Daily Journal

Why the World Order Is Collapsing and American Power Is Rising

Invest Like The Best08 de setembro de 20261h26minVer no YouTube|

Em conversa com Patrick O'Shaughnessy (CEO da Positive Sum e apresentador do podcast Invest Like The Best), Walter Russell Mead (historiador, professor de relações internacionais, colunista do The Wall Street Journal e autor de obras como God and Gold e Special Providence) analisa as transformações na ordem geopolítica global. Mead argumenta que, embora o arranjo institucional internacional pós-Segunda Guerra Mundial e pós-Guerra Fria esteja em colapso, o poder material, produtivo e tecnológico dos Estados Unidos permanece em ascensão.

A Crise da Ordem Pós-1945 e a Dinâmica do Poder Americano

A Pax Americana estruturada após 1945 e renovada por volta de 1990 atravessa uma crise severa em suas redes institucionais (como a Organização Mundial do Comércio, a OTAN e a ONU). No entanto, Walter Russell Mead destaca que o poder dos Estados Unidos em si não está em declínio; pelo contrário, o país lidera a revolução da informação e experimenta um salto expressivo de produtividade.

  • O papel de Donald Trump: A política externa tradicional dos EUA buscava previsibilidade e o estabelecimento de linhas vermelhas claras desde 1955. Trump alterou essa dinâmica ao adotar a imprevisibilidade deliberada e desconsiderar os canais institucionais convencionais, acelerando a transição para uma era de política personalizada (semelhante ao que ocorre globalmente com líderes como Narendra Modi na Índia, Shinzō Abe no Japão, Benjamin Netanyahu em Israel, Recep Tayyip Erdoğan na Turquia, Vladimir Putin na Rússia e Xi Jinping na China).
  • Espetáculo e custo marginal da controvérsia: Mead observa que Trump capitalizou a mecânica da atenção na era digital e da comunicação de massa, operando sob uma lógica em que o custo reputacional de controvérsias sucessivas cai a zero após atingir determinada escala.

O Modelo Marítimo Liberal: Das Províncias Unidas aos EUA

Mead sintetiza os últimos 300 anos da história moderna na sigla inglesa UP (United ProvincesUnited KingdomUnited States), descrevendo a hegemonia sucessiva das potências comerciais marítimas anglo-saxãs e holandesas contra grandes impérios continentais centralizados e tecnocráticos (como a França de Luís XIV e Napoleão, a Prússia/Alemanha nas Guerras Mundiais e a União Soviética).

A estratégia de domínio global baseia-se em cinco pilares fundamentais:

  1. Sociedade aberta e dinâmica interna: Tolerância religiosa e institucional que atrai talentos, capital e inovação intelectual (exemplo da Holanda do século XVII acolhendo pensadores como John Locke e permitindo a criação de sociedades por ações e novas tecnologias de navegação).
  2. Projeção comercial global: Escala comercial global (a Holanda operava cerca de 10.000 navios mercantes no século XVII) gerando acumulação de capital sem precedentes.
  3. Pensamento e estratégia em escala mundial: Enquanto potências continentais se desgastavam em conflitos locais (como a Guerra dos Sete Anos disputando a Silésia), o Reino Unido expulsava os franceses da Índia, do Canadá e da América do Norte, fundando as bases do sistema internacional moderno.
  4. Inclusão de concorrentes no sistema aberto: Aplicação do livre comércio global e proteção dos mares pela Marinha Britânica para todas as nações, incentivando potências emergentes (como EUA e Alemanha no século XIX) a enriquecerem dentro da ordem existente em vez de desafiá-la prematuramente.
  5. A armadilha da interdependência: Quando o desafiante entra em guerra contra o líder do sistema, descobre-se totalmente dependente das rotas, matérias-primas e mercados globais (como a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, privada do trigo das Américas e da borracha da Malásia).

