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Why AI Agents Could Finally Reinvent the Credit Card

a16z03 de setembro de 202659minVer no YouTube|

O investidor Alex Rampell (General Partner da Andreessen Horowitz) e o empreendedor Max Levchin (co-fundador e CEO da Affirm e co-fundador do PayPal e da Slide) discutem a evolução dos últimos 25 anos no setor de pagamentos e tecnologia financeira com o apresentador Erik Torenberg. A conversa detalha as restrições estruturais das redes legadas de cartão, os bastidores da criação e do ajuste de produto-mercado (Product-Market Fit) da Affirm, as táticas de modelo de negócios em crédito ao consumidor e o impacto da inteligência artificial no comércio e nos pagamentos intermediados por agentes.


A Inércia da Infraestrutura de Pagamentos e o Domínio do Cartão

Alex Rampell pontua que a mudança de comportamento do consumidor em pagamentos é um processo historicamente lento, impulsionado por choques estruturais:

  • Migração para o padrão EMV (Europay, Mastercard, Visa): Não ocorreu por demanda do usuário, mas por uma mudança de responsabilidade sobre fraudes (liability shift). Lojas físicas (como a Best Buy) eram responsabilizadas pelo prejuízo de compras contestadas caso ainda utilizassem a tarja magnética. Para evitar perdas, o varejo trocou os terminais.
  • Adoção do pagamento por aproximação (contactless): Os novos terminais com suporte a NFC já estavam instalados nos pontos de venda, mas permaneceram subutilizados até que a pandemia de COVID-19 forçou a digitalização e a mudança definitiva de hábito.

Max Levchin destaca a rigidez das redes de pagamento tradicionais:

  • A janela de 2,5 segundos: Desde a passagem do cartão até a confirmação entre banco emissor, bandeira (Visa/Mastercard), adquirente e comerciante, a transação precisa ser autorizada em no máximo 2,5 segundos; caso contrário, expira ou é cancelada. Essa regra tem cerca de 60 anos de existência.
  • Enclaves seguros: Soluções como Apple Pay e Google Pay contornaram essa restrição criando enclaves criptográficos nos dispositivos para autenticar a identidade e os dados do cartão antes mesmo de abrir a chamada com a rede Visa/Mastercard.
  • Falta de leilões de crédito em tempo real: As bandeiras nunca ampliaram essa janela para, por exemplo, 15 segundos, o que permitiria que emissores competissem em tempo real com lances de melhores taxas de juros para o consumidor.
  • A economia de escala dos pagamentos: Max afirma que "não existe nicho menor que 100 bilhões de dólares em pagamentos". No entanto, a margem percentual (take rate) é inversamente proporcional ao volume financeiro: transações corporativas trilionárias pagam taxas mínimas (basis points), enquanto transações de baixo tíquete (como redes de restaurantes Quick Service - QSR) oferecem as maiores margens. O Starbucks criou o Starbucks Pay exatamente para consolidar recargas pré-pagas e pagar a taxa de intercâmbio de cartão apenas uma vez por recarga de US$ 50, eliminando o custo fixo por café vendido.

A Assimetria do Financiamento B2B e o Domínio "Pay Me Sooner"

Em abril de 2011, Alex e Max debateram a criação de uma versão do Bill Me Later voltada para o mercado corporativo (Pay Me Sooner):

  • O mecanismo da discrepância de crédito: Grandes corporações (ex.: General Electric) impõem prazos de pagamento estendidos (Net-90) a pequenos fornecedores. Para pagar a folha de pagamento, o fornecedor precisa descontar as faturas em bancos ou empresas de factoring a taxas de juros em torno de 15% ao ano. Ao mesmo tempo, a própria GE capta recursos emitindo títulos de dívida a SOFR + 10 pontos-base (~5% ao ano).
  • Embora o risco final do pagamento seja da GE e não do fornecedor, o mercado de factoring precifica o crédito no elo mais fraco. Apesar da oportunidade teórica, Max e Alex descartaram o avanço na ideia devido à menor margem unitária do crédito B2B frente ao crédito ao consumidor e à alta competição de fornecedores dispostos a financiar recebíveis com margens comprimidas.

Criptografia, Falhas de UX e o Fracasso das Moedas Cripto em Pagamentos Diários

Max relembra a evolução das tentativas de substituir o cartão físico:

  • A falha do anonimato: Antes do PayPal, Max participou da festa de encerramento da DigiCash (empresa de dinheiro eletrônico baseada em assinaturas cegas criada por David Chaum). O projeto faliu por falta de adequação ao mercado. Posteriormente, Max foi vaiado em uma conferência de criptografia ao apresentar o modelo do PayPal, porque a solução abria mão do anonimato para priorizar conveniência e facilidade de checkout.
  • Hardware e biometria: Dispositivos dedicados (como a varinha RFID Speedpass em postos de gasolina) e sistemas biométricos (como o escaneamento de palma Amazon One, recentemente reduzido pela Amazon) falham em criar redes bilaterais duradouras. Em pagamentos, não há meio-termo: ou a rede atinge massa crítica universal, ou desaparece.
  • Criptomoedas vs. Dinheiro de Uso Diário: Levchin reconhece o whitepaper do Bitcoin como uma solução matemática para o problema dos Generais Bizantinos e vê as criptomoedas e stablecoins como excelentes reservas de valor ou trilhos para transações específicas. Contudo, rejeita o uso como moeda de troca para o varejo comum ("comprar uma xícara de café"): quanto menor o tíquete da compra, mais a conveniência da interface (UI) supera qualquer benefício de custo da infraestrutura.

