GT 6 | Projetos, produtos e serviços - Plenário 10 - 18/09/2026
A 4ª Sessão do Grupo de Trabalho 6 (GT 6 – Projetos, Produtos e Serviços), realizada em 18 de setembro de 2026 no Plenário 10 do Anexo II da Câmara dos Deputados, integrou a programação do 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública. A mesa foi coordenada por Michel Carvalho (ABCPública-SP). O encontro consistiu na apresentação de cinco estudos de caso e relatos de experiência institucional/acadêmica voltados à comunicação pública e organizacional, seguidos de rodadas de debate com a plenária. Por se tratar de um evento técnico-científico e de intercâmbio profissional no âmbito do Congresso, não houve deliberação legislativa, votação de projetos de lei ou tomada de decisões de caráter normativo.
1. Implementação da Intranet do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO)
- Apresentadora: Vivian Duarte da Silva (Chefe de Comunicação Interna do TCE-GO, relações-públicas e mestra em Comunicação e Cidadania pela UFG).
- Contexto e Diagnóstico: Em 2023, a Diretoria de Comunicação do TCE-GO segregou suas atividades entre comunicação interna e comunicação externa. O diagnóstico inicial apontou que a comunicação interna contava apenas com um grupo informal de WhatsApp (com 254 servidores) e a TV corporativa. O portal institucional externo funcionava de modo híbrido, publicando simultaneamente avisos funcionais (avaliação de desempenho, eventos internos, pesquisas) e informações voltadas à sociedade, gerando ruído e desorganização.
- Metodologia e Implementação:
- Sem orçamento para contratação de agência ou plataformas proprietárias, o projeto foi desenvolvido internamente pela equipe da chefia de comunicação interna em parceria com o designer Anderson.
- Para obter prioridade na agenda da Diretoria de TI, a equipe entregou a arquitetura de informação e o design estrutural totalmente desenhados no papel antes do início do desenvolvimento.
- A plataforma escolhida foi o WordPress (gratuita e de código aberto).
- A intranet foi desenhada como um hub centralizador de serviços para resolver a pulverização de acessos diários dos servidores (acesso a e-mail corporativo, abertura de ordens de serviço de TI, solicitações de transporte, material de expediente, contracheque e sistema de gestão de pessoas).
- Realizou-se benchmarking com a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e o Tribunal de Contas da União (TCU).
- Resultados e Métricas:
- Lançamento oficial em dezembro de 2023 durante a convenção anual do tribunal, conduzido pelo então presidente, conselheiro Saulo.
- O grupo de WhatsApp institucional cresceu de 254 para mais de 500 integrantes, passando a ser usado como canal de espelhamento e direcionamento para a intranet.
- Pesquisas internas de percepção: em 2024, 83% dos servidores consideravam a comunicação interna efetiva e interessante; no início de 2026/2025, o índice alcançou 85%.
- A intranet alcançou o 2º lugar no ranking de canais mais utilizados pelos servidores para obter informações do órgão, ficando atrás apenas do site externo.
- Principais seções: divulgação de cursos (item apontado como prioritário em pesquisa interna), ferramentas operacionais, espaço interativo "Cafezinho TCE" (classificados, grupo de caronas e achados e perdidos), agenda institucional, portais de consultas funcionais (campanha de combate ao assédio, ouvidoria, plenário virtual, portal de ideias), notícias, aniversariantes do mês e mural de fotos integrado ao Flickr.
2. Observatório da Comunicação Pública: Espaço de Crítica, Memória e Saberes (OBCOMP-UFRGS)
- Apresentadoras: Marlise Viegas Brenol (Professora da Faculdade de Comunicação da UnB) e Sandra Bittencourt (Pesquisadora convidada do NUCOP/UFRGS e conselheira do OBCOMP).
- Origem e Fundamentação: Criado em 2015 no âmbito da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob coordenação da professora Maria Helena Weber no Núcleo de Pesquisa em Comunicação Pública e Política (NUCOP). O projeto baseia-se na tese (defendida por Weber e Locatelli) de que a comunicação pública de qualidade é indicador direto da saúde e da solidez democrática.
- Pilares e Estrutura:
- Articulação integrada do tripé universitário: ensino, pesquisa e extensão.
- Organização em seis editorias/sessões centrais no portal (reformulado em 2023): Biblioteca de acervo, Notícias (produzidas por bolsistas de iniciação científica), Opinião e Crítica (espaço de ensaios e artigos analíticos aberto a colaboradores), Percursos e Saberes (entrevistas em profundidade no formato audiovisual com profissionais e pesquisadores históricos), Galeria de Arte/Fotografia (curadoria de Sandra Gonçalves; exibiu o ensaio de Claudia Andujar com o povo Yanomami) e Agenda de Eventos.
