Desafios da integridade da informação em tempos de polarização - 17/09/2026
Mesa-redonda realizada em 17 de setembro de 2026 no Auditório Nereu Ramos da Câmara dos Deputados, durante evento promovido em parceria com a Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABC Pública). O encontro teve caráter de debate temático e acadêmico-institucional, sem votação de matérias legislativas ou deliberação de proposições. A mediação foi de Sara Reis (Senado Federal / Senado Verifica), com exposições de Guilherme Canela (Unesco, por videoconferência), Liziane Guazina (Universidade de Brasília / Compolítica) e Tatiana Farah (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo – Abraji).
Painel Único: Desafios da Integridade da Informação em Tempos de Polarização
Diagnóstico do Ecossistema Informacional e os "Quatro Vs"
- Guilherme Canela (Unesco) sustentou que o tratamento da desinformação não deve focar no controle de conteúdo, mas na governança dos processos técnicos e econômicos das plataformas, sempre ancorada na legislação internacional de direitos humanos, em especial o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Definiu a informação como um bem público sustentado por três pilares: qualificação da demanda (capacitação crítica dos cidadãos), qualificação da oferta (fortalecimento de jornalistas, cientistas, artistas e educadores) e regulação dos sistemas de transmissão e amplificação (big techs e modelos de IA).
- Canela detalhou os quatro vetores inéditos da desinformação contemporânea (os "Quatro Vs"):
- Volume: quantidade massiva sem precedentes históricos.
- Viralidade: capacidade irrestrita de espraiamento.
- Velocidade: transmissão instantânea (contrastando os 13 dias que a notícia da morte de Abraham Lincoln levou para chegar à Europa com os 13 milissegundos atuais).
- Verossimilhança: sofisticação técnica que faz conteúdos forjados parecerem autênticos, eliminando as bases fáticas comuns do diálogo público.
- Plataformização e algoritmos: Sara Reis destacou estudo jurídico da Meta que revela que os usuários dedicam apenas 17% do tempo no Facebook e 7% no Instagram a publicações de amigos e familiares, consumindo predominantemente recomendações algorítmicas opacas voltadas à retenção por engajamento emocional.
Jornalismo, Violência contra Comunicadores e Plataformas
- Tatiana Farah (Abraji / UOL) citou dados do Instituto Reuters/Universidade de Oxford indicando que 53% dos brasileiros utilizam redes sociais e vídeos como fonte primária de notícias, enquanto 47% evitam ativamente o noticiário tradicional. Apontou que a busca por viés de confirmação e a monetização do ódio esvaziam o alcance de apurações qualificadas.
- Ataques a profissionais de imprensa: Farah informou que a Coalizão de Defesa do Jornalismo registrou 2.630 ataques online contra jornalistas apenas nos primeiros 15 dias de campanha eleitoral de 2026. Relatou o caso de um veículo de comunicação no estado do Pará que suspendeu integralmente a cobertura eleitoral devido a ameaças de morte contra seus repórteres, além de destacar a proliferação de assédio judicial persecutório contra redações.
- Estratégias editoriais e checagem: Defendeu que o jornalismo não ceda a manchetes com clickbait ou ragebait (eleita a palavra do ano de 2025 pelo Dicionário Oxford). Citou iniciativas como o Projeto Comprova (consórcio de mais de 40 veículos) e o programa de capacitação "Reporta Mais", voltado à cobertura técnica de Tribunais de Contas.
- Influenciadores digitais: Diante de dados apontando o Brasil como o segundo país em número de influenciadores e líder na América Latina em consumo de informações por essa via, Farah mencionou investigações recentes (como o caso Banco Master) sobre a contratação de influenciadores para desacreditar órgãos reguladores como o Banco Central.
Populismo Digital, Polarização Afetiva e Infraestrutura das Redes
- Liziane Guazina (UnB / Compolítica) explicou que a plataformização atua como infraestrutura econômica que privatiza o espaço público digital e monetiza o engajamento reativo (citando formulações teóricas de Poell, Nieborg, van Dijck, Raquel Recuero e Afonso de Albuquerque). Essa lógica alimenta a "outrização" — a conversão do adversário político em inimigo existencial a ser destruído.
- Populismo no século XXI: Guazina associou o populismo digital à exploração deliberada de antagonismos binários ("nós contra eles") acoplados à arquitetura das plataformas. Argumentou que a polarização afetiva se sobrepõe ao debate fático ao mobilizar identidades e sentimentos de pertencimento, demandando transição do conceito reativo de combate à desinformação para a agenda positiva de promoção da integridade da informação.
Inteligência Artificial, Desigualdades e Governança
- Assimetrias globais e linguísticas: A pesquisa TIC Domicílios apontou que 32% dos usuários de internet no Brasil utilizam ferramentas de IA, com forte concentração nas classes mais altas e de maior escolaridade. Guilherme Canela alertou para a exclusão estrutural provocada pelos grandes modelos de linguagem (LLMs): das cerca de 8.400 línguas vivas no planeta catalogadas pela Unesco, menos de 100 possuem treinamento sólido em IA, apenas 10 têm treinamento avançado e somente 1 ou 2 contam com desenvolvimento altamente complexo.
- Marco internacional: Canela frisou que a expressão "integridade da informação" foi chancelada formalmente na legislação internacional pela primeira vez em 2024, no documento Pacto para o Futuro (Pact for the Future), aprovado por consenso pelos 193 Estados-membros da ONU. Apresentou também experimento em que agentes de IA convenceram diferentes públicos sobre a falsidade de conteúdos enganosos operando a partir da própria gramática ideológica de cada grupo (seja de direita, de esquerda ou religioso).
Papel das Instituições Públicas e Propostas Estruturais
- Comunicação pública e transparência: Sara Reis apresentou a atuação do Senado Verifica (criado em 2020) e do Comprove (Câmara dos Deputados). Tatiana Farah defendeu a inteligibilidade ativa da Lei de Acesso à Informação (LAI) — por meio de projetos como "LAI nos Municípios" — e criticou o impacto da suspensão de serviços noticiosos públicos em períodos eleitorais, citando restrições enfrentadas pela Agência Brasil/EBC.
- Recomendações dos painelistas:
- Multissetorialismo e corregulação: Implementação de órgãos reguladores e judiciários independentes, avaliações prévias de risco algorítmico pelas big techs e modelos híbridos de regulação.
- Educação midiática e IA (Literacy): Inclusão de políticas permanentes de alfabetização midiática e de inteligência artificial de forma transversal e contínua.
- Formação acadêmica: Liziane Guazina defendeu a criação de mestrados profissionais e especializações institucionais dedicados especificamente à integridade informacional.
- Exemplaridade estatal: Cobrança para que órgãos públicos mantenham estrita impessoalidade, transparência e rigor fático, evitando figurar como emissores de desinformação.
Informes Institucionais da ABC Pública
- Ao final da sessão, a organização informou que a associação contava com mais de 500 inscritos no congresso e destacou a emissão de orientações técnicas da entidade, incluindo a Recomendação nº 1/2024 (sobre inteligência artificial na comunicação pública) e três recomendações publicadas em 2026, além de atuação institucional junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as resoluções de defeso eleitoral em plataformas digitais.
