O que aconteceu com a Oi
A Oi é a operadora de telecomunicações brasileira nascida da privatização do Sistema Telebrás, em 1998, e que chegou a ser apresentada como a "supertele nacional" — a campeã brasileira capaz de enfrentar os grupos estrangeiros no mercado local. Em 25 de agosto de 2026, a Primeira Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) decretou sua falência, com dívida estimada em R$ 44 bilhões e cerca de 164 mil credores. É o desfecho de uma década de crise que passou por duas recuperações judiciais e pela venda praticamente integral dos ativos da companhia.
A falência foi decretada em 25 de agosto de 2026 pela Primeira Câmara de Direito Privado do TJ-RJ, que negou por unanimidade os agravos de instrumento apresentados por Itaú Unibanco e Bradesco contra a decisão de primeira instância. Na mesma sessão foram julgados recursos da V.tal, da American Tower do Brasil e do agente representante dos credores. Relatora do caso, a desembargadora Monica Maria Costa Di Piero citou os compromissos do plano de recuperação que a companhia não conseguiu cumprir ao longo das duas recuperações judiciais.
Com a decisão, o tribunal restabeleceu a quebra que a 7ª Vara Empresarial da Comarca da Capital já havia decretado em 10 de novembro de 2025 e que ficara suspensa desde 14 de novembro, quando os agravos dos bancos credores obtiveram efeito suspensivo e devolveram a Oi à recuperação judicial.
O gatilho imediato foi a falta de caixa. A empresa informou à Justiça do Rio que não dispunha de recursos para seguir operando depois de agosto de 2026 e não publica demonstrações financeiras desde o terceiro trimestre de 2025. No mês anterior à decisão, fornecedores chegaram a cortar a prestação de serviços de internet e telefonia fixa em cidades de todo o país diante de atrasos de pagamento; nos meses finais, a Oi passou a quitar apenas parte desses contratos.
A decisão determinou a continuidade provisória das atividades sob gestão dos administradores judiciais, manteve válidas as alienações de ativos já realizadas e estabeleceu prioridade aos créditos trabalhistas. Foram designados Bruno Rezende e o escritório de Sergio Zveiter para conduzir o processo falimentar, com Adriano Pinto Machado atuando como observador judicial. Ainda cabe recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Na tarde do mesmo dia, a B3 suspendeu a negociação dos papéis da companhia (OIBR3 e OIBR4), aplicando a regra que prevê a suspensão em caso de pedido de falência com indícios de insolvência do emissor.
A Oi ainda existe? O que muda para os clientes
A falência não interrompe de imediato os serviços. A decisão judicial prevê uma fase de transição e liquidação ordenada, e tanto a Anatel quanto o Ministério das Comunicações se manifestaram no mesmo dia para dizer que a continuidade está assegurada no curto prazo.
A Anatel afirmou em 25 de agosto de 2026 que sua prioridade é garantir a continuidade dos serviços prestados à população e que aguardava o inteiro teor da decisão para atuar em cooperação com o administrador judicial e com o juízo. A agência destacou que dará atenção especial aos serviços de relevante interesse social, às obrigações de telefonia, aos códigos de emergência e de utilidade pública e às interconexões entre redes — ponto sensível porque as redes de telecomunicações operam de forma integrada. A agência não apresentou cronograma nem detalhou medidas adicionais.
Quando a falência foi decretada em primeira instância, em novembro de 2025, a Anatel já havia listado o conjunto de serviços que deveriam ser mantidos durante a transição: telefones públicos em cerca de 7.500 localidades, o serviço tridígito para Serviços de Utilidade Pública e de Emergência, as interconexões e os demais contratos firmados com entes públicos federais, estaduais e municipais e com clientes privados. Aquela decisão também previa a possibilidade de venda da operação a interessados capazes de assegurar a continuidade definitiva dos contratos.
O Ministério das Comunicações declarou que ainda não era possível estimar os impactos para os clientes e que mantém diálogo com a Anatel. Segundo a pasta, "nos mercados onde há concorrência, a continuidade pode ser assegurada pelas demais operadoras".
