Eclipse's Lior Susan on $12.5B AUM and the Bet on Physical Industries
Lior Susan é fundador e CEO da Eclipse, gestora de venture capital fundada em 2015 com foco exclusivo em indústrias físicas (semicondutores, manufatura, energia, defesa, espaço e robótica). A firma administra aproximadamente US$ 12,5 bilhões em ativos sob gestão (AUM) e levantou US$ 1,3 bilhão em seus veículos mais recentes (Fund VI e Early Growth III). Susan define a Eclipse não como venture capital tradicional, mas como "operadores com capital" (operators with capital).
Origem da Eclipse e a parceria com Pierre Lamond
- Fundação e perfil dos fundadores: No início de 2015, aos 31 anos e recém-saído da Flextronics (Flex), Lior Susan procurava criar um veículo para investir e construir empresas no mundo físico. Ele foi apresentado a Pierre Lamond, então com 85 anos, veterano que trabalhou na Fairchild Semiconductor com Gordon Moore, cofundou a National Semiconductor e atuou por cerca de três décadas como general partner na Sequoia Capital (onde ingressou após seu então VP de vendas na National, Don Valentine, fundar a gestora).
- Dinâmica inicial: Após uma conversa inicial de dez minutos, Lamond propôs fundar a firma em conjunto. Lamond trabalhou sete anos em tempo integral no escritório da Eclipse e continua, aos 96 anos, como mentor da equipe.
- Cultura operacional e disciplina: Lamond introduziu governança institucional rigorosa (gestão de conselhos, relatórios trimestrais estruturados) e resgatou a abordagem dos primórdios do Vale do Silício, baseada em poucos negócios concentrados, relacionamento próximo e experiência real de chão de fábrica. Susan compara a disciplina do mundo físico à sua própria vivência nas Forças Especiais de Israel: na manufatura, falhas operacionais comprometem o rendimento (yield) imediatamente, inviabilizando a lógica de "fake it till you make it".
Tese de investimento: o mundo físico contra a bolha de SaaS
- Tamanho de mercado (TAM): Cerca de 85% do PIB mundial (aproximadamente US$ 100 trilhões) está no mundo físico. Enquanto o setor de software corporativo disputava nichos relativamente pequenos — todo o mercado de software ágil soma menos de US$ 20 bilhões e o de CRM cerca de US$ 30 bilhões —, indústrias físicas operam em escalas trilionárias (como o setor de manufatura metálica, estimado em US$ 3 trilhões, onde a investida VulcanForms atua).
- Economia real vs. truques contábeis de SaaS: Lior Susan refuta a fixação do mercado em margens brutas nominais de 80% a 85% em software. Segundo ele, muitas empresas de SaaS sustentaram margens brutas artificiais transferindo custos de engenharia e sustentação para despesas de P&D (accounting trick), enquanto queimavam caixa proporcionalmente ao crescimento. No mundo físico, o custo dos produtos vendidos (COGS) é inflexível, e o valor final de uma empresa é ditado pelo fluxo de caixa livre (free cash flow) e pelo lucro por ação (EPS), e não pela margem bruta isolada. Empresas com margens de 40% a 50% (como a Cerebras) ou margens na faixa de dois dígitos baixos/médios (como a Tesla) alcançam múltiplos e retornos superiores aos do SaaS quando resolvem gargalos complexos em mercados massivos.
- Construção de portfólio por convicção: A gestora não segue modelos rígidos de diversificação setorial com cotas pré-estabelecidas (ex.: "uma empresa de defesa, uma de chips"). A alocação ocorre por obsessão operacional nos problemas mapeados.
Modelo de incubação e o caso Mind Robotics
- Métricas de portfólio: Do total de 90 empresas no portfólio da Eclipse, 30 foram incubadas internamente (como Bright Machines, Bedrock Robotics, Maitra e Peak Energy).
- Spin-out da Rivian (Mind Robotics): Após três anos de discussões entre Lior Susan e RJ Scaringe (CEO da Rivian) sobre robótica de uso geral na manufatura com alta destreza e mobilidade (sem formato humanoide), a Eclipse estruturou o spin-out da equipe interna de robótica da Rivian para criar a Mind Robotics. Os argumentos de Susan para convencer a montadora envolveram: capacidade de atrair talentos que não iriam para uma montadora tradicional, captação de capital externo fora do balanço da Rivian e posicionamento neutro ("Suíça") para vender sistemas a múltiplos clientes do setor.
