Desafios da integridade da informação em tempos de polarização - 17/09/2026
Mesa-redonda realizada no Auditório Nereu Ramos da Câmara dos Deputados em 17 de setembro de 2026, no âmbito das atividades da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABC Pública). Por se tratar de um painel temático e de debate público sobre comunicação e democracia, o evento não teve caráter deliberativo ou legislativo, não havendo votação de proposições, pareceres ou decisões regimentais.
Abertura e Contexto: Conceituação da Integridade da Informação
A mediadora Sara Reis (Senado Verifica / Senado Federal) abriu a sessão ressaltando a crescente complexidade do ecossistema informacional, no qual entretenimento, opinião, notícia e desinformação se misturam nas redes sociais. Destacou o conceito de disinformation by design (formulado por pesquisadoras como Joan Donovan), que descreve como a arquitetura das plataformas digitais foi desenhada para facilitar a propagação de conteúdos manipulados e gerar confusão intencional, descredibilizando fontes confiáveis.
Diagnóstico da UNESCO e a Informação como Bem Público
Guilherme Canela (diretor da Divisão para Inclusão e Transformação Digital da UNESCO e secretário do programa Informação para Todos) pontuou que o ecossistema digital oferece simultaneamente riscos e oportunidades para a proteção dos direitos humanos e a democracia. A meta das políticas regulatórias não é eliminar riscos de forma maniqueísta, mas mitigá-los e permitir a devida responsabilização e reparação de danos concretos (a exemplo de crimes consensuais internacionalmente, como a pedofilia online).
Canela destacou que qualquer modelo de governança deve estar ancorado no Direito Internacional dos Direitos Humanos, em especial no Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ao conceber a informação como bem público, ele estruturou a governança em três pilares fundamentais:
- Qualificação da demanda: empoderamento da cidadania por meio de alfabetização crítica para exigir informação verificada;
- Qualificação da oferta: fortalecimento e proteção a jornalistas, cientistas, professores e produtores de conhecimento de qualidade;
- Regulação dos canais de transmissão e amplificação: estabelecimento de regras de transparência e governança para big techs e plataformas de inteligência artificial.
Segundo Canela, o ódio e a mentira sempre existiram na história humana, não sendo novidades de conteúdo. O que mudou e exige regulação de processos (e não de conteúdo) são os "4 Vs":
- Volume: dimensão quantitativa de dados sem precedentes históricos;
- Viralidade: capacidade de espraiamento instantâneo em escala global;
- Velocidade: disseminação em milissegundos (em contraste com os 13 dias que a notícia da morte de Abraham Lincoln levou para alcançar a Europa);
- Verossimilhança: sofisticação técnica que faz materiais falsificados parecerem absolutamente reais, dificultando o consenso básico sobre a realidade fática.
Sobre regulação, Canela comparou o sistema a um "castelo de cartas" complexo: intervenções mal calculadas podem gerar censura ou instabilidade. As diretrizes da UNESCO para governança de plataformas digitais exigem transparência algorítmica e regulatória, sistema de freios e contrapesos com judiciário independente, arranjo multissetorial (governo, empresas, academia e sociedade civil), proteção à diversidade cultural/linguística, avaliações de impacto e risco desde o design de novos produtos (risk assessment), e modelos híbridos de corregulação.
Desafios do Jornalismo, Violência contra Repórteres e Plataformização
Crise de Consumo de Notícias e Ataques a Jornalistas
Sara Reis apresentou dados do Instituto Reuters/Universidade de Oxford indicando que 53% dos brasileiros utilizam redes sociais e plataformas de vídeo para se informar, enquanto 47% evitam ativamente o consumo de noticiários.
Tatiana Farah (colunista do UOL e gerente de comunicação da Abraji) destacou o crescimento do viés de confirmação e a hostilidade contra o mensageiro da informação:
- Criada em 2002 após o assassinato do jornalista Tim Lopes, a Abraji e organizações parceiras instituíram a Coalizão de Defesa do Jornalismo. No monitoramento das eleições em curso, registraram 2.630 ataques online contra jornalistas apenas nos primeiros 15 dias de campanha.
