O que é a Usina Hidrelétrica de Itaipu
A Usina Hidrelétrica de Itaipu é a maior hidrelétrica do Brasil e a terceira maior do mundo em potência instalada, com 14.000 MW distribuídos em 20 unidades geradoras. Ela é operada pela Itaipu Binacional, empresa constituída em maio de 1974 e controlada em partes iguais pelo Brasil e pelo Paraguai — cada país detém metade do capital, metade da energia produzida e metade dos assentos na diretoria, que decide por consenso.
Em 2025 a usina gerou 72,879 milhões de MWh, o equivalente a 6,7% de toda a demanda de eletricidade do Brasil e a 87,6% do consumo do Paraguai. Desde o início da operação, em 1984, a produção acumulada ultrapassou 3,12 bilhões de MWh.
Itaipu não é apenas uma obra de engenharia: é uma pessoa jurídica de direito internacional, criada por tratado, que responde a dois governos ao mesmo tempo. Essa dupla natureza — empresa e instrumento diplomático — explica por que decisões técnicas sobre tarifa ou geração viram, com frequência, assunto de chancelaria.
Onde fica a usina de Itaipu
A usina está no rio Paraná, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, cerca de 14 km ao norte da Ponte da Amizade. Do lado brasileiro, o acesso é por Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná; do lado paraguaio, por Hernandarias, no departamento de Alto Paraná.
O rio Paraná integra a bacia hidrográfica do Prata (também chamada de bacia platina), a segunda maior da América do Sul. O trecho aproveitado por Itaipu vai de Guaíra, no norte, até a foz do rio Iguaçu, ao sul.
Itaipu fica a aproximadamente 20 km do Parque Nacional do Iguaçu e das Cataratas do Iguaçu, que ficam no rio Iguaçu — um afluente do Paraná. São atrações distintas, em rios diferentes, unidas pela proximidade geográfica e pelo roteiro turístico de Foz do Iguaçu.
Itaipu é do Brasil ou do Paraguai?
Dos dois. Itaipu é uma entidade binacional: Brasil e Paraguai são sócios em 50% cada. A barragem fica sobre a fronteira, e a linha divisória entre os países passa pelo meio da casa de força.
A divisão da energia também é meio a meio. A diferença está no consumo: o Paraguai historicamente não conseguia usar sua metade, e o Tratado de 1973 determinou que o excedente não consumido fosse cedido ao Brasil, mediante compensação financeira. Foi essa cessão que sustentou, por décadas, o suprimento adicional que o Brasil recebia da usina.
Esse quadro está mudando. Em 2025, o Paraguai já consumiu 36% de toda a produção da usina, e diretores da binacional projetam que o país passará a usar sua cota integral de 50% por volta de 2035. À medida que o excedente encolhe, encolhe também a energia extra disponível ao mercado brasileiro.
Quando Itaipu foi construída
1966 — Ata do Iguaçu. Em 22 de junho de 1966, os chanceleres Juracy Magalhães (Brasil) e Raúl Sapena Pastor (Paraguai) assinaram a Ata do Iguaçu, também chamada Ata das Cataratas. O documento encerrou uma disputa fronteiriça na região do Salto Grande de Sete Quedas e estabeleceu que a energia obtida no trecho do rio Paraná entre Sete Quedas e a foz do Iguaçu seria dividida em partes iguais entre os dois países.
1973 — Tratado de Itaipu. Assinado em Brasília em 26 de abril de 1973 pelos chanceleres Mário Gibson Barboza e Raúl Sapena Pastor, na presença dos presidentes Emílio Garrastazu Médici e Alfredo Stroessner. Foi aprovado no Brasil pelo Decreto Legislativo nº 23, de 30 de maio de 1973, e no Paraguai pela Lei nº 389, de 17 de julho de 1973, entrando em vigor em 13 de agosto de 1973 com a troca dos instrumentos de ratificação.
1974 — Criação da Itaipu Binacional, a empresa encarregada de construir e operar o aproveitamento.
1975–1982 — Obras. O canteiro chegou a empregar dezenas de milhares de trabalhadores. Em outubro de 1982 o reservatório foi formado, submergindo o Salto de Sete Quedas.
1984 — Início da geração. A primeira unidade geradora entrou em operação em 5 de maio de 1984.
2006–2007 — Capacidade plena. As duas últimas unidades entraram em operação em setembro de 2006 e março de 2007, levando a potência instalada de 12.600 MW para os atuais 14.000 MW.
