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Ye Lecture at The Oxford Guild

SAMTREETV19 de agosto de 202637minVer no YouTube|

Em 2 de março de 2015, Kanye West (Ye) realizou uma palestra para cerca de 350 estudantes da Oxford Guild Society no Museu de História Natural da Universidade de Oxford. Partindo de uma única pergunta da plateia sobre a sua evolução estética desde o álbum de estreia (The College Dropout), o artista articulou uma reflexão contínua sobre educação artística, colaboração, a ilusão do luxo, a superação do ego e a urgência de democratizar o acesso à beleza contra as barreiras do classicismo.

Formação Artística e Ambição Criativa

West relembra sua trajetória formativa: frequentou escolas de arte a partir dos cinco anos de idade, participou de competições artísticas aos 14 e, aos 18, obteve bolsas para três instituições: Saint Xavier University, American Academy of Art e School of the Art Institute of Chicago (SAIC). Escolheu a American Academy of Art apenas porque oferecia a maior bolsa, dado que sua mãe, Donda West (professora universitária com doutorado), não tinha condições financeiras de cobrir os custos das outras opções. Ele reconhece que, retrospectivamente, deveria ter escolhido o Art Institute of Chicago pelo rigor acadêmico, alertando que muitos alunos de belas artes acabam direcionados a agências de publicidade ou gravadoras como "clones".

Para West, a ambição nas artes plásticas deveria ser igualar ou superar figuras históricas:

"Meu objetivo, se eu fosse fazer belas artes, teria sido me tornar Picasso ou maior. E isso sempre parece engraçado para as pessoas. A ideia de se comparar a alguém do passado que fez tanto, e na sua vida você não ter permissão nem de pensar que pode fazer tanto. Essa é a mentalidade que reprime a humanidade."

West menciona uma conversa recente com o futurista Ray Kurzweil sobre a aceleração do pensamento e da leitura, conectando isso à necessidade de reunir um coletivo de pensadores multidisciplinares (conceito ligado ao seu projeto DONDA) capaz de transcender religião, raça, gênero e política para resolver problemas globais. Segundo ele, a civilização dispõe de recursos para construir uma utopia, mas é liderada pelos mais gananciosos e menos nobres.

Ele descreve sua abordagem criativa como a de um atleta: movido por competitividade e celebração visceral a cada ideia. Ele critica a cultura educacional e corporativa que ensina os criativos a "esconderem o esmalte preto nas unhas e abaixarem a cabeça no fundo da sala", paralisados pelo medo da zombaria e do fracasso.

The Matrix, Blindagem Contra Opiniões e o Ritmo de Produção

Citando o versículo bíblico "Nenhuma arma forjada contra mim prosperará", West afirma que nenhuma celebridade viva enfrenta tanta oposição quanto ele e, simultaneamente, mantém tamanha prosperidade criativa. Ele relata uma conversa privada com o cineasta Steve McQueen — que dirigiu o visual da faixa "All Day" dois dias antes — na qual definiu o filme The Matrix como a "Bíblia da era pós-informação":

  • Os agentes de Matrix como metáfora: representam as milhares de opiniões, percepções e tradições dogmáticas que atacam o criador de todos os ângulos;
  • Foco e mentoria: com mestres como Morpheus (Laurence Fishburne) e uma equipe alinhada, o criador consegue desacelerar a percepção do mundo, comparável à sensação do jogador de basquete Michael Jordan quando a cesta de basquete parece se dilatar.

West descreve o início de 2015 como um período de produtividade extrema da sua equipe criativa, operando em ritmo ininterrupto de lançamentos de moda, apresentações visuais e posicionamentos públicos.

Colaboração, Superação do Ego e Drake

West contrasta a postura de duas referências tecnológicas para ilustrar o valor do código aberto e da generosidade criativa:

  • Steve Jobs vs. Elon Musk: embora Jobs seja sua maior referência, West lamenta que ele tenha falecido sem abrir publicamente todas as suas ideias protegidas pela Apple. Em contraste, elogia Elon Musk por disponibilizar abertamente patentes para acelerar o progresso humano.
  • A ascensão de Drake: ver Drake quebrar sucessivamente todos os recordes históricos de paradas musicais (superando tanto ele quanto Paul McCartney) permitiu a West abandonar a obsessão de manter o "primeiro lugar". Isso possibilitou "descer do topo da montanha" e redefinir seu papel na Terra como um servidor público da cultura.

