O que é a Avibras
A Avibras é a maior fabricante brasileira de foguetes, mísseis e sistemas de artilharia, conhecida sobretudo pelo sistema ASTROS. Fundada em 1961 em São José dos Campos (SP), a empresa passou por três crises financeiras graves — 1990, 2008 e 2022 — e voltou a produzir em maio de 2026, sob nova estrutura societária e com o nome Avibras Aeroco. A trajetória da companhia é usada como espelho da própria Base Industrial de Defesa brasileira: capacidade tecnológica reconhecida no exterior, mas dependente de encomendas públicas irregulares.
A Avibras é uma indústria aeroespacial e de defesa de capital privado, especializada em foguetes de artilharia, mísseis táticos, sistemas lançadores múltiplos, veículos militares e componentes para o programa espacial brasileiro. É a única integradora de sistemas de propulsão de foguetes e mísseis fabricados no país.
O nome vem de "Aviação Brasileira", marca de origem da empresa nos anos 1960, quando ainda projetava aeronaves. Hoje a Avibras não fabrica mais aviões: seu portfólio é concentrado em munição de artilharia de longo alcance e mísseis.
Desde 2025 há duas pessoas jurídicas com o mesmo nome. A Avibras Indústria Aeroespacial S.A. (CNPJ 60.181.468/0001-51), fundada em 1961, segue em recuperação judicial e concentra o passivo acumulado. A Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda. (CNPJ 62.990.385/0001-39), constituída em 1º de outubro de 2025, é a empresa que opera as fábricas hoje: ela herdou instalações, tecnologia e contratos, mas não as dívidas, por meio do mecanismo de Unidade Produtiva Isolada (UPI) previsto na Lei de Recuperação Judicial.
O que a Avibras faz e o que produz
O produto mais conhecido da empresa é o ASTROS (Artillery Saturation Rocket System), um sistema lançador múltiplo de foguetes sobre viatura, desenvolvido no início dos anos 1980. A característica que o tornou competitivo foi disparar munições de calibres diferentes a partir do mesmo lançador, sem troca de plataforma.
O sistema opera com uma família de foguetes:
- SS-30 — 127 mm
- SS-40 — 180 mm
- SS-60 — 300 mm, alcance de cerca de 70 km
- SS-80 — 300 mm, alcance de aproximadamente 90 km
- AV-TM 300 (MTC) — míssil tático de cruzeiro com alcance superior a 300 km e precisão na casa dos 50 metros
Além do ASTROS, a Avibras desenvolveu o míssil guiado por fibra óptica FOG-MPM, veículos blindados leves (AV-VBL 4x4, Tupi, Guará), foguetes de sondagem em parceria com o antigo Centro Técnico Aeroespacial e o drone de reconhecimento Falcão.
Na retomada de 2026, a produção recomeçou pelos foguetes SS-40 e SS-80, por munições do sistema ASTROS destinadas ao Exército e por componentes do programa espacial da Força Aérea. A empresa tem dois mísseis em fase final de desenvolvimento: o MTC de 300 km, descrito pela companhia como praticamente pronto e em certificação, e um míssil balístico tático de mais de 100 km — divulgado também como AV-SS 120, com 120 km de alcance — projetado para o lançador ASTROS II MK7 sobre chassi 6x6.
Onde fica a Avibras
A sede histórica é em São José dos Campos (SP), no Vale do Paraíba, ao lado do polo aeroespacial formado em torno do ITA, do CTA e da Embraer. O complexo industrial principal, onde a produção foi retomada, fica em Jacareí (SP), cidade vizinha. A empresa também mantinha uma unidade em Lorena (SP), cuja reabertura foi projetada pelo governo federal em julho de 2026.
A concentração no Vale do Paraíba não é coincidência: os fundadores vieram do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, e a empresa nasceu no mesmo ecossistema de pesquisa aeronáutica militar que originou a Embraer.
História e origem
A Avibras foi fundada em abril de 1961 em São José dos Campos por um grupo de engenheiros ligados ao ITA, entre eles João Verdi de Carvalho Leite, Olympio Sambatti, José Carlos de Sousa Reis e Aloysio Figueiredo. Nos primeiros anos, dedicou-se à aviação: desenvolveu a aeronave de treinamento Falcão para a Força Aérea Brasileira e foguetes de sondagem em cooperação com o Centro Técnico Aeroespacial.