- Lançamento do projeto de resgate da memória das campanhas eleitorais ao governo do Estado do Rio Grande do Sul dos últimos 30 anos (peças, jingles e slogans).
- Métricas do Acervo:
- 127 textos publicados na editoria Opinião e Crítica, com 90 autores distintos.
- 971 artigos científicos catalogados na Biblioteca.
- 496 livros cadastrados.
- 280 campanhas de interesse público documentadas.
- Expansão da rede de pesquisadores e egressos para instituições como UnB, UFPel, Unipampa, UFSM e UFSC.
3. Comunicação Pública em Contextos de Crise: A Capacitação de Jornalistas (Marinha do Brasil)
- Apresentador: Fabrício Sérgio Costa (Assessor de Comunicação da Marinha do Brasil e doutorando em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo).
- Diagnóstico e Justificativa: Nos últimos seis anos, a Marinha atuou diretamente em 11 emergências climáticas e desastres humanitários (incluindo as inundações no Rio Grande do Sul em 2024, deslizamentos em Petrópolis em 2022 e atendimento na Venezuela em 2026). Diante da constatação de que cursos de jornalismo não preparam profissionais para cenários de conflito, desastres e áreas conflagradas, foi criado em 2024 o Curso de Cobertura Jornalística em Áreas de Combate e Emergências.
- Metodologia e Conteúdo Programático:
- Parceria interinstitucional: Marinha do Brasil, Polícia Militar (PMERJ), Polícia Civil (PCERJ) e Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ).
- Imersão prática presencial de cinco dias na Ilha do Governador (Rio de Janeiro), com hospedagem, alimentação e transporte local custeados integralmente pela Marinha para os selecionados.
- Módulos práticos: pista de liderança e obstáculos; progressão tática em favela cenográfica e na comunidade Tavares Bastos; exercícios com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE); manuseio e identificação de artefatos pelo Esquadrão Antibombas da CORE; oficina de armamentos não letais da Condor; defesa nuclear, biológica, química e radiológica (NBQR); navegação em Carro Lagarta Anfíbio (CLAnf) e navios de guerra; operação de drones; primeiros socorros em combate (aplicação de torniquetes); protocolos psicológicos de atuação em caso de sequestro e tomada de reféns; e palestras magnas (exemplo de Sônia Bridi em 2026).
- Evolução dos Indicadores (2024–2026):
- Inscrições: 40 em 2024; 266 em 2025; 435 em 2026.
- Capilaridade geográfica: de 10 estados na 1ª edição para 25 estados da federação (mais o Distrito Federal) em 2026.
- Concluintes: 34 formados na 1ª turma; 59 na 2ª; 66 formados na 3ª turma (composta por mais de 60% de mulheres).
- Instituições atingidas: crescimento de 25 veículos de imprensa na 1ª edição para 18 universidades, 3 agências de notícias, múltiplos veículos de comunicação e 11 assessorias de comunicação de órgãos de segurança pública em 2026.
- Desafio estrutural: necessidade de captação de parcerias e patrocínio externo para custear passagens aéreas de estudantes e comunicadores do Norte e Nordeste selecionados no processo.
4. Debate do Primeiro Bloco
- Classificação (Projeto, Produto ou Serviço):
- Marlise Viegas Brenol (OBCOMP): definiu o observatório como um conceito que engloba um produto digital (o portal), múltiplos projetos de pesquisa/extensão e uma prestação contínua de serviço público e científico à sociedade.
- Vivian Duarte (TCE-GO): classificou a implementação como um projeto (com início, meio e fim) e a intranet consolidada como um serviço contínuo de suporte e engajamento funcional.
- Fabrício Sérgio Costa (Marinha): enquadrou o curso como um serviço de utilidade pública e retorno social de investimentos estatais.
- Perguntas e Respostas da Plenária:
- André Almeida (Conselho Federal de Psicologia) indagou sobre o calendário de inscrições da capacitação da Marinha. Fabrício detalhou: abertura de edital e Google Forms entre dezembro e janeiro na Agência Marinha de Notícias, divulgação dos selecionados em março e realização das aulas práticas em julho durante o recesso acadêmico.
- Erison (Câmara de Barueri-SP) questionou o TCE-GO sobre a criação de hábito de acesso. Vivian informou que a intranet foi configurada compulsoriamente como página inicial de abertura dos navegadores, acompanhada por campanhas prévias de teasers, quiz, sorteio de brindes e apoio formal da presidência do tribunal.