Vulnerabilidades Estruturais da China e os Riscos do Isolacionismo

A China opera sob a premissa de que um império continental centralizado pode igualar o poder tecnológico e militar do Ocidente sem liberalismo político. Contudo, Mead aponta que Pequim enfrenta exatamente a vulnerabilidade da dependência externa:

  • Risco de bloqueio naval e econômico: Em caso de conflito direto (como um bloqueio a Taiwan), os EUA e aliados podem estabelecer um contra-bloqueio naval a centenas de milhas da costa chinesa, cortando a importação de petróleo e insumos agrícolas vitais (como a soja do Brasil e da Argentina), além de interromper a exportação de manufaturados.
  • Estratégia energética defensiva de Pequim: Os investimentos maciços da China em energia solar, hidrelétrica e carvão, aliados ao acúmulo de reservas estratégicas de petróleo, não derivam primariamente de preocupações ambientais, mas da necessidade de resistir a um cenário de isolamento comercial prolongado.
  • O perigo do isolacionismo americano: Mead rejeita a tese de que a autossuficiência e a geografia dos EUA permitem o afastamento global. O comércio americano divide-se aproximadamente em três terços: um terço intra-hemisférico (Américas), um terço transpacífico e um terço transatlântico. Além disso, os setores de alta tecnologia e inteligência artificial necessitam de escala global para remunerar investimentos e manter a liderança frente a Pequim.

Tecnologia, Revolução da Informação e a Sociedade de Proprietários

A liderança tecnológica é o motor histórico da hegemonia. A Grã-Bretanha liderou a Revolução Industrial e manteve o domínio por 150 anos. Para os EUA preservarem a liderança na revolução da informação e da IA sem convulsão social interna, Mead defende a renovação da tradição americana de sociedade proprietária:

  • Evolução histórica da propriedade cidadã:
    1. República Agrária: O modelo jeffersoniano de pequenos proprietários de terra autossuficientes e politicamente engajados.
    2. Expansão Industrial: O Homestead Act e as concessões federais de terras às ferrovias, que criaram um mercado nacional e distribuíram terras para agricultores.
    3. Sociedade Pós-Segunda Guerra: A substituição da fazenda pela casa própria nos subúrbios (single-family suburban home), subsidiada pelo código tributário e títulos municipais isentos de impostos.
  • A "Infrainfraestrutura" da Era Digital: Mead propõe usar o trabalho remoto/híbrido e veículos autônomos para expandir os limites de deslocamento urbano de cerca de 40 para 75 milhas. Isso multiplica geometricamente a área residencial viável, barateia a habitação para novas gerações e reduz a necessidade de gastos fiscais em expansão de infraestrutura física tradicional.

As Quatro Tradições da Política Externa Americana e os "Hamiltonianos Tecnológicos"

Mead classifica a política externa dos EUA em quatro correntes históricas decorrentes dos debates fundacionais do país:

  1. Hamiltoniana: Foco no capitalismo robusto, comércio exterior, aliança entre governo e grandes empresas, e infraestrutura nacional (exemplificada historicamente por Alexander Hamilton e George H. W. Bush).
  2. Wilsoniana: Foco moral na promoção global da democracia, direitos humanos e fortalecimento de instituições multilaterais para erradicar as causas da guerra.
  3. Jeffersoniana: Preocupação com a preservação da liberdade e contenção do governo federal; postura isolacionista no exterior para evitar o surgimento de um Estado militarizado e endividado.
  4. Jacksoniana: Nacionalismo bélico e pragmático. Não busca transformar o mundo nem promover democracia, mas prega resposta militar esmagadora e total caso a honra ou a integridade dos EUA sejam atacadas (ativada historicamente após Pearl Harbor e o 11 de Setembro).
  • O consenso atual e a ascensão dos "Hamiltonianos Tecnológicos": O antigo consenso democrata (aliança Hamiltoniana-Wilsoniana) foi substituído na base conservadora por uma coalizão Jacksoniana-Jeffersoniana (representada por figuras como JD Vance na vertente jeffersoniana/isolacionista e Marco Rubio na postura assertiva). Paralelamente, o Vale do Silício abandonou o cosmopolitismo apátrida dos anos 1990 e alinhou-se com o Estado americano em torno da segurança nacional, cadeias de suprimentos, defesa da propriedade intelectual e rivalidade contra a esfera tecnológica chinesa.

