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Inside Moderna’s Biggest mRNA Test Since COVID

a16z02 de setembro de 202638minVer no YouTube|

Stéphane Bancel, CEO da Moderna, e Jorge Conde, sócio-geral da equipe de Bio + Health da Andreessen Horowitz (a16z), discutem os resultados positivos de Fase 3 da vacina terapêutica individualizada de mRNA contra melanoma (desenvolvida em parceria com a Merck), a engenharia por trás da manufatura personalizada, o caminho regulatório e a expansão da plataforma para outros tumores, doenças genéticas raras e condições autoimunes.

Resultados do ensaio de Fase 3 em melanoma e dados de 5 anos

A Moderna e a Merck anunciaram resultados positivos na primeira análise interina do estudo clínico de Fase 3 com o tratamento individualizado de mRNA combinado com o inibidor de checkpoint Keytruda (pembrolizumabe) em pacientes com melanoma em estágios II, III e IV:

  • Desfecho primário alcançado: Sobrevida livre de recorrência (recurrence-free survival - RFS).
  • Desfecho secundário alcançado precocemente: Sobrevida livre de metástase à distância (distant metastasis-free survival - DMFS), superando as expectativas iniciais para uma primeira análise interina.
  • Dados de longo prazo da Fase 2 (apresentados na ASCO): Em cinco anos pós-tratamento cirúrgico e farmacológico — marco considerado pela oncologia como cura clínica —, cerca de 80% dos pacientes que receberam a combinação de mRNA e Keytruda permaneceram livres da doença, em comparação a 60% no grupo tratado apenas com Keytruda. Isso representa uma redução de cerca de 50% no risco de recorrência ou morte.
  • Cronograma regulatório: As empresas estão estruturando os dossiês de submissão para agências regulatórias (incluindo a FDA), com o objetivo de disponibilizar o medicamento comercialmente a partir de 2027.

Limitações do Keytruda e o papel biológico do mRNA

Stéphane Bancel detalhou o mecanismo complementar entre a imunoterapia convencional e a vacina de mRNA:

  • O papel do Keytruda (anti-PD-1): Atua liberando os freios do sistema imunológico para que as células T ataquem o tumor. Contudo, 40% dos pacientes não respondem ao tratamento e ficam expostos a eventos adversos autoimunes graves e permanentes (como diabetes tipo 1, lúpus e doença de Crohn).
  • Mecanismo ortogonal do mRNA: Em vez de apenas desinibir o sistema imune de forma generalizada, o mRNA ensina ativamente as células T quais assinaturas moleculares específicas do tumor devem ser caçadas e destruídas.
  • Por que chamar de "vacina": Embora seja uma intervenção terapêutica pós-diagnóstico e cirurgia (prevenindo o retorno e a metástase, e não a infecção inicial), o termo é mantido porque treina o sistema imunológico a reconhecer neoantígenos tumorais que passaram despercebidos durante a proliferação do câncer.

Por que a abordagem de mRNA funcionou após 20 anos de falhas no setor

O campo de vacinas contra o câncer acumulou mais de mil ensaios clínicos fracassados ao longo de duas décadas. Bancel apontou dois fatores determinantes para o sucesso da Moderna:

  1. Apresentação antigênica intracelular: Em colaboração científica prévia com o Instituto Karolinska (2015), a Moderna comprovou que o mRNA injetado por via intramuscular migra para os linfonodos e entra nas células apresentadoras de antígenos (APCs). A tradução do neoantígeno ocorre dentro da própria APC, apresentando o sinal imunológico "de dentro para fora". Vacinas anteriores baseadas em proteínas recombinantes ou peptídeos injetados no sangue circulavam externamente, sem gerar o mesmo padrão de ativação imune.
  2. Individualização estrita: Tentativas históricas focavam em antígenos compartilhados (shared antigens). Os dados da Moderna demonstraram que cerca de 90% dos neoantígenos tumorais são exclusivos de cada indivíduo.

