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Crusoe CEO Chase Lochmiller: Turning Stranded Energy Into Intelligence

Sequoia Capital29 de outubro de 20261h00minVer no YouTube|

Chase Lochmiller, cofundador e CEO da Crusoe — empresa de infraestrutura de inteligência artificial avaliada em US$ 31 bilhões —, detalha a Brian Halligan (partner da Sequoia Capital e cofundador da HubSpot) a operação verticalizada da companhia, a transição estratégica da mineração de Bitcoin para computação em nuvem de IA, os modelos de gestão para liderar mais de 2.000 funcionários e os paralelos entre tomada de risco calculada em negócios e o montanhismo de alta altitude.

Gestão de complexidade e integração vertical em escala

A Crusoe opera sob um modelo de integração vertical rara no setor de tecnologia, englobando quatro camadas interdependentes:

  1. Geração e ativação de energia: construção de usinas, parcerias com produtores independentes de energia (IPPs) e concessionárias de serviços públicos (utilities).
  2. Construção e operação de data centers: engenharia e execução de instalações modulares e fábricas de IA em escala de gigawatts.
  3. Manufatura de equipamentos elétricos: fabricação própria de componentes críticos de distribuição elétrica para infraestrutura de computação.
  4. Nuvem gerenciada de IA (managed AI cloud): camada de software e serviços para hospedar, servir modelos e otimizar infraestrutura (como gerenciamento de KV cache).

Lochmiller aborda o dilema da complexidade que atinge fundadores ao ultrapassarem a marca de centenas de funcionários. Ele utiliza a analogia do "sapo fervido": para quem entra repentinamente na organização, a escala parece paralisante; para o fundador que vivenciou cada contratação (desde a fase em que eram apenas ele e o cofundador, passando pelos 10 primeiros empregados até os mais de 2.000 atuais), a complexidade é gerenciável porque há contexto histórico profundo acumulado.

Para liderar sem se tornar o gargalo operacional, sua estrutura baseia-se em:

  • Especialistas de domínio em cada vertical: líderes seniores com autoridade técnica em energia, data centers, manufatura e computação em nuvem.
  • Alinhamento e prestação de contas: foco em entender profundamente a direção estratégica de cada vertical e seus impactos cruzados, cobrando a execução dos planos acordados em vez de microgerenciar o dia a dia.
  • Reunião semanal de diretoria (weekly staff meeting): fórum com todos os executivos-chave para expor e desatar nós de atrito interdepartamental.
  • Repetição exaustiva da mensagem: segundo Lochmiller, quando o CEO está farto de ouvir a própria voz repetindo as prioridades e a visão, a organização está apenas começando a assimilar o direcionamento.
  • Cultura de crescimento contínuo: valor interno denominado live on the infinite growth loop ("viva no ciclo de crescimento infinito"), que estabelece que nenhum processo ou indivíduo é um produto finalizado.

Ritmo, urgência e a tensão de sobrevivência

Questionado sobre a perda de velocidade de empresas maduras, Lochmiller argumenta que a Crusoe opera com urgência máxima diária. Ele analisa o estilo de gestão de Elon Musk como a referência máxima de manutenção de tração em escala:

  • A tensão de Musk: capacidade de inspirar colaboradores com a perspectiva de transformar o mundo e gerar retornos financeiros gigantescos, combinada simultaneamente com a pressão constante de que a empresa falirá amanhã caso não operem com o limite físico de urgência.
  • A abordagem da Crusoe: Lochmiller afirma não adotar o tom catastrófico no extremo de Musk, mas busca equilibrar a ambição de impacto histórico com rigor implacável contra o comodismo e o sentimento de direito adquirido (entitlement).

Tese de concorrência: modelo ExxonMobil e "suicídio vs. homicídio"

Lochmiller defende a premissa de que startups raramente morrem por homicídio (derrotadas pela concorrência direta), mas por suicídio (falhas internas de execução, incapacidade de construir a cultura correta, atração deficiente de talentos ou perda de foco no negócio principal). Em um mercado da magnitude da infraestrutura de IA, a presença de concorrentes levantando rodadas relevantes serve como validação da tese de mercado, não como ameaça existencial.

Ele compara a infraestrutura de superinteligência à cadeia de valor de oil & gas, desenhada pelas supermajors (como ExxonMobil e Chevron):

  • Upstream: perfuração e extração no poço (na IA: geração bruta de energia e obtenção de elétrons).
  • Midstream: transporte por oleodutos/gasodutos até refinarias e plantas de processamento (na IA: infraestrutura de data centers, redes de transmissão e logística de equipamentos).
  • Downstream: refino e comercialização de produtos finais como gasolina, querosene de aviação e plásticos (na IA: plataforma de nuvem gerenciada, APIs e fornecimento de tokens para inferência e treinamento).

