The Real Story Behind the Internet's Biggest Wellness Trends
A Realidade por Trás das Tendências de Otimização Corporal e Cultura da Internet
Elena Burger entrevista Ruby Justice Thelot, acadêmico e etnógrafo digital, para analisar a fronteira entre fenômenos que dominam as redes sociais e mudanças comportamentais concretas no mundo real. O foco central da conversa é a cultura de bem-estar, biohacking, uso de peptídeos/GLP-1s, rastreamento biométrico (quantified self) e a evolução histórica da modificação corporal.
Paraconteúdo e o Descompasso entre Discurso e Adoção Real
Ruby Justice Thelot define o conceito de paraconteúdo (paracontent), detalhado em seus ensaios The Age of Paracontent e The Post Is the Product, como o "conteúdo sobre o conteúdo". Trata-se da proliferação de comentários, análises e reações que ganham vida própria e geram uma percepção inflada de relevância, muitas vezes sem correspondência na realidade material (como as reações desproporcionais a trailers de filmes ou ao trailer de GTA 6).
- Estudo sobre heteropessimismo: Em uma análise empírica de cerca de 2.000 vídeos no TikTok e Instagram Reels sobre desilusão em relacionamentos heterossexuais, Thelot constatou que 40% do conteúdo era positivo e o restante neutro, contrastando com a narrativa dominante na internet de que o pessimismo amoroso seria hegemônico.
- Disparidade de adoção vs. notoriedade: Pesquisas do Instituto Gallup ilustram a proporção aproximada de 1 para 10 entre usuários reais e público consciente do tema em setores impulsionados pela tecnologia:
- GLP-1s (Ozempic, Wegovy): 90% dos adultos norte-americanos conhecem os medicamentos; 11% fazem uso deles.
- Criptomoedas: 95% dos adultos conhecem; 14% possuem ativos.
- Proporções similares ocorrem em categorias como realidade virtual (VR) e kits de refeição por assinatura.
A Rota Cultural dos Peptídeos: Do Meio-Oeste ao Vale do Silício
Elena Burger observa que o Vale do Silício frequentemente recebe o crédito por tendências culturais que apenas escala ou profissionaliza. O uso de peptídeos (tanto os regulados, como GLP-1s, quanto os do mercado cinza, como peptídeos importados da China para reparação muscular, cognição e antienvelhecimento) não nasceu nas empresas de tecnologia de San Francisco, mas em comunidades de fisiculturismo no Meio-Oeste dos EUA e em medspas de cidades como Austin, Texas.
Análise de Sentimento e Ciclo de Conteúdo no TikTok
Em levantamento conduzido por Thelot sobre uma amostra de 960 vídeos sobre peptídeos publicados entre 2024 e 2026:
- Categorias identificadas: O conteúdo se divide entre promocional, exploração pessoal (formato day in the life usando Ozempic), educacional e alertas céticos/advertências (19%).
- Evolução temporal: O início é marcado por conteúdo de fisiculturismo e perda de peso; nos anos seguintes, cresce a contestação sobre eficácia e segurança clínica.
- Paratecnologia e consumo aspiracional: Thelot compara esse comportamento ao de "paratecnologias" (ferramentas para mitigar o vício em telas, como os apps Opal e Brick, celulares básicos ou sachês de nicotina). O público assiste em iPhones a vídeos sobre não usar celulares, da mesma forma que assiste a influenciadores de dietas saudáveis (como Emily Mariko) antes de pedir comida por aplicativo de entrega.
História Econômica e Social da Magreza
Embora dados recentes indiquem a primeira queda agregada na taxa de obesidade nos EUA — impulsionada pelos GLP-1s e pela contaminação comportamental —, Thelot contextualiza a busca pela magreza a partir de rupturas históricas:
- Século XVII e a introdução do açúcar: Com a expansão da produção açucareira inglesa em Barbados, o açúcar deixou de ser exclusividade da nobreza. O aumento do consumo gerou obesidade e gota nas classes médias. Em 1620, o Dr. Tobias Venner popularizou o termo latino obesus e criou as primeiras dietas prescritivas na Inglaterra. A magreza passou a ser associada à virtude, inteligência e contenção de apetites (citada por René Descartes e Alexander Pope), enquanto a gordura passou a carregar estigma de torpor mental (como na fala de Júlio César em Shakespeare).
