GT 3 | Cidadania, democracia e participação - Plenário 05 - 17/09/2026
Sessão do Grupo de Trabalho 3 (GT 3 – Cidadania, Democracia e Participação), vinculado ao congresso da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABC Pública), realizada no Plenário 5 do Anexo II da Câmara dos Deputados em 17 de setembro de 2026. A coordenação da mesa foi da professora Marlise Viegas Brenol (Universidade de Brasília – UnB), com co-coordenação do professor João José A. Curvello (UnB). Por se tratar de um painel acadêmico e técnico de apresentação de artigos científicos, não houve deliberação legislativa, votação de proposições ou tomada de decisão formal pelo colegiado.
Item 1: Comunicação Turística, Cidadania Comunicativa e Sustentabilidade Cultural de Destinos Regionais
- Apresentadora: Luciana Ramos da Silva (mestranda em Comunicação Digital no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa – IDP, sob orientação do professor Edivaldo).
- Objeto e Tese: Análise semiótica do hiato entre a narrativa aspiracional/de luxo construída por influenciadores digitais e a realidade cultural e estrutural dos destinos turísticos regionais. O estudo sustenta que o turismo é totalmente dependente da comunicação para a criação de imaginários sociais, mas a lógica comercial dos influenciadores promove apagamento cultural e sobrecarga em comunidades locais caso inexista governança e letramento da comunicação pública.
- Evolução Histórica e Metodologia: A autora traçou o percurso do influenciador turístico desde o regime epistolar (troca de cartas com criação de personagens e cenários), passando pelas impressões e guias (com gatekeepers editoriais), a agência de Thomas Cook (levando a aristocracia europeia para viagens programadas), jornais e revistas especializadas, até alcançar a internet e as redes sociais. O referencial teórico apoia-se na semiótica aplicada ao turismo desenvolvida pela professora Cíntia Menezes.
- Casos Concretos e Dados Apresentados:
- Estudo de caso principal: Espaço cultural privado "Refúgio Dourado" (em Aracati, próximo a Fortaleza/CE). As postagens analisadas focam em títulos como "Quanto custa ficar em um chalé exclusivo?" e "Hospedagem dos sonhos a duas horas de Fortaleza", apagando elementos artísticos, esculturas e a identidade cearense em prol do consumo de luxo aspiracional.
- Joinville (SC): Narrativa pública estruturada pela prefeitura a partir de 1995 como a "Cidade da Dança", gerando impacto econômico local e projeção internacional planejada.
- Rio de Janeiro (RJ): Programa municipal de cadastramento de influenciadores digitais (nacionais e internacionais, ativo há quatro anos) para orientar narrativas institucionais e realização de fam visits.
- Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Ministério do Turismo: Mapeamento de pequenas iniciativas para visitação sustentável em aldeias indígenas.
- Lençóis Maranhenses (MA): Caso negativo em que a promoção visual desacompanhada de governança pública gerou colapso estrutural, filas e reclamações na internet.
Item 2: Influencers e Influentes na Época dos Fandoms: Atuação de Deputados Federais no Instagram
- Apresentador: Felipe Rodrigues Pereira (coordenador de comunicação da liderança do Republicanos na Câmara dos Deputados e professor da pós-graduação no IDP; dissertação de mestrado realizada no Cefor/Câmara dos Deputados).
- Objeto e Tese: Investigação da tensão de poder na Câmara dos Deputados entre os parlamentares tradicionais ("influentes") e os parlamentares com alto engajamento digital ("influencers"). Sustenta que o capital institucional tradicional (relatorias, presidências, lideranças) é confrontado pelo capital digital dos fandoms (comunidades de fãs mobilizadas em torno de visões de mundo).
- Corpus e Metodologia:
- Amostra quantitativa de 199.629 publicações no Instagram coletadas entre 1º de fevereiro e 31 de dezembro de 2023.