Como funciona a usina
Itaipu é uma usina de represamento: a barragem eleva o nível do rio Paraná, e a diferença de altura entre o reservatório e o canal de fuga faz a água descer com pressão pelos condutos forçados até as turbinas.
- Barragem: 7.919 metros de extensão total e altura máxima de 196 metros, no trecho principal de concreto.
- Reservatório: cerca de 1.350 km² de área alagada e 170 km de extensão, de Foz do Iguaçu até Guaíra.
- Turbinas: 20 unidades do tipo Francis, de 700 MW nominais cada.
- Frequências: dez unidades geram em 50 Hz, padrão do sistema elétrico paraguaio; dez geram em 60 Hz, padrão brasileiro. Parte da energia de 50 Hz cedida ao Brasil é convertida para 60 Hz na estação conversora de Foz do Iguaçu e transmitida em corrente contínua.
- Vertedouro: usado para escoar o excesso de água quando a vazão supera a capacidade de engolimento das turbinas.
A produtividade operacional em 2025 foi de 1.100 MW médios por metro cúbico por segundo de água — o melhor resultado anual da história da usina, 5,8% acima da média histórica, mesmo com afluências equivalentes a 68% da média. A disponibilidade dos geradores ficou em 96,29%.
Quanta energia Itaipu gera
A produção varia com a chuva e a vazão do rio Paraná. Em 2025, Itaipu gerou 72.879.287 MWh — alta de cerca de 9% sobre 2024 —, o que correspondeu a 11,6% de toda a geração hidráulica do Brasil.
Do total produzido em 2025, o Brasil consumiu 64% e o Paraguai, 36%. Para o Brasil, isso representou 6,7% da demanda nacional de eletricidade; para o Paraguai, 87,6% do consumo do país.
A energia brasileira de Itaipu não é vendida no mercado livre: é comercializada em regime de cotas pela Axia (antiga Eletrobras) e repassada às distribuidoras das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que a repassam ao consumidor cativo. A energia paraguaia é entregue à ANDE, a estatal elétrica do país.
O recorde anual da usina é de 2016: 103.098.366 MWh, marca que na ocasião foi a maior produção anual já registrada por uma hidrelétrica no mundo.
Itaipu é a maior usina do mundo?
Não em potência instalada. Itaipu ocupa hoje a terceira posição mundial entre as hidrelétricas convencionais, com 14.000 MW. À frente estão duas usinas chinesas: Três Gargantas, com cerca de 22.500 MW, e Baihetan, com 16.000 MW, que entrou em operação plena em 2022. Logo atrás vêm Xiluodu (13.860 MW, China), Belo Monte (11.233 MW, Brasil) e Guri (10.235 MW, Venezuela).
Itaipu segue sendo a maior hidrelétrica do Brasil e a maior fora da China. Por muitos anos foi a maior do mundo em potência instalada, posição que perdeu para Três Gargantas na década de 2000.
Em geração anual, porém, a disputa é mais equilibrada e Itaipu já liderou. Em 2016 a usina produziu 103,09 milhões de MWh e superou Três Gargantas por mais de 4 milhões de MWh, retomando a liderança mundial que a chinesa detinha desde 2014. A vantagem histórica de Itaipu está na regularidade da vazão do Paraná, que permite operar perto da capacidade por mais horas do ano do que a usina chinesa.
Impactos ambientais e sociais
A formação do reservatório, em outubro de 1982, submergiu o Salto de Sete Quedas — um conjunto de quedas d'água no rio Paraná que era, em volume, um dos maiores do mundo. O desaparecimento das quedas gerou protestos na época e permanece como o episódio ambiental mais citado da obra.
Cerca de 1.350 km² foram alagados, incluindo floresta e terras cultiváveis. A operação de resgate de fauna batizada de Mymba Kuera ("pega-bicho", em guarani) capturou milhares de animais durante o enchimento do lago.
No plano social, as desapropriações atingiram 42.444 pessoas, das quais 38.440 eram trabalhadores do campo. Parte das famílias desalojadas migrou para o Paraguai, movimento que ajudou a formar a população conhecida como brasiguaios. Outra parte engrossou a base do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra na região oeste do Paraná. O município de Guaíra, que perdeu as quedas e a atividade turística associada a elas, recebeu compensações financeiras ao longo das décadas seguintes.