A Gênese da Affirm: Do "Pajama Problem" ao Modelo do Armazém Geral

Alex Rampell comandava a TrialPay (plataforma que monetizava jogos sociais como FarmVille oferecendo bens virtuais para quem contratava serviços de parceiros como Geico ou Netflix). Max havia vendido sua startup Slide para o Google, onde liderou operações antes de sair para empreender novamente.

A parceria começou a tomar forma após a conferência da Allen & Company em março de 2009. Ao decidir criar uma nova empresa com Nathan Gettings e Jeffrey Kaditz, o foco inicial girava em torno de duas teses:

  1. O "Pajama Problem" (Problema do Pijama): O consumidor está na cama ou no sofá navegando pelo smartphone, deseja comprar algo anunciado na TV ou no celular, mas o cartão de crédito está no andar de baixo. A fricção de levantar para buscar o cartão destruía a taxa de conversão.
  2. Pagar com Identidade (O modelo do Armazém Geral do Século XIX): Reproduzir o modelo em que o comerciante local conhecia o cliente e anotava a dívida no caderno para pagamento posterior (similar ao fiado de mercearias em Israel ou à prática histórica no Japão de anotar despesas no verso do cartão de visitas do cliente).

O Demo na 1-800-Flowers

Na conferência da Allen & Company de 2012, Alex e Max marcaram um café com Jim McCann, fundador da 1-800-Flowers. Na noite anterior, Alex codificou em PHP um clone do fluxo de checkout da 1-800-Flowers integrado ao Facebook Connect:

  • O sistema validava a identidade do comprador pelo perfil do Facebook (exigindo mais de 500 amigos e contas sem histórico interno de fraude).
  • A compra era aprovada instantaneamente com a garantia de que a startup (então chamada Expedite Software Inc.) assumiria o risco integral de inadimplência.
  • Jim McCann aceitou testar o produto, lembrando que no início da floricultura soldados ligavam sem cartão para enviar flores às esposas e pagavam depois.
  • Na implementação conduzida com Amit Shah (executivo da 1-800-Flowers), Alex definiu uma taxa de desconto do comerciante (MDR - Merchant Discount Rate) de 7%. Rob Fyfe (posteriormente contratado na equipe de finanças) apontou que o produto era insustentável porque fornecia "flores de graça" ao consumidor sem cobrar taxa de juros (APR).

A Travessia do Deserto e o Ponto de Virada no Parcelamento

A operação na 1-800-Flowers estagnou: a empresa não conseguia justificar os 7% de taxa cobrados, já que a conversão não aumentava o suficiente para compensar o custo superior ao do cartão de crédito tradicional.

O Product-Market Fit ocorreu com a Beautylish (e-commerce de cosméticos fundado por Nils):

  • Em vez de adiar o pagamento total para 30 dias depois, a loja exibiu o parcelamento em 3 vezes sem juros diretamente na página do produto (shampoos e perfumes).
  • Resultado: A taxa de conversão do site aumentou imediatamente em 30%.
  • A virada de tese: A dor central do consumidor não era a conveniência de não digitar os números do cartão (pajama problem), mas o gerenciamento de fluxo de caixa e orçamento (budgeting problem).

O modelo se expandiu rapidamente para marcas de venda direta ao consumidor (D2C):

  • Tradesy.com: A fundadora Tracy reportou aumentos de 35% nas vendas após integrar a Affirm.
  • Mercado de colchões na caixa (Casper, Purple): O setor de colchões apresentava margens brutas superiores a 80%, produção baseada em espuma sintética comprimida e um ciclo de recompra longo (segundo estudo da Harvard Business Review, consumidores trocam de colchão a cada 7 anos). Como a janela de conversão era crítica, os fabricantes estavam dispostos a pagar MDRs elevados para a Affirm financiar colchões de US$ 1.200 em parcelas de US$ 30 por mês.
  • Tentativa no setor de educação com fins lucrativos: A Affirm testou o financiamento de cursos e bootcamps de programação (como clones da University of Phoenix e General Assembly), onde as instituições aceitavam MDRs de até 50%. A Affirm abandonou o setor em seis meses devido à altíssima taxa de inadimplência decorrente da baixa qualidade dos cursos e da insatisfação dos alunos.

