidade e integração vertical em escala
A Crusoe opera sob um modelo de integração vertical rara no setor de tecnologia, englobando quatro camadas interdependentes:
- Geração e ativação de energia: construção de usinas, parcerias com produtores independentes de energia (IPPs) e concessionárias de serviços públicos (utilities).
- Construção e operação de data centers: engenharia e execução de instalações modulares e fábricas de IA em escala de gigawatts.
- Manufatura de equipamentos elétricos: fabricação própria de componentes críticos de distribuição elétrica para infraestrutura de computação.
- Nuvem gerenciada de IA (managed AI cloud): camada de software e serviços para hospedar, servir modelos e otimizar infraestrutura (como gerenciamento de KV cache).
Lochmiller aborda o dilema da complexidade que atinge fundadores ao ultrapassarem a marca de centenas de funcionários. Ele utiliza a analogia do "sapo fervido": para quem entra repentinamente na organização, a escala parece paralisante; para o fundador que vivenciou cada contratação (desde a fase em que eram apenas ele e o cofundador, passando pelos 10 primeiros empregados até os mais de 2.000 atuais), a complexidade é gerenciável porque há contexto histórico profundo acumulado.
Para liderar sem se tornar o gargalo operacional, sua estrutura baseia-se em:
- Especialistas de domínio em cada vertical: líderes seniores com autoridade técnica em energia, data centers, manufatura e computação em nuvem.
- Alinhamento e prestação de contas: foco em entender profundamente a direção estratégica de cada vertical e seus impactos cruzados, cobrando a execução dos planos acordados em vez de microgerenciar o dia a dia.
- Reunião semanal de diretoria (weekly staff meeting): fórum com todos os executivos-chave para expor e desatar nós de atrito interdepartamental.
- Repetição exaustiva da mensagem: segundo Lochmiller, quando o CEO está farto de ouvir a própria voz repetindo as prioridades e a visão, a organização está apenas começando a assimilar o direcionamento.
- Cultura de crescimento contínuo: valor interno denominado live on the infinite growth loop ("viva no ciclo de crescimento infinito"), que estabelece que nenhum processo ou indivíduo é um produto finalizado.
Ritmo, urgência e a tensão de sobrevivência
Questionado sobre a perda de velocidade de empresas maduras, Lochmiller argumenta que a Crusoe opera com urgência máxima diária. Ele analisa o estilo de gestão de Elon Musk como a referência máxima de manutenção de tração em escala:
- A tensão de Musk: capacidade de inspirar colaboradores com a perspectiva de transformar o mundo e gerar retornos financeiros gigantescos, combinada simultaneamente com a pressão constante de que a empresa falirá amanhã caso não operem com o limite físico de urgência.
- A abordagem da Crusoe: Lochmiller afirma não adotar o tom catastrófico no extremo de Musk, mas busca equilibrar a ambição de impacto histórico com rigor implacável contra o comodismo e o sentimento de direito adquirido (entitlement).
Tese de concorrência: modelo ExxonMobil e "suicídio vs. homicídio"
Lochmiller defende a premissa de que startups raramente morrem por homicídio (derrotadas pela concorrência direta), mas por suicídio (falhas internas de execução, incapacidade de construir a cultura correta, atração deficiente de talentos ou perda de foco no negócio principal). Em um mercado da magnitude da infraestrutura de IA, a presença de concorrentes levantando rodadas relevantes serve como validação da tese de mercado, não como ameaça existencial.
Ele compara a infraestrutura de superinteligência à cadeia de valor de oil & gas, desenhada pelas supermajors (como ExxonMobil e Chevron):
- Upstream: perfuração e extração no poço (na IA: geração bruta de energia e obtenção de elétrons).
- Midstream: transporte por oleodutos/gasodutos até refinarias e plantas de processamento (na IA: infraestrutura de data centers, redes de transmissão e logística de equipamentos).
- Downstream: refino e comercialização de produtos finais como gasolina, querosene de aviação e plásticos (na IA: plataforma de nuvem gerenciada, APIs e fornecimento de tokens para inferência e treinamento).
Assim como a ExxonMobil não protege financeiramente (hedge) toda a sua exposição ao preço do petróleo bruto — porque a queda nos preços comprime a margem do upstream, mas expande o lucro do downstream ao baratear o custo do insumo —, a integração vertical da Crusoe absorve oscilações de mercado e permite cooperar com players que seriam rivais em apenas um elo da cadeia (prestando serviços de infraestrutura para entidades com quem concorre em nuvem).
Estratégia de energia: do gás de queima contínua aos SMRs nucleares
A Crusoe adota a filosofia energy-first: levar a demanda de computação até a fonte de energia ociosa, barata ou isolada (stranded energy), em vez de tentar transportar a energia por redes sobrecarregadas até grandes centros urbanos.
