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Moda sustentável - #ParticipaçãoPopular - 16/09/2026

Câmara dos Deputados16 de setembro de 202659minVer no YouTube|

Contexto do Programa

Edição do programa Participação Popular, veiculada pela TV Câmara em 16 de setembro de 2026 e apresentada pela jornalista Vânia Alves. O debate tratou dos impactos ambientais da indústria têxtil, dos desafios da transição para a moda circular e sustentável, das práticas de upcycling, da ancestralidade na moda indígena e do papel econômico dos brechós. Por se tratar de um programa televisivo de debate e entrevistas, não houve deliberação, votação ou apreciação de projetos de lei ou proposições legislativas durante a transmissão.


Diagnóstico e Impactos Ambientais da Indústria Têxtil

A abertura do programa apresentou dados sobre a cadeia global da moda:

  • O setor têxtil responde por uma faixa de 2% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa.
  • É responsável por 9% do volume total de microplásticos despejados anualmente nos oceanos.
  • A produção consome cerca de 215 trilhões de litros de água ao ano e utiliza aproximadamente 15 mil substâncias químicas, muitas das quais levam décadas ou séculos para se degradar no meio ambiente.
  • Dados do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI) apontam que, no Brasil, o consumo de vestuário cresceu 42% em número de peças nos últimos 25 anos, consolidando a substituição do hábito de reparo pelo descarte rápido.

Limites Conceituais da Moda Sustentável e a Cadeia Produtiva

Rafaella de Castro Lacerda (pesquisadora em sustentabilidade e moda, colaboradora do Lab Moda da Universidade de Brasília – UnB):

  • Ceticismo conceitual: Afirmou que a sustentabilidade exige o alinhamento simultâneo de três pilares fundamentais — social (justiça no pagamento a costureiras, artesãos e agricultores), ambiental (preservação ecológica) e econômico (viabilidade comercial). Em 20 anos de carreira, declarou nunca ter presenciado a sincronia plena desses três eixos no setor têxtil.
  • Origem da matéria-prima: Ressaltou que a moda depende diretamente das duas cadeias industriais mais poluentes do planeta: a agropecuária (monoculturas de algodão e linho; fibras animais como lã e seda) e a petroquímica (fibras sintéticas e artificiais derivadas do petróleo, como poliéster e elastano).
  • Histórico de barateamento e hiperprodução: Explicou que o processo de produção acelerou dramaticamente a partir de meados da década de 1990 (com a abertura de mercados globais como o NAFTA no governo Bill Clinton e a transferência fabril para a Ásia). Isso banalizou o valor percebido das roupas e gerou estoques globais excedentes suficientes para vestir as próximas três gerações sem necessidade de novas manufaturas.
  • Lixo têxtil e o Deserto do Atacama: Mencionou as toneladas de sobras e peças com pequenos defeitos descartadas no deserto chileno pelo Norte Global. Enfatizou que apenas 0,09% das roupas descartadas no mundo passam por processos efetivos de reciclagem.
  • Incompatibilidade química em upcycling: Detalhou sua pesquisa sobre a "mitigação dos monstros híbridos", metodologia que analisa a composição das fibras antes de reformá-las, evitando a mescla de tecidos com taxas de decomposição distintas (como algodão e poliéster), o que inviabiliza o descarte ecológico posterior.
  • Limbo regulatório no Brasil: Alertou que a Política Nacional de Resíduos Sólidos não contempla o resíduo têxtil com fluxos específicos de coleta seletiva, pontos de entrega voluntária ou reciclagem industrial, resultando em destinação incorreta em aterros comuns.

Moda Regenerativa, Criação Artística e Precificação Social

Victor Hugo Soulivier (designer de moda, artista plástico, diretor de arte e fundador do coletivo Tela Ambulante):

  • Origem e necessidade: Relatou que a marca surgiu durante a pandemia de Covid-19 a partir da necessidade de subsistência e da memória afetiva de sua mãe costureira, fundamentada na cultura de consertar, cerzir e transformar roupas desgastadas.
  • Diretrizes e Slow Fashion: Trabalha alinhado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12 (ODS-12 da ONU), voltado ao consumo e produção responsáveis. Enquanto o fast fashion produz em massa, suas peças levam de 3 a 4 dias apenas na etapa de pintura manual com tinta 3D em relevo, após processos de garimpo em brechós, higienização, corte, recostura e aplicação de pedrarias.
  • Reconhecimento internacional: Peças de sua coleção desfilaram na Bienal de Cinema de Veneza (Red Carpet) e no Metropolis Catwalk, utilizando bases reaproveitadas de couro garimpado, lãs e capas de chuva descartadas.
  • Risco de cobertura às grandes indústrias: Citando a criadora Sandra Lima, ponderou que iniciativas de upcycling não podem servir de álibi moral ou "cobertura" para que grandes conglomerados têxteis continuem produzindo lixo sem assumir a responsabilidade direta pelo pós-consumo.
  • Tabela progressiva e precificação social: Defendeu que a moda sustentável não seja restrita às elites econômicas. Mantém garantia vitalícia de restauro para suas criações e aplica faixa de preços que varia de R$ 150 a R$ 13.000 (esta última correspondente a traje utilizado na posse presidencial de 2023, citado no jornal The New York Times), modulando valores conforme a renda e a localização dos clientes.