- A evolução tecnológica dos espartilhos: Inicialmente peças de alta costura que exigiam criados para amarrar as costas, os espartilhos se popularizaram com o tear mecânico, a máquina de costura e o redesenho com fechos frontais, permitindo o uso autônomo pelas massas. Burger traça um paralelo com a farmacologia moderna: a passagem de injeções complexas para canetas aplicadoras automáticas e versões orais de GLP-1s.
- Oscilações do pós-guerra aos anos 1990: Períodos de escassez (Guerras Mundiais e Grande Depressão) devolveram prestígio a corpos mais cheios como sinal de saúde (remetendo às proporções de Albrecht Dürer). A partir dos anos 1990, a influência de estilistas europeus instaurou o padrão das supermodelos e a estética heroin chic, movimento que agora ressurge impulsionado pela biotecnologia.
Rastreamento Biométrico, Microplásticos e Futurismo Corporal
O conceito de Quantified Self formulado por Kevin Kelly na revista Wired em 2007 (ano do lançamento do Fitbit, seguido pelo Apple Watch em 2015) levou quase duas décadas para se consolidar no consumo de massa.
- Futurismo Corporal (Body Futurism): Conceito cunhado pelo ensaísta Toby Shorin, que postula que, ao atingirmos os limites da inovação no silício, voltamos o microscópio e a engenharia para o próprio corpo humano, buscando revolucionar órgãos internos com a mesma lógica dos produtos de software.
- Testagem de microplásticos: Burger cita a iniciativa financiada por investidores como Nat Friedman em parceria com o Light Labs (Austin, Texas), que realizou testes abertos de microplásticos em produtos de consumo (como refeições do Whole Foods, chá de boba, barras de proteína e fórmulas infantis). A iniciativa mobilizou consumidores a investigar fórmulas lácteas infantis e estimulou a demanda por embalagens livres de plástico e garrafas de vidro.
- Saturação de tendências (protein maxing e óleos de sementes): Movimentos restritivos (como dietas sem óleos de sementes e dietas baseadas nos princípios de Ray Peat) e a obsessão por proteína chegam ao varejo quando marcas estampam o teor proteico inalterado em embalagens para atender à demanda, gerando fadiga no consumidor.
Previsões: Divergência, Nocebo e o Corpo Pós-IA
Burger e Thelot debatem se as tendências de aprimoramento corporal caminham para uma padronização acelerada ou para uma fragmentação:
- Efeito nocebo da quantificação: Um estudo clínico com usuários do Oura Ring demonstrou que fornecer dados falsos indicando uma pontuação de sono ruim fez com que os participantes relatassem um dia significativamente pior, mesmo quando o sono real havia sido de alta qualidade. O erro do dispositivo afeta a percepção subjetiva de saúde.
- Bifurcação cultural: Em vez de um consenso homogêneo, a cultura se torna "polilítica". Ocorre um crescimento paralelo entre a extrema quantificação biométrica e o retorno a práticas holísticas e esotéricas de autocuidado (Reiki, acupuntura).
- Biohacking heterogêneo e sono: Burger descarta que a sociedade convirja para um padrão estético único de cirurgia plástica ou harmonização. A tendência aponta para otimizações fragmentadas e extremas. A próxima fronteira apontada é o sono, com fundadores desenvolvendo hardwares capazes de induzir a recuperação de uma noite completa em quatro horas, maximizando o tempo de vigília.
- O corpo como único refúgio na era da IA: Thelot conclui que, em um cenário de automação profunda pela inteligência artificial e abundância material no silício, o corpo físico torna-se o principal território restante onde o indivíduo pode exercer agência, inovação e modificação ativa.