O portfólio de ativos e tecnologias energéticas da empresa inclui:
- Gás de queima contínua (flared gas): aproveitamento do gás natural residual liberado na extração de petróleo (como na Bacia de Bakken, em Dakota do Norte), que normalmente seria queimado na atmosfera gerando passivo ambiental e custo de descarte, canalizando-o para geradores modulares locais para alimentar data centers in situ.
- Centrais internacionais de baixo custo: projetos na Islândia (aproveitando a abundância de energia geotérmica e hidrelétrica de baixo custo com resfriamento natural eficiente) e na Noruega (capacidade hidrelétrica ociosa).
- Energia nuclear avançada: parceria com a Oklo para desenvolver a primeira fábrica de IA alimentada por pequenos reatores modulares (Small Modular Reactors - SMRs) no Laboratório Nacional de Idaho (Idaho National Lab).
- Inovações térmicas e marítimas: colaboração com a Blue Energy para avaliar reatores nucleares modulares baseados no oceano, aproveitando turbinas a vapor comuns à geração a gás e nuclear como ponte de transição para energia firme de base (baseload).
- Armazenamento e baterias: parcerias e estudos com a Redwood Materials (reciclagem e reaproveitamento de baterias de íon de lítio e veículos elétricos) e tecnologias de baterias de longa duração (100 horas) com empresas como Form Energy e Antora Energy.
- Instalações behind-the-meter: operações acopladas diretamente a usinas solares, eólicas e térmicas a gás sem dependência da rede elétrica pública.
A venda da operação de Bitcoin e a transição para IA
Embora o mercado externo tenha encarado a guinada para IA como um pivô repentino impulsionado pelo lançamento do ChatGPT em 30 de novembro de 2022, Lochmiller afirma que a infraestrutura de inteligência artificial sempre foi o objetivo final desde a fundação da Crusoe.
Origens da tese
- Durante sua pós-graduação em Stanford e atuação como gestor quantitativo, Lochmiller foi influenciado por seu professor Andrew Ng (com a analogia de que "a IA é a nova eletricidade") e pelos ensaios de Tim Urban no blog Wait But Why sobre superinteligência e a eficácia de redes neurais profundas alimentadas por volumes crescentes de dados e computação.
- Concluindo que o gargalo final da computação seria o suprimento de energia, a mineração de Bitcoin serviu como primeiro motor de monetização (flywheel) para validar os geradores móveis e financiar o desenvolvimento da infraestrutura.
Diferenças técnicas de consumo entre Bitcoin e IA
- Mineração de Bitcoin: consumo de carga linear, constante e previsível (flatline), com alta flexibilidade para desligamento ou modulação instantânea de potência conforme demandas da rede (demand response).
- Clusters de IA: perfil de carga dinâmico e variável, com oscilações decorrentes do treinamento e inferência de modelos pesados, além de sazonalidade no resfriamento — o índice de eficiência energética (PUE) sobe durante o dia (pelo uso intensivo de chillers e ar condicionado) e cai à noite.
Motivos para o desinvestimento para a NYDIG
A Crusoe vendeu sua divisão de mineração de Bitcoin para a NYDIG (liderada por Ross Stevens e Tejas Shah, associada à Stone Ridge, detentora de grande infraestrutura de gás natural). A decisão foi orientada por:
- Foco absoluto de capital e gestão: eliminação do conflito interno de alocação de recursos entre operações de mineração e expansão dos data centers de IA.
- Clube de investidores institucionais: diversos fundos e alocadores institucionais possuíam mandatos formais que proibiam investimentos em empresas com exposição a criptoativos, restringindo a captação de recursos da Crusoe.
Desenvolvimento pessoal do CEO: coaching e oratória
Lochmiller pontua que a transição de gestor técnico/quantitativo para líder público exigiu esforço estruturado:
- Transição de mentalidade: no universo de fundos quantitativos, a cultura é pautada pelo sigilo absoluto para evitar vazamento de estratégias de mercado (alpha). A liderança de uma empresa de infraestrutura exigiu aprendizado ativo de comunicação externa e oratória.
- Coaching executivo: parceria de longo prazo com o coach Shane Metcalf, atuando na identificação de pontos cegos de liderança e mediação de conflitos interpessoais complexos.
- Incentivo de investidores: destaque para o fundo Felicis Ventures, que disponibiliza uma linha orçamentária dedicada exclusivamente ao aprimoramento pessoal dos fundadores (coaching executivo e imersões).
Gestão de talentos e demissões
Sobre a dinâmica de contratação e desligamento:
- Viés do adiamento: Lochmiller observa que quase todos os CEOs demitem mais lentamente do que deveriam; no momento em que a dúvida sobre o desempenho de um executivo se instala, a decisão de troca já deveria ter sido executada.
