GT 6 | Projetos, produtos e serviços - Plenário 10 - 17/09/26
Sessão temática do Grupo de Trabalho 6 (Projetos, Produtos e Serviços), realizada no Plenário 10 da Câmara dos Deputados no âmbito do congresso da ABCPública, em 17 de setembro de 2026. A mesa foi coordenada por Michel Carvalho (ABCPública-SP). O encontro reuniu apresentações acadêmicas e relatos de experiências sobre comunicação pública, educação midiática, capacitação de porta-vozes e combate à desinformação no Poder Legislativo e em órgãos do Poder Executivo; não houve deliberações legislativas nem votações de proposições.
1. Prática Educomunicativa, Comunicação Pública e Popularização da Ciência (UFMS)
Apresentadora: Rose Mara Pinheiro (professora e Diretora de Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS).
Estrutura e Métodos
- Iniciativa Repórter Júnior: Projeto institucional que atua na cobertura do evento acadêmico Integra UFMS (realizado desde 2018, integrando graduação e pós-graduação e reunindo anualmente mais de 10 mil estudantes, com cerca de 1.200 trabalhos científicos em exposição no ginásio da universidade).
- Histórico acumulado: Ao longo de nove edições, envolveu mais de 250 estudantes da educação básica (prioritariamente 8º e 9º anos do Ensino Fundamental e Ensino Médio de 50 escolas públicas e privadas de Campo Grande) e 70 professores tutores.
- Capacitação entre pares: O treinamento dos estudantes não é conduzido por professores, mas pelos próprios alunos de graduação vinculados à empresa júnior de Jornalismo Brava.
- Oficinas formativas: Quatro eixos técnicos (Texto e Foto; Mídias Sociais; Vídeo; e Rádio).
- Veiculação oficial: O material produzido pelos estudantes (reportagens em áudio, vídeo, texto e fotos) é difundido nas mídias institucionais da UFMS (Rádio Educativa FM, TV UFMS, portal de notícias e redes sociais como Instagram).
2. Projeto Jovem Repórter: Protagonismo Estudantil e Formação em Comunicação Pública (Seduc-RJ)
Apresentadoras: Maria Luísa de Vasconcelos Barros (Coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro - Seduc-RJ) e Ana Carolina Lima Cabral (comunicadora da Seduc-RJ).
Estrutura e Resultados
- Origem e continuidade: Lançado em 2024, o programa encontra-se em sua terceira edição e manteve-se ativo mesmo após troca de gestão no governo do estado. Já capacitou mais de 200 alunos da rede estadual, principalmente da Baixada Fluminense e periferias.
- Processo de seleção: Edital anual voltado a cerca de 100 alunos do 3º ano do Ensino Médio de escolas estaduais interculturais/bilíngues (o estado mantém parceria com mais de 20 países e 10 idiomas, incluindo modelos Brasil-China, Brasil-Rússia, Brasil-Índia e Brasil-Estados Unidos).
- Formação técnica: Dois workshops intensivos cobrindo fotografia (enquadramento e luz), produção e edição audiovisual e redação concisa, com apoio de profissionais da comunicação pública e convidados da imprensa (como o jornalista Genilson Araújo e repórteres de emissoras abertas).
- Coberturas de grande porte: Atuação prática de estudantes uniformizados e credenciados no Centro Internacional de Mídia da Cúpula do G20 (2024), na Cúpula do BRICS (2025) e no Rio Fashion Week (onde o projeto gerou um quadro de transmissão ao vivo), além de matérias nos canais da Seduc-RJ e dos próprios eventos.
- Produções autorais: Série Da Escola ao Câmpus, concebida pelos estudantes para desmistificar o acesso ao ensino superior, apresentando vestibulares, cotas, alojamentos e cursos em universidades públicas fluminenses.
- Gargalos operacionais: Dificuldade orçamentária e burocrática para descentralização imediata de verba de transporte e alimentação às escolas para coberturas factuais de última hora, demandando a criação de um calendário anual prévio.
3. Comunicação com a Imprensa: Capacitação de Servidores da UEFS
Apresentadoras: Paula Bomfim Peixoto Leite (relações-públicas na TV Olhos d'Água / UEFS) e Rose Leal (jornalista e servidora da TV Olhos d'Água / UEFS).
Diagnóstico e Metodologia
- Contexto institucional: A Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia) conta com 31 cursos de graduação, TV universitária e concessão de rádio, mas não possui graduação em Jornalismo/Comunicação. O quadro conta com cerca de 700 técnicos e analistas universitários atuando em museus, horto florestal, clínicas e centros culturais.