A virada para a artilharia veio nos anos 1980. Durante a Guerra Irã-Iraque, o Iraque encomendou o desenvolvimento do ASTROS II, primeiro grande contrato internacional da empresa e o produto que colocou o Brasil no mapa da exportação de material bélico. O sistema foi vendido depois a Arábia Saudita, Malásia, Indonésia e Catar. Em 1991, na Guerra do Golfo, o ASTROS foi empregado pela Arábia Saudita contra o Iraque — o primeiro uso documentado em combate de um sistema brasileiro dessa classe.
O ciclo virtuoso durou pouco. Com o fim da guerra no Golfo, a retração do mercado e a inadimplência de clientes, a Avibras entrou em concordata em 1990. Um segundo pedido de reestruturação ocorreu em 2008. Em ambos os casos a empresa sobreviveu, mas o padrão se repetiu: capacidade técnica preservada, base financeira frágil e dependência de poucos contratos.
O que aconteceu com a Avibras
Em 18 de março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial pela terceira vez, alegando atrasos de contratos e o impacto da pandemia. O passivo declarado à época era de cerca de R$ 570 milhões; estimativas posteriores chegaram a R$ 1,5 bilhão, incluindo cerca de R$ 200 milhões devidos à União. Mais de 400 trabalhadores foram demitidos.
Em 9 de setembro de 2022, os metalúrgicos entraram em greve por salários atrasados. A paralisação durou 1.280 dias — uma das mais longas da história do movimento sindical brasileiro — e só terminou em assembleia realizada em 11 de março de 2026, quando os trabalhadores aprovaram um acordo coletivo de R$ 230 milhões referente a dívidas trabalhistas acumuladas desde 2022. Cerca de 1.400 pessoas tinham valores a receber, em parcelamentos de 12 a 48 meses conforme a faixa salarial. O acordo previa a rescisão dos 850 contratos ainda vigentes, a quitação das dívidas e a recontratação de cerca de 450 trabalhadores.
A fábrica ficou praticamente parada por quatro anos, período em que programas estratégicos do Exército que dependiam da empresa — em especial o míssil de cruzeiro nacional — ficaram suspensos.
Quem é o dono da Avibras
O controle mudou durante a recuperação judicial. Em 26 de maio de 2025, uma assembleia geral de credores aprovou um plano alternativo de reestruturação apresentado pelo Fundo Brasil Crédito, principal credor da companhia. Em agosto de 2025, foi registrada na Junta Comercial de São Paulo (JUCESP) a transferência do controle acionário para a Vita Gestão e Investimentos Ltda., com Fábio Guimarães Leite, representante do fundo credor, conduzindo a transição. Na prática, cerca de 99% das ações passaram a um veículo ligado aos credores.
A operação industrial foi então transferida para a nova Avibras Aeroco, criada em outubro de 2025 como Unidade Produtiva Isolada. A companhia é presidida por Sami Hassuani, engenheiro com mais de 40 anos no setor aeroespacial e de defesa.
Em abril de 2026, veio o aporte que viabilizou a retomada: R$ 300 milhões captados junto a investidores privados pelo Fundo Brasil Crédito, com participação do empresário Joesley Batista, controlador do grupo J&F — sua primeira entrada no setor de defesa.
A Avibras não é uma companhia aberta e suas ações não são negociadas na B3: a disputa societária dos últimos anos se deu dentro do processo de recuperação judicial, entre credores e antigos controladores, sem papéis em bolsa envolvidos.
A retomada em 2026
A Avibras Aeroco anunciou o início da nova fase em 1º de maio de 2026 e retomou oficialmente a produção industrial em 4 de maio de 2026, com a recontratação de trabalhadores e o reinício da fabricação de foguetes e munições.
Em maio de 2026, o Ministério da Defesa credenciou a empresa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), condição que dá acesso a compras públicas direcionadas, regime tributário especial e financiamento voltado ao setor.
Em 24 de julho de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a fábrica de Jacareí. No discurso, associou a indústria de defesa à soberania nacional, citou a extensão das fronteiras terrestres, do litoral e da Amazônia Azul, e afirmou que o Ministério da Defesa prepararia novos contratos para garantir demanda à indústria nacional. Nenhuma encomenda nova foi anunciada na ocasião.
O plano da empresa prevê entregas de munição ao Exército e itens do programa espacial à FAB em 2026, volume maior em 2027 e retomada das exportações — inicialmente projetadas para 2028, com a direção manifestando intenção de antecipá-las para meados de 2027, mirando o Golfo Pérsico e o Sudeste Asiático.
O setor de defesa no Brasil
A Base Industrial de Defesa (BID) brasileira reúne empresas privadas e estatais que fornecem material e serviços às Forças Armadas. É um setor de ciclo longo, alta barreira tecnológica e demanda concentrada em um único cliente principal — o Estado —, o que explica a vulnerabilidade financeira recorrente de empresas como a Avibras.