- O ambiente de agressão digital transborda para o mundo físico por meio de ameaças de morte, agressões e assédio judicial persecutório. Citou o caso recente de um veículo de imprensa no Pará que suspendeu suas atividades e a cobertura eleitoral devido a graves ameaças contra a vida de seus repórteres.
- A resposta das redações passa pela apuração rigorosa, iniciativas colaborativas de checagem (como o Projeto Comprova, liderado pela Abraji com mais de 40 veículos) e capacitação técnica — exemplificada pelo curso Reporta Mais, voltado a traduzir relatórios e dados complexos dos Tribunais de Contas para a linguagem cidadã.
Infraestrutura Algorítmica e a Economia da Atenção
Liziane Guazina (professora e coordenadora do PPGCom da Universidade de Brasília - UnB; líder dos grupos Observatório do Populismo do Século XXI e Cultura, Mídia e Política) explicou que a sociedade passa pelo fenômeno da plataformização. Citando autores como Thomas Poell, David Nieborg e José van Dijck, destacou que as plataformas não são canais neutros, mas infraestruturas digitais orientadas por lógicas econômicas de monetização baseadas em retenção e engajamento.
Guazina ressaltou, com base em trabalhos de Raquel Recuero e Afonso de Albuquerque sobre a privatização do espaço público:
- As arquiteturas das plataformas favorecem conteúdos carregados de emoção, gerando uma permanente competição por visibilidade.
- A desinformação não pode ser tratada apenas como conteúdo isolado, mas como um processo sistêmico, estruturante e transnacional que afeta as condições de validação do conhecimento coletivo.
- Diferenciou o conflito legítimo (essencial à democracia pluralista) do processo de "outrização", no qual o divergente é desqualificado moralmente e transformado em inimigo existencial a ser destruído.
Algoritmos, Polarização Afetiva e Inteligência Artificial
Da Esfera Pública Compartilhada às Câmaras de Eco
Sara Reis mencionou documentos judiciais divulgados pela Meta demonstrando que apenas 17% do tempo dos usuários no Facebook e 7% no Instagram são dedicados a publicações de amigos diretos; todo o restante é conteúdo sugerido por sistemas de recomendação.
Guilherme Canela explicou que, historicamente, a esfera pública sempre teve gatekeepers (jornalistas, editores, sindicatos, partidos), mas havia um espaço compartilhado de debate. Hoje, os algoritmos operam sob a lógica da economia da atenção, confinando os indivíduos em câmaras de eco que apenas reforçam preconceitos existentes. Canela alertou que as ferramentas de Inteligência Artificial generativa aprofundam essa fragmentação ao fornecerem respostas prontas e unificadas, substituindo a busca e o contraste de fontes plurais e concentrando o poder comunicacional em pouquíssimos agentes tecnológicos globais.
Clickbait, Ragebait e o Populismo do Século XXI
Em resposta à pergunta de Elisa Diniz (Banco Mundial) sobre títulos sensacionalistas, Tatiana Farah e Sara Reis debateram o conceito de clickbait e ragebait (isca de raiva):
- Farah argumentou que o bom jornalismo e a comunicação pública não podem se render à lógica das manchetes interrogativas ou indutoras de ódio apenas para obter tráfego, sob pena de perder a credibilidade institucional definitiva.
Respondendo a William Monteiro (Assembleia Legislativa de Mato Grosso), Liziane Guazina detalhou a conexão entre a desinformação e o populismo digital:
- Estratégias populistas exploram as affordances (propriedades estruturais) das plataformas digitais para consolidar a retórica do "nós contra eles".
- A exploração do filtro emocional consolida a chamada polarização afetiva, na qual o pertencimento a determinada identidade de grupo e a rejeição ao grupo adversário se sobrepõem à avaliação racional e baseada em evidências fáticas.
