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GT 5 | Projetos, produtos e serviços - 18/09/2026

Câmara dos Deputados18 de setembro de 20263h07minVer no YouTube|

Sessão do Grupo de Trabalho 5 (GT 5 – Projetos, produtos e serviços) do Congresso da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABC Pública), realizada em 18 de setembro de 2026 no Plenário 8 do Anexo II da Câmara dos Deputados, sob a coordenação de Alessandra Lessa (TCE-GO) e Verônica Lima (Câmara dos Deputados). O encontro não teve caráter deliberativo ou votação de proposições legislativas; tratou-se da apresentação e do debate técnico-acadêmico de seis artigos e relatos de experiência sobre inovação, produtos de mídia e memória institucional na comunicação pública.


1. Viva Maria: 45 Anos de Comunicação Pública, protagonismo feminino e circulação multiplataforma

  • Autores/Apresentadores: Mara Régia Di Perna (EBC / Rádio Nacional da Amazônia) e Cláudio Chaves Paixão (Universidade Federal do Tocantins - UFT).
  • Resumo e Contexto: O trabalho analisa a trajetória de 45 anos do programa radiofônico Viva Maria, criado em 14 de setembro de 1981 na Rádio Nacional de Brasília/Amazônia, e o projeto conjunto UFT/EBC denominado Viva Maria na Academia, que visa mapear e sistematizar as pesquisas acadêmicas sobre a produção.
  • Dados e Metodologia:
    • Foram catalogados até o momento 30 trabalhos acadêmicos (artigos, TCCs, dissertações e teses) sobre o programa.
    • A pesquisa promove uma retroalimentação: os estudos são mapeados e seus autores são entrevistados no próprio programa de rádio e em spots promocionais (como o caso de Sandra Vasconcelos e Gabriela Sobral Marques Feitosa).
    • Acervo histórico: Das gravações dos anos 1980 em fitas de rolo, restaram apenas 50 horas salvas (devido à constante regravação de fitas na época por falta de material); a partir de 2004, quando o programa retornou ao ar após interrupção nos anos 1990 provocada pela reforma administrativa da era Collor, há quase 6 mil edições preservadas.
  • Articulação e Casos Emblemáticos:
    • Mara Régia destacou a atuação do programa durante a Constituinte de 1988 ("Lobby do Batom"), na criação de Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e no Conselho dos Direitos da Mulher do DF.
    • Mobilizações sociais: campanha de doação de cabelos para vítimas de escalpelamento no Amapá; denúncia de venda e exploração infantil em Aripuanã do Norte (MT); mobilizações diretas com Dona Raimunda dos Cocos (TO), a parteira Zenaide (AC) e a indígena Tuíra Kayapó.
    • Ao longo de 48 anos de atuação na Amazônia, foram realizadas 183 oficinas de comunicação comunitária.

2. Justiça Multimídia – O ecossistema audiovisual do TJRS

  • Autores/Apresentadores: Adriana Freitas Arend (Diretora de Comunicação do TJRS), Fábio Ramos Berti (Diretor de Marketing Institucional e Comunicação Digital do TJRS) e Moisés Júnior Rodrigues Machado (Coordenador do Estúdio Multimídia do TJRS).
  • Resumo e Estrutura: Relato da transformação da comunicação do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) nos últimos quatro anos, integrando setores antes isolados (imprensa, relações públicas e marketing digital) em um ecossistema audiovisual transversal.
  • Pontos Centrais e Métricas:
    • Marco de estruturação: A transmissão do júri da tragédia da Boate Kiss, que registrou 54 mil espectadores simultâneos e consolidou uma estrutura permanente e dedicada de transmissões (o canal foi apelidado por advogados e estudantes de "JúriFlix").
    • Infraestrutura: Estúdio panorâmico localizado no 13º andar do prédio-sede do TJRS, com regramento editorial fixado em ato formal da Presidência do tribunal.
    • Métricas: Mais de 16 milhões de visualizações no canal do YouTube e obtenção da placa de prata da plataforma (único tribunal de justiça estadual a ultrapassar 100 mil inscritos). Em transmissões de grandes júris populares, a audiência varia entre 100 mil e 150 mil visualizações acumuladas.
    • Entre julho de 2025 e julho de 2026, houve aumento de 30% na base de seguidores e de 30% nas interações diretas nas redes sociais.
    • Produtos: Criação do Redação Conectada (webnews diário pioneiro na Justiça Estadual), do videocast Judicast, do programa em formato de grande reportagem Justiça Gaúcha (veiculado em TV aberta pública e privada) e do projeto Influencer (rede colaborativa de pautas com comarcas do interior).