As principais companhias do setor:
- Embraer Defesa & Segurança — maior empresa brasileira do segmento, fabricante do cargueiro KC-390 Millennium e do avião de ataque leve A-29 Super Tucano; sua carteira de pedidos em defesa somava US$ 4,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026
- Avibras Aeroco — foguetes, mísseis e sistemas de artilharia
- CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) — uma das maiores fabricantes mundiais de munição leve, com fábricas nos EUA e na Europa
- Taurus Armas — armas leves, com forte presença no mercado norte-americano
- IMBEL — estatal de armamento, munição e equipamento militar
- Emgepron — estatal ligada à Marinha, gestora de projetos navais
- Condor — tecnologias não letais
- SIATT, Mac Jee, AEL Sistemas, Akaer, Helibras — mísseis, munição inteligente, eletrônica embarcada, engenharia e helicópteros
O marco legal do setor é a Lei 12.598/2012, que criou as categorias de Empresa Estratégica de Defesa (EED) e Produto Estratégico de Defesa (PED), com regime tributário e regras de compra próprias. Os programas estruturantes em curso incluem o Prosub (submarinos, entre eles o de propulsão nuclear), o F-39 Gripen da FAB, o blindado Guarani do Exército e o programa ASTROS-FOGOS, do qual a Avibras é fornecedora central.
O orçamento do Ministério da Defesa para 2026 é de cerca de R$ 142 bilhões, com R$ 4,4 bilhões contingenciados no bloqueio de recursos do ano. A partir de 2026, até R$ 5 bilhões anuais destinados a projetos estratégicos de defesa ficam fora da meta fiscal, por cinco anos — mecanismo criado justamente para reduzir a intermitência dos investimentos.
Exportações e o mercado internacional
A exportação é o principal vetor de crescimento do setor. As autorizações de exportação de produtos de defesa somaram US$ 1,815 bilhão no primeiro semestre de 2026, alta de 29% sobre os US$ 1,404 bilhão do mesmo período de 2025. Em 2025, o total do ano foi recorde, cerca de US$ 3,1 bilhões, alta de 74% sobre 2024. Produtos brasileiros de defesa chegam a 150 países, por meio de 130 empresas exportadoras. Os itens de maior peso são aeronaves e componentes, explosivos, armas leves, munição e serviços de engenharia.
Segundo o secretário Heraldo Luiz Rodrigues, os números refletem esforço coordenado do Ministério da Defesa para ampliar a presença internacional da BID, incluindo missões ministeriais, novas regras para exportação governo a governo e um catálogo de produtos lançado em 2026. Vale a ressalva metodológica: os valores divulgados são de autorizações de exportação, não de vendas efetivamente concretizadas.
O aquecimento global do mercado de armamentos atraiu capital estrangeiro. O grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, comprou 50% da SIATT em 2023 e 51% da Condor, em movimentos que somam bilhões de dólares e alimentam um debate no setor sobre controle nacional de tecnologias sensíveis.
Polêmicas
O ASTROS tem capacidade de lançar submunições — as chamadas munições cluster, que se dispersam sobre uma área ampla e deixam artefatos não detonados no terreno. A Convenção sobre Munições Cluster, adotada em Dublin em 2008 e em vigor desde 2010, proíbe seu uso, produção e transferência; o Brasil não é signatário, embora seja parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear, do Tratado sobre Comércio de Armas e do Tratado de Ottawa.
Organizações da sociedade civil apontam usos do sistema em ataques da Arábia Saudita no Iêmen entre 2015 e 2017, em áreas urbanas e agrícolas com impacto sobre população civil. Segundo dados de 2025 citados por essas entidades, as 314 vítimas de munições cluster registradas em 2024 no mundo eram todas civis. A retomada da produção pela Avibras em 2026 reacendeu a cobrança para que o Brasil adira à convenção.
Há ainda o debate econômico: críticos questionam o volume de recursos públicos e incentivos fiscais direcionados a uma empresa que quebrou três vezes, enquanto defensores argumentam que a alternativa é importar mísseis e perder capacidade tecnológica soberana.
Trabalhar na Avibras
A retomada de 2026 reabriu vagas na planta de Jacareí, com a recontratação prevista de cerca de 450 trabalhadores, majoritariamente em funções industriais e de engenharia — mecânica, química, eletrônica, produção e qualidade. As oportunidades são divulgadas no site oficial da companhia, na seção de carreiras, e pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, que acompanhou o processo de reintegração previsto no acordo coletivo.
Por atuar com material de defesa, parte das funções exige credenciamento de segurança e restrições de acesso a informação classificada.