- Problema identificado: Falhas recorrentes em releases internos e comunicados (ausência de data, horário, local, contatos diretos, além de excesso de jargão acadêmico hermético nos títulos) e insegurança/recusa de técnicos e pesquisadores em conceder entrevistas para rádios, jornais e emissoras de TV locais (como a TV Subaé/afiliada Globo).
- Estrutura do curso: Carga horária de 20 horas divididas em cinco manhãs, ofertada via Universidade Corporativa do Servidor Público (UCS/Saeb-BA) e Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PGDP):
- Módulo 1: Conceitos de comunicação pública e funcionamento de TVs públicas/comerciais e emissoras de rádio.
- Módulo 2: O que é notícia e identificação de pautas de interesse público.
- Módulo 3: Construção coletiva de releases claros.
- Módulo 4 e 5: Treinamento prático de entrevistas com câmera, iluminação, microfone e simulações de stand-up ao vivo com feedback imediato.
- Reconhecimento: Selecionado como uma das cinco melhores práticas no Prêmio de Boas Práticas do Estado da Bahia promovido pela Saeb/UCS.
4. Primeiro Bloco de Debates: Pedagogia da Comunicação e Políticas Públicas
- Direito à comunicação vs. formação técnica: Michel Carvalho apontou que a educomunicação não visa formar jornalistas em escala, mas democratizar o acesso à informação de qualidade, garantir letramento político-cidadão e trabalhar a integridade informacional.
- Resistência das fontes acadêmicas e técnicas: Rose Leal e Paula Peixoto destacaram que o treinamento visa quebrar a barreira da autoridade exclusiva dos docentes/gestores, capacitando também servidores técnico-administrativos que executam projetos a atuarem como porta-vozes qualificados.
- Autonomia editorial dos jovens repórteres: Maria Luísa Barros confirmou que os estudantes da Seduc-RJ têm liberdade editorial para fazer perguntas críticas e difíceis às autoridades nos eventos em que atuam.
- Institucionalização perene: Rose Mara Pinheiro e Maria Luísa Barros defenderam que projetos de educação midiática não fiquem restritos ao voluntarismo de professores isolados, mas sejam fixados em lei como políticas públicas de Estado.
- Intervenção de Fernando (MEC/RIE): Relatou a experiência da Rede de Inovação para a Educação Híbrida (RIE) e apontou o desafio das instituições públicas em comunicar grandes projetos acadêmicos e observatórios sem cair em linguagem restrita a especialistas.
5. Observatório da Agricultura Familiar nas Redes (UFABC / MDA)
Apresentadores: Claudio Luis de Camargo Penteado (coordenador e professor da UFABC), Emmanuel Vitor Cleto Duarte e Paulo Roberto Elias de Souza (pesquisadores da UFABC).
Estrutura Técnica do Monitoramento
- Parceria e instrumento: Projeto viabilizado por Termo de Execução Descentralizada (TED) entre a UFABC e o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), gerando relatórios semanais de inteligência e painéis (dashboards) para subsidiar decisões de comunicação e gestão de políticas públicas.
- Plataformas monitoradas: TikTok, YouTube, Instagram, Facebook, X (antigo Twitter) e Telegram.
- Desafios computacionais: Fechamento progressivo de APIs pelas big techs, exigindo desenvolvimento próprio de rotinas de raspagem de dados (web scraping) e queries refinadas via Processamento de Linguagem Natural (PLN) com apoio de linguistas para eliminar ruídos de termos polissêmicos (como "terra" e "reforma").
- Análise humana vs. Inteligência Artificial: A equipe realizou testes comparativos com quatro modelos de IA generativa, mas optou pela análise humana contínua para preservar a memória discursiva, identificar narrativas históricas acumuladas e captar os silêncios da rede (como a baixa presença de pequenos agricultores do interior de São Paulo nas plataformas digitais).
Características por Plataforma e Narrativas Desinformativas
- TikTok: Foco em cotidiano rural, estilo de vida e orientações sobre direitos e serviços previdenciários/agrícolas apresentadas por influenciadores locais.
- YouTube: Debates técnicos e estruturados, dominados pela comunicação profissional do agronegócio patronal.
- Instagram: Disputa política, cotidiano, forte atuação de parlamentares e movimentos como o MST.
- X (Twitter): Disputas narrativas imediatas e temas quentes da conjuntura política.
- Telegram: Grupos de distribuição de resumos de mercado, notícias agrícolas e conteúdo desinformativo.
- Eixos de desinformação identificados:
- Narrativa hegemônica do agro como "motor exclusivo do PIB" (ocultando a agricultura familiar e superestimando o peso total do setor patronal na composição do PIB);
- Falsas alegações de revenda sistemática de lotes por assentados do Incra;
- Disseminação de pânico sobre monitoramento ambiental via satélite (afirmações falsas de multas automáticas aplicadas quando o gado bebe água em rios);
- Desinformação sobre inflação de alimentos (atribuição de preços de café, leite e carne ao governo sem contextualização de sazonalidade);
- Retomada de teses conspiratórias históricas (como a suposta introdução deliberada da vassoura-de-bruxa na lavoura cacaueira da Bahia).