- Recorte detalhado: Análise qualitativa e codificação de 244 postagens de dez deputados selecionados (cinco classificados como influentes institucionais, com base nos "Cabeças do Congresso" do DIAP, e cinco como influencers, pelo engajamento médio), complementada por entrevistas com sete chefes de comunicação de gabinetes.
- Principais Achados e Métricas:
- Volume versus Engajamento: A correlação entre quantidade de postagens e engajamento médio foi de 0,027 (praticamente nula). A mediana de interações por post na Câmara foi de apenas 181, enquanto o pico máximo alcançou 162.776 interações em uma única publicação.
- Estratégia de escassez: O perfil mais eficiente ("estrategista") publica com menor frequência, mas concentra alto impacto. Influencers têm, em média, 4 vezes mais engajamento do que os influentes institucionais.
- Formatos de vídeo preferidos: Nos influencers, 70% do conteúdo são cortes de discursos e comissões (palco institucional transformado em gerador de visualizações) e 14,3% são vídeos gravados para redes. Nos influentes, 30% são cortes de comissões, 34,3% vídeos pensados para redes, além de recortes de VTs jornalísticos tradicionais e entrevistas.
- Temas e Afeto: Pautas quentes ocupam 47% das publicações dos influencers. Três em cada quatro gabinetes de influencers admitiram buscar ativamente a provocação de indignação/raiva no público. Resultados concretos de mandato são quase impossíveis de viralizar pelo algoritmo.
- Distribuição ideológica no topo do engajamento de 2023: Entre os deputados de maior engajamento médio, 13 pertencem à direita, 5 ao centro e 2 à esquerda.
- Estrutura de equipe: Influencers operam com equipes mínimas (nenhuma ou uma pessoa dedicada; o próprio parlamentar grava, edita e posta; envolvimento 10/10). Influentes mantêm equipes de 5 a 7 profissionais (social media, designer, editor, fotógrafo, agência), mas o envolvimento do titular cai para nota 7 a 9.
- Impacto político: Exemplo citado do debate sobre a fiscalização do PIX, cujo vídeo gravado em celular por um deputado somou cerca de 300 milhões de visualizações contra 80 milhões do lado oposto, forçando o recuo governamental em uma semana.
Item 3: Comunicação Colaborativa e o Projeto "Influencers do TJRS"
- Apresentador: Fábio Ramos Berti (responsável pelo Marketing Institucional e Comunicação Digital do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul – TJRS; trabalho em coautoria com Diego Soleti de Oliveira).
- Objeto e Tese: Estudo de caso institucional sobre a implantação do projeto "Influencers TJRS", modelo de comunicação colaborativa baseado no conceito de employee advocacy, que capacita servidores das comarcas do interior como agentes de comunicação para descentralizar e dar visibilidade às ações do Judiciário gaúcho.
- Metodologia e Execução:
- Desafio estrutural: O TJRS possui 165 comarcas distribuídas em 9 regiões e um quadro de quase 14 mil servidores, com comunicação centralizada em Porto Alegre.
- Capacitação: 217 servidores (sem formação prévia em comunicação, a maioria das áreas de Direito e Administração) participaram de oficinas práticas presenciais de 5 horas de duração sobre conceitos de comunicação pública, captação/edição de imagem, captação de áudio e relacionamento primário com a imprensa local.
- Referenciais teóricos: Margarida Kunsch, Jorge Duarte (tensão entre comunicação pública e comunicação institucional), Leite (transparência judicial) e estudos malaios sobre employee advocacy.
- Resultados e Indicadores do Projeto:
- Pesquisa com 92 respondentes: Avaliação geral média de 9,6 (em escala de 0 a 10); 97% afirmaram que recomendariam a capacitação aos colegas.
- Produção colaborativa (fase inicial até fevereiro de 2026): 95 interações registradas no Microsoft Teams com 52 servidores ativos de 26 comarcas. Gerou 41 sugestões de pauta, 38 fotografias, 6 vídeos e 9 indicações de cases — alcançando uma média de três pautas aproveitadas por semana pela Direção de Comunicação Social.