Assim como a ExxonMobil não protege financeiramente (hedge) toda a sua exposição ao preço do petróleo bruto — porque a queda nos preços comprime a margem do upstream, mas expande o lucro do downstream ao baratear o custo do insumo —, a integração vertical da Crusoe absorve oscilações de mercado e permite cooperar com players que seriam rivais em apenas um elo da cadeia (prestando serviços de infraestrutura para entidades com quem concorre em nuvem).

Estratégia de energia: do gás de queima contínua aos SMRs nucleares

A Crusoe adota a filosofia energy-first: levar a demanda de computação até a fonte de energia ociosa, barata ou isolada (stranded energy), em vez de tentar transportar a energia por redes sobrecarregadas até grandes centros urbanos.

O portfólio de ativos e tecnologias energéticas da empresa inclui:

  • Gás de queima contínua (flared gas): aproveitamento do gás natural residual liberado na extração de petróleo (como na Bacia de Bakken, em Dakota do Norte), que normalmente seria queimado na atmosfera gerando passivo ambiental e custo de descarte, canalizando-o para geradores modulares locais para alimentar data centers in situ.
  • Centrais internacionais de baixo custo: projetos na Islândia (aproveitando a abundância de energia geotérmica e hidrelétrica de baixo custo com resfriamento natural eficiente) e na Noruega (capacidade hidrelétrica ociosa).
  • Energia nuclear avançada: parceria com a Oklo para desenvolver a primeira fábrica de IA alimentada por pequenos reatores modulares (Small Modular Reactors - SMRs) no Laboratório Nacional de Idaho (Idaho National Lab).
  • Inovações térmicas e marítimas: colaboração com a Blue Energy para avaliar reatores nucleares modulares baseados no oceano, aproveitando turbinas a vapor comuns à geração a gás e nuclear como ponte de transição para energia firme de base (baseload).
  • Armazenamento e baterias: parcerias e estudos com a Redwood Materials (reciclagem e reaproveitamento de baterias de íon de lítio e veículos elétricos) e tecnologias de baterias de longa duração (100 horas) com empresas como Form Energy e Antora Energy.
  • Instalações behind-the-meter: operações acopladas diretamente a usinas solares, eólicas e térmicas a gás sem dependência da rede elétrica pública.

A venda da operação de Bitcoin e a transição para IA

Embora o mercado externo tenha encarado a guinada para IA como um pivô repentino impulsionado pelo lançamento do ChatGPT em 30 de novembro de 2022, Lochmiller afirma que a infraestrutura de inteligência artificial sempre foi o objetivo final desde a fundação da Crusoe.

Origens da tese

  • Durante sua pós-graduação em Stanford e atuação como gestor quantitativo, Lochmiller foi influenciado por seu professor Andrew Ng (com a analogia de que "a IA é a nova eletricidade") e pelos ensaios de Tim Urban no blog Wait But Why sobre superinteligência e a eficácia de redes neurais profundas alimentadas por volumes crescentes de dados e computação.
  • Concluindo que o gargalo final da computação seria o suprimento de energia, a mineração de Bitcoin serviu como primeiro motor de monetização (flywheel) para validar os geradores móveis e financiar o desenvolvimento da infraestrutura.

Diferenças técnicas de consumo entre Bitcoin e IA

  • Mineração de Bitcoin: consumo de carga linear, constante e previsível (flatline), com alta flexibilidade para desligamento ou modulação instantânea de potência conforme demandas da rede (demand response).
  • Clusters de IA: perfil de carga dinâmico e variável, com oscilações decorrentes do treinamento e inferência de modelos pesados, além de sazonalidade no resfriamento — o índice de eficiência energética (PUE) sobe durante o dia (pelo uso intensivo de chillers e ar condicionado) e cai à noite.

Motivos para o desinvestimento para a NYDIG

A Crusoe vendeu sua divisão de mineração de Bitcoin para a NYDIG (liderada por Ross Stevens e Tejas Shah, associada à Stone Ridge, detentora de grande infraestrutura de gás natural). A decisão foi orientada por:

  1. Foco absoluto de capital e gestão: eliminação do conflito interno de alocação de recursos entre operações de mineração e expansão dos data centers de IA.
  2. Clube de investidores institucionais: diversos fundos e alocadores institucionais possuíam mandatos formais que proibiam investimentos em empresas com exposição a criptoativos, restringindo a captação de recursos da Crusoe.

Desenvolvimento pessoal do CEO: coaching e oratória

Lochmiller pontua que a transição de gestor técnico/quantitativo para líder público exigiu esforço estruturado:

  • Transição de mentalidade: no universo de fundos quantitativos, a cultura é pautada pelo sigilo absoluto para evitar vazamento de estratégias de mercado (alpha). A liderança de uma empresa de infraestrutura exigiu aprendizado ativo de comunicação externa e oratória.
  • Coaching executivo: parceria de longo prazo com o coach Shane Metcalf, atuando na identificação de pontos cegos de liderança e mediação de conflitos interpessoais complexos.
  • Incentivo de investidores: destaque para o fundo Felicis Ventures, que disponibiliza uma linha orçamentária dedicada exclusivamente ao aprimoramento pessoal dos fundadores (coaching executivo e imersões).