- Leis da física das startups (Startup Laws of Physics, First Round Capital): empresas de alto crescimento escalam exponencialmente, enquanto a capacidade de desenvolvimento individual tende a crescer de forma linear. Consequentemente, profissionais excelentes para uma fase de 20 pessoas frequentemente tornam-se inadequados quando a organização atinge 2.000 funcionários e complexidade 10 vezes maior.
- Integração de culturas distintas: a convivência entre pesquisadores de IA e soldadores/eletricistas industriais é sustentada pelo valor tapping into the collective genius ("acessar a genialidade coletiva"), conectando a engenharia de hardware elétrico no chão de fábrica ao desenvolvimento de sistemas que vão do elétron ao token de IA.
Gestão de crise local e busca ativa por más notícias
Diante da crescente reação contrária da opinião pública e de comunidades locais à instalação de data centers (disputas sobre uso de água, capacidade da rede elétrica e benefícios fiscais):
- Comunicação por primeiros princípios: reuniões presenciais diretas com juízes de condados, lideranças comunitárias e moradores locais, apresentando métricas reais de arrecadação de impostos, investimentos em escolas e mitigação de impactos hídricos.
- Problema de marketing do setor: Lochmiller defende que a indústria de infraestrutura de dados falha na comunicação pública de seus benefícios reais, gerando vácuo ocupado por desinformação.
- Segurança física: a empresa expandiu protocolos de segurança corporativa para lidar com episódios de hostilidade externa.
- Cultura de busca por más notícias (mining for bad news): para evitar o isolamento do CEO no topo de uma empresa de 2.000 pessoas, Lochmiller estimula ativamente que funcionários tragam problemas graves e críticas. O líder deve demonstrar flexibilidade intelectual para mudar de rota com base em novos fatos e correr em direção aos "prédios em chamas" em vez de exigir apenas relatórios positivos.
Montanhismo e a gestão do risco estocástico no Everest
Lochmiller traça um paralelo direto entre o valor corporativo think like a mountaineer ("pense como um montanhista") e sua experiência escalando o Monte Everest (8.848 m):
A tragédia de 2014 e o redesenho tático de 2018
- Em sua primeira tentativa em 2014, uma avalanche na Cascata de Gelo do Khumbu (Khumbu Icefall) matou 16 sherpas (15 corpos recuperados na época), interrompendo a expedição.
- Lochmiller analisou a geografia de risco da montanha: a Zona da Morte (acima de 8.000 m, entre o Campo 4 e o cume) impõe riscos fisiológicos previsíveis, que podem ser mitigados com treino, oxigênio suplementar e condicionamento. Em contraste, a Cascata de Gelo do Khumbu (entre o Campo Base e o Campo 1) impõe um risco estocástico incontrolável (queda de seracs e avalanches).
- Uma expedição comercial típica exige 8 travessias pela Cascata do Khumbu (4 ciclos de subida e descida para aclimatação gradual nos campos superiores).
- Para mitigar o risco estocástico em sua expedição de cume bem-sucedida em 2018, Lochmiller e seu parceiro aclimataram-se nos cumes de montanhas vizinhas no Nepal. Dessa forma, reduziram o número de passagens pela Cascata do Khumbu de 8 para apenas 4 (uma subida de aclimatação e a rota final para o cume).
O ataque ao cume
Saindo do Campo 4 às 23h, Lochmiller enfrentou exaustão extrema, desidratação e cãibras na região do Balcão (aproximadamente 8.600 m), quase desistindo da subida. O nascer do sol e o incentivo do parceiro de escalada permitiram completar os 250 metros verticais restantes até o cume, permanecendo lá por cerca de uma hora sob condições climáticas abertas.
Conclusões de Brian Halligan
No fechamento, Brian Halligan destaca cinco aprendizados centrais da trajetória de Chase Lochmiller para fundadores:
- Afinidade por problemas complexos: a tração de longo prazo decorre da disposição do fundador em enfrentar desafios de alta fricção física e operacional.
- CEO como máquina de aprendizado: evolução deliberada por meio de mentoria, literatura de negócios e coaching profissional.
- Prática de co-opetição (co-opetition): capacidade de enxergar concorrentes como potenciais parceiros comerciais em diferentes camadas da infraestrutura (experiência similar à da HubSpot com a Salesforce).
- Incentivo à divergência interna: necessidade de desarmar a tendência natural das equipes de blindar o CEO contra más notícias.
- Flexibilidade cognitiva: manter convicções fortes orientadas por primeiros princípios, mas com total desapego para alterar estratégias quando confrontado com novos dados da realidade.