Outros Polos de Poder e a Divergência de Civilizações

  • Índia: Com 1,44 bilhão de habitantes e armamento nuclear, a Índia atua como uma força reformista da ordem internacional (conforme formulado pelo ministro das Relações Exteriores S. Jaishankar), em oposição à postura revisionista chinesa. Mead ressalta o papel político-social do BJP e da organização nacionalista hindu RSS (com cerca de 86.000 células locais semanais).
  • Divergência cultural impulsionada pela informação: Ao contrário da Revolução Industrial, que impunha padronização institucional no modelo ocidental, a revolução da informação permite que países utilizem suas próprias culturas e línguas nativas como plataformas autônomas, tornando a Turquia mais turca, a Índia mais indiana e o Japão mais japonês.

A Transformação da Guerra, Taiwan e o Despertar do Japão

  • Lições militares da Ucrânia: Mead relata suas visitas à Ucrânia durante o conflito, onde constatou a quase total substituição das baixas por armas de fogo pelo domínio absoluto de drones e munições guiadas, gerando zonas de engajamento onde concentrações tradicionais de tropas são inviáveis. O uso de drones navais pela Ucrânia (país sem marinha formal) para neutralizar a frota russa no Mar Negro demonstra a vulnerabilidade das forças convencionais pesadas (como tanques e navios de guerra de grande porte).
  • Cenário em Taiwan: Em vez de uma invasão anfíbia imediata de alto risco, Pequim tende a adotar estratégias graduais ("abaixo do radar"), como um bloqueio alfandegário suave que exija inspeção prévia de navios em portos continentais antes de atracarem na ilha.
  • Reação japonesa: O Japão identificou o controle chinês sobre Taiwan como ameaça direta à sua própria independência, elevando gastos de defesa e reformulando sua doutrina militar histórica.

Oriente Médio, Desordem Interna e Dissuasão

  • Colapso do equilíbrio regional: A derrocada do nacionalismo árabe histórico (Egito, Síria, Iraque) abriu espaço para o avanço da influência do Irã através do "crescente xiita". A estabilidade do Estreito de Ormuz segue vital; Mead adverte que a vulnerabilidade das usinas de dessalinização e da infraestrutura do Golfo a ataques de drones iranianos inviabiliza a atração de investimentos privados de longo prazo na região caso não haja dissuasão crônica e clara garantida pelos EUA.
  • Crise estrutural interna nos EUA: Mead aponta o desmantelamento das três classes que sustentavam a estabilidade pós-guerra:
    1. A classe trabalhadora industrial sindicalizada e economicamente previsível.
    2. A classe empresarial corporativa institucionalizada e gerida por executivos profissionais.
    3. A classe tecnocrata/burocrática equilibradora.

Perspectivas para os Próximos 20 Anos

  • Equilíbrio de poder na Ásia: Mead aponta a discrepância de crescimento entre a China e o restante da Ásia como a raiz da instabilidade. Em 1980, o PIB da Índia equivalia a cerca de 60%–65% do PIB chinês; hoje, representa cerca de 17%. A contenção sustentável da China dependerá do fortalecimento econômico de atores regionais como Índia, Indonésia e Vietnã.
  • IA na tomada de decisão estratégica: A automação algorítmica de respostas em segurança nacional fortalece a credibilidade da dissuasão ao eliminar a hesitação humana, mas introduz o risco do conceito de "máquina do juízo final" (doomsday machine).
  • Otimismo em biotecnologia e produtividade: Mead projeta deflação de custos no setor de saúde impulsionada pela IA e avanços farmacêuticos (citando o caso de tratamentos experimentais recentes para câncer de pâncreas de seu amigo Ben Sasse), prevendo que a melhora na eficiência do atendimento a idosos reduzirá as pressões estruturais sobre o déficit fiscal e o programa Medicare nas próximas décadas.