Mesa-redonda: Comunicação pública, memória e luta por direitos - 18/09/2026
Auditório Nereu Ramos, Câmara dos Deputados. No dia 18 de setembro de 2026, durante o terceiro dia do 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública (ComPublica 2026) — promovido pela Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública) e pela Câmara dos Deputados —, realizou-se a mesa-redonda institucional "Comunicação pública, memória e luta por direitos". Por se tratar de um painel temático e espaço de debate com entidades da sociedade civil, não houve apreciação ou votação de proposições legislativas.
Contexto e Abertura
A mesa foi mediada por Lília Gomes, vice-presidente de comunicação da ABCPública. Na introdução, Lília citou a canção "O Bêbado e a Equilibrista" (interpretada por Elis Regina) para sublinhar que o resgate da memória e da ancestralidade serve como instrumento de transformação e garantia de não repetição de violações de direitos. Ela destacou que, desde 2025, o congresso abre espaço para movimentos sociais que utilizam a comunicação para suprir lacunas informativas e deveres de transparência não atendidos pelo poder público.
Painel 1: Comunicação Comunitária e Memória Quilombola no Território Kalunga
Expositora: Daniella Teles Maia, comunicóloga, estrategista de branding, diretora-geral e cofundadora da Rede Kalunga Comunicações.
Estrutura e Contexto do Território Kalunga
- Localização geográfica: Situado no Nordeste Goiano, abrangendo os municípios de Cavalcante de Goiás e Teresina de Goiás, estendendo-se até a comunidade Riachão, na divisa com o Tocantins, ao longo do Rio Paranã.
- Dimensão populacional: É o maior território quilombola do Brasil, composto por 39 comunidades e uma população estimada entre 8.500 e 9.000 pessoas (já tendo registrado até 11.000 pessoas em levantamentos anteriores).
- Histórico de estigmatização: Daniela relatou que, no início dos anos 2000, moradores hesitavam em se autoidentificar como quilombolas devido ao estigma imposto por coberturas jornalísticas externas, que rotulavam a região como o "corredor da miséria" e retratavam a população apenas como receptora passiva de cestas básicas.
Linha do Tempo e Projetos da Rede Kalunga Comunicações (RKC)
Fundada por dois publicitários e uma jornalista, a RKC atua como mídia independente para produzir narrativas de dentro para dentro e de dentro para fora do território:
- 2021: Fundação e lançamento do Jornal Kalunga, veículo impresso voltado às comunidades. Foram publicadas 4 edições independentes (com apoio de guias locais) e edições subsequentes financiadas pela Lei Aldir Blanc, alcançando a 10ª edição especial.
- 2022: Início da cobertura contínua de eventos culturais, pautas socioambientais e monitoramento de queimadas no Cerrado.
- 2023: Expansão audiovisual e realização da primeira Oficina de Comunicação Comunitária em parceria com a organização Cerrado de Pé (iniciativa que já capacitou cerca de 500 alunos).
- 2024: Celebração de parcerias com a Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade de Brasília (UnB) e UnB Cerrado. Lançamento dos podcasts KaluCast (vivências locais) e A Voz da Comunidade (focado na população quilombola LGBTQIAPN+).
- 2025–2026: Institucionalização da Rede como associação privada em agosto de 2025, com suporte estrutural do Instituto Unibanco.
Frentes de Atuação, Impacto e Parcerias
- Preservação cultural e memória: Registro audiovisual de tradições e festejos religiosos sincréticos com anciãs (exemplo: cobertura realizada pela jornalista Auxiléia Torres no Vão do Moleque); realização do desfile Raiz da Resistência.
- Educação e incidência política: Mais de 800 participantes formados online pelo Simpósio Afrovivo; projeto de correspondentes territoriais com apoio do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ); engajamento comunitário em campanhas públicas, como a mobilização pela instalação de um Instituto Federal (IF) em Cavalcante de Goiás.
- Turismo de Base Comunitária (TBC): Consultoria e comunicação estratégica respeitando as particularidades de cada comunidade — contrapondo o modelo consolidado de ecoturismo do Engenho II ao modelo de turismo histórico e cultural do Vão do Moleque.