3. Capithu e a humanização digital: Experiência de uma mascote institucional na comunicação pública em saúde em um hospital universitário federal

  • Autora/Apresentadora: Yara Rodrigues Ferro (Chefe da Unidade Regional de Comunicação do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian - HUMAP-UFMS/Ebserh, Campo Grande-MS).
  • Resumo e Justificativa: Relato de caso sobre a criação da mascote "Capithu" (com "HU" ao final em referência ao hospital universitário) para tornar a comunicação pública hospitalar mais acessível, afetiva e menos burocrática junto a estudantes, residentes, pacientes do SUS e servidores.
  • Processo de Criação e Aplicação:
    • A mascote surgiu originalmente no setor de gestão da qualidade hospitalar. A escolha do animal foi feita por votação interna via e-mail com três opções da fauna regional (onça, arara-azul e capivara), vencida pela capivara com 70% dos votos.
    • Aplicações práticas: Display físico de recepção no hospital, confecção de bonecos em amigurumi entregues a visitantes e pacientes pediátricos, ações em datas temáticas (Comitê de Saúde Indígena, Semana da Enfermagem, Aleitamento Materno, visitas assistidas de cães).
    • Desempenho digital: Postagens institucionais sem a personagem alcançavam cerca de 281 contas no Instagram, enquanto postagens temáticas protagonizadas pela Capithu atingiram 1.368 contas e engajamento consideravelmente superior, com custo operacional próximo de zero (uso de ferramentas de IA generativa e Canva por equipe enxuta de dois profissionais).

Debate do Primeiro Bloco

  • Mediação: Alessandra Lessa (TCE-GO) provocou os apresentadores quanto à gestão do conhecimento e participação cidadã (no caso do Viva Maria), mecanismos de transparência ativa que gerem influência real da sociedade na programação do TJRS, e os riscos de imagem e gestão de crises com personagens lúdicos em hospitais do SUS.
  • Respostas:
    • TJRS: Moisés e Fábio esclareceram que a transparência se manifesta na inversão do foco jornalístico (da perspectiva do magistrado para a visão do jurisdicionado atendido), na escuta do Conselho de Comunicação e no programa Com a Palavra, onde a Presidência responde diretamente às demandas populares das redes.
    • HUMAP-UFMS: Yara Ferro explicou que o hospital não atende porta aberta (fluxo regulado pelo município/SESAU), que a assessoria mantém atendimento ágil à imprensa sem uso de memes em momentos críticos e que a Capithu atua no acalento, e não na comunicação de incidentes.
    • Viva Maria: Mara Régia e Cláudio Paixão pontuaram que o impacto do rádio público em ondas curtas se consolida no acompanhamento contínuo e resolutivo das histórias de vida dos ouvintes (como mediação com Ministérios Públicos e Conselhos Tutelares), transcendendo a notícia pontual.

4. PodHans: Um produto de comunicação em hanseníase, com foco nas pessoas acometidas pela doença

  • Autora/Apresentadora: Fernanda Cassiano de Lima (coautoras: Janayna Mariano Maia, Maria Fernanda Marques Fernandes e Mariella Silva de Oliveira-Costa - Fiocruz Brasília).
  • Resumo e Diagnóstico: Produto técnico desenvolvido no âmbito do Mestrado Profissional em Políticas Públicas em Saúde da Fiocruz Brasília, avaliando o uso da Caderneta de Saúde da Pessoa Acometida pela Hanseníase (Ministério da Saúde, 2020).
  • Metodologia e Resultados:
    • Pesquisa qualitativa exploratória com 11 pacientes diagnosticados no Ambulatório de Dermatologia Tropical do Hospital Universitário de Brasília (HUB).
    • Gargalo identificado: Baixa escolaridade e sequelas visuais/físicas da hanseníase impediam a leitura da cartilha impressa pelos pacientes, motivando a criação do podcast PodHans como mídia de áudio acessível.
    • Estruturação: 16 episódios temáticos curtos (2 a 3 minutos cada) gravados com linguagem direta e coloquial, abordando desde conceitos biológicos e cuidados com pele/nervos até direitos sociais e enfrentamento ao estigma.
    • O material foi adotado pelo Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) na campanha do "Janeiro Roxo" de 2024 e disponibilizado via Spotify e portal da Fiocruz.