Riscos e Desigualdades na Adoção de Inteligência Artificial
Guilherme Canela abordou dados da pesquisa TIC Domicílios, que apontou que 32% dos usuários de internet no Brasil utilizam ferramentas de IA, com uso fortemente concentrado nas classes de maior renda (Classe A) e com ensino superior:
- A IA gera impactos transversais na saúde, trabalho, educação e justiça. O Estado deve adotar cautela em licitações públicas para evitar aprofundar desigualdades sociotécnicas.
- Canela trouxe dados sobre o multilinguismo: a UNESCO estima que existem cerca de 8.400 línguas ativas no planeta. No entanto, os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) são treinados com robustez em menos de 100 línguas, e apenas 10 possuem cobertura técnica realmente avançada (com 1 ou 2 dominando os sistemas mais complexos), excluindo visões de mundo de comunidades não representadas nos dados de treino.
Estratégias de Enfrentamento e o Papel da Comunicação Pública
Influenciadores e a Disputa pela Narrativa
Questionada por Stephanie de Oliveira (pós-graduanda de Porto Alegre) sobre o fato de o Brasil ser o segundo país do mundo em número de influenciadores digitais e o líder na América Latina em uso dessas figuras como fontes de informação:
- Tatiana Farah recomendou que órgãos públicos desenvolvam seus próprios porta-vozes qualificados e adotem linguagens acessíveis, alertando para casos em que influenciadores são remunerados clandestinamente para descredibilizar instituições (como investigações envolvendo o Banco Central e instituições financeiras privadas).
Prebunking, Educação Midiática e Repactuação Democrática
Em resposta a Michel Carvalho (diretor da ABC Pública, Cubatão/SP), a mesa discutiu a transição do simples combate fático para a promoção positiva da integridade da informação:
- Guilherme Canela ressaltou que a inclusão formal do termo "integridade da informação" na governança global se consolidou internacionalmente no documento Pacto para o Futuro (2024), aprovado pelos 193 Estados-membros da ONU.
- Apenas checar fatos (debunking) após a viralização foi comparado a "tentar esvaziar o Titanic com um copo d'água". É imprescindível investir em prebunking (vacinação cognitiva prévia contra técnicas de manipulação), educação midiática (media literacy) e alfabetização em inteligência artificial (AI literacy).
- Canela citou experimentos empíricos nos quais sistemas de IA foram programados com sucesso para explicar desinformações climáticas ou de saúde adaptando a linguagem e os valores ideológicos de cada grupo específico, sem confrontação destrutiva.
- Liziane Guazina e Tatiana Farah defenderam a formação de especialistas em integridade da informação por meio de mestrados profissionais e especializações, além de financiamento contínuo em pesquisa acadêmica.
Diretrizes Finais para Órgãos Públicos
- Liderança pelo exemplo: As instituições públicas precisam zelar pelo rigor e pela impessoalidade, garantindo que suas próprias estruturas não disseminem materiais enganosos;
- Transparência ativa e inteligível: Farah lembrou que a transparência da Lei de Acesso à Informação (LAI) e dados públicos precisa ser facilmente compreensível para o cidadão comum, citando a iniciativa LAI nos Municípios da Abraji;
- Sustentabilidade institucional: Guazina enfatizou que ações de integridade e educação midiática devem ser políticas de Estado permanentes, dotadas de orçamento estruturado, e não campanhas transitórias.
Sara Reis encerrou o debate destacando o papel de iniciativas oficiais do Poder Legislativo, como o Senado Verifica (criado em 2020) e o Comprove da Câmara dos Deputados.
Encerramento e Informes da ABC Pública
Ao final da sessão matutina, a organização da ABC Pública apresentou informes institucionais aos congressistas:
- A associação alcançou a marca de mais de 500 associados no congresso;
- Foram destacadas ações regulatórias e institucionais da entidade, incluindo a participação em debates no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as regras de comunicação pública e suspensão de redes sociais em períodos eleitorais;
- Menção à edição da Recomendação nº 01/2024 sobre Inteligência Artificial e a preparação de outras três recomendações no ano de 2026;
- Divulgação da biblioteca virtual temática e orientação para o início das atividades dos Grupos de Trabalho (GTs) no período da tarde, destacando a atualização do nome do GT 5 para "Experiência Digital".