Algoritmo preditivo e seleção de neoantígenos

O processo técnico de desenho do medicamento opera da seguinte forma:

  • Sequenciamento comparativo: É realizada a biópsia do tumor e a coleta de células saudáveis do paciente. A Moderna sequencia integralmente o genoma de ambas as amostras (cerca de 3 bilhões de pares de bases/3 GB de dados) e compara os nucleotídeos para mapear centenas ou milhares de mutações somáticas.
  • Filtragem algorítmica: Um algoritmo proprietário — desenvolvido com bases imunológicas, dados de mapeamento de células T e parcerias diagnósticas — seleciona as 34 mutações com maior probabilidade biológica de gerar resposta imune robusta.
  • Molécula única: As 34 sequências são encadeadas em uma única fita de mRNA sintético formulada em nanopartículas lipídicas (LNPs).
  • Evolução do algoritmo ("Versão 1.0 vs. 2.0"): O ensaio de Fase 3 utilizou a mesma arquitetura algorítmica desenhada há dez anos. A Moderna planeja minerar as amostras de sangue e tecido dos 20% de pacientes que não responderam na Fase 3 para treinar um modelo de inteligência artificial aprimorado (Versão 2.0) e submetê-lo a validação regulatória.

Engenharia de manufatura, tempo de ciclo e custos

A operação fabril de uma terapia individualizada difere estruturalmente das terapias celulares (como CAR-T):

  • Diferença em relação a CAR-T: O CAR-T exige extração celular, modificação ex vivo em grandes biorreatores biológicos e controle rigoroso de estresse celular. A Moderna trabalha apenas com a informação digital: recebe o arquivo de sequenciamento, sintetiza o DNA template por via enzimática e livre de células (sem plasmídeos em E. coli), sintetiza o mRNA em meio aquoso e encapsula em lipídios.
  • Tempo needle-to-needle (biópsia à aplicação): Atualmente em cerca de 42 dias, com metas de redução via robótica e automação.
  • Eficiência de espaço e escala fabril: Os microrreatores enzimáticos ocupam espaço reduzido. A fábrica da Moderna em Marlborough, Massachusetts, foi desenhada para produzir dezenas de milhares de doses individualizadas por ano, cobrindo com folga a demanda anual de melanoma e possibilitando a expansão modular da infraestrutura.
  • Custos (COGS) e precificação: Métricas exatas de custo de mercadorias vendidas e preço comercial ainda não foram divulgadas, dependendo da publicação final dos dados completos com a Merck e negociações com fontes pagadoras.

Estrutura regulatória para terapias N=1

Questionado sobre como aprovar um medicamento cujo código genético difere a cada frasco, Bancel esclareceu:

  • Aprovação de Processo (Process BLA): O caminho regulatório com a FDA segue o modelo de aprovação de processo (análogo ao CAR-T), e não o de produto estático (Product BLA).
  • Critério de consistência: O fabricante deve comprovar robustez operacional: submeter as mesmas entradas biológicas (biópsia e sangue) ao sistema precisa produzir de forma repetível a mesma saída terapêutica segura e estéril sob normas de Boas Práticas de Fabricação (GMP).

Expansão da plataforma: próximos tumores e novas verticais

A Moderna estruturou sua expansão oncológica e clínica em três eixos principais, além de novos programas fora da oncologia:

1. Combinação com Keytruda onde a imunoterapia já funciona

  • Estudos clínicos em andamento para câncer de pulmão (Fase 3), câncer de rim e câncer de bexiga (ambos em Fase 2).

2. Monoterapia em estágios iniciais

  • Ensaio clínico de Fase 3 iniciado em 2026 para pacientes com câncer de pulmão em estágio 1 pós-cirurgia, utilizando a vacina de mRNA isolada (sem Keytruda).
  • Justificativa: Pacientes em estágio 1 não recebem inibidores de checkpoint devido à alta toxicidade crônica; a vacina de mRNA apresenta perfil de segurança benigno (febre ou fadiga transitória de um dia), viabilizando intervenção precoce em ex-fumantes rastreados por imagem.

3. Tumores refratários a inibidores de checkpoint

  • Estudos em câncer de pâncreas e câncer gástrico, onde o Keytruda historicamente falhou em monoterapia.
  • A Moderna planeja testar combinações do mRNA com novas moléculas direcionadas, como os inibidores de KRAS (citando a recente aprovação de fármaco da Revolution Medicines para câncer pancreático).

4. Doenças genéticas raras e autoimunidade

  • Doenças genéticas hepáticas em crianças: Resultados de ensaios de Fase 1/2 demonstram eficácia sustentada por três anos de tratamento; estudos pivotais de estágio avançado devem apresentar dados até o final do ano.
  • Doenças autoimunes: Próxima grande fronteira da plataforma de mRNA da Moderna. O objetivo é atacar a causa raiz da autoimunidade, programando o sistema imune para eliminar seletivamente os clones de células imunológicas autorreativas que atacam o próprio organismo, em formatos padronizados (off-the-shelf) e individualizados.