O modelo da China e a desglobalização
- As cinco forças chinesas: Susan passou um ano na China e observou a criação de uma economia industrial física de cerca de US$ 20 trilhões baseada no alinhamento de cinco forças: talento, política pública, capital, tecnologia e demanda de clientes.
- Vulnerabilidade ocidental e reindustrialização: A tese inicial da Eclipse previa a transição de um mundo globalizado para a desglobalização, no qual nações não poderiam depender de terceiros para energia, defesa e manufatura básica. Esse movimento, acelerado pela pandemia de COVID-19, impulsionou a necessidade de onshoring no Ocidente.
- Impacto econômico regional: Instalações de infraestrutura física e data centers geram economias circulares em estados americanos fora dos centros tecnológicos tradicionais (como Nebraska), demandando energia, construção civil, habitação, alimentação e serviços locais.
Estrutura do portfólio, infraestrutura de IA e a "Eclipse Economy"
- Cerebras: Investimento de Série A liderado pela Eclipse em 2016, que gerou um retorno de aproximadamente US$ 2,5 bilhões no IPO a US$ 185 por ação, com base em cerca de US$ 147 milhões investidos ao longo dos ciclos.
- Escalada de valor ("Second Act" e "Third Act"): Companhias do mundo físico expandem sua fatia de mercado (wallet share) verticalizando a oferta:
- Cerebras: Ato 1 = chip; Ato 2 = sistema integrado; Ato 3 = data centers proprietários operando a infraestrutura.
- Redwood Materials: Ato 1 = reciclagem de baterias; Ato 2 = reconstrução e fornecimento de sistemas de armazenamento de energia em larga escala para data centers (com a chegada de Deepak Ahuja, ex-CFO da Tesla, ao cargo de CFO).
- SpaceX: Ato 1 = lançamentos de foguetes; Ato 2 = Starlink.
- True Anomaly: Ato 1 = consciência situacional de defesa espacial; Ato 2 = programas integrados verticalmente (Golden Dome).
- Retorno do On-Premise e Soberania de IA (Oxide): A investida Oxide desenvolve racks de servidores locais (CPU) com experiência operacional similar à nuvem. A tese baseia-se no fato de que setores regulados e aplicações de alta demanda por segurança, baixa latência e custo não migrarão integralmente para nuvens públicas centralizadas.
- Integração vertical da Eclipse Economy: A Eclipse conecta suas investidas em cadeia: chips (Cerebras) → servidores e racks locais (Oxide) → montagem e automação (Bright Machines) → fontes de energia (nuclear, sódio-íon com Peak Energy, lítio-íon/reciclagem com Redwood, e turbinas a gás de resposta rápida) → aplicações de robótica e IA física (Bedrock, Maitra, Mind). No último ano, as empresas do portfólio fecharam entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões em acordos comerciais, com contratos bilaterais de múltiplos bilhões, permitindo que cada dólar captado ou contratado por uma empresa do ecossistema alimente três ou quatro outras do portfólio.
Atuação de bastidor e trajetória pessoal
- Operação no campo: Lior Susan relatou episódios de atuação direta em crises, como uma viagem de emergência ao Meio-Oeste americano durante 72 horas ininterruptas para conter o vazamento do sistema de resfriamento líquido que inundou um data center em construção, coordenando equipes de HVAC, impermeabilização e secagem técnica de concreto para evitar que a umidade atingisse os componentes eletrônicos.
- Origem em fazenda de bananas: Susan cresceu em um kibutz em Israel e trabalhou aos 16 anos, por dois anos, colhendo cachos de banana de 60 libras (cerca de 27 kg) e soldando guindastes de metal sob calor extremo no verão, experiência que cita como a base de sua disciplina e vocação para a construção de sistemas físicos.
- Inspirações: Além de Pierre Lamond, Susan destacou Sam Altman e o avanço de laboratórios de IA (como OpenAI e Anthropic) como catalisadores fundamentais para acelerar o desenvolvimento e a escala de novas empresas no setor produtivo.