- Integração: O projeto opera sob estrita curadoria jornalística institucional e alimenta o ecossistema do tribunal (rádio web 24 horas, transmissões ao vivo de júris populares e webjornal diário).
Debate do Primeiro Bloco
- Georgia Moraes (Agência Câmara) criticou a afirmação final de Felipe Pereira de que "quem olha a dinâmica do Congresso apenas pela via institucional olha para um parlamento que não existe mais". Argumentou que a comunicação pública existe para consolidar valores republicanos e a institucionalidade democrática, e que ignorar a relevância institucional legitima o discurso antidemocrático (citando os atos de 8 de janeiro).
- Felipe Rodrigues Pereira sustentou sua posição, afirmando que não nega a importância da legitimidade institucional, mas constata pragmaticamente que vídeos e mobilizações nas redes digitais alteram votações e posições de líderes no plenário, tornando a dinâmica híbrida.
- Tayara Silva (jornalista e assessora) questionou a metodologia de classificação entre influente e influencer e perguntou a Luciana Ramos sobre como o que não é mostrado (o não-dito) opera na semiótica turística.
- Clarice (redes sociais da Câmara) questionou qual conceito de poder foi adotado por Felipe para contrapor influentes e influencers. Felipe esclareceu que não adotou um conceito teórico estrito de poder, mas observou as mudanças na correlação de forças políticas.
- Marlise Brenol provocou os autores sobre a tensão entre os 12 princípios da comunicação pública (como a impessoalidade e transparência da ABC Pública) e a lógica da plataformização, que opera por governança e algoritmos opacos.
Item 4: Inteligência Artificial Generativa na Agência Câmara de Notícias
- Apresentadora: Georgia Moraes (jornalista da Agência Câmara de Notícias há 20 anos, mestre em Comunicação e Política pela UnB).
- Objeto e Tese: Avaliação do uso experimental de Inteligência Artificial Generativa na cobertura jornalística de audiências públicas da Câmara dos Deputados, verificando os limites editoriais, o cumprimento de diretrizes normativas e a tensão entre produtividade e qualidade democrática.
- Contexto Estrutural da Agência Câmara:
- Dados institucionais (citando livro de Tiago Miranda): 256 mil matérias publicadas até 2023; 86,9% dos jornalistas que cobrem o Congresso utilizam o conteúdo da agência; 91,3% a consideram fonte confiável contra desinformação.
- Estrutura da equipe: Apenas 9 editores e 9 repórteres dedicados para cobrir 30 comissões permanentes, comissões temporárias, grupos de trabalho e sessões de plenário.
- Metodologia do Experimento:
- Corpus: 41 matérias de audiências públicas produzidas com auxílio de IA (inserção do link de transmissão do YouTube para geração de minuta textual) entre outubro de 2025 e maio de 2026.
- Teste cego de auditoria: 13 matérias selecionadas (todas as de alta sensibilidade social — minorias, violência, saúde mental, povos indígenas — e amostras de média e baixa sensibilidade) foram submetidas a pares de avaliadores independentes (jornalistas concursados da Câmara e 4 do Senado, sem editores da agência).
- Referencial metodológico: Protocolo de Haverhill & Martin (que constata que avaliadores penalizam em 3,7 pontos percentuais textos ao saberem previamente que foram gerados por IA).
- Resultados e Achados:
- Das 13 matérias auditadas: 8 foram consideradas totalmente adequadas e 5 parcialmente adequadas (zero inadequadas), demonstrando a eficácia da dupla revisão humana.
- Níveis de intervenção humana: Nas 13 matérias sensíveis, 11 exigiram revisão moderada (correção de nomes, cargos, referências de leis e citações), 2 tiveram revisão mínima e apenas 2 casos sofreram alucinação grave exigindo reescrita total (relatados nos apêndices).
- Efeito de achatamento nos temas sensíveis: A IA tendeu a uniformizar discursos, selecionar citações curtas e desprovidas de carga emocional e reproduzir termos técnicos sem contextualização, reduzindo a potência dos depoimentos de grupos vulneráveis.