- Métricas acumuladas: Mais de 40 mil seguidores em redes sociais; 2 milhões de visualizações nos 90 dias anteriores ao evento; 7 projetos executados em 2026; mais de 1.000 alunos formados no total; 560 pessoas quilombolas diretamente impactadas, sendo 150 remuneradas de forma fixa pelos projetos.
- Parceiros institucionais: Associação do Engenho II, Associação do Vão do Moleque, Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE), Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Embaixada da Irlanda, Instituto Unibanco, Fundo de Apoio ao Jornalismo e Imaginable.
Painel 2: Memória, Responsabilização e a Tragédia-Crime de Brumadinho
Expositoras: Edi Aparecida Tavares Pinto e Kenya Paiva Lamounier, diretoras da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum).
Fatos e Mobilização das Famílias (Edi Tavares)
- A tragédia-crime: O rompimento da barragem da mineradora Vale S.A., em 25 de janeiro de 2019, causou 272 mortes. Edi (viúva de Nilson de Lermando Pinto) enfatizou que 272 não é uma estatística abstrata, mas 272 identidades e projetos de vida interrompidos.
- A tese da Avabrum: Edi sustentou que "memória é direito, verdade é direito e justiça é direito". Após sete anos e meio de mobilização, afirmou que o crime permanece em curso enquanto persistirem as sequelas sociais e a ausência de responsabilização criminal definitiva.
- Papel da comunicação pública: Criticou o silêncio institucional e a linguagem excessivamente técnica do sistema de justiça, demandando que a comunicação estatal preste contas ativamente para não transformar o tempo processual em esquecimento e impunidade.
Denúncia de Controle de Narrativa e Silenciamento (Kenya Lamounier)
- Impacto imediato: Kenya (viúva de Adriano Aguiar Lamounier, trabalhador da Vale soterrado na barragem) descreveu o desespero das primeiras horas do colapso às 12h28 de 25 de janeiro de 2019, marcado por desinformação e circulação de vídeos em redes sociais sem canal oficial de amparo.
- Estatística das vítimas: Das 272 vidas perdidas, 250 eram trabalhadores da mineradora e de terceirizadas, 20 eram membros da comunidade local e turistas, e 2 eram nascituros.
- Gestão corporativa da tragédia: Kenya acusou a mineradora Vale de agir deliberadamente para proteger sua reputação corporativa e emplacar a versão de "desastre natural". Denunciou que o espaço físico designado para atendimento aos familiares foi a "Estação Conhecimento" (pertencente à própria mineradora), deixando as famílias desamparadas e reféns da empresa causadora do colapso.
- Dignidade e ritos fúnebres: Relatou a desumanização nos termos técnicos ("segmentos e fragmentos" corporais) e o limite de 30 minutos para velórios com caixões lacrados.
- Processo judicial: Kenya pontuou que a impunidade se assemelha a casos como a Boate Kiss, Mariana e Ninho do Urubu. Registrou que a instrução criminal com a realização de oitivas de testemunhas e réus só teve início efetivo a partir de março de 2026 no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), em Belo Horizonte (MG).
Bloco de Perguntas e Respostas
- Juventude e educomunicação no território Kalunga: Questionada sobre o engajamento da "Geração Z", Daniella Teles explicou que as oficinas da RKC capacitam jovens locais para substituir equipes terceirizadas de fora da região. Citou como exemplo a produção do filme sobre a líder comunitária Dona Fiota (Fiota e o Coco Dayá), dirigido por Auxiléia Torres, no qual jovens quilombolas atuaram de forma remunerada na operação de som e câmera. Mencionou também que integrantes da rede ingressaram em cursos universitários de Jornalismo após as oficinas.
- Avaliação da cobertura midiática e dos órgãos de justiça: Edi e Kenya ressaltaram o descompasso entre a urgência das famílias e o tempo da Justiça, atrasado por disputas de competência jurisdicional entre Brasília e Minas Gerais. Ambas afirmaram que a atuação da imprensa e da comunicação pública é o único mecanismo capaz de impedir que a morosidade do Judiciário resulte no apagamento social do crime da Vale.