Gestão de talentos e demissões

Sobre a dinâmica de contratação e desligamento:

  • Viés do adiamento: Lochmiller observa que quase todos os CEOs demitem mais lentamente do que deveriam; no momento em que a dúvida sobre o desempenho de um executivo se instala, a decisão de troca já deveria ter sido executada.
  • Leis da física das startups (Startup Laws of Physics, First Round Capital): empresas de alto crescimento escalam exponencialmente, enquanto a capacidade de desenvolvimento individual tende a crescer de forma linear. Consequentemente, profissionais excelentes para uma fase de 20 pessoas frequentemente tornam-se inadequados quando a organização atinge 2.000 funcionários e complexidade 10 vezes maior.
  • Integração de culturas distintas: a convivência entre pesquisadores de IA e soldadores/eletricistas industriais é sustentada pelo valor tapping into the collective genius ("acessar a genialidade coletiva"), conectando a engenharia de hardware elétrico no chão de fábrica ao desenvolvimento de sistemas que vão do elétron ao token de IA.

Gestão de crise local e busca ativa por más notícias

Diante da crescente reação contrária da opinião pública e de comunidades locais à instalação de data centers (disputas sobre uso de água, capacidade da rede elétrica e benefícios fiscais):

  • Comunicação por primeiros princípios: reuniões presenciais diretas com juízes de condados, lideranças comunitárias e moradores locais, apresentando métricas reais de arrecadação de impostos, investimentos em escolas e mitigação de impactos hídricos.
  • Problema de marketing do setor: Lochmiller defende que a indústria de infraestrutura de dados falha na comunicação pública de seus benefícios reais, gerando vácuo ocupado por desinformação.
  • Segurança física: a empresa expandiu protocolos de segurança corporativa para lidar com episódios de hostilidade externa.
  • Cultura de busca por más notícias (mining for bad news): para evitar o isolamento do CEO no topo de uma empresa de 2.000 pessoas, Lochmiller estimula ativamente que funcionários tragam problemas graves e críticas. O líder deve demonstrar flexibilidade intelectual para mudar de rota com base em novos fatos e correr em direção aos "prédios em chamas" em vez de exigir apenas relatórios positivos.

Montanhismo e a gestão do risco estocástico no Everest

Lochmiller traça um paralelo direto entre o valor corporativo think like a mountaineer ("pense como um montanhista") e sua experiência escalando o Monte Everest (8.848 m):

A tragédia de 2014 e o redesenho tático de 2018

  • Em sua primeira tentativa em 2014, uma avalanche na Cascata de Gelo do Khumbu (Khumbu Icefall) matou 16 sherpas (15 corpos recuperados na época), interrompendo a expedição.
  • Lochmiller analisou a geografia de risco da montanha: a Zona da Morte (acima de 8.000 m, entre o Campo 4 e o cume) impõe riscos fisiológicos previsíveis, que podem ser mitigados com treino, oxigênio suplementar e condicionamento. Em contraste, a Cascata de Gelo do Khumbu (entre o Campo Base e o Campo 1) impõe um risco estocástico incontrolável (queda de seracs e avalanches).
  • Uma expedição comercial típica exige 8 travessias pela Cascata do Khumbu (4 ciclos de subida e descida para aclimatação gradual nos campos superiores).
  • Para mitigar o risco estocástico em sua expedição de cume bem-sucedida em 2018, Lochmiller e seu parceiro aclimataram-se nos cumes de montanhas vizinhas no Nepal. Dessa forma, reduziram o número de passagens pela Cascata do Khumbu de 8 para apenas 4 (uma subida de aclimatação e a rota final para o cume).

O ataque ao cume

Saindo do Campo 4 às 23h, Lochmiller enfrentou exaustão extrema, desidratação e cãibras na região do Balcão (aproximadamente 8.600 m), quase desistindo da subida. O nascer do sol e o incentivo do parceiro de escalada permitiram completar os 250 metros verticais restantes até o cume, permanecendo lá por cerca de uma hora sob condições climáticas abertas.

Conclusões de Brian Halligan

No fechamento, Brian Halligan destaca cinco aprendizados centrais da trajetória de Chase Lochmiller para fundadores:

  1. Afinidade por problemas complexos: a tração de longo prazo decorre da disposição do fundador em enfrentar desafios de alta fricção física e operacional.
  2. CEO como máquina de aprendizado: evolução deliberada por meio de mentoria, literatura de negócios e coaching profissional.
  3. Prática de co-opetição (co-opetition): capacidade de enxergar concorrentes como potenciais parceiros comerciais em diferentes camadas da infraestrutura (experiência similar à da HubSpot com a Salesforce).
  4. Incentivo à divergência interna: necessidade de desarmar a tendência natural das equipes de blindar o CEO contra más notícias.
  5. Flexibilidade cognitiva: manter convicções fortes orientadas por primeiros princípios, mas com total desapego para alterar estratégias quando confrontado com novos dados da realidade.