- Andréa (PGM Porto Alegre / ABCPública-RS) perguntou sobre a segmentação de métricas de acesso por perfil profissional. Vivian esclareceu que o corte detalhado por cargo (ex.: auditores vs. técnicos) ainda não é suportado tecnicamente pela ferramenta, sendo uma meta de aprimoramento futuro junto com a ampliação da interatividade.
- Paulo (Câmara de Toledo-PR) perguntou sobre o cumprimento de prazos e equipe de manutenção no TCE-GO. Vivian confirmou a entrega em um ano, com treinamento fornecido pela TI e designers a toda a equipe de jornalistas e estagiários da diretoria de comunicação, além da criação de um manual com diretrizes de caracteres e estilo baseado no Manual de Redação do Senado.
- Francesca (TV Assembleia MT / ABCPública-MT) e Fabrício Costa debateram os riscos do jornalismo de rua e a aprovação institucional do treinamento, aprovado pela cúpula da Marinha (sob comando do Almirante de Esquadra Fuzileiro Naval Carlos Chagas).
5. Influencers do TJRS: Comunicação Colaborativa para o Engajamento
- Apresentadores: Fábio Ramos Berti (Coordenador de Marketing Institucional e Comunicação Digital do TJRS) e Analice Bolzan (Diretora de Relações Públicas e Comunicação Interna do TJRS).
- Problema Institucional: O Poder Judiciário enfrenta historicamente a percepção pública de distanciamento, hermetismo e encastelamento. Com mais de 14 mil magistrados e servidores espalhados por 165 comarcas no Rio Grande do Sul, a Diretoria de Comunicação Social (DICOM), centralizada em Porto Alegre, encontrava dificuldades para cobrir fatos relevantes e iniciativas de cidadania no interior do estado.
- Estratégia e Fundamentação Teórica:
- O projeto baseia-se nos conceitos de comunicação colaborativa (Margarida Kunsch) e no conceito de Employee Advocacy (marketing de influência institucional interno), sem relação com perfis individuais de influenciadores de redes sociais.
- Parceria técnica com a Corregedoria-Geral da Justiça e a Escola Judiciária (SEJUD).
- Realização de oficinas presenciais nas sedes de 9 regiões administrativas, capacitando 217 servidores e magistrados indicados por perfil comunicativo (menos de 5% tinham formação prévia na área de comunicação).
- Conteúdo ministrado: noções de interesse público, conceitos de jornalismo, critérios de noticiabilidade, políticas e manuais de comunicação do TJRS, combate à desinformação e técnicas práticas de captação de foto, áudio e vídeo com smartphones.
- Resultados e Dinâmica Operacional:
- Criação de uma rede permanente no Microsoft Teams com aproximadamente 200 servidores ativos.
- Período de fevereiro a setembro de 2026: 163 conteúdos publicados em veículos oficiais a partir de sugestões do interior; 76 servidores diretamente envolvidos na proposição de pautas; 34 comarcas atendidas (média de 2 pautas aproveitadas por semana, identificadas com selo institucional de crédito ao servidor-influenciador da comarca).
- Avaliação da capacitação: nota média de 9,6 (em escala de 0 a 10) para relevância profissional e 97% de índice de recomendação.
- Desdobramentos: criação de vaga de estágio de pós-graduação em jornalismo na comarca de Caxias do Sul e previsão de abertura de concurso público do TJRS com 6 vagas para profissionais de comunicação em 2027.
6. Comunicação em Rede: Redação Nacional para 46/47 Hospitais Universitários Federais (HU Brasil / Ebserh)
- Apresentadora: Danielle Campos de Aguiar (Jornalista da HU Brasil; coautores: George Magalhães, Heloísa Cristaldo, Marília Gabriela da Silva Rêgo e Ronaldo Pedroso).
- Diagnóstico e Cenário Anterior (2022):
- A rede HU Brasil (estatal federal vinculada ao MEC, em fase de transição de marca da antiga Ebserh) contava com 78 comunicadores distribuídos de forma desbalanceada entre 41 hospitais: algumas filiais possuíam de 8 a 12 comunicadores (ex.: Fortaleza e São Luís) e outras não tinham nenhum profissional local.
- O trabalho operava em silos isolados, com retrabalho massivo (ex.: 41 matérias locais independentes sobre Outubro Rosa ou Setembro Amarelo), predomínio de matérias de gestão institucional em detrimento de comunicação de serviço ao SUS, e baixa cobertura de hospitais menores.
