Saronic's 4 Co-Founders on Building a $9.25B Shipbuilder | Part III
Dino Mavrookas (CEO), Doug Lambert (COO), Rob Lehman (CCO) e Vibhav Altekar (CTO), cofundadores da Saronic Technologies, discutem os fundamentos industriais, tecnológicos e comerciais que levaram a empresa de defesa naval autônoma a atingir uma avaliação de US$ 9,25 bilhões e a levantar cerca de US$ 2,6 bilhões em quatro anos. O diálogo aborda o déficit de capacidade de construção naval dos Estados Unidos em relação à China, o investimento de mais de US$ 3 bilhões no estaleiro Port Alpha, os desafios de fabricação e co-design de hardware e software para ambientes marítimos hostis e a necessidade de reformas nas aquisições de defesa.
O Déficit Naval Americano e a Capacidade Industrial da China
Dino Mavrookas detalha o descompasso de escala entre os complexos de construção naval dos EUA e da China:
- Proporção de construção naval: A China supera os EUA na proporção de 230 para 1 no volume agregado de construção naval e detém 57% de toda a capacidade global de construção de navios.
- Encolhimento da frota naval dos EUA: A Marinha americana opera atualmente cerca de 290 navios tripulados. Em 2018, o Congresso aprovou um piso legal de 355 embarcações; em 2024, a Marinha elevou a meta para 381 navios tripulados, mas a curva de produção continua em declínio.
- Custos e prazos de programas tripulados: O plano de 30 anos da Marinha para atingir 381 navios está orçado em US$ 1,2 trilhão. A construção de um único porta-aviões consome mais de 10 anos, com custos variando entre US$ 13 bilhões e US$ 19 bilhões por unidade.
- Alocação de orçamento para autonomia: Do orçamento de defesa dos EUA para o ano fiscal de 2026 (estimado em torno de US$ 1 trilhão, com pedidos executivos chegando a US$ 1,5 trilhão), apenas 1% é destinado a sistemas autônomos.
- Discrepância no setor comercial: Em navios de guerra de grande porte, a proporção de lançamentos anuais é de 5 a 10 embarcações americanas contra aproximadamente 30 chinesas (cerca de 6:1 ou 7:1). No mercado comercial de grandes navios oceânicos em 2024, a China lançou mais de 1.000 embarcações, enquanto os EUA construíram apenas 5.
- Mecanismo de subsídio chinês: A China consolidou essa vantagem subsidiando integralmente matérias-primas, mão de obra, estaleiros com financiamento a custo zero e subsídios diretos de construção, forçando estaleiros de aliados (como Coreia do Sul e Japão) a importar módulos e mão de obra chineses.
- Base de clientes: A Marinha dos EUA é o maior e principal cliente inicial, mas a Saronic atende Exército (que Mavrookas destaca possuir numericamente mais embarcações que a Marinha), Corpo de Fuzileiros Navais, Guarda Costeira, Força Aérea (busca e resgate em combate), mercado comercial e marinhas aliadas.
Estrutura de Operações, Manufatura e Linha de Produtos (Doug Lambert)
Doug Lambert, que trabalha com tecnologia marítima há duas décadas (com passagem recente pelo setor de submarinos antes de se juntar a Mavrookas na 8VC em 2022), gerencia cerca de 1.600 pessoas nas áreas de operações, engenharia de hardware e cadeia de suprimentos.
Linhagem de Embarcações e Escala
- Evolução de produtos: Antes do modelo em escala Corsair, a empresa desenvolveu as plataformas experimentais menores Spyglass e Cutlass para validar subsistemas. A tecnologia do navio Marauder (180 pés de comprimento) serve como ponte direta para embarcações futuras de 400 pés, 800 pés e até a classe Panamax de 1.200 pés.
- Arquitetura modular de estaleiro: Em vez de concentrar o acabamento diretamente no casco montado, a Saronic terceiriza peças avulsas para montagem externa e soldagem de subconjuntos, montando-os sucessivamente em módulos e supermódulos antes da junção final.
Parcerias de Software e Ferramentaria Industrial
- Palantir Foundry: Utilizado como espinha dorsal de software para planejamento de recursos materiais (MRP), sistema de execução de manufatura (MES), rastreamento de part numbers, logística interna e dashboards para analistas e equipes de relações governamentais.
- Path Robotics: Implementação de soldagem robótica automatizada de alumínio no estaleiro de Franklin/Louisiana (Gulf Craft), visando certificações rigorosas da ABS (American Bureau of Shipping), IMO (International Maritime Organization) e Guarda Costeira dos EUA.
Gargalos de Reindustrialização e Mão de Obra
- Cadeias críticas deslocalizadas: Setores como fundição (casting) e forjamento (forging), além da produção de chicotes elétricos (wire harnessing, historicamente concentrada no México e na Ucrânia), precisam ser reincorporados à produção doméstica americana.