0% de Juros Real vs. Cartões de Juros Diferidos (Deferred Interest)

Max Levchin estruturou a Affirm em oposição direta às práticas predatórias do crédito rotativo tradicional:

  • O mecanismo do juro diferido (Deferred Interest): Cartões de lojas de departamento divulgam "0% de juros por 12 ou 24 meses" acompanhados de um asterisco. Se o consumidor atrasar o pagamento por um único dia ou deixar de pagar um centavo do saldo total, a taxa de juros integral retroage ao valor original da compra desde o primeiro dia (uma compra de US$ 1.000 pode se transformar em uma dívida de US$ 3.000).
  • A política da Affirm: O financiamento a 0% é garantido sem asteriscos, sem aplicação de juros retroativos e sem cobrança de multas por atraso (late fees). O comerciante subsidia o custo financeiro via MDR para viabilizar a taxa zero como ferramenta de aquisição de vendas.

Vantagens Estruturais: CAC Negativo e Prazos Longos de Subscrição

Alex e Max detalham os diferenciais de modelo que sustentam a escala da Affirm (com mais de 50 milhões de clientes transacionados nos EUA e presença em 4 países):

  • Custo de Aquisição de Clientes (CAC) Negativo: Enquanto a maioria das empresas de consumo consome caixa pagando anúncios no Google e Meta, a Affirm é paga pelos comerciantes (via MDR) para adquirir novos usuários no checkout.
  • Posse do relacionamento com o consumidor: Diferente do modelo B2B2C tradicional (onde plataformas não querem intermediários conversando com a base), os lojistas preferem terceirizar a gestão de cobrança, risco e atendimento de inadimplência para a Affirm.
  • Empréstimos de prazo longo (até 3,5 anos) vs. BNPL tradicional (6 semanas): A maioria dos concorrentes de BNPL limita-se a compras parceladas em 4 vezes ao longo de 6 semanas. A Affirm desenvolveu modelos proprietários de machine learning para subscrever crédito parcelado em até 36 a 42 meses. Isso gera de 12 a 39 pontos de contato direto com o usuário (notificações de fatura, confirmações de pagamento), transformando a Affirm em um canal de mídia e geração de demanda para novos produtos dos comerciantes parceiros.

A Cultura da "Máfia do PayPal"

Ao analisar por que o PayPal gerou tantos fundadores de empresas de grande porte (YouTube, Yelp, LinkedIn, SpaceX, Palantir, Founders Fund), Max aponta dois fatores documentados no livro The Founders, de Jimmy Soni:

  1. Critério seletivo de contratação: Nas entrevistas, a equipe priorizava candidatos que afirmavam explicitamente: "Este é o meu último emprego; depois daqui, vou fundar minha própria empresa". A liderança contratava deliberadamente futuros empreendedores.
  2. Desmistificação da liderança pela convivência intensa: A equipe conviveu durante anos sob estresse extremo, noites sem dormir e crises de fraude. Ver figuras como Elon Musk, Peter Thiel e David Sacks exaustos, inseguros e enfrentando limites humanos removeu o mito de que grandes fundadores são sobre-humanos. A percepção de que pessoas comuns com grandes ambições podem construir projetos globais serviu de incentivo direto para que todos criassem suas próprias companhias.

Agentes de Inteligência Artificial: Compras (Shopping) vs. Pagamentos (Payments)

Max Levchin e Alex Rampell encerram contrastando onde a IA generativa causará impacto no varejo:

O Ceticismo com o "Agentic Shopping"

Max Levchin duvida que agentes autônomos substituam a decisão humana de compra de produtos discricionários (como roupas para sair ou peças especializadas de bicicleta):

  • A experiência de comparar, pesquisar e selecionar faz parte do consumo.
  • Confiabilidade de entrega vs. Menor Preço: Mesmo que a IA encontre a peça mais barata em uma loja desconhecida dos anos 90 ("Bike Closet"), o consumidor frequentemente prefere pagar mais caro em um fornecedor confiável para garantir entrega pontual e suporte em devoluções.

A Oportunidade no "Agentic Payments"

Max é extremamente favorável ao uso de agentes na camada de transação e pagamento:

  • Uma vez que o consumidor decide comprar, a fricção do checkout (inserir dados, selecionar a melhor fonte de financiamento, balancear benefícios de múltiplos cartões de crédito) deve ser totalmente delegada a um agente inteligente.
  • O cartão de crédito tradicional de plástico e chip será desafiado por agentes que sabem exatamente qual linha de crédito ou cartão oferece as melhores condições em tempo real para cada transação.
  • Alex Rampell ressalta que o comportamento difere entre dois perfis: consumidores que valorizam mais o tempo que o dinheiro (que delegam tudo) e os que valorizam mais o dinheiro que o tempo (usuários de ferramentas como o site CamelCamelCamel, focados em encontrar a mínima variação de preço histórico).

Max conclui lembrando que o modelo de terceirização de compras já existe em escala no mundo real: serviços como o Instacart, onde o comprador humano atua como um agente terceirizado que substitui marcas de leite indisponíveis e toma decisões de compra com 99,9% de aceitação pelo cliente final.