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Conheça o novo economista-chefe do Itaú, Diogo Guillen

Itaú Views31 de agosto de 202630minVer no YouTube|

Diogo Guillen, economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor de Política Econômica do Banco Central do Brasil (2022–2025), analisa o cenário macroeconômico brasileiro e internacional em entrevista a Marcelle Gutierrez, da equipe de Research do Itaú BBA. Além das projeções do banco para juros, inflação, câmbio e atividade, Guillen detalha o funcionamento interno do Copom, os efeitos da autonomia do BC e suas pesquisas acadêmicas sobre geoeconomia e educação financeira.

Cenário Macroeconômico Brasileiro e Taxa Selic

Guillen classifica o momento atual por uma confluência de incertezas externas (geopolítica, guerras, atividade nos EUA e na China) e domésticas (trajetória do crescimento, inflação e fiscal). A manutenção da taxa Selic em patamar elevado se divide em duas dimensões:

  • Fatores estruturais: Discussão histórica sobre o nível neutro de juros no Brasil, abrangendo peso do crédito direcionado, subsídios governamentais e histórico fiscal.
  • Fatores conjunturais:
    • Desancoragem das expectativas de inflação apuradas pelo Banco Central para 2027, 2028 e 2029, que subiram nos últimos meses e continuam acima da meta contínua de 3,0%.
    • Inflação corrente rodando acima do centro da meta.
    • Câmbio depreciado em resposta ao cenário global e riscos geopolíticos.
    • Incertezas fiscais derivadas do nível elevado de estímulos ao longo do ano (gastos primários e expansão de crédito) e indefinição sobre o quadro fiscal nos próximos quatro anos.

Dinâmica do Copom e projeção de juros

  • Projeção: A equipe macro do Itaú projeta a Selic em 13,75% ao final de 2026, prevendo um corte na reunião de 16 de setembro.
  • Postura do Banco Central: A autoridade monetária adota uma abordagem de "calibração", mantendo a política em território contracionista sem fornecer forward guidance rígido. O processo de decisão analisa a convergência da inflação no horizonte relevante de 18 meses e a ancoragem das expectativas, decidindo reunião a reunião (a cada 45 dias) e mantendo as portas abertas no comunicado e na ata.

Projeções de Inflação e Riscos

O comportamento da inflação é dividido em duas fases no ano: o primeiro semestre registrou forte pressão de petróleo, câmbio e alta disseminada nos núcleos; o segundo semestre tende a arrefecer, aproximando o índice do teto da banda de tolerância (1,5% a 4,5%).

  • Projeções do Itaú: IPCA em 5,1% para o ano corrente e 4,4% para o ano seguinte.
  • Riscos de alta:
    • Fenômeno El Niño: Impacto concentrado em alimentos in natura no quarto trimestre e no início do ano subsequente. A incerteza reside na distribuição das chuvas e na extensão de eventuais quebras nas safras de milho e soja.
    • Fim da escala de trabalho 6x1: Caso uma reforma dessa natureza avance, o impacto em custos salariais, informalidade e repasse para preços finais ainda é incerto.
  • Riscos de baixa / Fator atenuante: Desaceleração de bens industriais e projeção do petróleo a US$ 80 o barril no fechamento do ano, o que abriria espaço para redução nos preços da gasolina.

Cenário Internacional, Petróleo e Câmbio

  • Tensões geopolíticas e derivados: As tensões envolvendo o Irã tornaram-se o principal direcionador de curto prazo para juros longos, moedas e bolsas globais. Paralelamente, ataques a refinarias na Rússia e o conflito com a Ucrânia geram gargalos logísticos que mantêm os preços de derivados (como gasolina) elevados, mesmo quando o barril oscila.
  • Decomposição do Câmbio (Modelo Itaú):
    • Forças de apreciação do Real: Preços de commodities/petróleo e o diferencial elevado de juros (carry trade) entre Brasil e Estados Unidos.
    • Força de depreciação (componente idiossincrático): Risco fiscal doméstico e dinâmica da dívida pública.
  • Projeções de Câmbio: Dólar a R$ 5,30 no final do ano corrente e R$ 5,50 no final do ano seguinte.
  • Recompra de títulos pelo Tesouro dos EUA (Operation Twist): Guillen demonstra ceticismo quanto à capacidade dessa medida em alterar permanentemente as taxas de juros longas americanas, que dependem de fundamentos como demografia, trajetória da dívida e produtividade advinda de inteligência artificial. O efeito primário provável de uma intervenção continuada seria apenas o enfraquecimento global do dólar.

Bastidores do Banco Central e Dinâmica do Copom

Diogo Guillen detalha sua experiência na diretoria de Política Econômica (2022–2025):

  • Contexto e choques: Período marcado pelo fim das restrições da pandemia, expansão fiscal e alta global de inflação. O BC brasileiro identificou precocemente que a inflação continha forte componente de demanda (e não apenas choques pontuais de oferta e logística), antecipando o aperto monetário em relação aos bancos centrais desenvolvidos.
  • Institucionalidade: Guillen fez parte dos primeiros mandatos sob a lei de autonomia do Banco Central, passando pelas sabatinas no Senado e vivenciando duas transições de poder: a presidencial (Bolsonaro para Lula) e a do próprio Banco Central (Roberto Campos Neto para Gabriel Galípolo).
  • Rotina das reuniões do Copom (2 dias):
    • Terça-feira: Apresentações das equipes técnicas sobre sistema bancário, conjuntura internacional, mercados e projeções domésticas, reunindo cerca de 30 pessoas.
    • Quarta-feira à tarde: Deliberação restrita exclusivamente aos diretores e ao presidente para definir a taxa Selic e redigir o comunicado, em sala isolada com bloqueadores de sinal de celular.

Academia, Inteligência Artificial, Geoeconomia e Chile

  • Trajetória acadêmica: Graduação e mestrado na PUC-Rio, doutorado em Economia na Universidade de Princeton, passagens como professor na PUC-Rio e no Insper, e período recente como pesquisador visitante na Universidade de Stanford.
  • Uso de IA na pesquisa econômica: Guillen aponta transformações no processo de revisão de literatura, formulação de modelos teóricos e testes empíricos de hipóteses com o suporte de ferramentas de inteligência artificial.
  • Geoeconomia (Geoeconomics): Campo de intersecção entre ciência política e teoria econômica para mensurar o impacto de tarifas, realocação de cadeias de suprimentos e guerras sobre decisões de investimento e bancos centrais — tema impulsionado pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
  • Educação financeira e transmissão monetária: Pesquisa desenvolvida em Stanford avalia como o nível de conhecimento financeiro da população afeta a potência da política monetária. Populações menos educadas financeiramente reagem com menor sensibilidade às variações nos juros sobre decisões de consumo e poupança.
  • Cenário Econômico do Chile:
    • A atividade chilena decepcionou recentemente, com desaceleração de consumo e investimentos, levando o crescimento a convergir para cerca de 1% no ano corrente (após projeções próximas de 3%).
    • A expectativa para o próximo ano é de recuperação para próximo de 3%, impulsionada pela aprovação de reformas pró-negócios destinadas a destravar investimentos.