A Itaipu Binacional mantém programas de reflorestamento de faixa de proteção do reservatório, refúgios biológicos e o programa Cultivando Água Boa, voltado à gestão de bacias na região do lago.
O Tratado de Itaipu e seus anexos
O Tratado de 1973 é acompanhado de anexos que detalham a execução:
- Anexo A — estatuto da Itaipu Binacional.
- Anexo B — descrição geral das obras e instalações.
- Anexo C — as bases financeiras e de prestação dos serviços de eletricidade.
O Anexo C é o que define quanto custa a energia da usina. Ele estabelece o cálculo do custo do serviço de eletricidade, a amortização da dívida contraída para a construção, os royalties devidos aos dois países, a remuneração do capital e a compensação paga pela cessão de energia não consumida.
O próprio Anexo C prevê que suas disposições sejam revistas "após o decurso de um prazo de cinquenta anos a partir da entrada em vigor do Tratado", levando em conta, entre outros aspectos, o grau de amortização das dívidas contraídas para a construção e a relação entre as potências contratadas pelas entidades dos dois países. Como o Tratado entrou em vigor em agosto de 1973, a janela de revisão abriu em 2023.
O Artigo XIII do Tratado é o dispositivo que trata da divisão da energia e da obrigação de ceder ao outro país o excedente não utilizado — o ponto mais sensível da relação entre os dois sócios.
A renegociação do Anexo C e o prazo de 2027
Em fevereiro de 2023 a dívida da construção de Itaipu foi integralmente quitada. Durante 50 anos, a amortização foi o maior componente do custo da energia; com ela zerada, restam essencialmente os custos de operação, manutenção e modernização. Foi esse marco que abriu a renegociação.
O acordo provisório de 2024. Em 9 de maio de 2024, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Santiago Peña fecharam um entendimento tarifário — não o Anexo C definitivo. O Custo Unitário do Serviço de Eletricidade (Cuse) subiu de US$ 16,71 para US$ 19,28 por kW-mês, alta de 15,4%, válido para 2024, 2025 e 2026. O Paraguai pleiteava entre US$ 20,75 e US$ 22,23; o Brasil buscava manter o valor anterior.
Na prática, o consumidor brasileiro seguiu pagando US$ 16,71: a diferença de US$ 2,57 por kW-mês foi coberta por aportes extraordinários da própria Itaipu — US$ 300 milhões em 2024 e US$ 285 milhões aprovados para 2026. Por isso a Aneel homologou, em dezembro de 2025, a tarifa de repasse de 2026 em US$ 17,66 por kW-mês, sem reajuste para as distribuidoras cotistas.
Os prazos descumpridos. A contrapartida do acordo de 2024 era concluir a revisão do Anexo C até 31 de dezembro de 2024. O prazo foi sucessivamente adiado — maio de 2025, maio de 2026 — e, em agosto de 2026, a revisão seguia sem assinatura.
O que travou. Três fatores se acumularam:
- O caso de espionagem da Abin. Uma operação da Agência Brasileira de Inteligência iniciada em junho de 2022, no governo Jair Bolsonaro, e encerrada em março de 2023, já no governo Lula, invadiu sistemas de autoridades paraguaias com o objetivo declarado de obter os valores que o Paraguai levaria à mesa do Anexo C. Quando o caso veio a público, em 2025, o Paraguai suspendeu formalmente as negociações, convocou o embaixador brasileiro em Assunção e abriu investigação no Ministério Público. O presidente Santiago Peña cobrou explicações diretamente de Lula.
- A livre comercialização da energia paraguaia, tratada abaixo.
- A composição da tarifa. A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) e outros parlamentares da oposição questionam a inclusão de gastos socioambientais no Cuse, argumentando que o Tratado manda cobrar o custo do serviço de eletricidade. Análise da Consultoria Legislativa da Câmara apontou que, sem esses componentes e sem a dívida, a tarifa poderia ficar em torno de US$ 9 por kW-mês.
O que está em jogo a partir de 2027. O acordo tarifário expira em 31 de dezembro de 2026, e o Anexo C revisado precisaria estar em vigor em 1º de janeiro de 2027. Os pontos centrais do texto em negociação:
- Tarifa menor. O Ministério de Minas e Energia estima que o novo modelo permita uma tarifa entre US$ 10 e US$ 12 por kW-mês, remunerando apenas operação, manutenção e modernização.