- Modelo de Redação Nacional Integrada (2023–2026):
- Reestruturação baseada na teoria de redes (Manuel Castells), criando uma redação nacional única integrada com 22 repórteres e 2 assistentes cobrindo 47 hospitais (com expansão projetada para 60 unidades), apoiados por uma equipe geral de 172 profissionais de comunicação na rede.
- Matérias-Base: a sede nacional redige a estrutura analítica contextualizada de campanhas de saúde pública; os comunicadores locais inserem apenas os dados regionais, personagens e aspas de especialistas locais.
- Figura do Repórter Prioritário: cada repórter é responsável por cobrir prioritariamente as demandas de uma ou duas filiais hospitalares e atuar remotamente como retaguarda de hospitais sem jornalista fixo (ex.: jornalista de Fortaleza atendendo o hospital do Piauí; jornalista de Niterói dedicada integralmente à unidade local por alto volume).
- Fluxo e Ferramentas: demandas inseridas no sistema (Central de Atendimento ao Usuário) por qualquer funcionário, triadas pelo chefe de comunicação regional, redistribuídas pela gestão nacional, apuradas/redigidas/validadas com as fontes e devolvidas prontas para publicação local, disparo a veículos de imprensa e aproveitamento multiplataforma (redes sociais, TV corporativa e no programa audiovisual "Giro HU Brasil").
- Projetos em andamento: elaboração do Manual Orientativo de Redação e Estilo, expansão de videorreportagens, livro comemorativo dos 15 anos da HU Brasil e lançamento de podcast corporativo.
- Métricas Globais: Até setembro de 2026, a unidade nacional de jornalismo atendeu a 7.155 solicitações de pautas, coberturas e entrevistas.
7. Debate Final e Encerramento
- Questionamentos e Respostas:
- Angélica Lúcio (HU Brasil / IFPB) questionou se a estratégia de "influencers" do TJRS não fragiliza a categoria profissional dos comunicadores diante da carência de concursos públicos, e apontou tensões de sobrecarga e desequilíbrio na produção de matérias entre os repórteres da HU Brasil.
- Analice Bolzan e Fábio Berti (TJRS) responderam que o projeto não substitui a atividade jornalística, atuando exclusivamente como identificador de pautas e fontes qualificadas, enquanto a checagem, redação e curadoria técnica permanecem 100% restritas à diretoria de jornalismo, destacando que o projeto viabilizou o concurso para 6 vagas em 2027.
- Danielle Campos (HU Brasil) esclareceu que o balanceamento de carga de trabalho é monitorado em reuniões diárias e pontos de controle semanais (às 10h e 15h nas terças-feiras), redistribuindo demandas conforme a complexidade editorial e a jornada de trabalho dos profissionais.
- Fernando (ABCPública-MA) perguntou ao TJRS sobre critérios de filtragem para evitar o desestímulo de comarcas que enviam pautas rejeitadas, e indagou à HU Brasil sobre como desmistificar o mito de favorecimento no agendamento de consultas hospitalares.
- TJRS destacou que a priorização segue critérios estritamente jornalísticos (factualidade, interesse público e representatividade geográfica), mantendo alinhamento constante com a rede via Teams.
- Danielle Campos reiterou que os hospitais universitários operam com regulação 100% via SUS (mediante encaminhamento prévio pelas unidades básicas de saúde geridas pelos municípios), sem atendimento de emergência de "porta aberta" na maioria dos casos e com absoluta vedação legal a atendimentos privilegiados ou cobranças financeiras.
- Cláudio Penteado (UFABC) questionou os mecanismos de enfrentamento à desinformação nos órgãos.
- Danielle Campos citou a atuação coordenada da unidade de comunicação digital em articulação com as ouvidorias e imprensa regional para desmentir boatos recorrentes (como suposta distribuição gratuita de leite especial ou cobrança de procedimentos SUS).
- Fábio Berti afirmou que o treinamento prepara os servidores nas pequenas comarcas para responderem com rapidez e exatidão aos veículos de imprensa locais, evitando a propagação de boatos sobre decisões judiciais.
- Angélica Lúcio (HU Brasil / IFPB) questionou se a estratégia de "influencers" do TJRS não fragiliza a categoria profissional dos comunicadores diante da carência de concursos públicos, e apontou tensões de sobrecarga e desequilíbrio na produção de matérias entre os repórteres da HU Brasil.
- Encerramento: O coordenador Michel Carvalho agradeceu a presença do público e a atuação da co-coordenadora Mariana Borges, convidando os presentes para o curso online "Comunicação Pública e Mobilização de Afetos: Criando Conexão com a Sociedade" (ministrado por Michel Carvalho e Paulo Beraldo em 17 e 24 de outubro de 2026), encerrando a sessão para o registro fotográfico oficial do congresso.
