Em 2024 aconteceu, na Ucrânia, o primeiro assalto inteiramente robótico de que se tem registro. Nenhum humano cruzou a linha de frente: máquinas terrestres e aéreas tomaram uma posição sozinhas. O episódio é militar, mas a Europol o coloca logo na abertura de um relatório que não trata de guerra, e sim do que acontece quando essas mesmas máquinas chegam às ruas das cidades europeias, nas mãos de criminosos e, também, da polícia.
O documento se chama The Unmanned Future(s) e foi publicado em 2025 pelo Innovation Lab da Europol, a agência de cooperação policial da União Europeia. É um exercício de prospecção: não tenta adivinhar o futuro, e sim separar os desfechos desejáveis dos indesejáveis enquanto ainda dá tempo de agir. O horizonte de trabalho são três anos, mas algumas projeções vão até 2035.
A pergunta de fundo é simples e desconfortável. Como criminosos e terroristas poderiam usar drones e robôs daqui a três anos? E a polícia, o que faz com isso, tanto para se defender quanto para usar a seu favor?
O ponto de virada foi 2022
A Europol é direta ao apontar quando a coisa mudou de patamar: 2022. Foi quando o uso antagônico de sistemas não-tripulados se espalhou por todos os domínios ao mesmo tempo, no ar, em terra, na superfície da água e embaixo dela. O uso criminoso de drones já era reportado desde 2010, então em 2025 falamos de quinze anos de aprendizado acumulado por gente mal-intencionada.
O acelerador tem nome: a guerra na Ucrânia. O conflito transformou a fabricação de drones numa indústria caseira de escala industrial. Em 2024, o país produziu mais de 1,5 milhão de drones FPV, com planos de chegar a milhões em 2025, apoiado por uma rede de mais de duzentas empresas e oficinas, muitas funcionando em garagens. Drones chegaram a representar mais de 96% dos veículos aéreos usados no esforço militar naquele ano.
Esse conhecimento não fica contido no campo de batalha. Táticas, peças e know-how vazam para o crime organizado, um efeito que o relatório chama de spill-over. Já houve uma quadrilha desmantelada entre Espanha e Marrocos que usava narco-drones de origem ucraniana para atravessar haxixe pelo Estreito de Gibraltar. Em outubro de 2025, a Colômbia apreendeu um narco-submarino não-tripulado equipado com antena Starlink.
De "crime como serviço" para "crime à distância"
A consequência mais interessante é conceitual. O crime organizado já operava num modelo de "crime como serviço", em que se contrata quem tem a habilidade que falta. Os sistemas não-tripulados empurram isso para algo novo: o "crime à distância". O operador não precisa estar perto do delito. Pilotos vendem serviço online e controlam, de longe, o drone de outra pessoa, para mapear a posição da polícia em tempo real, atacar grupos rivais ou levar droga de um lado a outro de uma fronteira.
Entre todas as ameaças, a Europol destaca uma como a mais duradoura, e talvez surpreendente: não é o contrabando, é a coleta de informação. Um drone que observa é difícil de detectar, pode ser reutilizado e gera valor de inteligência por muito tempo. O contrabando assusta mais à primeira vista, mas a vigilância silenciosa é o que muda o jogo no longo prazo.
E parar essas máquinas está cada vez mais difícil. Drones guiados por fibra óptica ou por enlaces de laser de curta duração são imunes aos bloqueadores de sinal. Quando o voo é totalmente automatizado, sem nenhuma conexão de controle, não há nem sinal para rastrear até o operador. O relatório resume o problema de forma crua: drones produzidos em massa começam a funcionar como um recurso barato e disponível, acessível a quem tem pouco conhecimento técnico.
Quando o policiamento precisa virar tridimensional
A imagem central do relatório é a passagem de um policiamento bidimensional para um tridimensional. A polícia foi construída para atuar sobre superfícies: ruas, prédios, estradas. O crime agora vem do alto, do fundo do mar e do subsolo, e se move pensando em volumes, não em rotas.
Daí nasce uma ideia que vai dar trabalho aos juristas: a "jurisdição volumétrica", a capacidade de perseguir uma ameaça de forma contínua atravessando fronteiras verticais. Some a isso o cenário dos enxames. Em vez de um drone, centenas deles, coordenados por modelos de IA de código aberto. Em cidades onde já existirão "rodovias aéreas" de tráfego autônomo legítimo, uma organização criminosa pode simplesmente se misturar ao fluxo. O desafio deixa de ser achar uma agulha no palheiro e passa a ser distinguir intenção dentro de uma nuvem de atividade legítima em alta velocidade.