Quem ainda depende da rede da Oi
Apesar do encolhimento, parte da infraestrutura da companhia sustenta serviços que não podem simplesmente sair do ar.
Segundo relatório da administração judicial do Grupo Oi, a Oi Soluções — divisão corporativa e principal negócio remanescente — encerrou fevereiro de 2026 com 9,2 mil clientes ativos, queda de 45% frente aos 16,9 mil do mesmo mês de 2025. Boa parte é do setor público: estatais e administrações estaduais e municipais.
Documentos apresentados pela operadora à Justiça listam 14 contratos com a Caixa Econômica Federal responsáveis pela conectividade de cerca de 13 mil casas lotéricas em todo o país. Em agosto de 2026, a interrupção de links pela fornecedora Sitelbra atingiu a rede de lotéricas em 18 estados. No mesmo período, circuitos de dados que dão suporte a câmeras da Secretaria de Segurança Pública da Bahia ficaram entre os links afetados, e a Justiça determinou o restabelecimento em até 12 horas.
Na telefonia, a Oi mantém a operação de terminais associados a serviços tridígitos — entre eles o 190 (Polícia Militar), o 192 (Samu) e o 193 (Corpo de Bombeiros), além de canais da Defesa Civil e das polícias Civil, Federal e Rodoviária Federal.
História e origem: da Telebrás à marca Oi
Em 1998, o Ministério das Comunicações privatizou o Sistema Telebrás em doze companhias. A maior delas, a Tele Norte Leste Participações S.A. (TNL), foi arrematada por um consórcio por R$ 3,4 bilhões. Em abril de 1999, adotou o nome comercial Telemar, contração de "tele" (telefonia) com "mar", a faixa litorânea onde atuava. Ainda em 1999, o BNDES entrou no quadro acionário ao converter debêntures em ações, passando a deter 25% das ações ordinárias.
Em 2001, as 16 empresas regionais do grupo foram integradas em uma única entidade. A divisão de telefonia móvel foi criada em março de 2002 já com a marca Oi. Em 2007, a companhia unificou todos os seus serviços sob essa marca — Oi Fixo, Oi Móvel e Oi Velox —, abandonando o nome Telemar.
A compra da Brasil Telecom e o projeto de supertele
Em 2008, a Oi ofereceu R$ 5,8 bilhões pela Brasil Telecom, incorporada em 17 de maio de 2009. A operação envolveu R$ 2,569 bilhões do BNDES e R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil e deu à empresa presença em todo o território nacional.
O passo seguinte foi a associação com a Portugal Telecom. Em 1º de janeiro de 2010, a operadora portuguesa assinou contrato para adquirir 22,4% da Oi; a fusão foi formalizada em 2 de outubro de 2013, com captação de R$ 8,25 bilhões. O projeto tinha respaldo político — ganhou força em 2010 sob incentivo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva — e a ambição declarada de criar uma "supertele" nacional capaz de enfrentar as operadoras estrangeiras.
A operação desandou com a descoberta de um rombo financeiro na Portugal Telecom. Em 2015, a Oi vendeu os ativos operacionais portugueses para a Altice.
A primeira recuperação judicial (2016–2022)
Em 20 de junho de 2016, a Oi entrou em recuperação judicial com dívida de R$ 65 bilhões — na época, a maior do país. O plano foi homologado em 8 de janeiro de 2018 e converteu débitos em cerca de 75% do capital da companhia, diluindo os acionistas então existentes. A Oi encerrou o processo em 15 de dezembro de 2022, após seis anos.
A venda dos ativos: móvel, V.tal, fibra e telefonia fixa
A saída da primeira recuperação foi financiada pela venda das principais operações da empresa.
- Telefonia móvel. Em dezembro de 2020, o consórcio formado por Vivo, TIM e Claro comprou os ativos móveis por R$ 16,5 bilhões. A Anatel aprovou a operação em 31 de janeiro de 2022.