- Fim da cessão obrigatória. O Paraguai passaria a poder vender sua energia excedente diretamente no mercado livre brasileiro — que já responde por parcela expressiva do consumo do país — em vez de cedê-la compulsoriamente ao Brasil. Cada país declararia anualmente quanto cede e quanto comercializa.
- Compensação pela cessão. Setores paraguaios defendem multiplicar o valor pago pela energia cedida; propostas técnicas que circularam em Assunção chegaram a sugerir aumentos de seis a nove vezes, além da criação de um consórcio trinacional com a Argentina para operar Itaipu e Yacyretá em conjunto. Nenhuma dessas propostas foi incorporada ao texto oficial.
Qualquer acordo final precisa ser assinado pelos dois presidentes e ratificado pelos Congressos do Brasil e do Paraguai. O diretor-geral brasileiro da usina, Enio Verri, afirmou que o entendimento está costurado e depende de ajustes de redação diplomática, com previsão de conclusão até dezembro de 2026. O ministro Alexandre Silveira chegou a levantar, em 2025, a possibilidade de o Brasil recorrer a tribunal arbitral e retornar a tarifa a patamar anterior caso o impasse persistisse.
Royalties e repasses ao Brasil
Itaipu paga royalties aos dois países pelo uso do potencial hidráulico. Em 2025, o repasse ao Brasil foi de R$ 1,381 bilhão, distribuído segundo a legislação brasileira: 65% aos municípios (R$ 898 milhões), 25% aos estados (R$ 345 milhões) e 10% à União (R$ 138 milhões). Os recursos alcançaram seis estados e 347 municípios, com concentração nos alagados pelo reservatório e nos lindeiros ao lago.
Desde o início dos pagamentos, em 1985, o volume acumulado de royalties ultrapassa US$ 14,6 bilhões considerando os dois países.
Modernização
A Itaipu Binacional executa desde 2022 um plano de modernização tecnológica orçado em US$ 670 milhões ao longo de 14 anos. O escopo inclui a substituição dos sistemas de controle e proteção das 20 unidades geradoras, a modernização da subestação isolada a gás, a atualização dos serviços auxiliares e melhorias em estruturas como vertedouro e barragem. As grandes máquinas eletromecânicas — turbinas, rotores e estatores — não entram no pacote, por permanecerem em boas condições operacionais.
Visitação: como conhecer Itaipu por dentro
A usina é um dos principais destinos turísticos de Foz do Iguaçu e recebe visitantes por meio do Complexo Turístico Itaipu. Os ingressos são vendidos pelo site oficial de turismo da binacional, com recomendação de compra antecipada em alta temporada.
Principais roteiros:
- Itaipu Panorâmica — passeio de ônibus com paradas em mirantes, sem entrada nas áreas internas.
- Circuito Especial — percurso que inclui áreas internas da usina, como a casa de força.
- Itaipu Iluminada — visita noturna à barragem iluminada, realizada às sextas e sábados, com início por volta das 19h.
- Itaipu by Bike — trajeto de bicicleta por trilhas internas.
- Ecomuseu e Refúgio Biológico Bela Vista — exposições sobre a história da obra, a região e os programas ambientais.
Perguntas frequentes
Em que rio fica a usina de Itaipu?
No rio Paraná, na bacia hidrográfica do Prata.
Itaipu fica em qual estado?
No Paraná, no município de Foz do Iguaçu, no lado brasileiro. Do lado paraguaio, em Hernandarias.
Quantas turbinas Itaipu tem?
Vinte unidades geradoras do tipo Francis, de 700 MW cada, totalizando 14.000 MW.
Quanta energia Itaipu gera por ano?
Varia com a hidrologia. Em 2025 foram 72,88 milhões de MWh. O recorde é de 2016: 103,09 milhões de MWh.
Itaipu abastece quais regiões do Brasil?
A parcela brasileira é distribuída em regime de cotas às distribuidoras das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Itaipu é a maior usina do mundo?
É a terceira em potência instalada, atrás de Três Gargantas e Baihetan, ambas na China. É a maior do Brasil e a maior fora do território chinês, e já liderou a geração anual mundial, com destaque para 2016.
Como se escreve Itaipu em inglês?
Itaipu Dam ou Itaipu Hydroelectric Power Plant.
Itaipu fica perto das Cataratas do Iguaçu?
Sim, ambas ficam em Foz do Iguaçu, a cerca de 20 km uma da outra, mas são atrações distintas: as Cataratas ficam no rio Iguaçu e integram o Parque Nacional do Iguaçu.
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