Há um detalhe que separa a polícia do militar e que vale registrar. No campo de batalha, o objetivo é destruir o drone. No policiamento, não. Importa a segurança de quem está em volta e, sempre que possível, preservar o aparelho intacto, porque é dele que se extrai a prova de quem o controlava e do que ele fazia. A analogia do relatório é boa: um carro suspeito é parado, não explodido. Por isso, sistemas considerados inúteis num contexto de guerra podem ser exatamente os que funcionam numa cidade em tempo de paz.
A dependência que a Europa não quer ter
Boa parte do relatório é sobre tecnologia, mas o argumento mais estratégico é econômico. A indústria de drones e robótica é dominada por empresas de fora da União Europeia, concentradas nos Estados Unidos e no Leste Asiático. Para as polícias europeias, isso significa comprar sistemas críticos de uns poucos fornecedores estrangeiros, com o risco de ficar presa a um deles, o chamado vendor lock-in.
O problema é mais grave do que parece. Falta de alternativa europeia vira vulnerabilidade em cibersegurança, em proteção de dados e na capacidade de implantar soluções alinhadas aos valores do bloco. O ponto mais sensível é o de sistemas anti-drone, onde às vezes nem existe um fornecedor europeu disponível. A Europol aponta a robótica de código aberto, como o ROS 2, como um dos caminhos possíveis para recuperar alguma soberania tecnológica.
Sem confiança pública, nada disso funciona
A tecnologia pode ser excelente e ainda assim fracassar por rejeição social. O relatório é honesto sobre isso. O uso policial de drones e robôs já foi recebido com desconfiança, por medo de vigilância, por falta de transparência e pela sensação de um policiamento desumanizado.
O exemplo mais citado é o dos robôs-cães da polícia de Nova York, aposentados depois de forte reação pública. Em outro caso, um robô de patrulha na Califórnia não conseguiu ajudar uma pessoa que tentava chamar a polícia durante uma briga, escancarando a distância entre o que se espera dessas máquinas e o que elas de fato fazem. A recomendação que sai disso é quase óbvia, e por isso costuma ser ignorada: envolver a população em consultas e debates antes de colocar robôs patrulhando bairros, não depois.
O que a Europol recomenda
A proposta central é construir capacidade para lidar com esses sistemas, e contra eles, num esforço europeu conjunto, organizado em quatro frentes.
Gestão das operações: definir uma intenção estratégica clara e criar um "sandbox físico", um ambiente real, fora do laboratório, para testar e adaptar sistemas e alimentar a regulação com dados de verdade.
Competência: montar um hub de conhecimento coordenado no nível europeu, investir em treinamento que vá da regulação à perícia, e tratar a confiança pública como algo a se construir com a sociedade, não a se conquistar depois.
Sistema: integrar os sistemas não-tripulados aos fluxos de informação que já existem, organizar a troca de dados forenses entre países e centralizar a compra para priorizar interoperabilidade e independência tecnológica.
Estrutura: migrar o modelo de comando para o que a Europol chama de C3A, sigla para Comando, Controle, Colaboração e Autonomia, reconhecendo que máquina e operador humano vão precisar decidir juntos, em tempo real.
Há um alerta importante embutido no texto. As polícias europeias não devem contar com o velho efeito de "herdar" tecnologia militar. O mandato é diferente, os procedimentos são diferentes, e muito do que serve para a guerra tem valor limitado no trabalho policial. É preciso desenvolver soluções pensadas para a polícia desde o início.
O recado final
A Europol não vende otimismo nem pânico. O que ela diz é que a sociedade está virando "phygital", uma mistura cada vez mais indistinta de físico e digital, e que criminosos costumam ser os primeiros a adotar qualquer tecnologia nova, barata e fácil de conseguir. Os benefícios desses sistemas para a segurança pública são reais e grandes, mas só se concretizam com base regulatória sólida, autonomia tecnológica e confiança da população.
A frase que sintetiza o relatório cabe numa linha: essa criminalidade multidimensional vai exigir uma resposta policial multidimensional. O futuro não está decidido. A questão é se as instituições vão se mover no ritmo de quem já está usando essas máquinas.