5. A obsolescência tecnológica como entrave para a memória comunicacional: O caso da TV do TST

  • Autoras/Apresentadoras: Marlise Viegas Brenol e Marcia Marques (coautoras: Mônica Peres e Dione Moura de Oliveira - Faculdade de Comunicação/FAC e SEDOC da Universidade de Brasília - UnB).
  • Resumo e Diagnóstico do Acervo: Projeto interdisciplinar de pesquisa aplicada firmado entre a UnB e a TV do Tribunal Superior do Trabalho (TST) para enfrentar a perda de acervo histórico audiovisual decorrente de transições tecnológicas sem planos de preservação.
  • Dados e Desafios:
    • Estimativa preliminar de mais de 20 mil horas de imagens institucionais inacessíveis por ausência de equipamentos reprodutores no tribunal.
    • Suportes identificados: fitas VHS, Betamax, U-matic, Betacam, Mini-DV e fitas de rolo.
    • Linhas de ação: Diagnóstico físico, mapeamento das fases de obsolescência e formulação de protocolo metodológico transferível para outros órgãos públicos.
    • As autoras defenderam que a conservação da memória comunicacional deve ser estabelecida como política de Estado permanente, amparada em projetos de lei, para evitar o apagamento histórico a cada troca de administração pública.

6. Sagas Pernambucanas: O podcasting narrativo como estratégia de inovação e preservação da memória legislativa

  • Autores/Apresentadores: André Luiz Vasconcellos Zahar e Helena Castro de Alencar (coautoras: Lina Fernandes e Clarissa Rodrigues Falbo - Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco - Alepe).
  • Resumo e Produção: Relato sobre a criação e os desdobramentos do podcast de áudio-drama histórico Sagas Pernambucanas, desenvolvido pela Superintendência de Comunicação da Alepe.
  • Estrutura das Temporadas e Metodologia:
    • Temporada 1: Bicentenário da Confederação do Equador (1824).
    • Temporada 2: Comemoração dos 190 anos da Alepe e o fechamento do parlamento estadual pelo regime militar em 1964.
    • Temporada 3: Foco nos 380 anos da Batalha de Tejucupapo, retratando a resistência feminina e popular no Pernambuco holandês.
    • Produção e capacitação: Uso de estúdio próprio da Alepe, consultoria inicial especializada em áudio narrativo (estilo Rádio Novelo), oficinas de teatro para os servidores e rigorosa pesquisa documental no arquivo da Casa e junto ao Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco (IHGP).
  • Impacto Educacional e Reconhecimento:
    • Terceiro lugar no Prêmio Melhores Podcasts do Brasil (categoria Cultura e Literatura).
    • Veiculação em sinal FM aberto pela emissora pública Rádio Frei Caneca.
    • Adoção espontânea do podcast por professores das redes pública e privada como material paradidático após a obrigatoriedade curricular do ensino de História de Pernambuco nas escolas do estado.

Debate do Segundo Bloco

  • Intervenções dos Participantes:
    • Bruna (Alego) e Isabela (TV Câmara Salvador) relataram gargalos práticos semelhantes em suas casas legislativas: perda constante de arquivos digitais e transmissões em trocas de produtoras terceirizadas e ausência de equipes efetivas de memorial e arquivologia.
    • Helena Alencar e André Zahar (Alepe) relataram que, apesar de manterem o acervo físico em fitas, a falta de digitalização segue como desafio, e enfatizaram que a abordagem historiográfica focada em personagens validados historicamente protege o podcast de pressões político-partidárias.
    • Marcia Marques e Marlise Brenol (UnB) apontaram que parcerias com universidades públicas viabilizam a digitalização e a retenção de equipamentos técnicos, além de reforçarem a necessidade de padronização de metadados.
    • Alessandra Lessa (TCE-GO) sugeriu à equipe da UnB a elaboração de fluxogramas operacionais e minutas normativas que facilitem a institucionalização de políticas de preservação de memória em órgãos de controle e tribunais.
    • Fernanda Marques (Fiocruz) destacou a potência educomunicativa de integrar estudantes da rede básica não apenas como ouvintes de podcasts históricos, mas como produtores de conteúdos a partir de acervos públicos primários.