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Entrevista Completa: Lula na CNN, com Christiane Amanpour

Lula22 de setembro de 202620minVer no YouTube|

Em entrevista concedida à jornalista Christiane Amanpour na CNN, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, abordou a política externa brasileira, tensões comerciais e institucionais com os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump, o cenário eleitoral brasileiro e a paralisia dos órgãos multilaterais diante dos conflitos globais.

Multilateralismo, Tarifas e Relações Comerciais com os EUA

Lula defendeu a iniciativa Partners for Multilateralism (P4M) — articulada com países como Canadá, Quênia e a União Europeia — como contraponto ao unilateralismo e à superação das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para Lula, a postura do presidente Donald Trump baseia-se na "lei do mais forte" e no poderio econômico, bélico e tecnológico.

  • Impacto das tarifas e redirecionamento comercial: Lula classificou a imposição de tarifas ao Brasil como baseada em premissas falsas, pontuando que o Brasil mantém um déficit comercial de bilhões de dólares com os EUA. Em consequência das sobretaxas norte-americanas, as exportações brasileiras para os EUA caíram 9% e as importações recuaram 8,5% no ano. Em resposta, o Brasil ampliou trocas com outros 57 países, registrando média de crescimento de 10,5%:
    • União Europeia: +23%
    • China: +20%
    • Japão: +18%
    • Alemanha: +16%
    • Vietnã: +14%
  • Lei de reciprocidade: Lula afirmou que o Congresso Nacional aprovou por unanimidade uma lei de reciprocidade comercial. A aplicação de tarifas contra produtos estratégicos norte-americanos está suspensa temporariamente enquanto houver diálogo, após Lula conversar diretamente com Trump cerca de um mês e meio antes da entrevista para reabrir negociações.
  • Soberania nacional: Questionado sobre a aproximação entre Canadá e União Europeia, Lula ressaltou que Trump tem o direito de governar os EUA, mas não de ditar regras a outras nações: "Nós não queremos intromissão, nós queremos parceria".

Eleições no Brasil e Relação Bilateral

Ao ser questionado sobre o crescimento econômico do país em torno de 2% e o empate técnico nas pesquisas de segundo turno contra Flávio Bolsonaro (a 17 dias do pleito), Lula declarou confiança na vitória e definiu a disputa:

  • Enquadramento do pleito: O presidente afirmou que a eleição não se resume a partidos ou nomes, mas a uma escolha entre "a democracia ou a barbárie", preservação ambiental ou desmatamento, e inclusão social ou abandono dos pobres.
  • Segurança eleitoral: Lula defendeu o sistema de votação eletrônica brasileiro, ressaltando que apura os votos de cerca de 160 milhões de eleitores nos 27 estados em cerca de uma hora sem histórico de contestação válida.
  • Interferência externa e figuras da oposição: Lula chamou aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro refugiados nos EUA de "traidores da pátria" por articularem sanções contra o Brasil. Destacou a relação diplomática de 203 anos entre Brasil e EUA e afirmou ter advertido Trump a não intervir no pleito brasileiro. Mencionou preocupação preliminar com indícios de desinformação via inteligência artificial e a proximidade do senador norte-americano Marco Rubio com o bolsonarismo.
  • Segurança pública internacional: Lula relatou ter entregue a Trump quatro documentos na última visita oficial, incluindo uma proposta de cooperação internacional conjunta para o combate ao narcotráfico, ao crime organizado e ao tráfico de armas, a qual permanece sem resposta formal de Washington.

Venezuela, Oriente Médio e Conflitos Globais

Lula criticou a tutela direta exercida pelos Estados Unidos sobre a administração venezuelana e as declarações de figuras como Marco Rubio a respeito do controle das receitas do petróleo venezuelano.

  • Transição na Venezuela: Lula defendeu que Delcy Rodríguez convoque eleições imediatas para devolver a legitimidade e a soberania ao povo venezuelano. Argumentou que eventuais crimes atribuídos a Nicolás Maduro devem ser apurados e julgados legalmente, criticando intervenções sem respaldo comprobatório.
  • Precedentes históricos e acordos nucleares: Comparou as justificativas intervencionistas atuais às falsas alegações de armas químicas na invasão ao Iraque de Saddam Hussein. Relembrou as negociações de 2010 conduzidas por ele e pelo presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, junto a Mahmoud Ahmadinejad sobre o programa nuclear do Irã, as quais foram descartadas pelas potências ocidentais.
  • Impacto econômico e contenção inflacionária: Lula criticou a eclosão do conflito no Irã e a instabilidade no Estreito de Ormuz, que elevaram globalmente os custos de combustível, fertilizantes e alimentos. Para blindar a cesta básica e o preço do feijão no Brasil, informou ter instituído um imposto sobre o excedente de petróleo cru exportado.

Crise de Governança Global e a ONU

Lula expressou forte indignação com o esvaziamento das instituições multilaterais no cenário internacional pós-Segunda Guerra Mundial:

  • Inoperância do Conselho de Segurança da ONU: Lula criticou a omissão dos cinco membros permanentes com poder de veto (Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido). Citou a falta de reuniões diretas entre os chefes de Estado para resolver a Guerra na Ucrânia (já no 5º ano) e a crise na Faixa de Gaza, onde apontou a ocorrência de genocídio com mais de 70 mil mulheres e crianças mortas.
  • Contradição orçamentária: Apontou que as grandes potências investem trilhões de dólares em armas e fomento a guerras em vez de direcionar recursos para a erradicação da fome, da pobreza, do analfabetismo e de doenças curáveis.
  • Reforma institucional da ONU: Criticou o processo eleitoral do Secretário-Geral da ONU, onde a vontade de mais de 190 países fica subordinada ao poder de veto de apenas cinco nações.
  • Negacionismo climático: Lula condenou o descarte da pauta ambiental em fóruns como G7 e G20 por líderes que não acreditam na crise climática, associando essa postura ao negacionismo da oposição no Brasil e reafirmando que o papel do Estado é cuidar do povo e rejeitar políticas bélicas e predatórias.