- Rede de fibra (V.tal). Em julho de 2021, a Oi vendeu 57,9% da InfraCo para BTG Pactual e Globenet por R$ 12,9 bilhões, ficando com 42,1%. A empresa foi rebatizada V.tal.
- Base de clientes de fibra (ClientCo). Em setembro de 2024, em segunda rodada de leilão conduzida pela 7ª Vara Empresarial do TJ-RJ, a V.tal apresentou proposta de R$ 5,6 bilhões pela carteira de clientes de fibra da ClientCo, que reunia cerca de 4 milhões de assinantes.
- Telefonia fixa. Em 8 de abril de 2026, a Método Telecom venceu o leilão judicial da Unidade Produtiva Isolada de telefonia fixa com proposta de R$ 60,1 milhões à vista, superando a Sercomtel Comunicações, que ofereceu R$ 60 milhões em dez parcelas. A Anatel recorreu ao TJ-RJ para suspender a venda, alegando conflito com a Lei Geral de Telecomunicações e com o termo de migração; o pedido foi negado, mas a desembargadora Monica Maria Costa determinou que a Método cumpra integralmente os compromissos assumidos e obtenha anuência prévia da agência para consumar a operação.
A segunda recuperação judicial (2023–2026)
Menos de três meses depois de sair da primeira recuperação, a Oi voltou ao mesmo caminho. A 7ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro deferiu o processamento da segunda recuperação judicial em decisão assinada em 16 de março de 2023, com passivo de R$ 43,7 bilhões e cerca de 35 mil credores.
Os credores aprovaram o novo plano em abril de 2024. A reestruturação levou ao controle acionário fundos estrangeiros de dívida — PIMCO com 36,66%, SC Lowy com 12,33% e Ashmore com 9,58%.
O plano previa uma Oi enxuta, concentrada na Oi Soluções e sustentada pela venda da base de fibra, da fatia remanescente na V.tal e de um portfólio de cerca de 7,9 mil imóveis. Vendas relevantes travaram ou não saíram no valor esperado, o caixa se esgotou e, em 10 de novembro de 2025, a 7ª Vara Empresarial converteu a recuperação em falência — decisão suspensa quatro dias depois e restabelecida em 25 de agosto de 2026.
Perguntas frequentes
A Oi faliu? Sim. A falência foi decretada pela 7ª Vara Empresarial do Rio em 10 de novembro de 2025, ficou suspensa por recursos dos bancos credores e foi restabelecida pela Primeira Câmara de Direito Privado do TJ-RJ em 25 de agosto de 2026. Ainda cabe recurso ao STJ.
A Oi mudou de nome? Não. O que mudou foi a titularidade das operações. A telefonia móvel passou a Vivo, TIM e Claro; a rede de fibra virou V.tal; a base de clientes de fibra foi comprada pela V.tal; e a telefonia fixa foi arrematada pela Método Telecom. A marca Telemar, essa sim, foi substituída por Oi em 2007.
A Oi ainda tem telefonia móvel? Não. Os ativos móveis foram vendidos em dezembro de 2020 ao consórcio Vivo, TIM e Claro por R$ 16,5 bilhões, com aprovação da Anatel em janeiro de 2022.
Os serviços vão parar? Não imediatamente. A decisão judicial prevê continuidade provisória em fase de transição e liquidação ordenada, e a Anatel afirmou que atuará junto ao administrador judicial para evitar descontinuidade, com atenção especial a códigos de emergência, obrigações de telefonia e interconexões.
Qual o tamanho da dívida da Oi? Cerca de R$ 44 bilhões, com aproximadamente 164 mil credores, conforme citado na decisão de 25 de agosto de 2026. Na primeira recuperação judicial, em 2016, a dívida era de R$ 65 bilhões.
O que acontece com as ações da Oi? A B3 suspendeu a negociação dos papéis OIBR3 e OIBR4 na tarde de 25 de agosto de 2026, com base na regra que determina a suspensão diante de pedido de falência com indícios de insolvência do emissor.
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