- Conclusão: A IA viabiliza a cobertura de pautas que ficariam no "silêncio institucional", mas a revisão humana especializada e uma normatização editorial específica (em fase de elaboração com a ABC Pública) são indispensáveis.
Item 5: A Atividade Parlamentar Medida na Comunicação Pública como Preditores Eleitorais
- Apresentador: Francisco Brandão (jornalista e pesquisador da Câmara dos Deputados).
- Objeto e Tese: Teste empírico para verificar se a cobertura noticiosa da Agência Câmara de Notícias possui sinal informacional e poder preditivo sobre o desempenho eleitoral dos partidos políticos para a Câmara dos Deputados.
- Dados e Modelagem:
- Base de dados: 560 mil notícias indexadas por partido e legislatura publicadas no portal da Câmara desde 2002.
- Variáveis de controle inseridas no modelo preditivo: Co-tail effect (votação do candidato a presidente do partido), taxa de candidatos à reeleição (incumbência), apoio de prefeitos eleitos na eleição municipal anterior e proporção de gastos de campanha declarados.
- Métodos de teste e validação temporal fora da amostra (ciclos de 2006, 2010, 2014 para prever 2018; e de 2006 a 2018 para prever 2022) via regressão linear e modelo de Poisson/Spline.
- Resultados Estatísticos:
- A incumbência (candidatos à reeleição) é o fator preponderante (coeficiente 1,0).
- O volume de notícias no portal da Câmara ficou em segundo lugar em poder explicativo (coeficiente 0,36), superando o apoio presidencial (0,28), gastos de campanha e apoio de prefeitos (este último não significativo).
- Redução do erro: A inclusão da variável de notícias reduziu o erro quadrático (RMSE) em 13% no modelo linear e em 28% no modelo Poisson em relação aos modelos sem notícias.
- Não-linearidade: Partidos com volume crescente de notícias ganham até 15 cadeiras a mais na Câmara na faixa entre 1.500 e 2.000 notícias por ciclo; acima desse patamar, o ganho marginal estabiliza e a incerteza estatística se expande.
- Ressalva fundamental: O autor destacou que correlação estatística e capacidade preditiva não significam causalidade (publicar matérias não gera votos diretamente; as notícias refletem a atividade parlamentar real).
- Projeção preliminar para 2026: O modelo indica tendência de crescimento do Partido Liberal (PL), estabilidade da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) e retração/estagnação de partidos de centro.
Debate do Segundo Bloco
- Carla e Silvia (Comunicação da Câmara) questionaram sobre os riscos da IA descaracterizar textos e defenderam a contratação de pessoal concursado (citando o concurso aberto para 150 vagas) em vez da substituição de etapas pela IA.
- Carol Siqueira (PSD) e Erika (Câmara Municipal do Rio de Janeiro) indagaram sobre como a agência planeja sinalizar o uso de IA para o público e como selecionar quais temas podem receber suporte automatizado.
- Georgia Moraes respondeu que a IA cobriu exclusivamente audiências que não teriam nenhuma cobertura por falta de repórteres, combatendo o "silêncio institucional". Esclareceu que a política interna da Casa exige transparência e que está sendo formatada uma diretriz para identificar o tipo de uso de IA (ex: revisão para linguagem simples). Destacou que o avanço tecnológico e o treinamento dos prompts reduzem o achatamento de contexto.
- Francisco Brandão explicou que utilizou a API do portal da Câmara (englobando notícias da Agência, Rádio e TV) e justificou que os dados da comunicação pública da Câmara cobrem a rotina do mandato e do parlamento com muito mais abrangência e representatividade partidária do que a imprensa comercial ou o volume efêmero de redes sociais.
- Marlise Brenol sugeriu o desdobramento das pesquisas: para Georgia, um modelo comparativo de recepção entre matérias puramente humanas e matérias geradas com IA; para Francisco, a inclusão de índices compostos de visibilidade pública digital além do portal da Câmara.
