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Para não adiar os Gigantes

Algumas histórias nós herdamos. Outras temos a chance de viver. Entre o passado de Jordan, o legado de LeBron e o futuro de Wembanyama, uma reflexão sobre estrelas, ou melhor ainda, sobre o tempo.

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Para não adiar os Gigantes
Nathan Flores - @n.daily.journal··

Os gregos tinham dois nomes para o tempo.

Chronos era o velho conhecido. O tempo que passa, avança e devora tudo. O ponteiro que não volta. O calendário que amarela fotografias.

Mas havia também Kairos. O instante raro. A porta que se abre por pouco tempo. A oportunidade que só existe enquanto existe. Quem atravessa, atravessa. Quem hesita, encontra parede.

Sempre acho que vai acontecer de novo.

Sempre acho que haverá outro Jordan.

Outro LeBron.

Outra chance.

Foi assim que me enganei.

Quando descobri Michael Jordan, ele já era uma montanha. Um monumento. Já existiam documentários, biografias, estatísticas organizadas e milhões de testemunhas prontas para me explicar o que eu havia perdido.

Mesmo assim prometi a mim mesmo que faria diferente. Que assistiria tudo. Que voltaria ao começo. Que veria a ascensão em North Carolina, os primeiros sinais daquilo que transformaria um jogador em mito.

Nunca vi.

Empurrei para as férias seguintes.

Para o próximo feriado.

Para quando tivesse mais tempo.

Como se a história fosse uma biblioteca que permaneceria aberta para sempre.

Com LeBron James a mentira foi ainda pior.

Porque dessa vez eu estava vivo.

Estava presente.

Tinha acesso.

Assinei serviços. Salvei jogos. Marquei horários. Prometi que nenhuma madrugada venceria minha curiosidade.

Então desliguei a televisão.

Uma vez.

Depois outra.

Depois mais uma.

Até que os anos passaram.

E aquilo que era presente virou memória.

Aquilo que era rotina virou compactos.

O contemporâneo virou legado.

Hoje consigo encontrar qualquer atuação histórica em segundos. Posso assistir aos melhores momentos de uma carreira inteira enquanto tomo café.

Mas não é a mesma coisa.

Nunca foi.

A grandeza não mora nos highlights.

Mora na espera.

Na dúvida.

Na possibilidade do fracasso.

No privilégio de não saber como a história termina.

Foi então que ele apareceu.

Primeiro como curiosidade.

Depois como fenômeno.

Depois como um problema para qualquer explicação racional.

Um garoto de 2,24 metros se movimentando como armador, protegendo o aro como pivô, arremessando como ala e parecendo deslocado da própria realidade.

Lembro de assistir e procurar referências.

Era Durant com mais altura.

Gobert com mais mobilidade.

Porzingis elevado à máxima potência.

Mas toda comparação morria rápido.

Comparações servem para explicar o passado.

E algumas pessoas chegam justamente para criar algo novo.

Quando percebi o erro.

Eu não estava assistindo Victor Wembanyama.

Estava tentando encaixá-lo numa gaveta confortável da memória.

Transformando o presente em nostalgia antes mesmo que ele terminasse de acontecer.

Como se o mais importante fosse descobrir com quem ele se parece.

Não é.

O mais importante é que ele está aqui.

Agora.

Ao vivo.

Sem filtros.

A história ainda está sendo escrita.

E talvez esse seja o maior privilégio de todos.

As gerações anteriores tiveram seus próprios milagres esportivos acontecendo diante dos olhos.

Chegou a sua vez.

Talvez Victor conquiste tudo.

Talvez não.

Talvez os anéis venham cedo.

Talvez nunca venham.

Talvez eu esteja errado sobre parte do que vejo.

Mas isso pouco importa.

Porque o ponto não é prever.

O ponto é testemunhar.

O ponto é estar presente quando ainda existe dúvida.

Quando ainda existe descoberta.

Quando ainda existe futuro.

Um dia alguém vai mostrar seus títulos, seus recordes e suas conquistas em vídeos restaurados e imagens perfeitas.

Um dia alguém vai contar sua história como se ela fosse inevitável.

Mas eu espero me lembrar de outra coisa.

Espero me lembrar da época em que nada era inevitável.

Da época em que tudo ainda parecia exagero.

Da época em que um alienígena francês apareceu jogando um basquete que não fazia sentido. 

E, dessa vez, eu escolhi ficar.

Quando Kairos abriu a porta, eu estava lá.

Na primeira fila.


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