- Redução de barreiras de qualificação: Lambert defende que o excesso de certificações dos últimos 20 anos afastou trabalhadores. A Saronic adota processos de inspeção automatizada, odometria digital, engenharia com menor número de peças e programas de aprendizado prático em estilo de formação de aprendizes para adultos, acelerando a capacitação técnica em semanas.
- Visão de longo prazo: Lambert afirma que o verdadeiro diferencial competitivo (moat) do futuro reside no hard tech e na manufatura física no mundo real, à medida que software e codificação se tornam comoditizados por IA.
Relações Governamentais e Reforma de Aquisições de Defesa (Rob Lehman)
Rob Lehman, que serviu 23 anos no Corpo de Fuzileiros Navais (ativa e reserva) e trabalhou em grandes empresas de defesa e consultoria antes de se juntar à Saronic, comanda o braço comercial, gerenciamento de programas e relações governamentais.
- Integração entre BD e Operações de Programa: As equipes de desenvolvimento de negócios e gerenciamento de programas operam de forma integrada, evitando silos comuns em contratantes tradicionais e retroalimentando a engenharia com dados de campo imediatos.
- Contrato nos primeiros 90 dias: A empresa firmou um CRADA (Cooperative Research and Development Agreement), contrato de custo zero que garantiu acesso antecipado a requisitos reais de operadores da frota, eliminando intermediários burocráticos iniciais em nível de PEO (Program Executive Office) ou Capitólio.
- Reforma do processo de aquisição: Lehman argumenta que o modelo tradicional falha quando oficiais de contratação (contracting officers) barram decisões estratégicas de comandantes por aversão a risco ou apego a regulamentos desatualizados.
- Responsabilidade e IA nos contratos: A solução defendida exige autoridade clara e responsabilização direta para gerentes de programa (PAEs/PMs) e o uso de ferramentas de inteligência artificial para assistir os oficiais de aquisição a identificarem a margem legal de manobra em novas políticas e diretrizes governamentais.
Co-design de Hardware/Software e Desafios de Engenharia Marítima (Vibhav Altekar)
Vibhav Altekar, engenheiro elétrico que atuou na 8VC, estagiou na Juicero (2017) e trabalhou quatro anos na Anduril (participando do desenvolvimento das Sentry Towers), detalha os aspectos técnicos da autonomia marítima:
Metodologia de Desenvolvimento e Bancada de Testes
- Aceleração do ciclo via IA e HIL: O ganho de velocidade em codificação via IA permite ciclos de depuração muito mais rápidos. A Saronic transfere a maior parte dos testes para bancadas de teste com hardware no circuito (Hardware-in-the-Loop - HIL) antes da construção física do casco.
- Caso do Marauder: O conjunto gerador (genset), sistema de propulsão e o propulsor de proa (bow thruster) do navio de 180 pés foram totalmente montados e testados em uma sala interna oito meses antes do término do casco, permitindo entregar o navio com software e modelos já maduros.
Co-Design e Arquitetura Aberta Modular (MOSA)
- Padronização de interfaces: Uso de conectores e protocolos de software/hardware padrão para permitir integração rápida de cargas úteis (payloads) arbitrárias sem interfaces proprietárias.
- Controle granular de energia: Módulos de distribuição de energia permitem ligar e desligar componentes individuais (câmeras, radares) remotamente via software — essencial para operar em silêncio eletromagnético contra guerra eletrônica adversária ou reiniciar nós com falha.
Desafios Específicos do Meio Marítimo
- Ambiente de duplo fluido e forças G: Enquanto embarcações tripuladas são projetadas para limites de aceleração de 0,4 G a 0,6 G para conforto e segurança humana, as embarcações autônomas da Saronic suportam rotineiramente impactos superiores a 20 Gs em mar revolto (Sea State 5 ou 6).
- Falta de dados abertos: Ao contrário de drones aéreos (UAVs) ou carros autônomos, não há grandes conjuntos de dados abertos para percepção naval, em parte porque sistemas acústicos e submersos são rapidamente classificados como secretos e as regulamentações civis ainda exigem tripulação a bordo.
- Degradação ambiental e de RF: A água salgada nas antenas degrada a qualidade do sinal e simula interferência eletrônica constante; além disso, missões de 30 dias enfrentam acúmulo biológico (biofouling) e nidificação de pássaros sobre os sensores.
- Redundância de comunicação (Plano PACE): Os navios utilizam matrizes redundantes de RF com e sem linha de visada, Starlink e Starshield. Em caso de perda total de sinal, o software embarcado executa rotinas pré-programadas pelo operador: manter a missão autonomamente, entrar em modo de espera (loiter) ou retornar à base.