Essa mudança conceitual marca a transição de títulos provocadores anteriores, como "Black Skinhead" e "I Am a God", para a consciência de que seu alcance, rede de contatos e facilidade de comunicação direta com figuras como Elon Musk ou Barack Obama devem servir à coletividade.

O Caso da Faixa de Nicki Minaj em MBDTF

Como exemplo prático de anulação do ego em favor do melhor resultado artístico, West aborda o processo de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), álbum gravado durante um período de autoexílio:

  • O verso de Nicki Minaj na faixa "Monster" superou amplamente as performances de todos os outros artistas no disco;
  • West recusou propostas de cortar ou amenizar o verso dela por vaidade pessoal de ser superado em seu próprio projeto de retorno;
  • Ele traça um paralelo com sua linha de calçados Yeezy: projetos corporativos tradicionais passam anos investindo em campanhas e patrocínios para tentar criar relevância, mas uma ideia genuinamente superior atrai todo o interesse orgânico do público de forma incontornável.

O Luxo do Tempo contra a Indústria do Consumo

West relata um episódio de bastidores com a artista plástica italiana Vanessa Beecroft durante a preparação da coleção Adidas Yeezy Season 1. Beecroft presenteou a filha de West, North, com três lobos de pelúcia (conectados ao conceito da faixa "Wolves"). A reação de alegria pura da criança serviu de contraste à noção comercial de felicidade:

  • A ilusão do consumo: a publicidade vende a falsa ideia de realização atrelada a camisetas de US$ 3.000 ou US$ 8.000, bolsas Gucci, sedãs BMW e o estereótipo da casa com 2,5 filhos, que culmina no vazio de quem se encontra preso no trânsito dentro de um carro de luxo;
  • O tempo como único luxo real: West afirma categoricamente que tempo é o único bem insubstituível. Enquanto bagagens extraviadas em aeroportos podem ser recompradas, o tempo com família e amigos jamais retorna.

Classicismo, Divisão Social e o Direito à Beleza

West contrapõe dois modelos de comportamento social humano: o modelo das formigas (cooperação em prol do coletivo) e o dos caranguejos (puxar para baixo qualquer um que tente subir). Ele argumenta que, embora preconceitos raciais e geracionais estejam gradualmente perdendo força na nova geração — simbolizada pela presidência de Barack Obama e pelo sucesso de Beyoncé —, a divisão por classes sociais permanece o instrumento central de manipulação:

  • Manter a população fragmentada por classes e em constante conflito interno impede a união necessária para resolver problemas estruturais;
  • Sugere que a atenção dedicada a premiações de entretenimento como o Brit Awards ou o Grammy (patrocinadas por marcas financeiras como Mastercard) deveria ser direcionada a celebrações globais como o Prêmio Nobel da Paz.

A Estratégia de Defesa Criativa

West justifica suas reações inflamadas em reuniões corporativas e entrevistas citando uma lição de infância de sua mãe: se um estranho tentar agarrar sua mão no supermercado, "grite com toda a força dos seus pulmões". Ele aplica essa regra ao ambiente criativo: quando diretores e produtores tentam impor iluminação convencional, cortes de câmera padronizados para televisão ou limitar suas ideias por conformismo institucional, ele grita para romper a inércia, sem medo de ser taxado de "louco".

O Projeto de Água do Pai e a Democratização da Alta Qualidade

West destaca a influência intelectual de seus pais, ambos acadêmicos com PhD:

  • O pai, Ray West: orador, humanitário e pioneiro em computação antes da popularização da Apple por Steve Jobs (iniciativa frustrada por falta de parceiros qualificados). Cinco anos antes da palestra, Ray viveu em um abrigo para desenvolver destiladores manuais de água potável, construindo com as próprias mãos um café movido a água limpa entre Delaware e Maryland, onde jovens podiam ler poesias, acessar a internet e ter acesso à água filtrada.

West afirma que seu maior privilégio foi ascender da classe média para conhecer os bastidores da alta estética reservada exclusivamente aos bilionários, concluindo que o mercado sequestrou a beleza universal para vendê-la sob o rótulo de exclusividade e luxo:

  • O vestuário não pode ser tratado como capricho inacessível, mas como necessidade básica análoga à alimentação;
  • Não deveria existir um suéter de US$ 5.000; um carro popular deveria custar US$ 5.000, e os melhores engenheiros que projetam veículos de US$ 500.000 deveriam colocar seu talento a serviço da produção em massa para o povo;
  • A verdadeira luta contemporânea deve combater o elitismo, o separatismo e o classicismo, garantindo que o melhor design e a mais alta qualidade estejam ao alcance de todos.