O Papel dos Brechós e da Economia Circular

Rafaela Lacerda (designer de moda e idealizadora do festival Remoda em Brasília):

  • Mitigação do impacto: Defendeu que o foco deve ser a redução prática de danos e a extensão da vida útil de itens já fabricados, tornando o reuso mais ecológico do que a confecção de novas peças virgens.
  • Desmistificação de preconceitos: Combateu o estigma de que peças de segunda mão são sujas ou de má qualidade, comparando o uso ao de lençóis de hotel e talheres de restaurantes. Pontuou que as feiras e brechós promovem educação de consumo e valorizam a exclusividade de cortes e peças vintage não encontradas no varejo tradicional.
  • Impacto das redes sociais: Criticou plataformas como o TikTok pela imposição de microtendências renovadas a cada duas semanas, mecanismo que incentiva o consumo compulsivo de tecidos sintéticos descartáveis.

Reportagem externa no Brechó Supri (Brasília) — conduzida pela repórter Tânia Paula:

  • Guilherme Teles (24 anos, proprietário do Brechó Supri): Explicou que abriu o negócio como alternativa de acesso à moda de qualidade. O acervo divide-se entre peças contemporâneas e artigos vintage (mais de 20 anos ou com etiquetas antigas CGC). Informou que o ticket médio é de R$ 90, com itens variando de R$ 40 a R$ 700.
  • Guto Henrique (24 anos, proprietário de brechó masculino e ativista de upcycling): Atua no setor há cinco anos. Explicou que o nicho masculino é voltado ao streetwear e peças esportivas das décadas de 1990 e 2000, além de customizar roupas danificadas em bermudas e calças novas.
  • Depoimentos de consumidores: Ana Luíza (estudante de fonoaudiologia, 21 anos) e Isaac Caixeta (estudante de história, 25 anos) relataram a substituição do consumo de shopping por brechós em razão do custo-benefício e da durabilidade superior dos tecidos antigos comparados ao vestuário de redes de departamento.

Moda Indígena Ancestral e Autonomia Autoral

We'ena Tikuna (designer, ativista e artista plástica do povo Tikuna):

  • Ancestralidade como sustentabilidade nativa: Enfatizou que os povos originários sempre praticaram moda sustentável por meio de vestimentas e pinturas corporais derivadas da terra como expressão de identidade e proteção cultural, utilizando sementes de açaí, tucumã e palha de buriti.
  • O tecido ancestral Tururi: Destacou o uso do tururi — fibra extraída da entrecasca de árvores amazônicas, historicamente empregada pelo povo Tikuna para vestes e outros usos tradicionais —, o qual levou pela primeira vez às passarelas no evento Brasil Eco Fashion Week em 2018.
  • Ativismo e quebra de tutela: Afirmou que a moda indígena representa um ato político em defesa da demarcação e da vida dos mais de 305 povos e 280 línguas indígenas remanescentes no Brasil. Ressaltou a relevância de os próprios indígenas assinarem suas criações autorais, rompendo a apropriação e a tutela histórica exercida por estilistas e marcas não indígenas.

Certificação, Greenwashing e Custos na Indústria Sustentável

Francisca Vieira (presidente da Associação Brasileira da Indústria da Moda Sustentável – ABIMS e fundadora da marca Natural Cotton Color):

  • Combate ao greenwashing: Condenou o rótulo de sustentável aplicado ao poliéster reciclado, apontando que o material demora cerca de 220 anos para se degradar e já vem sendo descartado como insumo sustentável na legislação e nos mercados europeus.
  • Algodão colorido orgânico da Paraíba: Detalhou a tecnologia do algodão cultivado em sistema de sequeiro (dependente apenas da água da chuva), sem agrotóxicos ou fertilizantes sintéticos e dispensando tingimento químico industrial, o que gera uma economia de 87,5% de água no ciclo.
  • Certificações e conformidade técnica: Destacou a necessidade de auditorias internacionais para atestar a cadeia limpa, como a certificação GOTS (Global Organic Textile Standard) e o selo de rastreabilidade Friend of the Earth. Informou ter investido R$ 1,3 milhão apenas para estruturar a unidade de descaroçamento nas normas exigidas pelo selo GOTS.
  • Estrutura de custos e mercado: Explicou que o algodão colorido sustentável rende de 10% a 15% menos pluma que o algodão convencional e demanda colheita manual. Classificou como ilusória a pretensão do consumidor em exigir produtos sustentáveis certificados com preços equivalentes aos de redes de fast fashion.