- Encaminhamento executivo: Os dados subsidiam uma agência de publicidade na confecção de conteúdos socioeducativos e campanhas de pré-desmentido (prebunking).
6. Senado Verifica: Combate à Desinformação no Legislativo
Apresentadora: Paula Andréa Cochrane Feitosa (jornalista do Senado Federal, em trabalho conjunto com Ester Monteiro da Silva e Sara Reis Silva).
Mecânica e Dados do Serviço
- Criação e escopo: Criado em 2020 (período pandêmico) no âmbito da Assessoria de Imprensa do Senado Federal, o serviço atende demandas da sociedade sobre o exercício funcional e institucional do Senado, filtrando ataques partidários e remetendo temas alheios a parceiros (como o Comprove da Câmara dos Deputados, TSE para questões eleitorais e Fala.BR para o Executivo).
- Canais de atendimento: E-mail, Ouvidoria do Senado e WhatsApp institucional (que respondeu por um aumento de 1.689% na procura por esclarecimentos em relação a levantamentos anteriores).
- Universo analisado no estudo: Avaliação de 419 solicitações e 62 matérias formais de checagem publicadas, somando mais de 2 milhões de visualizações nos canais da Agência Senado, TV Senado e Rádio Senado.
- Classificação dos pedidos: 53,2% dos conteúdos analisados foram categorizados como falsos/fake, 35% como fato/verdadeiros (revelando que o cidadão usa o canal para tradução de jargões legislativos e dúvidas sobre projetos) e o restante como imprecisos.
- Perfil dos solicitantes: Predomínio da Região Sudeste, seguida pelo Nordeste; usuários majoritariamente do gênero masculino.
- Braço educativo: Publicação de 43 matérias educativas de educação midiática e conscientização cidadã.
- Regramentos: Fundamentado na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), Lei de Acesso à Informação (LAI — prazos de 20 dias prorrogáveis por 10) e atos da Mesa Diretora que regem a Ouvidoria.
7. Segundo Bloco de Debates: Gestão Estratégica de Crises, Desinformação e Efeito Elefante Branco
Estratégia de Checagem e Neutralidade Institucional
- Michel Carvalho questionou como as instituições evitam amplificar conteúdos manipulados artificialmente por robôs/redes de desinformação e como lidam com a quebra de confiança nas instituições públicas.
- Paula Cochrane Feitosa (Senado) explicou o critério do Senado Verifica:
- Quando um boato circula apenas em bolhas restritas, a instituição opta por responder diretamente e de forma personalizada ao cidadão no canal de origem (WhatsApp/e-mail), evitando produzir matérias públicas que gerem o "efeito megafone".
- Caso prático (Boato sobre PIX): Diante de desinformações sobre suposta taxação/regulação do PIX, o Senado optou por não publicar uma checagem reativa clássica (que reforçaria o tema), mas sim uma matéria de utilidade pública ("Sofri um golpe do PIX, e agora?"), convertendo a crise em canal de atendimento formativo.
- Paulo Roberto de Souza e Claudio Penteado (UFABC) destacaram:
- Desinformação não se combate apenas despejando mais fatos, pois a recepção depende de sistemas de crenças, afetos e identidades.
- Necessidade de prebunking (vacina informacional): monitorar rumores prévios para antecipar a resposta institucional antes que o boato viralize.
- O agro patronal construiu uma infraestrutura simbólica sofisticada (incluindo estilo de vida, vestuário com proteção UV estilizado com a bandeira nacional, novelas e patrocínios), enquanto o MDA precisa reconstruir a confiança com agricultores familiares por meio de presença material e políticas públicas concretas na ponta.
Efeito Chantilly vs. Rigor Informativo
- Fernando (MEC) e Celso (pesquisador de agronegócio e reputação/UFG) citaram os conceitos de "efeito hidra", "efeito elefante branco" e "efeito chantilly" (quanto mais se bate na desinformação para desmenti-la, mais visibilidade se dá ao emissor malicioso).
- Rose Leal (UEFS) contrapôs a visão puramente estratégica, defendendo o dever cívico do jornalismo de apontar objetivamente se a informação é verdadeira ou falsa, sem tergiversações.
- Michel Carvalho sintetizou a discussão ressaltando que o jornalismo público deve superar o "dois-ladismo" artificial quando um dos lados opera fora do lastro factual e científico (como terraplanismo ou negacionismo histórico), devendo a comunicação pública focar no rigor, na simplificação da linguagem e na recomposição do pacto de confiança com a sociedade.
